17 maio, 2009
oh! minha bem-amada! hoje confessar-te-ei a paixão que me avassalou a alma, que me esbofeteou o orgulho, a paixão documentada em mil prosas bárbaras dedicadas só a ti, ó nome que eu não ouso escrever! é hoje, deitada sob o teu leito carmim, que me massacro por não ter conseguido vestir esse sentimento tão nobre, tão fecundo, de que me falavas em noites como esta. neste leito celebrou-se, vezes sem conta, uma ode ao amor.
12 maio, 2009
hoje não te quero ver, não quero ser torturada com o eco das tuas súplicas nem o sufoco das tuas lágrimas. só hoje peço-te, interrompe este cortejo fúnebre em que transformaste a nossa vida e encara este quarto, vê como o manchaste de mentiras e abafaste o medo nos lençóis lavados! murmúrios de beijos adúlteros morrendo entre os cortinados cor de vinho, um ambiente austero envolto num romantismo debitado na conta de cartão multibanco. só agora me apercebo do quão ingénuo é o meu coração e do quão ele me enche de vergonha e desconsolação. quero entrar em coma profundo, não ter mais que acordar e olhar para a cara do homem que me preencheu de pudores amargos que me fazem enterrar a cara entre as mãos.
07 maio, 2009
palavras, hoje preciso de as agarrar.
prendê-las em mim e abusar delas. violá-las, fazê-las completar-se mutuamente numa orgia interminável.
hoje preciso que cada uma delas se sinta livre.
tu oh amo-te! hoje não penses que és um verbo e que tens o dom de expressar o que de mais forte um ser humano pode sentir. não! hoje quero que sejas o amo-te, o amo-te sem sentido e completamente despreocupado. o amo-te que digo porque me apetece, o amo-te sem compromissos. e assim sendo, já tenho permissão para dizer um amo-te bem forte à minha tartaruga que hoje partiu uma asa a jogar futebol.
as palavras são tão ambíguas.
prendê-las em mim e abusar delas. violá-las, fazê-las completar-se mutuamente numa orgia interminável.
hoje preciso que cada uma delas se sinta livre.
tu oh amo-te! hoje não penses que és um verbo e que tens o dom de expressar o que de mais forte um ser humano pode sentir. não! hoje quero que sejas o amo-te, o amo-te sem sentido e completamente despreocupado. o amo-te que digo porque me apetece, o amo-te sem compromissos. e assim sendo, já tenho permissão para dizer um amo-te bem forte à minha tartaruga que hoje partiu uma asa a jogar futebol.
as palavras são tão ambíguas.
30 abril, 2009
26 abril, 2009
dancing queen
"You are the Dancing Queen /Young and sweet, only seventeen /
Dancing Queen /
Feel the beat from the tambourine. Oh Yeah!"
Não consigo afirmar com toda a certeza onde e quando começou a nossa grande amizade, acho que vai fazer uns três anos. O único ponto onde tenha a certeza é o facto de ter começado por um mau motivo. A hipocrisia e cinismo caracterizam muito algumas pessoas e estavas numa amizade com um ser humano bastante consumido por estas palavras (terríveis, na minha opinião). Mas "há males que vêm por bem" e a nossa amizade é a prova disso mesmo. Uma amizade como a nossa não é construída num dia ou numas semanas, é preciso mais tempo para ganhar a confiança plena. Confiança plena ? Algo que tende a extinguir-se na sociedade.
Falamos quase automaticamente do que estamos a sentir, és das poucas pessoas com quem consigo ser verdadeiramente honesto neste ponto. Por vezes, nem é preciso falares para eu saber o que sentes ou o que achas. Não é formidável esta sensação?
Como em todas as nossas amizades, temos os nossos momentos negros. Como a confiança plena e a honestidade encontram-se misturadas nas nossas palavras, conseguimos sempre ultrapassar as nossas dificuldades.
Já passámos por muito. Já caminhámos por muitos desertos, sem ninguém a ajudar-nos. Já encontrámos muitas serpentes por esse mesmo caminho e tratámos de ignorá-las ou de pisá-las. E também, ao ignorarmos, fomos mordidos sem dar conta, deixando o veneno fluir durante algum tempo pelo nosso corpo e sobretudo sobre o coração. Mas ultrapassámos e estamos juntos como verdadeiros irmãos.
