18 junho, 2010

hoje os ponteiros vão abraçar-se e a noite vai durar para sempre. só hoje, preciso que me arranques de mim e me conduzas através desses jogos de sedução ocos que só nos levarão ao orgasmo final. oh pedaço de ternura de que não me ouso desfazer! faz de mim o porto de abrigo dos teus sonhos eróticos! penetra-me com todos  os eufemismos do teu credo! suplanta-me com os disfemismos do teu fado e permite-me morrer na hipérbole desta intemperança voluptosa! esta gradação que de mim se apodera quando o teu corpo na minha alma toca com os dedos sujos do regozijo das outras, faz-me desejar agarrar a monogamia e prender-te em mim! 
já devia saber que, juntos, somos um oxímoro ignóbil.

15 maio, 2010

tudo em ti é efémero, excepto o encanto que a mim atiras sem dó nem piedade. tomara que as ruas desta cidade não tivessem perpetuado o nosso amor, doçura, era tudo tão mais fácil se se tivesse dissipado o teu odor da minha epiderme e se com ele tivessem morrido as palavras que teimam em permanecer. não há como escapar deste desejo ardente que me percorre incessante quando em ti os meus olhos posam.quiçá um dia pares com esta sedução oca que só adia o fim por mais um dia.                                                                   

14 maio, 2010

-posso abraçar-te?
-eu sou de vidro.
-eu abraço-te com jeitinho.
-tenho medo.
-medo?
-de me estilhaçar nos teus braços.
-se esse é o teu único fim, ao menos que seja comigo.

02 maio, 2010

é de mim ou tudo isto não passou de álcool em forma de gente? e o que restou foi um bafo intenso a vinho velho que me repugna e me faz desejar não ter dado tudo por mais um gole. embriaguei-me de ti e agora que já não estás aqui para me puxares o vómito, vou molhando a garganta com o que restou dos copos dos outros. todos os outros que vão abraçando comigo as garrafas de gim em noites como esta.

16 abril, 2010

hoje minh'alma está sedenta de palavras e romance. a minha líbido faz pressão sobre o meu clitóris e todo o universo que me rodeia se transforma em pornografia e excitação. os preliminares desta odisseia de carne e prazer são as palavras e o romance, preciso de agarrar esses espasmos da língua humana com a mesma força com que prendo o corpo do homem que me deixa o sexo molhado. tenho necessidade de ser acariciada e amada com a mesma intensidade com que me penetras vezes sem conta.
quiçá num dia como o de hoje percebas que esse verbo não soa bem com um pronome possessivo.

22 março, 2010

hoje dei por mim na tua cama. só deus sabe ao tempo que não me deitava nua nesses lençóis de flanela manchados com os orgasmos das tuas amantes. mas a carne humana é fraca e o institinto é estéril de auto-estima, portanto aqui estou eu, subjogada a este jogo ordinário de prazer e romance. é acutilante a intensidade com que me penetras, com que te apoderas do meu corpo, qual mero pertence teu. 
um dia, em lugar de arfar, mordo-te o pescoço.

04 março, 2010

a plenitude do ser humano começa com a plenitude entre o corpo e a alma. o meu corpo sua, defeca, urina, produz muco ao nível respiratório, fica lubrificado ao nível dos genitais, contém uma camada de pêlos em quase toda a sua superfície e, no entanto, o meu corpo é o meu sítio preferido. amo-me na minha plenitude apesar de não deixar de pôr em causa tal dogma quando coloco desodorizante nas axilas,  quando faço questão de trancar a porta da casa de banho quando descarrego os intestinos e a bexiga, quando tento emitir o mínimo de ruído possível ao assoar-me, quando me masturbo, escondida, como se de um crime se tratasse ou  quando me depilo. são actos que tu, pudica sociedade, me impuseste a fim de construir esse teu pudico império.

16 fevereiro, 2010

morri com os seios rijos e o cu empinado. no entanto, o whisky continua intacto, o corpete preto permanece engomado em cima dos lençóis de seda vermelhos e ninguém se lembrou de desligar a água da banheira. não deste tempo sequer de me despedir deste mundo cão que me arrancou o clitóris aos treze num casa de banho pública. foste tão ordinário.

14 fevereiro, 2010

sabes que mais? o meu corpo vale a pena.

23 janeiro, 2010

Biografia - Parte I

A nameless nasceu da minha necessidade ordinária de me sentir incógnita. Julgo que ela em nada se assemelha ao meu eu quotidiano. Ela é a personificação do desespero, uma sombra do mais primitivo e pornográfico que em mim habita. Poderia aplicar-lhe uns quantos adjectivos que a iriam descrever na perfeição, porque, afinal de contas, fui eu que a criei. Podia, mas não quero. Ela é fruto de um mero encadeamento psicológico numa realidade que me enoja.  Foi este ódio exacerbado pelo mundo, esta febre de me encontrar que levou a que tivesse a alucinação devida. Nameless trying to be Someone ou, como inicialmente se iria chamar,  Rosário Branco, guia-se pelos princípios do desrespeito, da heresia, da cobardia.

