02 janeiro, 2012

"Nos meus sonhos, encontro uma felicidade em estado puro"


Esperava pela elevação da sua voz, à medida que o sangue escorria pelas minhas costas. Um sangue quente, acabado de retirar do corpo morto, deixado na rua mais civilizada de toda a cidade. A minha máscara preta escondia uma parte do rosto, os olhos de tons azulados. A essência da alma deturpada por pecados carnais, acumulados ao longo dos anos. 
Nos meus sonhos, encontro uma felicidade em estado puro para ser despejada sobre os meus cabelos. Na fantasia desenhada pela minha mente, esses mesmos cabelos adquirem uma cor ruiva ou, na pior das hipóteses, um vermelho berrante que tem o dom de chamar a atenção a qualquer um que passa nas ruas estreitas. A fome de atenção acaba por ser aliviada em poucos segundos, os olhares desaprovadores, os sorrisos diabólicos com segundas intenções e os dedos indicadores a apontar na minha direcção saciam toda a ausência de amor que vou acumulando ao longo das minhas existências. Nos meus sonhos, consigo dar uso ao meu poder interior, espalhar um pouco de brilhantes pela rua (num drama digno de um filme rasco da série B, se conseguir ter alguma classificação) enquanto ajeito os cabelos vermelhos, não deixo que a falta de qualidade seja um dos factores presentes nestas elevações do corpo. O pathos provocado pelo sonho é muito mais eficaz do que aquele que Eisenstein pretendia com o seu cinema, ao construir técnicas de montagens com emoções à mistura de dois lados. As montagens elaboradas durante o sono ou quando se caminha na rua em pleno dia conseguem elevar o espírito muito mais além, o ser humano experimenta deixar os músculos, ossos, boca para assistir a uma acção mais promissora, pormenorizada.
Fechei os olhos e senti a carne macia dos teus lábios, com o desejo de a rasgar e triturar com a minha própria boca. Existiria algum pedaço da tua alma no pedaço destruído? Misturado com as pequenas gotas de sangue? Deixo e continuo a beijar-te, transmitindo arrepios a todas as partes do corpo, chorando de melancolia numa mistura com o êxtase. Duas sensações supostamente incompatíveis que alimentam o meu futuro suicídio. A máscara continuou no meu rosto, nesse momento trágico.
Não tenho sentido de estilo, mas tenho bom gosto. O fatal estilo que se encontra em decadência nos dias que correm graças à falta de pensamento em todos os pequenos seres, nascidos nos finais da geração de noventa e restante. Uma falta de estética, unhas roídas que arranham tábuas destruídas, corrompidas por filosofias com carácter duvidoso. Tábuas que se alimentam de tons fabricados para as massas, com um composições simples e sem grandes complexidades, que comem livros sem histórias dignas salvação. Nos meus sonhos, existe uma pureza inexplicável em todas pessoas. Uma cor saliente na pele, um toque suave em todas as mãos, uma delicadeza ao caminhar. Todas as vozes elevam-se aos céus, como se esse lugar fosse o destino final de todas as almas. Quando se escuta um canto morre-se durante alguns minutos, não são necessárias facas para cortar corações. Assassinos não são chamados, cabeças não são deixadas em cima de uma pista de dança. Nos meus sonhos encontro a felicidade que ando à procura na realidade, a emotividade ausente em qualquer coração, a racionalidade em poucas quantidades ao contrário do que se verifica. Desenho um sorriso no rosto quando chove torrencialmente. Deixo os sonhos falarem mais alto, em quase todos os momentos.
Os meus próprios desejos interrompiam a minha circulação, não sabia em que tempo verbal falar. Os meus dedos agarraram o teu pescoço e a minha máscara caiu no chão sujo. Ambiciono retirar-te a vida, sugar os sentimentos que dançam no teu corpo. Mas a minha falta de coragem é superior, viajo demasiadas vezes e não sou capaz de atirar-me contra o comboio que ressoa a sua presença com a buzina.  Os meus desejos são dinamites, todos os dias sinto-os como se fossem pequenos doces.

20 dezembro, 2011

Um cansaço a circular pelos dedos e a acumular-se nas vivências,


O cansaço acumulava-se no peso das vivências e circulava pelos meus dedos, à medida que o cigarro era consumido lentamente pela minha alma. Os lábios secos pelos dias e noites de Inverno não conseguiam tirar a essência da pequena substância graças aos ardores no meu espírito, transparente para quase todos os corpos que circulam pelo planeta e erram eficazmente quando a questão que enfrentam são as relações humanas. Sentado à janela, com os estoures quase levantados (em que não se via os pormenores deles), respirava o fumo para os vidros gelados. A neve que caia não tinha capacidade de fazer frente ao gelo que envolvia o meu coração. Depois de tantos abandonos, só conseguia pensar que o problema devia ser meu, da minha alma, da minha personalidade, dos meus cabelos, dos meus olhos, dos meus lábios. A frieza e um desprezo por um amor colocado num futuro tão próximo levariam a um afastamento da normalidade dos acontecimentos, nem o cigarro conseguirá aquecer os meus pulmões recheados de poluição alheia. Tenho o coração destruído, tenho-o calmo neste preciso momento como se nada conseguisse conquistá-lo ou destrui-lo, não existe qualquer reacção a um impulso enquanto estou sentado à janela, no meu mundo poderoso e controlado pelas minhas vontades. As depressões chegam mal um dos pés toca na zona fora da caixa, a tentativa de derrotar rotinas leva a essência de muitos para o esgoto. Uma luta por um vazio, quando as ambições são demasiadamente elevadas e a luz ao fundo do túnel desaparece, a primeira pela qual os olhos despertaram. A manta que enrolava as minhas pernas numa temperatura estável apareceu antes de começar a escrever, a ditar os podres da minha existência. Afinal sou demasiadamente introspectivo, penso demasiado em mim, comando a pensar no meu bem e esqueço-me de tudo o resto. Estou bem, estamos todos bem, basta a mente estar dentro deste modo, na individualidade de que todos os seres humanos são e devem ser capazes de conservar, amar e defender. Mas quando o gelo envolveu o meu coração, nem o amor-próprio escapou. Sob as diversas paredes que constroem uma casa, guardo um monstro. O monstro do abandono, que sente profundamente a ausência de diversas almas e pessoas (porque existe uma diferença abismal, se querem saber). Faltam uns segundos lábios, sente-se um “agora não dá” e promessas que foram feitas e conseguem aquecer. Existem os momentos em que não aquecem em que o medo se apodera das veias e desacelera o bombear do sangue. Os momentos de sufoco em que a mão prevalece sobre o peito, na tentativa de acalmar a caixa torácica, todos os órgãos que querem sair da boca. Desaparece em seguida, a confiança adquire as tonalidades do alma. Nunca existiu sentimento mais poderoso à face da Terra.

