10 abril, 2009

não suporto estes sublimes episódios de passividade. o que é que se passa aqui, afinal? a minha geração protege-se neste escudo meio ferrugento do qual faz parte a tese de que somos fruto do meio. mas que meio é este que vos impinge tal coreografia? tal destreza de carácter? o quão grande foi o sacrifício que colocou por fim a palavra liberdade nos vossos dicionários e vós, vós reagis como meros saloios! continuais a professar a mediocridade cultural, o afundar da arte e o prevalecer da vitória da ignorância sob todos os valores! acordai, por amor a este Portugal, acordai dessa bebedeira crónica! substitui o rosa das revistas pelo vermelho das revoluções que por este cantinho à beira mar plantado operaram. fazei da boémia uns copos de vinho tinto bem à moda lusitana, uma conversa sobre política e música e tratai-vos, entre vós, por vossa excelência. e porque não? porque não fazer ressuscitar uma elegância e um iconformismo social já há tanto perdidos?

31 março, 2009

que estás a comer?
gente em pó.
isso é light?
é fast-food.
posso comer-te?
querer é poder e tu queres.
mas tenho medo.
medo?
desse vício de pó e vácuo a que te foste apegando.
o pó é inofensivo.
e vai-te matando aos poucos.
eu não deixo que te prendas a mim.
mas eu quero desprender-me do eu que não se prende a nada.
não faças isso.
porquê?
far-te-ás escavo do amor.
o que é melhor?
como assim?
o que é melhor, gente em pó ou amor?
a gente em pó não te dá amor, mas o amor traz-te gente em pó.
isso é uma contradição?
não.
então porque colocaste o mas?
pode tornar-se contraditório, mas, no final de contas, pó e amor provocam uma morte lenta e dolorosa.

28 março, 2009

uma geração decadente,
estupidificada por este paradigma que é o de ficar pelo suficiente
não permitirei decerto que me conduzis em direcção a essa vossa involução que só vos trará descendentes estéreis de valores
não há como fugir ao equilíbrio.

20 março, 2009

como eu gosto do odor a sexo que entranha estas paredes. é aqui, neste lugar sem um móvel, sem um compartimento fechado que eu me apodero da tua carne virgem, que te faço meu como se de um sopro de vida te tratasses. depois, quando te vais embora, pedes-me sempre para te coser os olhos com uma agulha. invade-te uma humilhação tal que te torna incapaz de incará-los e, para que sejam apagados os teus pecados, entras de novo nessa procissão profana com gritos hereges em forma de preçes.
por vezes, dá-me vontade de te lancetar esse processo de beatificação que te está entranhado na alma, converter-te ao meu ateísmo e dissolver tudo em amor.

17 março, 2009

careca e nu, como que num orgulho mudo de mártir do qual não faz questão de acordar, jaz o corpo que um dia vós dissestes ser igual. e agora cantais vitória! VITÓRIA! embebidos numa cegueira crónica, não compreendeis que continuais a disparar e decapitar corpos doridos que não sabem ver-se ao espelho! prosseguireis o vosso movimento, atirar-vos-eis como cães aos restos de dignidade que sobra nas intrínsecas mais primitivas do ser humano. acabou! canibalismo não é amor!

05 março, 2009

o teu naturalismo fascina-me. esse teu desejo intrínseco de chafurdar no mais podre, no mais sujo, de colocar luvas de borracha e espremer o que de mais reles e mais vergonhoso tem a condição do ser humano. sim, o mesmo ser humano que esconde a merda que de si próprio sái por detrás da eloquência ordinária de palavras plagiadas, o mesmo que faz da estética tão somente um escape à sua realidade. mas, afinal, o que escondeis quando vos fechais na casa de banho? porque construís este espaço tão acolhedor e simpático se, afinal, é ali que sentais a pele nua e assitis ao vosso momento de humilhação, no qual o excremento é sugado através de mil canos cuidadosamente escondidos?
enquanto não vos aceitardes e matardes a estética jamais sabereis quem sois.

18 fevereiro, 2009

és um mero capricho meu. afinal de contas, o que querias que fizesse contigo? que te tomasse como um qualquer pertence meu? que limitasse o teu ser a um ridículo determinante possessivo? a monogamia não é a minha predisposição genética e tu sabe-lo como ninguém.
não suporto este amor formatado, limitado, escasso e, ainda assim, consciente da sua tendência para mais infinito. é contraditória toda esta panóplia de mentiras porque, na verdade, "a amante das tuas noites, não foi feita para os teus dias".

08 fevereiro, 2009

penetraste o meu insondável desprezo, ninguém por perto.
a tua beleza sulfúrica, a tua intelêngia tão artificiada, tudo em ti me despertou um ódio incomensurável. és feita de um narcisismo tal que o teu idolo és tão simplesmente tu, se é que, de facto, conheces outro pronome pessoal que não seja esse mesmo, a maldita segunda pessoa do singular.
és fria e muda como a neve que eu nunca vi. a tua nudez, se tal fosse possível contemplar, cegar-me-ia de repugnância.
mas por favor, agora dissolve-te em amor e deixa-me injectar-te nas veias.

