hoje entraste no quarto e não bateste à porta
foi a primeira vez que não bateste à porta
entraste e atiraste com a roupa para dentro do armário
foi a primeira vez que abriste o meu armário
deitaste-te nua a meu lado
fingi dormi
não tentaste acordar-me
as tuas pernas tocavam as minhas e embriagavam a minha líbido
a ponta dos teus seios desenhava mil encantos na pele das minhas costas e os teus lábios percorriam o meu pescoço sincronizados com a oração da tua respiração
hoje dei por mim a pedir a deus que não permitisse que me masturbasse
hoje foi a primeira vez que as tuas mãos o fizeram por mim
06 setembro, 2010
01 setembro, 2010
não suporto mais o odor deste quarto. sinto-me febril. a minha epiderme cobre-se de suores nocturnos e nódoas negras e chagas e sinais do tempo e do destino. sou uma puta triste e apaixonada e não há pior no mundo do que uma puta apaixonada. lembro-me incessantemente do tempo em que percorria a calçada desta cidade sedenta de uns braços que me envolvessem, sedenta de carne humana numa alma animal que me fizesse viver os mil e um pecados da luxúria. um qualquer corpo que me tomasse como um capricho mudo nuns quaisquer lençóis lavados. depois apanhava a roupa do chão, mudava os lençóis e fazia a cama como se nada tivesse acontecido ali, como se tudo aquilo não passasse de um espasmo de insanidade erótico numa realidade imaginária.
mas hoje, hoje o erotismo morreu em mim. morreu quando esta febre crónica se apoderou deste corpo demasiado cansado. hoje tive mil convulsões e náuseas e um ardor tal que desejei largar-te de vez e voltar ao orgasmo fácil numa realidade não tão doentia quanto esta.
12 julho, 2010
larguem-me! que raio faço eu aqui? onde estão os lençóis? e a janela? porque está aberta a janela? o meu corpo jaz sobre a retrete e perdi a minha líbido algures neste compartimento! mas larguem-me, eu quero perceber! onde está o corpo que tomei como meu? onde estão as mãos embriagadas que percorriam os meus seios em busca de sobridade? e a janela? fechem essa janela de vez! tenho os ossos partidos, o meu corpo não é agora senão um saco de pele e fel e cera e sangue e excrementos e lágrimas e óleo e esperma e...larguem-me por amor de deus, larguem-me! cremem-me a alma se não me pretendem elucidar sobre o que se passou aqui! quantas vezes penetraram o meu corpo sem eu dar por nada? digam-me, filhos da puta! digam-me quantas não foram as vezes que morreram em mim espasmos de amor? quantas não foram as vezes em que despi corpos sendentos de que lhes fosse concedido o desejo de alguém lhes despir a alma? larguem-me! atirem esse corpo para debaixo da terra e fechem a janela! ninguém tem de saber de nada.
28 junho, 2010
morre! morre! morre!
morre besta personificada em carne humana!
morre num esgar de dor como nenhum outro!
morre lentamente num êxtase mudo!
morre! oh chaga eterna!oh cicatriz tamanha!oh nirvana inatingível!
morre hóspede sem convite!
morre romance cru, pornográfico!
morre em mim e espalha as cinzas pelo divã escarlate, as minhas estão à tua espera na carpete.
morre besta personificada em carne humana!
morre num esgar de dor como nenhum outro!
morre lentamente num êxtase mudo!
morre! oh chaga eterna!oh cicatriz tamanha!oh nirvana inatingível!
morre hóspede sem convite!
morre romance cru, pornográfico!
morre em mim e espalha as cinzas pelo divã escarlate, as minhas estão à tua espera na carpete.
18 junho, 2010
hoje os ponteiros vão abraçar-se e a noite vai durar para sempre. só hoje, preciso que me arranques de mim e me conduzas através desses jogos de sedução ocos que só nos levarão ao orgasmo final. oh pedaço de ternura de que não me ouso desfazer! faz de mim o porto de abrigo dos teus sonhos eróticos! penetra-me com todos os eufemismos do teu credo! suplanta-me com os disfemismos do teu fado e permite-me morrer na hipérbole desta intemperança voluptosa! esta gradação que de mim se apodera quando o teu corpo na minha alma toca com os dedos sujos do regozijo das outras, faz-me desejar agarrar a monogamia e prender-te em mim!
já devia saber que, juntos, somos um oxímoro ignóbil.
15 maio, 2010
tudo em ti é efémero, excepto o encanto que a mim atiras sem dó nem piedade. tomara que as ruas desta cidade não tivessem perpetuado o nosso amor, doçura, era tudo tão mais fácil se se tivesse dissipado o teu odor da minha epiderme e se com ele tivessem morrido as palavras que teimam em permanecer. não há como escapar deste desejo ardente que me percorre incessante quando em ti os meus olhos posam.quiçá um dia pares com esta sedução oca que só adia o fim por mais um dia.
14 maio, 2010
02 maio, 2010
é de mim ou tudo isto não passou de álcool em forma de gente? e o que restou foi um bafo intenso a vinho velho que me repugna e me faz desejar não ter dado tudo por mais um gole. embriaguei-me de ti e agora que já não estás aqui para me puxares o vómito, vou molhando a garganta com o que restou dos copos dos outros. todos os outros que vão abraçando comigo as garrafas de gim em noites como esta.
