a plenitude do ser humano começa com a plenitude entre o corpo e a alma. o meu corpo sua, defeca, urina, produz muco ao nível respiratório, fica lubrificado ao nível dos genitais, contém uma camada de pêlos em quase toda a sua superfície e, no entanto, o meu corpo é o meu sítio preferido. amo-me na minha plenitude apesar de não deixar de pôr em causa tal dogma quando coloco desodorizante nas axilas, quando faço questão de trancar a porta da casa de banho quando descarrego os intestinos e a bexiga, quando tento emitir o mínimo de ruído possível ao assoar-me, quando me masturbo, escondida, como se de um crime se tratasse ou quando me depilo. são actos que tu, pudica sociedade, me impuseste a fim de construir esse teu pudico império.
04 março, 2010
16 fevereiro, 2010
morri com os seios rijos e o cu empinado. no entanto, o whisky continua intacto, o corpete preto permanece engomado em cima dos lençóis de seda vermelhos e ninguém se lembrou de desligar a água da banheira. não deste tempo sequer de me despedir deste mundo cão que me arrancou o clitóris aos treze num casa de banho pública. foste tão ordinário.
14 fevereiro, 2010
23 janeiro, 2010
Biografia - Parte I
A nameless nasceu da minha necessidade ordinária de me sentir incógnita. Julgo que ela em nada se assemelha ao meu eu quotidiano. Ela é a personificação do desespero, uma sombra do mais primitivo e pornográfico que em mim habita. Poderia aplicar-lhe uns quantos adjectivos que a iriam descrever na perfeição, porque, afinal de contas, fui eu que a criei. Podia, mas não quero. Ela é fruto de um mero encadeamento psicológico numa realidade que me enoja. Foi este ódio exacerbado pelo mundo, esta febre de me encontrar que levou a que tivesse a alucinação devida. Nameless trying to be Someone ou, como inicialmente se iria chamar, Rosário Branco, guia-se pelos princípios do desrespeito, da heresia, da cobardia.
Findava o ano de 1960 e, algures entre o Douro e Minho, estava para nascer aquela que viria a ser a nona filha de Carolina Mateus Dias. O dia 7 de Dezembro trouxe Rosário ao mundo, por entre o desespero da sua mãe, encontrada horas mais tarde do parto desmaiada por detrás da igreja. Herdou o apelido de Fernando Luís Branco, defunto fazia quatro dias, apesar deste não ter sido o responsável por emprenhar a sua mãe. Filha de pai incógnito e mãe dada aos prazeres carnais, Rosário cedo se começou a distanciar de casa, passando longas temporadas em Peniche com uma tia velha cuja vida se reduzia a uma religiosidade doentia. Quando regressava à aldeia, encontrava a sua mãe cada vez mais gasta, farta dos caprichos dos homens e dizendo até amanhã aos dias. Aos oito anos viu-se sozinha: a mãe morreu durante o acto, com a cara tapada por um saco de plástico e os peitos queimados com pontas de cigarro, a tia, essa, mudou-se para o Convento de Santa Teresa, de onde não poderia sair nem por onde poderia receber ninguém. Corria o ano de 1968 quando Rosário Branco foi acolhida pela irmã Cristina de Caldas, passando a viver num colégio interno de meninas órfãs. Aí viveu a infância que nunca tinha conhecido, apesar das regras apertadas, Rosário pôde conhecer outras raparigas cuja vida não lhes havia sorrido. Certo dia, tinha Rosário acabado de completar 12 anos, ousou questionar em voz alta a justiça divina: passou 39 dias (o número de livros do Antigo Testamento) isolada num quarto a comer uma única refeição, de pão e água, a cada 12 horas. Fugiu do Colégio três dias após o enclausoramento. Como tinha um corpo desenvolvido de mais para um menina de 12 anos, deram-lhe 14 primaveras na estação de combóios, o que lhe permitiu viajar até Coimbra. Gostava da cidade. Ouvira as irmãs sussurarem a história de um Pedro e de uma Inês, cujo amor trágico se dera perto de um rio chamado Mondego. Queria conhecer Coimbra, apoderar-se do rio que lhe consumia a imaginação e ser, por fim, feliz.
(...)
(...)
