23 setembro, 2008

-que recomecem.
-o quê?
-as nossas vidas.
-quando pararam?
-quando me despiste.
-tu sempre estiveste nua.
-mas agora quero apanhar a roupa que deixei espalhada pelo quarto. vamos parar este espectáculo de suor e lágrimas em que nos enclausurámos este tempo todo...e quanto tempo foi! tenho saudades das ruas daquela cidade que nos abrigavam entre risos e abraços. vamos apanhar outro combóio, está tudo visto nesta estação!
-então e os bilhetes? eram até ao fim da viagem...
-deixemo-la a meio, para onde queres ir doçura?
-estás a ver esta linha recta? ouvi dizer que lá ao fundo, por detrás daquela chaminé, tem umas quantas curvas.
-vamos até lá então, depois logo se verá.

17 setembro, 2008

louca, desgrenhada - preciso de um chá e de um beijo, preciso de descansar.
vem descalçar-me os sapatos e tirar-me a maquilhagem.
despe-me a roupa pesada, veste-me a alma com seda.
enche a banheira com água e sais, mima-me com uvas na boca enquanto, deitada na espuma de olhos fechados, juro não pensar em nada.
quero sentir que me amas acima de um orgasmo. quero que esqueças a língua e me beijes os lábios.
só não quero este cansaço. esta angústia que padece a cada fonema que atiro para os ouvidos do que afinal é só um telefone. já dispensamos despedidas, vivemos nas saudades.
foi a ausência penosa de uns braços que me envolvessem, as noites em claro no escuro de um quarto que não reconhecia, foi a rotina, a impaciência, o vício, os desgostos, os pesadelos, foi tudo que me deixou cansada, irreconhecível ao espelho do meu quarto (re)conhecido. não restou nada da moral, sou uma descomungada aos olhos da igreja, uma lunática aos olhos do mundo.
a teus olhos?- sou o que sempre fui e o que nunca soube ser com ninguém mais.
não sei que fazer com este maldito cansaço! se hei-de enfiá-lo num caixote e enviá-lo por correio azul para a jamaica ou se hei-de continuar assim, a tentar enganar a exaustão com banhos de espuma e chás a escaldar.

15 setembro, 2008

a dormir não me dói.
embala-me enquanto é dia

12 setembro, 2008

hoje dói-me o corpo e estou dorida. só me apetece atirar-me para o sofá e dizer até amanhã ao dia de hoje. menti-me, menti-te, menti-lhe, menti ao nós, ao vós, ao eles, menti nos desejos, nas saudades, nas frases feitas, nas verdades, eu menti. eu minto, eu mentirei. carrasco de mim que transporto, pecado que não suporto! vil fado que semeei!
engano-me a mim, sobretudo a ti, acima de tudo a nós, engano a vida, mais do que devia

09 setembro, 2008

pequenino...

imagino-te a nascer. a ânsia de liberdade a misturar-se com o primeiro oxigénio que inalaste naquele quarto. eras pequenino, do tamanho da minha almofada, mas as tuas mãos, oh as tuas mãos! são enormes, parecem querer embarcar o mundo num só abraço.
de repente os teus olhos abrem-se...tens um brilho ofuscante dentro de ti que até hoje não se apagou.
parabéns david, parabéns!

05 setembro, 2008

?

quem és tu por detrás do teu fantasma?
tu! oh vertigem abominável de prazer masoquista, quem és tu para além de um pronome pessoal que me faz renegar qualquer outro?
onde te meteste tu meu pedaço de sonho desfeito em mil porquês?
deixaste a tua marca a picotado entre as minhas coxas nuas e desapareceste entre os lençóis manchados de sangue e remorsos.
tu que me sussuravas ao ouvido gritos de artista.
tu que me penetraste a alma e o corpo e deixaste como que um rasto de loucura na minha insâne vontade.
tu que me impediste de voltar a abrir a chaga que por alguma razão se fechou.
tu que de entre tantas histórias de encantar lias-me aquela em que o vurmo da maldade impedia o feliz para sempre dos bons corações.
tu, eterno culpado do meu crime, quem és afinal?

