26 outubro, 2008

hoje ouvi o grito vindo de todos os esgotos.
ouvi o fado mais triste e uma conversa entre fantasmas.
ouvi o medo de todos os amantes e ouvi a sina dos poetas.
hoje ouvi a pornografia dos homens castros e as fantasias da menina exemplar.
ainda ouço o murmúrio das preçes de todos os angustiados e as frases corajosas dos heróis ultrapassados.
hoje ouvi o que as paredes ouvem e o que o olhar não diz.
ouço os gemidos, os beijos e o orgasmo de todos os namorados.
ouço todas as frequências de rádio e o telefone a tocar.
hoje ouvi um bêbedo e uma costureira a fazerem amor.
agora estou a tentar ouvir o silêncio e ninguém faz o favor de se calar!

20 outubro, 2008

às vezes desligam-me sem eu querer.
às vezes eu quero desligar, mas não consigo.
ide-vos todos, oh falhas perfeitas da sociedade, deixai-me no meu éden imaginário do qual não fazeis parte! nem vós, inegualáveis seres, nem vós sois capaz de calar a minha loucura! meros pedaços de carne enfeitada entranhada de merda, podres vidas de doentia ignorância.
quereis sentir a raiva das teclas do meu piano? ou preferis ouvir os versos sujos que declamo em vosso nome?
todas as ilusões sumiram-se, os medicamentos fizeram efeito.

18 outubro, 2008

amanhã não existe.

hoje sou tua, da maneira mais inocente do mundo.
hoje a minha meta não é o orgasmo nem tão pouco o maior arrepio na espinha, hoje as horas vão abraçar-se e a noite vai durar para sempre.
porque hoje, enquanto a humanidade morre, nós estaremos a fazer amor como se amanhã fosse outro dia.
não, nunca lhe contarei aquela noite. jamais saberá o quão bonita estava, deitada na calçada, com um copo de champagne entornado sobre o vestido púrpura. um sorriso brotava dos seus lábios secos, muito roxos do frio.
delicadamente, descalçei-lhe os sapatos muito pretos e muito altos e pu-la em pé. encostei-a ao meu peito e oh! ainda estava quente. dançámos lentamente, descalços, e eu beijei-lhe a face rosada vezes sem conta.
no dia a seguir, foi o seu enterro.
o meu amor por ela tornara-se uma doença crónica.

12 outubro, 2008

perdoa-me, mas estou saturada. foram demasiadas noites à tua espera no sofá da sala, de unhas pintadas e robe vermelho, dois copos de whisky e um maço de marbolo lights por cima da cabeçeira. quiçá em vão cada hora, madrugada a dentro, à escuta do som da chave na fechadura do meu apartamento.
mas agora estou a envelhecer, meu amor, a vida já não me permite que goze as minhas madrugadas numa odisseia de lágrimas. as minhas costas estão de ressaca e os lençóis nos quais tinhas entornado uma chávena de café foram para lavar.
quando voltares, ao bom estilo de nómada-revolucionário, já terei comprados outros, mais brancos que estes e com uma renda azul.
no entretanto, o sebastião morreu. passou os seus últimos dias a encher-me a casa de pêlo e a deixar o odor inconfundível de chichi de gato na carpete do escritório. chorei muito, mais por mim do que por ele, e agora tenho que aquecer um saco de água quente antes de me ir deitar.
há meses que não me respondes às infinitas mensagens que te deixo no telemóvel. pode ser que um dia destes me batas à porta, porque já perdeste a chave até lá, e eu me esqueça das mil noites em que fumei o maço inteiro e bebi o gelo do whisky que não deitei no copo.

11 outubro, 2008

da correria resta o sem fôlego
onde vim ter, afinal?

porque não acho que tenha que fazer o mínimo sentido

10 outubro, 2008

tu que me vendaste os olhos por mil dias, tu que me tomaste como um qualquer pertence teu, tu! tomara poder perpetuar cada pedaço de nós por aí espalhado, o grito que me estrangulava a garganta de tão agudo que era, tomara poder tornar eterno o sorriso que por amor à posse brotou dos teus lábios.
abraço quem não tenho, desejo quem finge querer-me - o que sou eu se não a tua fonte de compaixão? rasto de insanidade que te persegue, incessante?
e jaz no chão o corpo do rapaz feliz.
pára de ter piedade!

08 outubro, 2008

sou a criatura que te amarra à vida e à cama. a torneira de água estagnada que te provoca o vómito e a sede. sou as ruínas da tua memória que não matas com medo de ficares arruinado.
oh meu amor, nunca é tarde demais para matares o que tens vindo a deixar morrer. a paixão que não esqueci não acaba com as ilusões que alimento, ilusões presas a sítios e lugares e dias sem conta certa.

deste algum senso ao que outrora cri ser amor, mas agora mata! não deixes morrer!