Solto lágrimas, a aparência do meu rosto desfalece na solidão da minha casa, o cigarro consome-se entre fumo e o arder natural, provocado pela chama minúscula. Essas lágrimas, nascidas da maior podridão, são o reflexo natural das escolhas individuais e alheias. As escolhas dos outros que condicionam e dão novos rumos, para conseguir dançar com os sapatos correctos. O cansaço teimava em acumular-se nos meus pulmões para me destruir, para deixar-me numa morte rápida e sem dor. Pouco me importa como estavam os meus cabelos nesse final de tarde, à medida que via o Sol a desaparecer num horizonte desconhecido, dou mais importância ao estado dos meus sentimentos. À elevação da emoção ao invés da racionalização, quem sabe da emotiva. Passava-me tudo pela cabeça, os beijos trocados, as partilhas efectuadas, a confiança conquista, os orgasmos atingidos. E sentia falta dos beijos e dos orgasmos, uma vez que as outras duas permaneceram. Mas é isso que falta? – Pergunto-me ainda muitas vezes. Beijos e orgasmos arranjam-se ao virar da esquina, se estivermos dispostos a não sentir mais. Vendem-se às prostitutas carnais, se for preciso. Mas é isso que me falta?
O meu coração não aguenta. Sente falta mas precisa de descansar. O Inverno leva-me a dar uma volta, na brisa gelada e no consolo do fogo. O cigarro queimou-se na solidão, entre os meus dedos. Deitei-o pela janela, quando entrou o frio. Os meus lábios ficaram ainda mais secos, os meus cabelos mais esgadelhados mas o meu coração continuou intocável. Intocável, é essa a palavra correcta. Um dia vai morrer e há segundos em que desejo profundamente, em outros faço uma vénia à eternidade. Quem sabe se não o faço à medida que escrevo. Tantas vezes penso que só escrevo merda.

10 dezembro, 2011

As ondas não lavaram a minha alma,



Isto é uma continuação disto. Ela nunca abandonou o meu coração e decidi contar um pouco do depois. Nunca ninguém conta essa parte, pois não?


Não me deixaste morrer, meu Deus, quando as ondas me levaram e lavaram os pés (envelhecidos pelo súbito aceleramento dos acontecimentos). As ondas do mar levaram-me para um lugar distante, geograficamente longínquo para não Te encontrar na tua casa, já que a tua duração na condição de humano duraria alguns anos até o contrato elaborado com o Diabo terminar. A minha mente, ao flutuar na água recheada de sal, entregava-se aos desvairos humanos e básicos que consumiam a minha existência, puxavam o instinto de sobrevivência adormecido em qualquer ser humano que cumpra as suas tarefas diariamente, sem qualquer alteração que faça para o Mundo, o seu mundo monótono. A fome consumia os meus pulmões, apunhalava o meu coração e derretia a alma que teimava em permanecer naquele corpo. Um fogo abrasador, electrificado com arrepios brilhantes e tensos pelo meu pescoço, flamejava e destruía a única verdade que existia: o amor, ao relembrar-me das lágrimas do rosto de Deus e o orgulho que lhe acelerava o sangue nas veias à medida que construía o meu corpo, perfeitamente esculpido com dedicação. Um amor por quem passava delicadamente as mãos pelo meu rosto, enquanto o movimento dos pés no chão de madeira ecoava ritmicamente. O som da música de embalar circulava tremendamente, colocando o planeta num sossego fantasmagórico. O amor apaixonado pelo criador da obra-prima, da escultura de anos. As minhas lágrimas misturavam-se com o gelo do mar, que levou-me para longe. Os meus pés estavam lavados, os meus sapatos envernizados perderam-se no fundo do oceano, nas rochas incapazes de saborearem qualquer raio solar. Os cânticos das sereias ouviam-se, na interrogação pelo desconhecido par que naufragava.

O amor perdeu-se nos dias em que flutuei no vazio. Os meus ossos não davam sinais de vitalidade sempre que os tentava mexer, as minhas lágrimas eram consumidas pelas ondas malévolas e cheias de interesse por uma essência diferenciada por sentimentos humanos, os pulmões pouco ou nada funcionavam graças às baixas temperaturas. O meu cabelo ganhou uma tonalidade cinzenta, o relógio biológico desfazia-se pela ausência de rotina, com pés de avestruz que decidiram correr para longe de mim. O meu amor não sobrevive a um ataque existencial, de todas as vezes que me recordo do segundo em que as ondas me levaram. A força das tuas mãos continuam agrafadas às minhas costas, a tua ânsia em te livrares de mim, quando reparaste que não existia perfeição em mim, derreteu-me a respiração (o motivo da minha sobrevivência). Não soltaste promessas, não colocaste palavras na boca para me aconchegar, unicamente colocaste-me no Mundo para Te encontrares. Um Deus recheado de amor e perdão era a última imagem que desenharia de ti, depois de tudo o que vivi, observei e senti. Os seres humanos nunca foram capazes de elaborar uma imagem tua, nem possuo capacidades para tal feito glorioso (e isso polui-me a alma). Mas os meus olhos conseguiram ver-Te. No corpo humano, nos cabelos claros, brilhantes e no corpo perfeito que apelava por sexo. Um sexo caloroso, recheado de orgasmos pelo meio e uma violência divina. À medida que as ondas me levam, recordo-me dos teus lábios, sôfregos, sólidos e excitados. Carregados de força para possuírem todos os tecidos da minha alma, absolutamente guardada para feitos heróicos. Os feitos de Hércules estavam tão longe de mim e pensava que, no fundo, iria ter algo semelhante a ele, queria tê-lo conhecido. Não esperava pela força que exerceste sobre mim, quando cai para as ondas do mar me levarem. Elas levaram-me, deliciadas pelo cheiro a traição que ficou no ar. Levaram-me e arrastaram-me para um infinito sem definição, graças à falta de conhecimento de qualquer coisa que nunca foi alcançada por uma pessoa. Que nome reles, pessoa. Ou então coisa, porque era isso que eu era, sabem?


Pergunto-me se o amor ainda existe. A minha alma foi lavada de ressentimentos, mágoas, desilusões. Quando é que a força das tuas mãos me vai abandonar? Leva-me contigo, para o teu trono depois das nuvens. Como Zeus, que o Olimpo e todos os deuses que viviam com ele. Como te chamas para além de Deus? Oh, deixa-me morrer então. Oh, deixa. As ondas lavaram-me os pés mas não me lavaram a alma, como seria de esperar.