16 janeiro, 2010
22 dezembro, 2009
falta ousadia!
escassa gente audaz!
gente capaz de engolir o mundo de um trago!
gente cuj'alma ambicione mais do que um espírito castrado!
aos invés dessa utópica irmandade,
as mães continuam a parir nados estéreis de vontade!
oh púdicos corpos!
parai de condenar a história,
pois vós sois os náufragos sem bóia
a emergir num mar de anticorpos!
desprezo a vossa ciência,
a tarefa hercúlea da tecnologia,
para mim tais avanços não passam de demência,
condenada fantasia!
escassa gente audaz!
gente capaz de engolir o mundo de um trago!
gente cuj'alma ambicione mais do que um espírito castrado!
aos invés dessa utópica irmandade,
as mães continuam a parir nados estéreis de vontade!
oh púdicos corpos!
parai de condenar a história,
pois vós sois os náufragos sem bóia
a emergir num mar de anticorpos!
desprezo a vossa ciência,
a tarefa hercúlea da tecnologia,
para mim tais avanços não passam de demência,
condenada fantasia!
10 dezembro, 2009
24 novembro, 2009
Poeta
ah! como eu te invejo ó poeta!
invejo essa tua rima de algibeira
esse cansaço ocioso que te mata em cada hipérbole,
essa tua alma inquieta!
tomara sofrer dessa insatisfação crónica,
tomara poder perpetuar minh'alma num fervor de papel e caneta!
e poder ser múltipla sendo inteira!
tomara ser tu ó poeta!
poeta que, em jejum, engole o mundo de um trago
poeta que, carente de amor, a tudo ama
poeta, personificação dos sentidos, que nada sente senão no papel.
poeta, meu poeta casto e puritano, enche-me do teu lirismo e da tua humanidade e acaba com esta minha existência literalmente animalizada.
invejo essa tua rima de algibeira
esse cansaço ocioso que te mata em cada hipérbole,
essa tua alma inquieta!
tomara sofrer dessa insatisfação crónica,
tomara poder perpetuar minh'alma num fervor de papel e caneta!
e poder ser múltipla sendo inteira!
tomara ser tu ó poeta!
poeta que, em jejum, engole o mundo de um trago
poeta que, carente de amor, a tudo ama
poeta, personificação dos sentidos, que nada sente senão no papel.
poeta, meu poeta casto e puritano, enche-me do teu lirismo e da tua humanidade e acaba com esta minha existência literalmente animalizada.
07 novembro, 2009
-porquê esse enorme fascínio pelo mundo da prostituição?
-é o mais podre da condição humana.
-sim, mas não o condenas?
-o corpo é teu, a carne é humana.
-e a alma? não conta nada no meio dessa dicotomia ordinária?
-a alma é um capricho que só alguns têm o direito de exigir.
-e a ética, a moral? também gozam de exclusividade?
-essas morrem no dia em que te convidar a dormir no meu leito.
-é o mais podre da condição humana.
-sim, mas não o condenas?
-o corpo é teu, a carne é humana.
-e a alma? não conta nada no meio dessa dicotomia ordinária?
-a alma é um capricho que só alguns têm o direito de exigir.
-e a ética, a moral? também gozam de exclusividade?
-essas morrem no dia em que te convidar a dormir no meu leito.
27 outubro, 2009
hoje não vou pôr maquilhagem.
hoje vou ficar a sós com o meu espelho e vou contemplá-lo horas a fio.
apoderar-me de cada traço daquele corpo nu que jaz à minha frente.
vou fintar aquele olhar, que de tão nítido, me parece terrivelmente baço.
hoje quero ser tão simplesmente instinto, loucura e prazer!
que se foda a razão dos homens!
hoje vou amar-me em pleno
sem preconceitos bárbaros ou falsas modéstias!
farei deste dia meu e vou ser a minha própria musa.
hoje sou a personificação da beleza humana,
apodera-se de mim um desejo tal que toda eu se torna em erotismo e pornografia.
penetro-me de amor por mim mesma,
tenho orgasmos múltiplos que não são mais que rimas perfeitas onde está encerrado o meu nome nas entrelinhas.
p.s: eu fiz amor comigo mesma e, meus caros, não há droga que provoque semelhante sensação!
hoje vou ficar a sós com o meu espelho e vou contemplá-lo horas a fio.
apoderar-me de cada traço daquele corpo nu que jaz à minha frente.