04 outubro, 2008

porque não foi à toa que disse amar-te.

eu cria piamente em ti, qual personificação da verdade, e tu que fizeste? gozaste-me como um vício de final de dia. tu meu pedaço de ternura a crédito, jamais farás ideia do quão imensas são as coisas que por ti não fiz. porque não quiseste.

e agora, navegando por este sem fim de vontades que me cremam, beijo gentes que emergem nas saudades de um amor que não mataram. o cheiro dos lençóis em que pousaram mil corpos de mil amantes, jamais igualar-se-á ao teu odor de revolução. as vidas desprendidas que, de um acaso, se prenderam uma à outra para não mais verem morrer o final. a psicose e os traumas que deitaram abaixo cada sorriso não são mais que detalhes banais quando chega o ardor de um suspiro soprado ao ouvido no abraço mais quente.

quiçá se tudo não passou de mero encadeamento psicológico? que por mais reais que ousem parecer as marcas dos teus dentes na minha pele, a verdade for esta? um fracasso tremendo numa realidade imaginária. já bebemos e fumámos demasiado hoje, meu bem – vamos para a cama, antes que comecemos a chorar da bebedeira que nos aquece e a respirar o fumo que nos acalma por mil noites.

27 setembro, 2008

ligo o interruptor e interrompo a vida - não era este o corpo que esperava encontrar! o que aconteceu à testa mármore que atraía a minha boca, como que em permanente estado febril? para onde foi a dureza do teu peito quando encostado a mim? o que queres em troca de me devolveres as tuas mãos embriagadas que percorriam as minhas pernas num acto de encontro à sobridade (que jamais encontravam)? o romance, queimaste-o?
será que não consigo ver o que se passou aqui? até quando continuarei com os olhos vendados à espera do desefecho deste impasse? encontrarei alguém que me salve de mim? ou conseguirei salvar-me de mim sem ninguém? terei que repetir os mesmos vocábulos mudos por mil vezes mais para me ouvires? ou continuarás surdo de mais para os sentires?
interrompeste a minha vida, mas nunca te darei o prazer de seres o interruptor, nem que para isso continue às escuras por mais mil dias.

23 setembro, 2008

-que recomecem.
-o quê?
-as nossas vidas.
-quando pararam?
-quando me despiste.
-tu sempre estiveste nua.
-mas agora quero apanhar a roupa que deixei espalhada pelo quarto. vamos parar este espectáculo de suor e lágrimas em que nos enclausurámos este tempo todo...e quanto tempo foi! tenho saudades das ruas daquela cidade que nos abrigavam entre risos e abraços. vamos apanhar outro combóio, está tudo visto nesta estação!
-então e os bilhetes? eram até ao fim da viagem...
-deixemo-la a meio, para onde queres ir doçura?
-estás a ver esta linha recta? ouvi dizer que lá ao fundo, por detrás daquela chaminé, tem umas quantas curvas.
-vamos até lá então, depois logo se verá.

17 setembro, 2008

louca, desgrenhada - preciso de um chá e de um beijo, preciso de descansar.
vem descalçar-me os sapatos e tirar-me a maquilhagem.
despe-me a roupa pesada, veste-me a alma com seda.
enche a banheira com água e sais, mima-me com uvas na boca enquanto, deitada na espuma de olhos fechados, juro não pensar em nada.
quero sentir que me amas acima de um orgasmo. quero que esqueças a língua e me beijes os lábios.
só não quero este cansaço. esta angústia que padece a cada fonema que atiro para os ouvidos do que afinal é só um telefone. já dispensamos despedidas, vivemos nas saudades.
foi a ausência penosa de uns braços que me envolvessem, as noites em claro no escuro de um quarto que não reconhecia, foi a rotina, a impaciência, o vício, os desgostos, os pesadelos, foi tudo que me deixou cansada, irreconhecível ao espelho do meu quarto (re)conhecido. não restou nada da moral, sou uma descomungada aos olhos da igreja, uma lunática aos olhos do mundo.
a teus olhos?- sou o que sempre fui e o que nunca soube ser com ninguém mais.
não sei que fazer com este maldito cansaço! se hei-de enfiá-lo num caixote e enviá-lo por correio azul para a jamaica ou se hei-de continuar assim, a tentar enganar a exaustão com banhos de espuma e chás a escaldar.

15 setembro, 2008

a dormir não me dói.
embala-me enquanto é dia

12 setembro, 2008

hoje dói-me o corpo e estou dorida. só me apetece atirar-me para o sofá e dizer até amanhã ao dia de hoje. menti-me, menti-te, menti-lhe, menti ao nós, ao vós, ao eles, menti nos desejos, nas saudades, nas frases feitas, nas verdades, eu menti. eu minto, eu mentirei. carrasco de mim que transporto, pecado que não suporto! vil fado que semeei!
engano-me a mim, sobretudo a ti, acima de tudo a nós, engano a vida, mais do que devia

09 setembro, 2008

pequenino...

imagino-te a nascer. a ânsia de liberdade a misturar-se com o primeiro oxigénio que inalaste naquele quarto. eras pequenino, do tamanho da minha almofada, mas as tuas mãos, oh as tuas mãos! são enormes, parecem querer embarcar o mundo num só abraço.
de repente os teus olhos abrem-se...tens um brilho ofuscante dentro de ti que até hoje não se apagou.
parabéns david, parabéns!