10 outubro, 2008

tu que me vendaste os olhos por mil dias, tu que me tomaste como um qualquer pertence teu, tu! tomara poder perpetuar cada pedaço de nós por aí espalhado, o grito que me estrangulava a garganta de tão agudo que era, tomara poder tornar eterno o sorriso que por amor à posse brotou dos teus lábios.
abraço quem não tenho, desejo quem finge querer-me - o que sou eu se não a tua fonte de compaixão? rasto de insanidade que te persegue, incessante?
e jaz no chão o corpo do rapaz feliz.
pára de ter piedade!

08 outubro, 2008

sou a criatura que te amarra à vida e à cama. a torneira de água estagnada que te provoca o vómito e a sede. sou as ruínas da tua memória que não matas com medo de ficares arruinado.
oh meu amor, nunca é tarde demais para matares o que tens vindo a deixar morrer. a paixão que não esqueci não acaba com as ilusões que alimento, ilusões presas a sítios e lugares e dias sem conta certa.

deste algum senso ao que outrora cri ser amor, mas agora mata! não deixes morrer!

04 outubro, 2008

porque não foi à toa que disse amar-te.

eu cria piamente em ti, qual personificação da verdade, e tu que fizeste? gozaste-me como um vício de final de dia. tu meu pedaço de ternura a crédito, jamais farás ideia do quão imensas são as coisas que por ti não fiz. porque não quiseste.

e agora, navegando por este sem fim de vontades que me cremam, beijo gentes que emergem nas saudades de um amor que não mataram. o cheiro dos lençóis em que pousaram mil corpos de mil amantes, jamais igualar-se-á ao teu odor de revolução. as vidas desprendidas que, de um acaso, se prenderam uma à outra para não mais verem morrer o final. a psicose e os traumas que deitaram abaixo cada sorriso não são mais que detalhes banais quando chega o ardor de um suspiro soprado ao ouvido no abraço mais quente.

quiçá se tudo não passou de mero encadeamento psicológico? que por mais reais que ousem parecer as marcas dos teus dentes na minha pele, a verdade for esta? um fracasso tremendo numa realidade imaginária. já bebemos e fumámos demasiado hoje, meu bem – vamos para a cama, antes que comecemos a chorar da bebedeira que nos aquece e a respirar o fumo que nos acalma por mil noites.

27 setembro, 2008

ligo o interruptor e interrompo a vida - não era este o corpo que esperava encontrar! o que aconteceu à testa mármore que atraía a minha boca, como que em permanente estado febril? para onde foi a dureza do teu peito quando encostado a mim? o que queres em troca de me devolveres as tuas mãos embriagadas que percorriam as minhas pernas num acto de encontro à sobridade (que jamais encontravam)? o romance, queimaste-o?
será que não consigo ver o que se passou aqui? até quando continuarei com os olhos vendados à espera do desefecho deste impasse? encontrarei alguém que me salve de mim? ou conseguirei salvar-me de mim sem ninguém? terei que repetir os mesmos vocábulos mudos por mil vezes mais para me ouvires? ou continuarás surdo de mais para os sentires?
interrompeste a minha vida, mas nunca te darei o prazer de seres o interruptor, nem que para isso continue às escuras por mais mil dias.

23 setembro, 2008

-que recomecem.
-o quê?
-as nossas vidas.
-quando pararam?
-quando me despiste.
-tu sempre estiveste nua.
-mas agora quero apanhar a roupa que deixei espalhada pelo quarto. vamos parar este espectáculo de suor e lágrimas em que nos enclausurámos este tempo todo...e quanto tempo foi! tenho saudades das ruas daquela cidade que nos abrigavam entre risos e abraços. vamos apanhar outro combóio, está tudo visto nesta estação!
-então e os bilhetes? eram até ao fim da viagem...
-deixemo-la a meio, para onde queres ir doçura?
-estás a ver esta linha recta? ouvi dizer que lá ao fundo, por detrás daquela chaminé, tem umas quantas curvas.
-vamos até lá então, depois logo se verá.