03 dezembro, 2011

Na sombra do coração,

Esconde-te na sombra do meu coração, para não te encontrar, para não te amar mais uma vez. Esse sentimento repleto de complexidade, de raízes terríveis, não me deixa viver. Não existe a possibilidade de respirar tranquilamente ou de cortar os pulsos com toda a dignidade. Há uns dias não consegui colocar a corda na pele do meu pescoço, não tive coragem suficiente para atirar-me ao mar violento naquele dia recheado de nuvens enraivecidas, não ganhei capacidade de engolir dezenas de comprimidos devido ao peso do meu coração.
Pesou tanto nos segundos fatais que me puxou para trás e trouxe oxigénio de volta aos meus pulmões, parados pelo perigo da paixão e pelas turbulências dos fascínios alheios a qualquer racionalidade. Os meus olhos costumam devorar beleza física num primeiro momento, antes da boca abrir para explorar terrenos longínquos ao olhar humano. Falta-me riqueza de emoções ou então talvez a tenha em demasia - quem sabe, nestes dias tenebrosos? O meu coração pesou tanto nos segundos fatais que acabei por voltar atrás na decisão de terminar com os meus sonhos, de cortar as asas e nadar no meu sangue.
Não te guardo nas sombras do meu coração, tenho demasiados retalhos, escadarias e varandas construídas com desilusões e mágoas ao longo do tempo. Não te guardo nas sombras, coloco-te no lugar mais exposto ao Sol, ao calor da minha felicidade. Sinto os teus pés aconchegados em alguns dos meus músculos e enrolados em qualquer artéria, onde circula o sangue a velocidades extraordinárias, que mantém quente qualquer pedaço do corpo humano. Não faças das minhas sombras um lugar privilegiado, deixa-me colocar-te no devido lugar, onde tantas vezes estou prestes a começar todos os fogos. A tua coroa na minha cabeça puxou-me para trás na hora em que queria deitar no esgoto a minha mortalidade. É amar, é amar em dias tenebrosos e fantasmagóricos, sem ter a ânsia de destruir o teu reino, sem ter vontade de destruir-te. Não te vejo na escuridão a partir do momento em que me sento no trono ao teu lado, não vou desaparecer quando a morte beijar o meu peito.
São fracos, os pobres de espíritos. São loucos, os extravagantes e ricos de emoções quando não sabem controlar. São vulgares, os equilibrados na alma. Vivem felizes.

25 novembro, 2011

Completamente incompleto numa noite normal,

Adormeci no meu quarto, numa noite perfeitamente normal e casual sem qualquer tipo de promessas lançadas para o oxigénio tóxico, característica do ambiente em que caminho e descanso a todas as horas. O amor abandonou-me há algum tempo, sem qualquer intenção de voltar num curto período de tempo para me envolver numa segurança apetecível e deliciosa, acabou por levar as malas com todos os objectos que lhe pertenciam e deixou-me um beijo. Um toque ao de leve nos meus lábios para conseguir o meu espírito conseguir dar a volta por cima, com a intenção de me oferecer um início fora dos meus planos. Veio trazer desorganização ao meu bem-estar, às minhas roupas, ao meu coração e aos meus pulmões, fracos no funcionamento desde a manhã em que regressei ao Mundo. As lágrimas queimaram a pele do meu rosto graças ao suposto sal que contém, passadas centenas de horas decidi chorar para uma garrafa de licor com o intuito de saborear-me quando me sentir sozinho. Naquela noite sem qualquer marcação ou intenção de ocorrer um acontecimento especial, acabei por adormecer em cima dos lençóis brancos e com um cobertor sobre as pernas, os ventos gelados andavam a dar cabo dos meus músculos que se ressentiam cada vez mais do frio nórdico (e psicológico).
Sai do meu corpo na hora em que adormeci com os auscultadores nos ouvidos, com a divina Cat Power e a sua voz melancólica e cansada a ecoar-me por todos os tecidos na alma. As ameaças de destruição interior estavam em cima da mesa, o desastre do passado tombava sobre as minhas pernas e coração, na medida em comparar-se a uma jarra recheada de água prestes a cair para um ser humano. Lábios feridos, cabelos desgrenhados e olhos fechados para uma relação sexual com o meu espírito. Elevei-me acima da minha mente e deitei-me sobre o corpo estendido na cama, esse que tinha falta de cuidados da minha parte. Faltavam-me as lágrimas para chorar a separação espiritual que se manifestava na minha existência, com a visão sobre os meus cabelos castanhos, a boca fechada, o peito parado. Como simples personificação de uma parte da minha existência, sob a forma de espírito, tentava agarrar nas minhas mãos para sentir vivacidade, movimento em alguns segundos mas não restava nada. Começou a chover, os meus ouvidos conseguiram detectar, e o coro do meu funeral fez-se soar, a minha agonia continuava à medida que os ponteiros do relógio se moviam.
Sentei-me à janela, a escutar o que a natureza tinha para me revelar enquanto o som das músicas da Cat Power continuavam a bombear o corpo deitado sobre a cama, sem qualquer espécie de vitalidade. A ausência de lágrimas incomodava, magoava. Tratava-se de incapacidade corporal já que me sentia completamente incompleto, nesta ironia de palavras que utilizava e que arranhavam a minha conduta. Completamente incompleto, com a ausência de um sentido para a vida. A natureza cantava-me frustrantemente, sem entender que as cores da minha alma estendiam-se ao preto, ao branco, ao cinzento. Uma inundação infernal rebolava sobre os tapetes, sorrindo maldosamente e apontado o dedo para mim num tom desaprovador. O amor abandonou-me há tanto tempo, o calor deixou o meu coração, o sangue parou – enumerava à medida que cantarolava para espantar os “males de espírito”, na espera de um beijo que reiniciasse a minha vida. Desta vez seria um início planeado, desejado e nunca apareceria ao contrário do que queria. Tenho tantas saudades de um beijo, este pensamento martelava a minha mente quando a tua figura aparecia de surpresa, a visitar os meus sonhos e os meus pesadelos (amor que é amor conhece todos os lados do ser humano que ama, nem que demore anos para espreitar). À janela continuei a cantar, a espantar tudo o que me fazia mal – incluindo as imagens dos beijos alheios que esse amor dava a terceiros, quartos, quintos se fosse preciso – e as lágrimas nunca apareceram, unicamente o vazio que martelava a existência. O corpo morto em cima da cama nunca se mexeu, dentro da normalidade. Não lhe restava nada, apenas a música que ecoava graças aos auscultadores.
Quando um dos meus progenitores apareceu à porta do meu quarto, não me mexi tal como o corpo estendido, a voz dela começou a elevar-se por nascerem pensamentos com raízes venenosas na sua mente. E num acesso de fúria tocou-lhe, tocou-me, sem pressentir vida. Um revestimento de pânico cobriu a voz melancólica, o acesso de raiva desapareceu subitamente e os seus braços enrolaram o meu corpo. Assistia plenamente a tudo, com um copo na mão. O copo que continha uma boa porção do meu sangue. Seria essa a forma de fazer amor comigo, saborear o meu sangue vermelho à medida que um ataque de pânico revestia o quarto. Os coros do funeral continuavam e faziam-me fungar, uma vez que lágrimas nunca apareceriam. Quando esse líquido vital entrou por todos os meus tecidos, cai numa espécie de lógica misturada com algum nível de emoção e sai da janela, ajoelhando-me ao lado do meu corpo.
Volta, meu amor. Que fizeste a ti próprio? Volta, volta para mim. – Os braços delas continuavam a embalar-me, com a mágoa a inflamar as cordas vocais na noite perfeitamente normal e sem qualquer acontecimento programado. Ajoelhei-me ao lado do meu corpo e rezei, como nunca o tinha feito. Rezei para regressar completamente renovado, como se me tivessem beijado apaixonadamente. Os arrepios voltaram, balançavam toda a minha existência. Quando o ar voltou ao corpo, abri os olhos e estava ofegante, com braços à minha volta. Onde estavas? Onde estavas, meu estúpido? - Perguntava-me com amor sob a forma de raiva. Não faço ideia, acho que voltei a nascer.
Cat Power continuou a tocar, a chuva continuou lá fora, a minha progenitora saiu para libertar o medo na casa de banho e o amor abandonou-me. É uma noite normal, como pensei.