Findava o ano de 1960 e, algures entre o Douro e Minho, estava para nascer aquela que viria a ser a nona filha de Carolina Mateus Dias. O dia 7 de Dezembro trouxe Rosário ao mundo, por entre o desespero da sua mãe, encontrada horas mais tarde do parto desmaiada por detrás da  igreja. Herdou o apelido de Fernando Luís Branco, defunto fazia quatro dias, apesar deste não ter sido o responsável por emprenhar a sua mãe. Filha de pai incógnito e mãe dada aos prazeres carnais, Rosário cedo se começou a distanciar de casa, passando longas temporadas em Peniche com uma tia velha cuja vida se reduzia a uma religiosidade doentia. Quando regressava à aldeia, encontrava a sua mãe cada vez mais gasta, farta dos caprichos dos homens e dizendo até amanhã aos dias. Aos oito anos viu-se sozinha: a mãe morreu durante o acto, com a cara tapada por um saco de plástico e os peitos queimados com pontas de cigarro, a tia, essa, mudou-se para o Convento de Santa Teresa, de onde não poderia sair nem por onde poderia receber ninguém. Corria o ano de 1968 quando Rosário Branco foi acolhida pela irmã Cristina de Caldas, passando a viver num colégio interno de meninas órfãs. Aí viveu a infância que nunca tinha conhecido, apesar das regras apertadas, Rosário pôde conhecer outras raparigas cuja vida não lhes  havia sorrido. Certo dia, tinha Rosário acabado de completar 12 anos, ousou questionar em voz alta a justiça divina: passou 39 dias (o número de livros do Antigo Testamento) isolada num quarto a comer uma única refeição, de pão e água, a cada 12 horas. Fugiu do Colégio três dias após o enclausoramento. Como tinha um corpo desenvolvido de mais para um menina de 12 anos, deram-lhe 14 primaveras na estação de combóios, o que lhe permitiu viajar até Coimbra. Gostava da cidade. Ouvira as irmãs sussurarem a história de um Pedro e de uma Inês, cujo amor trágico se dera perto de um rio chamado Mondego. Queria conhecer Coimbra, apoderar-se do rio que lhe consumia a imaginação e ser, por fim, feliz.
(...)

16 janeiro, 2010

calem-se!
não me apregoem sentenças,
não me imponham crenças
não se dirijam a mim.
o meu fado é o de um verme
cuja terra do cemitério é o seu fim!
calem-se!

22 dezembro, 2009

falta ousadia!
escassa gente audaz!
gente capaz de engolir o mundo de um trago!
gente cuj'alma ambicione mais do que um espírito castrado!
aos invés dessa utópica irmandade,
as mães continuam a parir nados estéreis de vontade!
oh púdicos corpos!
parai de condenar a história,
pois vós sois os náufragos sem bóia
a emergir num mar de anticorpos!
desprezo a vossa ciência,
a tarefa hercúlea da tecnologia,
para mim tais avanços não passam de demência,
condenada fantasia!

10 dezembro, 2009

de uma forma ou de outra gosto de pensar que, um dia, em lugar de ser eu a dar a volta ao mundo, será o mundo a dar em mim umas quantas voltas.
cessaram os vómitos. sou por fim grande na minha pequenez.

24 novembro, 2009

Poeta

ah! como eu te invejo ó poeta!
invejo essa tua rima de algibeira
esse cansaço ocioso que te mata em cada hipérbole,
essa tua alma inquieta!
tomara sofrer dessa insatisfação crónica,
tomara poder perpetuar minh'alma num fervor de papel e caneta!
e poder ser múltipla sendo inteira!
tomara ser tu ó poeta!
poeta que, em jejum, engole o mundo de um trago
poeta que, carente de amor, a tudo ama
poeta, personificação dos sentidos, que nada sente senão no papel.
poeta, meu poeta casto e puritano, enche-me do teu lirismo e da tua humanidade e acaba com esta minha existência literalmente animalizada.

07 novembro, 2009

-porquê esse enorme fascínio pelo mundo da prostituição?
-é o mais podre da condição humana.
-sim, mas não o condenas?
-o corpo é teu, a carne é humana.
-e a alma? não conta nada no meio dessa dicotomia ordinária?
-a alma é um capricho que só alguns têm o direito de exigir.
-e a ética, a moral? também gozam de exclusividade?
-essas morrem no dia em que te convidar a dormir no meu leito.