vou fintar aquele olhar, que de tão nítido, me parece terrivelmente baço.
hoje quero ser tão simplesmente instinto, loucura e prazer!
que se foda a razão dos homens!
hoje vou amar-me em pleno
sem preconceitos bárbaros ou falsas modéstias!
farei deste dia meu e vou ser a minha própria musa.
hoje sou a personificação da beleza humana,
apodera-se de mim um desejo tal que toda eu se torna em erotismo e pornografia.
penetro-me de amor por mim mesma,
tenho orgasmos múltiplos que não são mais que rimas perfeitas onde está encerrado o meu nome nas entrelinhas.
p.s: eu fiz amor comigo mesma e, meus caros, não há droga que provoque semelhante sensação!
13 outubro, 2009
os corpos.
os corpos nus e mortos.
sempre os corpos.
sempre a nudez
e sempre a morte,
a morte dos corpos.
mato-o quando não sei o que fazer dele,
o que fazer com o meu corpo.
o que fazer com a nudez.
o que fazer com os restantes corpos.
e com as suas respectivas nudez.
queria apropriar-me da minha libido,
de todo o meu erotismo,
da minha eventual sensualidade.
queria expor-me.
ser eu, e conseguir escrever o meu nome com maiúsculas.
queria-me toda.
fazer amor comigo mesma.
penetrar-me de prazer e de razão.
escrever-me cartas infinitas onde estivesse presente o infinito desconhecimento de mim,
do meu corpo,
da minha nudez,
da minha morte.
os corpos nus e mortos.
sempre os corpos.
sempre a nudez
e sempre a morte,
a morte dos corpos.
mato-o quando não sei o que fazer dele,
o que fazer com o meu corpo.
o que fazer com a nudez.
o que fazer com os restantes corpos.
e com as suas respectivas nudez.
queria apropriar-me da minha libido,
de todo o meu erotismo,
da minha eventual sensualidade.
queria expor-me.
ser eu, e conseguir escrever o meu nome com maiúsculas.
queria-me toda.
fazer amor comigo mesma.
penetrar-me de prazer e de razão.
escrever-me cartas infinitas onde estivesse presente o infinito desconhecimento de mim,
do meu corpo,
da minha nudez,
da minha morte.
09 outubro, 2009
23 setembro, 2009
sou uma depravada.
há em mim uma insatisfação tal
um orgasmo por cumprir,
neste meu querer que nada quer
há uma pornografia inerente ao meu sentir.
há espasmos que se assemelham a penetrações de loucura.
há uma busca infindável pela minha sanidade,
um desejo imperativo de alcançar sobridade.
e há uma sede e uma fome do tudo
e um apetite invariável do nada
e não sei mais como tolerar este meu corpo
que somente defeca, urina e morre de vaidade
há em mim uma insatisfação tal
um orgasmo por cumprir,
neste meu querer que nada quer
há uma pornografia inerente ao meu sentir.
há espasmos que se assemelham a penetrações de loucura.
há uma busca infindável pela minha sanidade,
um desejo imperativo de alcançar sobridade.
e há uma sede e uma fome do tudo
e um apetite invariável do nada
e não sei mais como tolerar este meu corpo
que somente defeca, urina e morre de vaidade
07 setembro, 2009
eu sou a hipérbole de toda a miséria e podridão intrínseca na raça humana. de uma forma ordinária, sou uma puta. não passo disso, um monte de merda que vagueia por essas avenidas e ruelas à hora em que a mãe vai aconchegar o filho ao leito, à hora em que os amantes se embriagam no corpo um do outro morrendo no orgasmo da sua ressaca, eu passo por ti à única hora que precisas de me ver. eu sou uma criatura estéril, estéril em relação a todos estes valores hipócritas que a sociedade impõe, sou estéril de moral, de pudor e sobretudo em relação àquilo a que gostam de chamar de amor.
tenho necessidade de me sentir suja. prendo o cabelo horrorosamente oleoso à cabeça com uma mola amarela e subjugo-me à minha condição...o meu corpo liberta um odor a carapau frito misturado com todo o nojo que me rodeia.
tenho necessidade de me sentir suja. prendo o cabelo horrorosamente oleoso à cabeça com uma mola amarela e subjugo-me à minha condição...o meu corpo liberta um odor a carapau frito misturado com todo o nojo que me rodeia.
quando começo a sentir a fraqueza dos homens, entre uivos e esperma, assalta-me um desejo irreprimível de vomitar de desespero. no final de tudo,resta saber que jamais alguém me penetrou o espírito.