20 novembro, 2011

Colaborações (durante a tarde),


Deixo-vos o meu artigo sobre a minha querida Florrie, artista que já tinha mencionado, no Pfashion Royalty. Deliciem-se, meus caros.

E tenham uma óptima semana!



17 novembro, 2011

O canto às desistências temporárias: o início,


Não senti a minha pele no momento em que os olhos tentaram registar e gravar algum tipo de vivacidade no meu quarto, as minhas mãos encontravam-se longe do peito, dos pés, dos olhos ou de qualquer outra zona do meu corpo, descuidado por anos de caça. Na tentativa de guardar a mais pura das naturezas e raízes do amor, os meus pulmões começaram a morrer e a desfazer-se dentro do corpo para dar origem a uma doença crónica, sem qualquer tipo de hipótese de tratamento pela medicina tradicional ou quem sabe moderna (já que todas as ciências estão em constante mudança). Uma doença criada com uma obsessão que dava impulsos eléctricos a todos os meus músculos. Quando tinha desejos relacionados com morte ganhava mais vida e rodopiava nesta existência viciosa, sem qualquer hipóteses de sobreviver.
No dia em que comecei a escrever esta simples memória não me lembro de sentir a minha pele nos segundos iniciais, fugindo a um ritual tão gravado nos meus hábitos elaborados com o passar dos anos. Devia ter algum tipo de alerta biológico, uma simples paragem de segundos da circulação sanguínea ou a falta de batimentos no coração, que me levassem a percepção deste acto, esta ausência de rotina logo pela manhã – tão valorizados e tão glorificados são os hábitos que construi à volta da minha existência, como se fossem uma marca para a minha personalidade. O problema seguinte, que se colocou à volta desta falta de toque na minha própria pele (no meu corpo) foi o relaxamento nas manifestações de amor-próprio, da certa paixão física e individual que experimentava de todas as vezes que os meus dedos passavam pela minha cintura, mal os meus olhos castanhos visualizam algum tipo de luz, tão ausente enquanto o meu quarto se encontra às escuras. Os dedos não deslizaram pelos meus lábios, pressentindo as inseguranças no queixo demasiado puxado para a frente. A língua não tocou em um dos dedos para manifestar a sua presença, não houve oportunidade de dar a entender os benefícios do sentido que possui. As minhas mãos permaneceram esticadas enquanto a minha cabeça repousava na almofada, os cabelos estavam manchados com restos de tinta azul em tons escuros (a última tentativa de pintar os cabelos não tinha corrido bem e a qualidade do material quer capilar quer do produto de pintura não eram com certeza excelentes). Não existiu um toque pessoal nas primeiras horas da manhã, um simples remexer para pressentir vida em todas as outras zonas do corpo – a preguiça transformou-se na dama de honra, transformando anos de cuidado em pleno lixo espiritual. O dramatismo subia com intensidade pelas minhas pernas à medida que colocava o leite dentro de uma taça, com intenção de misturá-lo com cereais logo pela refeição inicial de um novo dia – o slogan de saúde estava longe de fazer parte das minhas intenções, mal acabei de escrever esta frase. Enumero dois problemas que afligiram a minha alma, a quebra de rotina por mais simples que possa ser e o pequeno indício de falta de amor individual. (Salvem-me, meus caros seres humanos, um dia vou afundar-me na minha loucura já que se vai ganhando cada vez mais dimensão).
A doença começou quando a caça natural fez-se pressentir nos meus ossos arruinados futuramente por alguma doença herdada geneticamente. A dança inicia-se de todas as vezes em que a sala de espectáculo silencia-se ou escurece, a leitura de um livro começa quando a segunda pessoa escuta e o amor estreia-se quando o coração pressente. A doença começou quando essa estreia se originou de uma forma natural, num sábado à tarde. A segunda pessoa que haveria de tornar-se primeira graças a muitas demonstrações e declarações, gravadas para sempre num passado que se encontra registado na minha memória.
Oh, a doença! Assim como troco de sapatos acabo por quebrar um coração destinado a ganhar conhecimento com a minha existência, plenamente planeado e detalhado nos confins de algum lugar espiritual. A doença manifestou-se em muitas memórias anteriores, as palavras eram camufladas e conseguiam iludir-me. Mas hoje não consigo escrever sobre essa doença.
Quem sabe, amanhã. Hoje é noite de fazer amor com o meu corpo, uma vez que a alma se mantém intacta dentro de todos os meus órgãos. Politicamente incorrecta de se tocar mas completamente em liberdade para se fazer sentir ou pressentir. Toco na minha mão, neste momento e digo-vos que desisti do amor. Canto-vos essa conclusão, harmonia, pesadelo, sonho. Desisti e não volto a caçar, quem sabe daqui a uns anos.

12 novembro, 2011

Os loucos de espírito fazem amor com o próprio corpo,

O vento alcança os meus cabelos, massajando-os e cuspindo neles num rodopio malandro que me leva a ganhar um pouco mais de rugas de expressão. Quando tal fenómeno acontece, o simples plantar das rugas de expressão de indignação ou mesmo de felicidade, cai na minha alma o caminhar do tempo e a falta de vivência que posso estar a ter nos minutos que passaram e que vão passando à medida que penso no assunto. Trata-se de suposições, dúvidas que inflamam as minhas veias à medida que os pensamentos vão inundando a minha mente, a cada minuto e não há forma de carregar no botão de paragem para evitar um acidente de ondas dentro da minha cabeça. O vento vai continuando a massajar os meus cabelos com os lábios suaves, cuidados graças a uma operação violenta à pele (como se qualquer brisa conseguisse ter pele, as minhas divagações vão acabar por matar-me um dia).