31 agosto, 2008

não quero perder o mundo por nada (deste mundo).

curando a ressaca d'arte & chá dos últimos dias.

18 agosto, 2008

a tua escrava.

não, nunca saberás destas minhas nuances de escárnio e carência.
jamais passará por esse teu conjunto bem articulado de aurículas e ventrículos que por dentrás dos meus seios que te congelam o sexo se encontra um coração.
um coração igual ao de todas as outras.
sei que não o sabes.
sei que tu nem sabes se queres saber que quando me atiras à parede eu tenho uma coluna vertebral a defender.
que tenho glândulas lacrimais que tu fazes questão em bloquear para não mais me sentires humana.
em tempo algum te confessarei que o sangue me corre nas veias, quente, como o de qualquer mamífero e que, assim sendo, to poderia dar a beber, aquecendo-te a alma e o espírito.
levas-me a crer que sou uma escrava da tua compaixão e eu levo-te a crer que eu creio sê-lo.

17 agosto, 2008

(...)

vou dedicar-me à castração humana.

09 agosto, 2008

figura sem estilo.

tu és a personificação de cada fantasia que os meus lençóis guardam em segredo.
és o eufemismo da castidade que por ti abrigo.
a enumeração dos meus devaneios.
tu és a anáfora que inicia cada verso da minha lírica
frase da minha prosa.
estória da minha odisseia.
a hipérbole da dor desta ferida que não se sente.
és a antítese de cada um dos meus actos.
a aliteração em teu nome que se me escapa da boca.
as metáforas com que enalteço o dialecto que para ti criei.

01 agosto, 2008

a minha líbido.

porque hoje em dia já ninguém morre por amor.
morre-se por falta dele.

31 julho, 2008

eterna bebedeira.

são eles, os teus olhos, que me prendem em mil agonias e pânicos.
vivo à sua mercê.
cada lágrima tua é água com que engano a sede.
vou enchendo a garrafa disto.
do remorso de infidáveis bebedeiras de mentiras e romance.
cada gole, cada tormento.
e agora diz-me meu amor, que é feito do barril de ti que enchi, incessante, durante mil dias e mil noites?
o que resta de cada pedaço que, estúpida, fui recolhendo de nós?
sobram gotas no fundo do copo.
e agora bebo.
bebo não para esquecer.
bebo para me lembrar de ti.
bebo para me relembrar de nós.

27 julho, 2008

morre em mim.

eis que encontro o único pretexto lógico porque continuo acorrentada a ti, qual prisioneira de um éden imaginário.
é esta demência. insensatez. cegueira.
este prazer masoquista que come e cospe as minhas entranhas tão entranhadas de ti.
não consigo limpar da minha memória gigante as gicantescas e ociosas horas de espera a que me submeteste. e em troca de quê? - questiono-te.
em troca de um aperto ternurento que só me faz jurar que o que sentes por mim é o que eu creio ser amor?
em troca dessas esmolas de fidelidade momentânea?
promíscuo,
foi cada beijo que me deste com os dentes.
cada festa que me passaste no rosto com as unhas.
cada palavra que, aos sair da tua boca, se transformava em pura e crua pornografia.
e a minha consciência odeia-me.

25 julho, 2008

.

és o apocalipse do pouco amor que ainda havia em mim.

24 julho, 2008

más fortunas.

anda, pisa o palco e esmaga o medo.
entrega-te ao declamar desses versos escritos sem razão.
grita-os.
sente-os.
vive-os.
agarra o punhal e espeta-o no ventre.
sangra.
rebola.
elouquece.
quando as cortinas se abrirem e os rostos dissimulados da plateia te enternecerem de raiva...
explode!
finge reconheceres-te no espelho.
e parte-o.
o narcisismo morre.
és tu e os figurantes.
despe-lhes a roupa.
viola-os. um a um.
ordena aos insensíveis que saiam da sala.
hoje o espectáculo é um acto de amor sobre-humano.