15 agosto, 2009
de Rita Lucas a Ana Moreira aos vinte e dois dias do mês de julho do ano de dois mil e nove (profundamente inspirado na saudação de Álvaro de Campos a Walt Whitman),
quero que me perdoes a intimidade com que te escrevo estes versos,
sobretudo pedir-te perdão pela superficialidade da língua humana, incapaz de tornar esta tosca tentativa de homenagem à pessoa que és numa ode à personificação da beleza humana que desconheces ser.
quero que me perdoes a intimidade com que te escrevo estes versos,
sobretudo pedir-te perdão pela superficialidade da língua humana, incapaz de tornar esta tosca tentativa de homenagem à pessoa que és numa ode à personificação da beleza humana que desconheces ser.
hoje quero dizer-te que te adoro, que te admiro, que te idolatro, que te amo, talvez...
hoje quero vergar-me perante ti e esfrangalhar os joelhos na calçada que tu pisas, entrando numa procissão em tua honra que só terminará no dia da minha morte.
às vezes ponho-me a imaginar que odor terá a tua pele, o teu cabelo, a tua roupa...rendo-me perante os mil perfumes que penetram as minhas narinas, na tentativa de encontrar um equilíbrio discreto entre canela e rosmaninho.
oh meu bem, por favor, não me tomes por louca, quando violo mil telas com o perfil do teu corpo nu, não confundas este acto de amor com o ordinário desejo sexual que nele não tem lugar!
hoje pretendo desafiar a 9ª sinfonia de beethoven com recurso à oração erudita solta pelas tuas cordas vocais!
hoje quero cantar o fado de coimbra, oh! o triste fado dessa cidade de amores perpétuos, quero cantar-to à viola por baixo da tua janela!
hoje vou levar-te ao teatro, vou morrer em palco, meu amor, morrer depois de proclamar o meu delírio por ti, depois de declamar em verso todo o meu fascínio, toda a minha admiração, a minha tragédia, talvez...
hoje quero vergar-me perante ti e esfrangalhar os joelhos na calçada que tu pisas, entrando numa procissão em tua honra que só terminará no dia da minha morte.
às vezes ponho-me a imaginar que odor terá a tua pele, o teu cabelo, a tua roupa...rendo-me perante os mil perfumes que penetram as minhas narinas, na tentativa de encontrar um equilíbrio discreto entre canela e rosmaninho.
oh meu bem, por favor, não me tomes por louca, quando violo mil telas com o perfil do teu corpo nu, não confundas este acto de amor com o ordinário desejo sexual que nele não tem lugar!
hoje pretendo desafiar a 9ª sinfonia de beethoven com recurso à oração erudita solta pelas tuas cordas vocais!
hoje quero cantar o fado de coimbra, oh! o triste fado dessa cidade de amores perpétuos, quero cantar-to à viola por baixo da tua janela!
hoje vou levar-te ao teatro, vou morrer em palco, meu amor, morrer depois de proclamar o meu delírio por ti, depois de declamar em verso todo o meu fascínio, toda a minha admiração, a minha tragédia, talvez...
oh!quantas são as vezes que me perco a olhar para os combóios e a imaginar o dia em sairás de uma qualquer carruagem e virás abraçar este verme sonhador que porá tudo o que lhe pertençe nesse abraço?
ouve-me Ana: tu sabes que eu, Rita Lucas, a hipérbole do sentir, não sou tus amiga nem tão pouco tua confidente, eu sou tua se assim o desejares, minha querida Ana. sou tua desde a raíz do meu cabelo à raíz da minha alma.
e por isso peço-te, mata comigo estes filhos da puta, estes oleosos, estes pseudo-liberais. mata comigo este mundo de gente analfabeta com canudo! vem comigo por esse Portugal fora! vem comigo dessenterrar o Eça, acordar o Camões, mandar uma piada ao Gil! dá-me a mão, Ana Moreira, façamos justiça, política e literatura com classe!
loucura, insesatez, audácia, chamai-lhe o que quiserdes!
Deus teme as consequências dos nossos actos.
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