Os meus braços encontram-se cansados de ver o mundo na primeira pessoa, de elaborar o meu estilo artístico na individualidade e na visão dos meus olhos castanhos de tons escuros. Nos momentos em que suporto o peso do (meu) mundo não consigo pensar em mais ninguém a não ser em mim, não vejo amor em qualquer segundo ser humano. Demasiado egoísta para usar o acessório de amigo a combinar com as minhas roupas, demasiado egocêntrico para mudar qualquer valor no meu planeta, nunca vou ser capaz de o melhorar. Os desejos percorrem os nervos faciais, irritando a pele morena do meu rosto bronzeado na tarde de domingo (naquele Verão em que trocámos demasiados beijos e juras eternas de amor que nunca vou quebrar), os desejos individuais e desnecessários. Se quero dançar no meio da minha casa coloco um impedimento na minha acção, como se tivesse mil olhos a julgar e a percorrer o meu corpo. E talvez seja essa a minha morte, daqui a alguns anos. Se o suicídio passar pelo meu coração, numa fase aparentemente excêntrica (é este o adjectivo que me faz pensar no quão difícil é conviver comigo mesmo nas tardes em que não existe absolutamente nada para fazer, quero apertar o meu próprio pescoço e fazer amor com o meu corpo, quero um segundo corpo para puder dar asas às minhas obscenidades), se a morte sorrir para a minha existência vou ter os mil olhares na minha mente e o medo vai apoderar-se da minha acção. Segurança, diriam algumas verdadeiras amigas estivessem a ler o que escrevo. Falta segurança nas minhas acções, acusaria uma delas na sua voz suave e melancólica, no mais pequeno pormenor até ao desenrolar da vida. Talvez seja por isso que me custa escrever cada vez mais escrever na primeira pessoa, existe uma insegurança apegada à vulgaridade existente na minha existência. Os meus braços encontram-se cansados de ver o mundo na primeira pessoa mas não querem passar essa tarefa para uma segunda pessoa, que conte a minha história com sentimentos deturpados por uma individualidade completamente diferente da minha. O meu vento alcança os meus cabelos e acaba por ir saboreando o meu corpo, com manias para o envelhecimento a cada dia que passa. O que vou fazer quando a juventude começar a desaparecer do meu corpo? Não quero afundar-me neste medo, meus caros.

Os meus monólogos deliciam-me, apodrecem a minha pureza mas nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Nem fazem ideia do quando dava para ter o meu corpo separada da minha alma, neste momento. Existe um desejo obscuro de fazer amor com o meu corpo e chorar à medida que o amar intensamente nesses minutos – vou aproveitá-lo enquanto sou jovem.

E um viva aos loucos de espíritos! O vento continua a massajar os meus cabelos.

31 outubro, 2011

solto-te todos os dias da minha loucura, nunca do meu coração,



Enrolei uma manta no meu corpo no dia infernal, objecto de estudo das previsões apocalípticas sobre o fim do Universo e de toda a existência criada ao longo de milhões e milhões de anos, esse dia que estava marcado nos calendários como as minhas últimas horas com algum tipo de desequilíbrio mental para levar à loucura nos vários campos da minha existência. A gaiola que levava nas mãos continha um pássaro de espécime rara, um animal sem qualquer tipo de vulgaridade e com todos os pedaços de antiguidade apegados à alma que se desenrolava num canto estrondoso, arrepiante para qualquer osso. De penas brancas e olhos castanhos, continha asas miraculosamente fortes e capazes de sobrevoar meio mundo sem paragens pelo meio em casos de testes fatais, cantava todos os dias quando o coração ameaçava parar. Escondia os sentimentos puros sobre as asas para que ninguém fosse capaz de analisar e roubar um pouco, para satisfação pessoal ou delícia maquiavélica. E olhava-me intensamente quando as lágrimas ameaçavam nascer nos meus leves e corrompidos olhos castanhos. As minhas mãos tocavam nas grades verdes que o prendiam, que o amavam numa irracionalidade fundamentada por alguns meses de convivência e existências anteriores. Complexa e coroada pela simplicidade, ao sabor da pureza nos cantos trocados em pleno corredor da casa que nos prendia. Os meus pés dançavam ao sabor de uma música que o velho gravador passava, umas mãos que ficaram registadas para sempre no tempo quando tocaram violentamente nas teclas do piano e deram vida à composição de um qualquer compositor reconhecido, um dos que estão mortos e famosos como é a regra geral para todos os grandes artistas. Agarrava na tua gaiola para dançares comigo ao sabor dos meus movimentos, das minhas sensações, num egoísmo histórico e provado por milhares de pessoas em histórias puramente ficcionadas e trespassadas para o papel. Apesar de nunca ter existido uma prisão literal para o teu corpo, os fenómenos loucos provenientes da minha mente é que te prendiam a mim num egoísmo frio e sem qualquer tipo de sentimento.
A minha memória levou-me aos segundos em que tinha a porta da tua gaiola aberta e fazíamos amor ao som das nossas vozes, em declarações espirituais e eternas da honestidade que corria nas nossas veias. Dois animais com diferenças mas com o mecanismo corporal idêntico. Sentava-me na minha janela enquanto estavas nos meus ombros e escrevia com a alma de artista no rosto, no meu sorriso que te enviava a cada segundo. Uma inundação de delicadeza emanava do teu corpo, nos teus gestos e nos teus cantos compreensíveis para o meu coração, que abria-se a cada dia que passava. As minhas roupas eram feitas à mão, nos dias em que o Sol desaparecia e dava lugar aos tons cinzentos para se fazerem sentir no céu, contigo ao meu lado. Pássaro que um dia decidiu partir com a promessa de voltar e ser feliz comigo, de nunca me abandonar apesar do voo que tinha em mente e na alma. Que um dia decidiu voar e no meu coração o decidi prender, não tendo desejos de o deixar sair. À medida que dançava na minha cozinha, numa loucura extremamente destruidora de qualquer tipo de purezas, concentrava-me na sua prisão. Intemporal, pneumática que acabaria com os meus pulmões. À medida que voavas, sentia o teu canto a chamar por mim, a precisar de mim enquanto continuava numa loucura sem qualquer tipo de medições e placas de aviso em relação às consequências. Chamei outros animais para virem ter comigo, fiz-lhes festas, encostei o meu rosto ao seu corpo e no fim, acabei sempre por deitá-los fora ou expulsar de casa porque o meu lugar era para ti, à medida que voavas. Cortava desejos de felicidade para ti, para voltares para mim como um animal recheado de vida e pureza, cantar-me-ás todas as experiências quando regressasses. Nunca interiorizei as tuas promessas. Até ao dia em que decidi cair. Quando a manta que tinha enrolada me fez tropeçar no corpo e bati com a cabeça no móvel da cozinha, houve algo que despertou na minha alma. Como se uma parte tivesse sido rasgada e misturada com o sangue que jorrou da minha cabeça. Quando pedi ajuda para me levares às tuas costas não hesitaste, nem duvidaste do teu amor tal como fui fazendo à medida de que te prendia no meu interior, nas danças de cozinha a percorrer o corredor da minha casa. Quando me levaste, soltei-te da gaiola da minha caixa torácica. Amar é libertar. Amar é ajudar. É preparar. O quarto de hospital continuava o mesmo de sempre, as minhas memórias recuavam alguns anos atrás, o dia em que precisei de ajuda para controlar os meus demónios fazia-se sentir quando os meus olhos pousaram e colheram novamente os traços das quatro paredes brancas. O teu canto soltou-me da loucura, dos pensamentos, continuaste a voar ao pé de mim e o teu sorriso permaneceu.
A gaiola continua com a porta aberta ao pé da janela.
Continuas a fazer paragens em minha casa, no meu coração. Soltei-te da minha loucura, nunca do meu coração. Amar é libertar, lá está, mas sei que nunca vais partir. Não és dos pássaros de Verão que permanecem na ausência durante tanto tempo sem dar notícias ou qualquer canto de amor, saudação. Permaneces no meu corpo, nas minhas janelas, na minha roupa, nos meus sorrisos pois nunca viajo sem nenhum para todos os lugares onde vou. Leva esta carta recheada de felicidade, profunda e eterna. Volta para mim, todos os dias.