17 setembro, 2008

louca, desgrenhada - preciso de um chá e de um beijo, preciso de descansar.
vem descalçar-me os sapatos e tirar-me a maquilhagem.
despe-me a roupa pesada, veste-me a alma com seda.
enche a banheira com água e sais, mima-me com uvas na boca enquanto, deitada na espuma de olhos fechados, juro não pensar em nada.
quero sentir que me amas acima de um orgasmo. quero que esqueças a língua e me beijes os lábios.
só não quero este cansaço. esta angústia que padece a cada fonema que atiro para os ouvidos do que afinal é só um telefone. já dispensamos despedidas, vivemos nas saudades.
foi a ausência penosa de uns braços que me envolvessem, as noites em claro no escuro de um quarto que não reconhecia, foi a rotina, a impaciência, o vício, os desgostos, os pesadelos, foi tudo que me deixou cansada, irreconhecível ao espelho do meu quarto (re)conhecido. não restou nada da moral, sou uma descomungada aos olhos da igreja, uma lunática aos olhos do mundo.
a teus olhos?- sou o que sempre fui e o que nunca soube ser com ninguém mais.
não sei que fazer com este maldito cansaço! se hei-de enfiá-lo num caixote e enviá-lo por correio azul para a jamaica ou se hei-de continuar assim, a tentar enganar a exaustão com banhos de espuma e chás a escaldar.

15 setembro, 2008

a dormir não me dói.
embala-me enquanto é dia

12 setembro, 2008

hoje dói-me o corpo e estou dorida. só me apetece atirar-me para o sofá e dizer até amanhã ao dia de hoje. menti-me, menti-te, menti-lhe, menti ao nós, ao vós, ao eles, menti nos desejos, nas saudades, nas frases feitas, nas verdades, eu menti. eu minto, eu mentirei. carrasco de mim que transporto, pecado que não suporto! vil fado que semeei!
engano-me a mim, sobretudo a ti, acima de tudo a nós, engano a vida, mais do que devia

09 setembro, 2008

pequenino...

imagino-te a nascer. a ânsia de liberdade a misturar-se com o primeiro oxigénio que inalaste naquele quarto. eras pequenino, do tamanho da minha almofada, mas as tuas mãos, oh as tuas mãos! são enormes, parecem querer embarcar o mundo num só abraço.
de repente os teus olhos abrem-se...tens um brilho ofuscante dentro de ti que até hoje não se apagou.
parabéns david, parabéns!

05 setembro, 2008

?

quem és tu por detrás do teu fantasma?
tu! oh vertigem abominável de prazer masoquista, quem és tu para além de um pronome pessoal que me faz renegar qualquer outro?
onde te meteste tu meu pedaço de sonho desfeito em mil porquês?
deixaste a tua marca a picotado entre as minhas coxas nuas e desapareceste entre os lençóis manchados de sangue e remorsos.
tu que me sussuravas ao ouvido gritos de artista.
tu que me penetraste a alma e o corpo e deixaste como que um rasto de loucura na minha insâne vontade.
tu que me impediste de voltar a abrir a chaga que por alguma razão se fechou.
tu que de entre tantas histórias de encantar lias-me aquela em que o vurmo da maldade impedia o feliz para sempre dos bons corações.
tu, eterno culpado do meu crime, quem és afinal?

31 agosto, 2008

não quero perder o mundo por nada (deste mundo).

curando a ressaca d'arte & chá dos últimos dias.

18 agosto, 2008

a tua escrava.

não, nunca saberás destas minhas nuances de escárnio e carência.
jamais passará por esse teu conjunto bem articulado de aurículas e ventrículos que por dentrás dos meus seios que te congelam o sexo se encontra um coração.
um coração igual ao de todas as outras.
sei que não o sabes.
sei que tu nem sabes se queres saber que quando me atiras à parede eu tenho uma coluna vertebral a defender.
que tenho glândulas lacrimais que tu fazes questão em bloquear para não mais me sentires humana.
em tempo algum te confessarei que o sangue me corre nas veias, quente, como o de qualquer mamífero e que, assim sendo, to poderia dar a beber, aquecendo-te a alma e o espírito.
levas-me a crer que sou uma escrava da tua compaixão e eu levo-te a crer que eu creio sê-lo.

17 agosto, 2008

(...)

vou dedicar-me à castração humana.

09 agosto, 2008

figura sem estilo.

tu és a personificação de cada fantasia que os meus lençóis guardam em segredo.
és o eufemismo da castidade que por ti abrigo.
a enumeração dos meus devaneios.
tu és a anáfora que inicia cada verso da minha lírica
frase da minha prosa.
estória da minha odisseia.
a hipérbole da dor desta ferida que não se sente.
és a antítese de cada um dos meus actos.
a aliteração em teu nome que se me escapa da boca.
as metáforas com que enalteço o dialecto que para ti criei.

01 agosto, 2008

a minha líbido.

porque hoje em dia já ninguém morre por amor.
morre-se por falta dele.