28 janeiro, 2009

-sêde canibais e engoli o excremento de que sois feitos, pois já não tereis outro prato no futuro! vergai-vos perante os factos de que vós, sim vós oh personficações da cobardia, vós sois a geração perdida. vós caminhais numa linha recta, vós não tendes um desejo ainda que pequeno de passar por curvas! vós sois passivos, tolerantes! vós não mereceis o vinte e cinco de abril que os vossos pais contruíram, se por ventura sabeis ao menos o motivo desse dia ser feriado. vós enojais-me o patriotismo e provais-me, mais uma vez, o quão desenquadrada na época eu estou. oh! porque alvíssaras da sorte não nasci eu nessa década de 70 para ter vivido de perto a música, o intelecto, a revolução, todo o sem fim de glória e respeito que inala desses tempos adversos da nossa história!
quando alguém vos disse, em vésperas de provarem um pouco da coragem que, quiçá tenha sobrado dos vossos antepassados, que não valia a pena irem, vós... vós nem por um segundo ousaram desobedecer-lhe.

20 janeiro, 2009

tenho tuberculose.
cuspo sangue da boca e com ele cuspo também tragédias clássicas a quantos males me assombram. sim, porque desengane-se quem pensa que a tuberculose é só sangue a jorrar para os lençóis lavados e por tudo mais quanto seja sítio. num dia gastam-se os anos que me foram prometidos viver à nascença e permaneço febril, venham mil panos de água do ártico que nada me baixará esta febre crónica. o amor sai-me pelos poros com a transpiração que vai encharcando o meu corpo num odor insuportável. nas minhas pernas nasceram pequenas crateras em constante actividade, expelindo aos litros de fel e amargura. as minhas unhas encravam-se na minha carne já velha, e a epiderme vai-me caindo aos poucos.
descubro que também tenho lepra.

16 janeiro, 2009

oh minha coimbra, como eu te amo minha cidade! como eu amo o odor a boémia que assalta qualquer olfato nas tuas monumentais, a eloquência com que se impõe o mármore dessas escadas faz jurar que, em tempor passados, houve poetas e médicos e advogados e gentes de saber e vaidade de nome, que as subiram e desceram na ânsia de conquistar o teu respeito, oh minha coimbra do coração! as águas do teu rio perpetuaram os amores trágicos da história do nosso portugal e oh! quantos mil moços a ti te cantaram mil serenatas que lhes enxiam a alma, oh minha cidade desigual!
o combóio traz todos os dias até ti leigos de toda a europa que te querem conhecer. chegam assustados, com uma mala enorme onde te querem enfiar juntamente com a roupa suja e os produtos de higiene e levar-te de volta com eles, para os seus países. oh santa ignorância, uma vez na torre da mais velha universidade deste velho continente, os leigos sentem-se esmagados com a tua grandeza que não se prende a hectares, é antes uma grandeza de espírito. és, minha cidade, novamente aos olhos dos estrangeiros, a coimbra da revolução, és a queima da capa e da batina, és o cravo que matou a espingarda.
no regresso, os leigos acabam por enxer a mala de sonhos e encaixar-te no coração.

06 janeiro, 2009

de ti só sei uma coisa, tu gostas de mim. de grosso modo e sem hesitação afirmo que me amas. ignoro quem sejas, quem queres ser, no fundo és só mais uma alma dentro de um corpo demasiado pequeno para nela encaixar tal sentimento.
eu não te conheço, imaginei-te budista, sim, budista parece ser uma boa opção, és budista e procuras o poço sem fundo onde se encontram as respostas às perguntas que nunca fizeste. ontem disseste-me que eu era o teu nirvana - ri-me. ri-me não por seu a primeira vez que prentendias fazer subir o meu ego nem pelo modo desajeitado e ensaiado com que me deste um beijo na testa, ri-me porque tu és ridículo e porque o amor é ridículo.
sabes, a única coisa que eu quero é comer-te as mãos.

31 dezembro, 2008

defendemos o despudor do corpo, a afirmação da merda, do fedor da transpiração e da viscosidade dos flúidos, defendemos o que ninguém ousa desenvergonhar.
quereis prender-vos ao realismo do século e calar a arte pela arte? pois muito bem, libertai os vossos corpos! falai abertamente do descarregar diário dos intestinos na retrete! suportai sem escândalo ou risota os sons emitidos pela fonte sonora implantada em cada um de vós! não rapeis os pêlos que vos crescem nas pernas, nos sovacos, no sexo e no rosto só porque alguém disse que assim é que tem de ser!
gritai de prazer, de ódio e de inveja.
sêde vós mesmos sem o pânico do realismo disfarçadamente irrealista do ser.

21 dezembro, 2008

o tempo é uma ilusão e nós os ilusionistas, por isso vamos iludir-nos da nossa eternidade. afinal, temos todo o tempo do mundo.
deixa-me amaldiçoar para sempre o amante que tornou o teu corpo impuro. eu quero esculpir o pedaço perfeito de ti que essa reles criatura roubou!
quero violar mil telas e nelas imortalizar os teus seios e o teu ventre. desejo compor a melodia da tua voz e a coreografia das tuas mãos. quero mil negativos dos teus olhos e o odor do teu cabelo feito perfume.
não nos matemos já, temos tanto a dever à arte meu amor.

15 dezembro, 2008

a cobra, a cobra enrola-se às gentes e mata-as de vez. vós, vós asfixiais e gozais e matais aos poucos.
o tubarão cheira o sangue e persegue-o, faminto. vós, faminta igualmente, humilhais as gentes que não têm a fervura do vosso sangue.
vós sois a pura tentativa de ser, falhada.