29 outubro, 2011

afasta o diabo de tua casa, ou da casa alheia,


- Chegou a altura de morrer. – Murmurava lentamente em frente ao espelho do quarto de hóspedes, com os lábios pintados num tom preto. O peso de tons negros em qualquer zona do corpo, quer no vestuário quer na maquilhagem, nunca foi um impedimento para ela, sem nome e com tentativas de ser alguém num passado próximo, com um arrasto doloroso até ao presente. Até decidir que tinha de morrer naquela manhã, enquanto limpava os cabelos ruivos da sujidade das experiências mundanas, transgressoras de uma liberdade imposta por terceiras pessoas, nunca tinha encontrado uma satisfação interior recheada de paz. Desejava ultrapassar o poder de Deus ao retirar a vitalidade do peito com um objecto de fabrico humano, como prova do poder mortal ao longo dos tempos. Com a escova a passar-lhe pelos cabelos, sorria lentamente. O desejo atormentava-lhe os pulmões, colocando dificuldades na respiração e aniquilando qualquer tipo de pureza que pudesse absorver do oxigénio, circundante do quarto e transportador de previsões fatais. O sorriso continuava no rosto à medida que uma das mãos, a que estava livre, tocava na pele. De forma serena, sem maldade plantada nas veias e numa apreciação do próprio pescoço, passava um dos dedos sobre o batom colocado no lábio inferior.
- Chegou a altura de morrer e nem sei o que fazer. – A onda de desgosto assaltava todas as partes do seu corpo, numa violação planeada e amarrada às mãos envelhecidas do destino, possuidor de um tabuleiro de jogo profundo. Utilizava-o, esse destino, nas horas vagas quando o aborrecimento ameaçava a sua boa conduta, a sua maneira invulgar de levar uma existência pacífica. Decidia como iria ser a vida de determinada pessoa. Escrevia numa folha de papel todos os pormenores, vomitando as pequenas obsessões com que se alimentava nos dias de dias de chuva sobre os comportamentos, os diálogos daquela marioneta criada pela divindade tantas vezes associada ao céu. Mas iria dar cabo dos seus planos, ao lado do meu secador de cabelo encontrava-se uma faca puramente afiada e sem qualquer tipo de impurezas que pudessem poluir carne humana. O objecto cortaria, despedaçaria o meu coração. Tal como alguém lhe tinha feito há algum tempo, ao quebrar experiências em nome de um bem mais elevado. Bem que compreendia perfeitamente, serenamente. Mas a esse bem falta colocar-lhe uma pitada de maldade, personificada na sua morte. Uma morte provocada por desgosto e com origem num egoísmo extremo, por não ter permissão em beijar mais nenhuma vez depois de saber como eram o sabor daqueles lábios, por não lhe ser permitido olhar directamente para a alma alheia através dos olhos castanhos. Mostrava-lhe todos os dias a alma, especialmente quando ela estava a pentear o seu cabelo ruivo, e como poderia ser uma boa pessoa se lhe apetecesse dizer para parar? Se desejasse fatalmente que calasse a boca e arrancasse mais um pouco de carne? Bebam do meu sangue, façam dele a vossa refeição – era o pensamento que viajava pelas suas veias depois da meia-noite de todos os dias. Era por essas poças, que lavam os seus colchões e vestidos, que decidiu colocar-se numa posição superior à de Deus. Quando fosse altura de cair, iria deixar que o seu corpo se despedaçasse num chão de cimento, sem qualquer revestimento como qualquer escravo que não teve direito.
- Chegou a altura de morrer – Cantarolava à medida que arrancava os cabelos, desta vez. Mal me tinha apercebido que as lágrimas desciam pelo rosto, numa agonia extravagante e visível para todos os dramaturgos à face da Terra. Gotas de lágrimas que lhe agitavam a alma e transportavam para a realidade, equivalente à loucura que nenhum bobo da corte deseja à pessoa mais miserável. Os tons negros do batom encontravam-se no espelho do toucador (do quarto de hóspedes), depois do treino para beijar outras pessoas por pura curiosidade e excentricidade calorífica. As mãos ficaram livres quando a vontade de desenhar qualquer tipo de sonho com os restos de batom ficou extremamente forte, fazendo-a tremer pelo futuro. As nódoas não saíram tão rapidamente e a progenitora veria o sinal de loucura estampado na própria casa, quando o relógio tocasse e anunciasse uma nova noite. A ambição era regressar daqui a algum tempo, depois de ter descansado um pouco no lugar desconhecido, em que não existe qualquer registo das condições e qualidade (como se se tratasse de um hotel ou uma casa, um objecto tipicamente humano). Os pensamentos continuavam a dançar no peito e precisava de elaborar a tarefa com rapidez para não dar asas ao medo tipicamente humano de enfrentar o desconhecido, tão usado pela religião para tratar da conduta das pessoas. Um domínio propagado por qualquer entidade religiosa para não deixar cair os filhos em tentação de todas as vezes em que estes desejos diabólicos se apoderassem das mãos, dos pés ou dos lábios. O pente parou subitamente de pentear os cabelos ruivos e o sorriso desapareceu num ápice.
- Não sei o que vou fazer com o resto desta minha vida – continuava a murmurar e levantou-se da cadeira. Ouvi apenas um grito quando a faca trespassou o coração. A falta de confiança no amor, destino, almas gémeas e felicidade desapareceu-lhe num ápice. Nenhuma lágrima lhe apareceu no rosto para lamentar o fim da vida. Nem eu próprio tive pena dela. Sai do quarto, estava sentado há demasiado tempo a apreciar esta cena. O amor à minha própria vida reapareceu, as minhas mãos agarraram no meu peito. Acariciaram-no. E segui em frente com a minha vida. O fim só aparece por vontade de um segundo, divino e a quem tenho um profundo respeito.