Vou continuar a proteger-te pequenina, vou continuar a chorar contigo, vou continuar a sorrir contigo. Juntos, sempre contigo. Gosto verdadeiramente de ti.
E porquê? Não usas máscaras para te protegeres dos outros de uma forma compulsiva, não tens uma espécie de dupla personalidade que me irrita e não és cínica. És tu, simplesmente.
E dou-te tanto valor, apesar de todos os defeitos (eu sei que também os tenho) sei dar-te todo o valor que mereces, irmãzinha.
"You can dance /
You can jive /
Having the time of your life /
See that girl /
Watch that scene /
Digging the Dancing Queen."
You can jive /
Having the time of your life /
See that girl /
Watch that scene /
Digging the Dancing Queen."
24 abril, 2009
há muito que institucionalizei princípios de igualdade, no entanto ainda sinto a impotência dos meus (quase) 17 anos que me impede de levantar a bandeira vermelha com a foice e o martelo cruzados jurando a vitória do comunismo sobre esse monstro capitalista.
amanhã faz trinta e cinco anos que o cravo matou a espingarda, que os meninos se juntaram à volta da fogueira e aprenderam o que custa a liberdade, faz trinta cinco anos que, num grito estrangulado, se proclamou o fim de mais de meio século fechados ao mundo, mais de meio século de ditadura e opressão. de dentro dos tanques, ecoou um rufo de tambores imaginários, um aplauso infinito, a todos aqueles que apagaram a palavra fascismo da constituição portuguesa aos vinte e cinco dias do mês de abril do ano de 1974.
amanhã faz trinta e cinco anos que o cravo matou a espingarda, que os meninos se juntaram à volta da fogueira e aprenderam o que custa a liberdade, faz trinta cinco anos que, num grito estrangulado, se proclamou o fim de mais de meio século fechados ao mundo, mais de meio século de ditadura e opressão. de dentro dos tanques, ecoou um rufo de tambores imaginários, um aplauso infinito, a todos aqueles que apagaram a palavra fascismo da constituição portuguesa aos vinte e cinco dias do mês de abril do ano de 1974.
18 abril, 2009
porque há dias assim. dias em que a saudade do que nunca fui aperta e mal deixa a razão impor-se à revolução que me persegue a cabeça e a vontade. só queria conseguir dizer-te a falta que me faz a tua mão a agarrar a minha, ainda que me violasses a liberdade, ainda que me fosses matando aos poucos com o teu orgulho cego e desmedido, tu protegias-me. e eu nunca gostei de ti.
10 abril, 2009
não suporto estes sublimes episódios de passividade. o que é que se passa aqui, afinal? a minha geração protege-se neste escudo meio ferrugento do qual faz parte a tese de que somos fruto do meio. mas que meio é este que vos impinge tal coreografia? tal destreza de carácter? o quão grande foi o sacrifício que colocou por fim a palavra liberdade nos vossos dicionários e vós, vós reagis como meros saloios! continuais a professar a mediocridade cultural, o afundar da arte e o prevalecer da vitória da ignorância sob todos os valores! acordai, por amor a este Portugal, acordai dessa bebedeira crónica! substitui o rosa das revistas pelo vermelho das revoluções que por este cantinho à beira mar plantado operaram. fazei da boémia uns copos de vinho tinto bem à moda lusitana, uma conversa sobre política e música e tratai-vos, entre vós, por vossa excelência. e porque não? porque não fazer ressuscitar uma elegância e um iconformismo social já há tanto perdidos?
31 março, 2009
que estás a comer?
gente em pó.
isso é light?
é fast-food.
posso comer-te?
querer é poder e tu queres.
mas tenho medo.
medo?
desse vício de pó e vácuo a que te foste apegando.
o pó é inofensivo.
e vai-te matando aos poucos.
eu não deixo que te prendas a mim.
mas eu quero desprender-me do eu que não se prende a nada.
não faças isso.
porquê?
far-te-ás escavo do amor.
o que é melhor?
como assim?
o que é melhor, gente em pó ou amor?
a gente em pó não te dá amor, mas o amor traz-te gente em pó.
isso é uma contradição?
não.
então porque colocaste o mas?
pode tornar-se contraditório, mas, no final de contas, pó e amor provocam uma morte lenta e dolorosa.
gente em pó.
isso é light?