16 abril, 2010
hoje minh'alma está sedenta de palavras e romance. a minha líbido faz pressão sobre o meu clitóris e todo o universo que me rodeia se transforma em pornografia e excitação. os preliminares desta odisseia de carne e prazer são as palavras e o romance, preciso de agarrar esses espasmos da língua humana com a mesma força com que prendo o corpo do homem que me deixa o sexo molhado. tenho necessidade de ser acariciada e amada com a mesma intensidade com que me penetras vezes sem conta.
quiçá num dia como o de hoje percebas que esse verbo não soa bem com um pronome possessivo.
quiçá num dia como o de hoje percebas que esse verbo não soa bem com um pronome possessivo.
22 março, 2010
hoje dei por mim na tua cama. só deus sabe ao tempo que não me deitava nua nesses lençóis de flanela manchados com os orgasmos das tuas amantes. mas a carne humana é fraca e o institinto é estéril de auto-estima, portanto aqui estou eu, subjogada a este jogo ordinário de prazer e romance. é acutilante a intensidade com que me penetras, com que te apoderas do meu corpo, qual mero pertence teu.
um dia, em lugar de arfar, mordo-te o pescoço.
04 março, 2010
a plenitude do ser humano começa com a plenitude entre o corpo e a alma. o meu corpo sua, defeca, urina, produz muco ao nível respiratório, fica lubrificado ao nível dos genitais, contém uma camada de pêlos em quase toda a sua superfície e, no entanto, o meu corpo é o meu sítio preferido. amo-me na minha plenitude apesar de não deixar de pôr em causa tal dogma quando coloco desodorizante nas axilas, quando faço questão de trancar a porta da casa de banho quando descarrego os intestinos e a bexiga, quando tento emitir o mínimo de ruído possível ao assoar-me, quando me masturbo, escondida, como se de um crime se tratasse ou quando me depilo. são actos que tu, pudica sociedade, me impuseste a fim de construir esse teu pudico império.
16 fevereiro, 2010
morri com os seios rijos e o cu empinado. no entanto, o whisky continua intacto, o corpete preto permanece engomado em cima dos lençóis de seda vermelhos e ninguém se lembrou de desligar a água da banheira. não deste tempo sequer de me despedir deste mundo cão que me arrancou o clitóris aos treze num casa de banho pública. foste tão ordinário.
14 fevereiro, 2010
23 janeiro, 2010
Biografia - Parte I
A nameless nasceu da minha necessidade ordinária de me sentir incógnita. Julgo que ela em nada se assemelha ao meu eu quotidiano. Ela é a personificação do desespero, uma sombra do mais primitivo e pornográfico que em mim habita. Poderia aplicar-lhe uns quantos adjectivos que a iriam descrever na perfeição, porque, afinal de contas, fui eu que a criei. Podia, mas não quero. Ela é fruto de um mero encadeamento psicológico numa realidade que me enoja. Foi este ódio exacerbado pelo mundo, esta febre de me encontrar que levou a que tivesse a alucinação devida. Nameless trying to be Someone ou, como inicialmente se iria chamar, Rosário Branco, guia-se pelos princípios do desrespeito, da heresia, da cobardia.
Findava o ano de 1960 e, algures entre o Douro e Minho, estava para nascer aquela que viria a ser a nona filha de Carolina Mateus Dias. O dia 7 de Dezembro trouxe Rosário ao mundo, por entre o desespero da sua mãe, encontrada horas mais tarde do parto desmaiada por detrás da igreja. Herdou o apelido de Fernando Luís Branco, defunto fazia quatro dias, apesar deste não ter sido o responsável por emprenhar a sua mãe. Filha de pai incógnito e mãe dada aos prazeres carnais, Rosário cedo se começou a distanciar de casa, passando longas temporadas em Peniche com uma tia velha cuja vida se reduzia a uma religiosidade doentia. Quando regressava à aldeia, encontrava a sua mãe cada vez mais gasta, farta dos caprichos dos homens e dizendo até amanhã aos dias. Aos oito anos viu-se sozinha: a mãe morreu durante o acto, com a cara tapada por um saco de plástico e os peitos queimados com pontas de cigarro, a tia, essa, mudou-se para o Convento de Santa Teresa, de onde não poderia sair nem por onde poderia receber ninguém. Corria o ano de 1968 quando Rosário Branco foi acolhida pela irmã Cristina de Caldas, passando a viver num colégio interno de meninas órfãs. Aí viveu a infância que nunca tinha conhecido, apesar das regras apertadas, Rosário pôde conhecer outras raparigas cuja vida não lhes havia sorrido. Certo dia, tinha Rosário acabado de completar 12 anos, ousou questionar em voz alta a justiça divina: passou 39 dias (o número de livros do Antigo Testamento) isolada num quarto a comer uma única refeição, de pão e água, a cada 12 horas. Fugiu do Colégio três dias após o enclausoramento. Como tinha um corpo desenvolvido de mais para um menina de 12 anos, deram-lhe 14 primaveras na estação de combóios, o que lhe permitiu viajar até Coimbra. Gostava da cidade. Ouvira as irmãs sussurarem a história de um Pedro e de uma Inês, cujo amor trágico se dera perto de um rio chamado Mondego. Queria conhecer Coimbra, apoderar-se do rio que lhe consumia a imaginação e ser, por fim, feliz.
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