26 outubro, 2011

Quando as nuvens alcançaram o céu,


Quando as nuvens alcançaram o céu mais uma vez, depois de o relógio ter vibrado em cima da mesa-de-cabeceira, o céu ficou revestido com uma cor cinzenta. Carregado com pequenos objectos, detentores de um pseudo renascimento ao subirem novamente até à luz, trata-se de um elemento da natureza com sonoridade negativa, amante de cenários tonificados por pedaços de horror ou dramatismo, capazes de inundarem uma tela de cinema. Quando as nuvens alcançaram o céu, os meus olhos despertaram de um sono profundo, equivalente à sensação de infinito dentro de uma mente. As mãos tocaram levemente no peito, numa carícia para reactivar a sensação de normalidade na pulsação, com os dedos a desejarem retirar o coração de dentro do peito, da caixa aquecida por sentimentos e sensações ao longo dos anos. As unhas devidamente arranjadas na manicura mais próxima de casa arranhavam ao de leve a carne, nomeadora da continuidade de vitalidade em todos os restantes órgãos do corpo e revestida com um papel de ouro (apesar de os olhos humanos não serem capaz de visualizá-lo), arranharam a carne e feriram levemente. As feridas iniciais, provocadas pelos pequenos desastres individuais em tenra idade quando se brincava com a casa de bonecas ou com os carros a pilhas (se é que hoje em dia se brinca com estes objectos míseros), tinham pouco peso na balança da existência, das experiências que um ser humano carrega para o resto da vida. Vida, essa palavra tão pesada e leve para a simples conversa que se pode estabelecer com uma pessoa que atravessa a rua ou espera pelo metro às vinte e três horas da noite. As mãos continuavam a arranhar o coração sedento por crescimento intelectual e apaixonante, a acariciá-lo para atingir os primeiros orgasmos tímidos. Estes primeiros tipos de orgasmos, normais para qualquer cidadão, fazem parte da masturbação mental das crianças, não possuidoras de grandes conhecimentos humanos ou intelectuais. Infelizmente, quando transporto o meu relógio mental nas mãos pelas ruas que revestem a grande cidade, sinto pequenos espasmos de grandes cérebros à mínima tentativa de conversa aprofundada. Grandes cérebros em corpos velhos. A mão, com unhas correctamente arranjadas, não serve só para acariciar o coração ou para feri-lo. A masturbação mental, caracterizada pela pequenez de espírito, ainda afecta personalidades na metade da linhagem de vida. E os meus olhos despertam, acordam para o mais pequeno sinal de vida existente no quarto. O meu corpo repousa serenamente na cama, sem qualquer tipo de calor humano da noite passada.

Quando as nuvens alcançaram o céu, não me consigo lembrar do estado da minha existência. Não me reconheci nos minutos em que a alma regressava ao (meu) corpo. Os meus ossos eram percorridos por uma ressurreição, inversa à tão conhecida do Cristianismo. Existia uma descida espiritual para um corpo, o completo inverso da história contada a toda a Humanidade. As feridas iniciais, provocadas pelos simples arranhões na carne muscular, passavam para um tom mais profundo. A sonoridade das vivências aumentava quando o coro entrou no meu quarto, com um vento dotado de uma fúria encorajadora de maus futuros. Mãos alheias acariciaram as minhas pernas, emagrecidas pelo sal das minhas lágrimas, passando a língua húmida até ao maior ponto da sexualidade de qualquer homem ou mulher. As fraquezas refloresciam em todos os sentidos, as mãos largavam o coração para pressentir os elementos do coro que assaltava o meu quarto e o órgão vital ficava desprotegido. Quando qualquer tipo de pétala da solidão esvoaçou nas quatro paredes que me rodeavam, dentes consumiram veias recheadas de sangue puro e unhas afiadas e envernizadas no segundo, num tom vermelho vivo, cresciam a uma velocidade letal graças à vivacidade experimentada através do meu corpo. O meu coração parava, era poluído pela falta de virgindade (perdida há tanto tempo, como uma mão cortada num campo de girassóis). Os demónios do coro santificado pelos sete pecados consumiam o meu coração à medida que os meus olhos despertam e um orgasmo circulava pelos meus braços, pernas, sexo. O sangue inundava o chão branco do meu quarto, danificando a balança das minhas experiências.
Quando as nuvens alcançaram o céu, os meus sonhos desapareceram. O céu ficou revestido num tom cinzento e o meu cabelo ruivo brilhou à luz do sol, que desejava aparecer mesmo com todas as inseguranças. Reconheci-me no crescimento elaborado à velocidade da luz, as rugas acentuaram-se no meu rosto de vinte e poucos anos. Quando as nuvens alcançaram o céu, senti que o relógio ainda vibrava (e tocava) em cima da mesa-de-cabeceira. Faltava-me mais um dia, mal podia esperar por sentir um orgasmo, um remexer (ou moer) do coração. O relógio continuou a tocar, depois de dez minutos seguidos.

22 outubro, 2011

florrie - no começo do Outono com um chá à mistura,





Outono. Um pouco mais de frio. Início de uso das roupas mais quentes. E não é por causa disso que vem um pouco mais de inspiração. Um pouco de arte no meu espaço personificado na imagem desta jovem artista.