é fast-food.
posso comer-te?
querer é poder e tu queres.
mas tenho medo.
medo?
desse vício de pó e vácuo a que te foste apegando.
o pó é inofensivo.
e vai-te matando aos poucos.
eu não deixo que te prendas a mim.
mas eu quero desprender-me do eu que não se prende a nada.
não faças isso.
porquê?
far-te-ás escavo do amor.
o que é melhor?
como assim?
o que é melhor, gente em pó ou amor?
a gente em pó não te dá amor, mas o amor traz-te gente em pó.
isso é uma contradição?
não.
então porque colocaste o mas?
pode tornar-se contraditório, mas, no final de contas, pó e amor provocam uma morte lenta e dolorosa.
28 março, 2009
20 março, 2009
como eu gosto do odor a sexo que entranha estas paredes. é aqui, neste lugar sem um móvel, sem um compartimento fechado que eu me apodero da tua carne virgem, que te faço meu como se de um sopro de vida te tratasses. depois, quando te vais embora, pedes-me sempre para te coser os olhos com uma agulha. invade-te uma humilhação tal que te torna incapaz de incará-los e, para que sejam apagados os teus pecados, entras de novo nessa procissão profana com gritos hereges em forma de preçes.
por vezes, dá-me vontade de te lancetar esse processo de beatificação que te está entranhado na alma, converter-te ao meu ateísmo e dissolver tudo em amor.
17 março, 2009
careca e nu, como que num orgulho mudo de mártir do qual não faz questão de acordar, jaz o corpo que um dia vós dissestes ser igual. e agora cantais vitória! VITÓRIA! embebidos numa cegueira crónica, não compreendeis que continuais a disparar e decapitar corpos doridos que não sabem ver-se ao espelho! prosseguireis o vosso movimento, atirar-vos-eis como cães aos restos de dignidade que sobra nas intrínsecas mais primitivas do ser humano. acabou! canibalismo não é amor!
05 março, 2009
o teu naturalismo fascina-me. esse teu desejo intrínseco de chafurdar no mais podre, no mais sujo, de colocar luvas de borracha e espremer o que de mais reles e mais vergonhoso tem a condição do ser humano. sim, o mesmo ser humano que esconde a merda que de si próprio sái por detrás da eloquência ordinária de palavras plagiadas, o mesmo que faz da estética tão somente um escape à sua realidade. mas, afinal, o que escondeis quando vos fechais na casa de banho? porque construís este espaço tão acolhedor e simpático se, afinal, é ali que sentais a pele nua e assitis ao vosso momento de humilhação, no qual o excremento é sugado através de mil canos cuidadosamente escondidos?
enquanto não vos aceitardes e matardes a estética jamais sabereis quem sois.
18 fevereiro, 2009
és um mero capricho meu. afinal de contas, o que querias que fizesse contigo? que te tomasse como um qualquer pertence meu? que limitasse o teu ser a um ridículo determinante possessivo? a monogamia não é a minha predisposição genética e tu sabe-lo como ninguém.
não suporto este amor formatado, limitado, escasso e, ainda assim, consciente da sua tendência para mais infinito. é contraditória toda esta panóplia de mentiras porque, na verdade, "a amante das tuas noites, não foi feita para os teus dias".
08 fevereiro, 2009
penetraste o meu insondável desprezo, ninguém por perto.
a tua beleza sulfúrica, a tua intelêngia tão artificiada, tudo em ti me despertou um ódio incomensurável. és feita de um narcisismo tal que o teu idolo és tão simplesmente tu, se é que, de facto, conheces outro pronome pessoal que não seja esse mesmo, a maldita segunda pessoa do singular.
és fria e muda como a neve que eu nunca vi. a tua nudez, se tal fosse possível contemplar, cegar-me-ia de repugnância.
mas por favor, agora dissolve-te em amor e deixa-me injectar-te nas veias.
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