13 outubro, 2011

Angústias filosóficas (num cabelo louro),


Quando os raios solares desaparecem entre os prédios que vão compondo o meu cenário (que tenta tornar-se, com todas as forças, no meu habitual ou melhor rotineiro) os meus dedos passavam sobre os meus fios de cabelo renovados, plenamente penteados e pintados com uma cor loura para retirar toda a respeitabilidade ou seriedade que conseguia transmitir através do meu visual. Os dedos, possuidores de unhas totalmente roídas graças ao nervosismo de um novo ciclo de acontecimentos totalmente renovado nas últimas semanas, mexiam ternamente no meu futuro capilar. Devoto à grande nação de superficialidade nas horas vagas, o meu sorriso orgulhava-se da nova pessoa que ambicionava ser. Pesa-me nos ombros a ambição que tenta corroer e apaixonar a minha mente, sem qualquer tipo de envenenamento no meio do processo, como se fosse uma limpeza vasta aos vestígios mais insignificantes do passado (e nunca esconderei o uso das comparações para descrever as minhas sensações, já que sentimentos não podem ser usados no novo estilo de vida que se adivinha num futuro demasiado próximo dos meus pés). O vento soprava à minha nova aparência, um dourado com falta de brilho graças ao início de uma noite rotulada como insignificante, assim como todas as outras que passaram a correr pela minha existência, a minha alma nunca sentiu um pingo de força ou presença todas as vezes em que tinha o rabo sentado na cadeira do quarto para estar em frente ao ecrã de um computador.
As peles um tanto ou quanto arrancadas dos dedos incomodavam os nervos do meu corpo, dando o alerta à minha mente para uma nova sensibilidade. Os pequenos choques eléctricos percorriam os pormenores calejados pelo percorrer de minutos, de horas, dias e anos. A última palavra, a que contém uma força extraordinária em relação à calosidade de marcas deixadas na pele enrugada, grita todos os dias ao microfone da minha mente numa angústia desmedida para me trazer de volta à realidade. Há tantos anos que resolvi desaparecer de um cenário de perfeita plenitude para me dedicar aos sonhos plantados no coração, para dar força aos orgasmos na caixa torácica ou para ter sexo com as tintas rosas que teimo em oferecer às paredes do meu corpo, humedecido e recheado de porosidades de tabaco, o objecto que incendeia a minha existência e o maligno de todos os vícios que podem circular nas minhas veias (nunca azuis, já que a minha pele é tão morena. Nunca serei da realeza?). Os meus dentes anseiam por retirar todo o vestígio de pequenas peles que ousam dormir ao pé das minhas unhas, num recheio de radioactividade desmedido e acelerador de sensações trágicas, dignas de estarem em cima de um palco e de se exibirem. Uma língua demasiadamente perversa ousa em atentar lentamente demasiados desejos obscenos, presos na profundidade das minhas angústias filosóficas. Nestes dias de calor intenso, afasto chás ou qualquer outro tipo de líquidos a temperaturas elevadas para não sentir a pele a sair do corpo numa imaginação desajustada da serenidade e tranquilidade. Consigo sentir uma espécie de corvo a passar pelos meus olhos, aludindo a sensações de morte intensas e excitantes, sem qualquer tipo de esforço ou ressuscitação mental.
No momento em que os dedos passam pelos meus renovados cabelos louros, todas as náuseas existências que poderão aproximar-se do meu corpo afastam-se, plenas em abandonar o meu ego um quanto despedaçado e actualizado. As minhas pernas caminham até ao meu quarto renovado, recheado do pó que tantas vezes me faz companhia nos dias de solidão atenuante. (Vou ouvindo os tiquetaques do relógio inexistente em uma das paredes, na ânsia de esperar pelo verdadeiro apocalipse do coração). Deixo que o coração morra momentaneamente, os fantasmas entram em mim e violam os meus direitos corporais. Não ousam remexer nos espirituais ou ancestrais. Percorri o longo caminho desde o estabelecimento que resolveu aceitar (mas não compreendeu) as minhas pequenas mudanças com um cigarro nas mãos e com todas estes desejos a empurrar os pulmões, os rins e o fígado.
Quando cheguei a casa fui directamente até ao quarto.
E não aconteceu mais nada. O meu cérebro, demasiado refinado pelos burgueses do século XXI, perguntou-me se tinha acontecido alguma coisa nos minutos anteriores. Disse simplesmente que não, não aconteceu absolutamente nada. 

10 outubro, 2011

É essa a (tua) missão,

Devora-me, no meio de mentiras e fantasias que tentam desenhar o cenário onde coloco os pés, com os dentes especialmente afiados no jantar à luz das velas, no minuto em que os teus olhos negros incidiram sobre os meus na tentativa de não cortarem contacto com os meus, dotados de uma intensa coloração castanha mesmo sob a luz do luar.  Enquanto os meus braços permaneciam na mesa, recheada de comida por provar e de copos vazios (objecto recheado de um pó malévolo que conteve vinho branco, num passado bem próximo do presente), o meu sorriso fazia-se sentir com toda a vibração para clamar pelas atenções de qualquer ser humano ou divino, que passasse por aquela cena de pseudo amor para qualquer uma das partes, já que os minutos de experiência na primeira pessoa do plural de qualquer verbo não passavam dos setenta. A minha mão, delicadamente cuidada graças à ausência de trabalho nesta vida, segurava o copo que se quebrou na minha pele, uma acção fatalmente provocada e planeada no meu pensamento há alguns segundos atrás. O relógio martelado no meu peito continuava a provocar-me dores mortais, descarregando pequenos choques eléctricos para terminar com a timidez que roda à volta da minha existência, desde o dia em que pressenti existência humana neste mundo pela primeira vez.
O copo quebrou e a minha mão ensaguentada foi directamente até ao peito, quem sabe para segurar a sensação de morte anunciada. O meu sorriso continuava na cara, apesar da dor apocalíptica que dançava na caixa torácica e se espalhava por todo o esqueleto. Sinto o teu desejo a alguns metros de distância, tão poucos que sinto a minha camisa a rasgar-se com a brisa gelada que passará às duas da manhã, na rua que caminharei com os meus sapatos sujos. Danificados pelo podre de uma superficialidade encontrada na passadeira vermelha ou simplesmente pelo espelho danificado à entrada de um museu, com todas as supersticiosidades a fazerem-se sentir violentamente. O meu cérebro deseja uma chávena de chá misturada com leite extremamente quente, com o intuito de danificar os lábios recentemente suavizados por um batom sem cor, de uma transparência sentida por qualquer fantasma preso nas veias dos seres humanos.  
Devora-me porque é essa a tua missão da noite. Na tua condição de monstro, não deixarás escapar a oportunidade de matar uma alma poderosa por volta das duas da manhã, à mesa de um bar (ou será de uma discoteca?) com milhares de copos vazios e álcool a misturar-se com o sangue, que percorre todos centímetros do meu corpo esvaziado de profundeza. Não compreendes que não te faço um pedido ou que te ordeno qualquer tipo de acção,  à medida que os meus braços descansam sobre a mesa. O meu cabelo é modificado por estados de espíritos, que vão colorindo os fios num tom avermelhado e quem sabe adocicado pelas longas metamorfoses das vivências registadas em qualquer mente alheia. O meu sorriso não desaparece da cara por ter conhecimento da tua missão ou da tua condição nas próximas horas. Desejo que sigas os teus instintos, personificadas logicamente em vontades. Os animais seguem os instintos em todos os momentos, ao contrário dos homens. Esses realizam as suas vontades e pecam pouco, não alimentam qualquer tipo de instinto que lhes excite a meio da noite. Coloca as mãos dentro das tuas calças se é essa a tua vontade ou, falando num tom mais formal e nobre, se é essa a sua vontade. Coloque os dentes para fora se deseja matar-me lentamente. Vou sentir os teus dentes fortalecidos pelo leve cuidado dentro do meu peito, remexendo constantemente para expulsar e danificar a carne.
O meu sorriso continua no rosto, apesar de todas as perversidades e violências perfumadas por algum tipo de vilão que resolveu sair da história de encantar. É uma pura questão de músculos, alguns quilos de material disponível para os animais à solta nas ruas por culpa da divindade, apreciadora de desafios e mudanças repentinas.
Poderosa alma, permanece. Mesmo nos dias em que o meu corpo se for, permanece tranquilamente por aqui. É um pedido, nunca uma ordem.

07 outubro, 2011

Os bastidores - I


Os bastidores estão guardados para as pessoas que caminham com o coração nas mãos, quando o peito não é capaz de acolher carne em demasia com as veias a encherem a uma velocidade alucinante. Os grandes problemas provocados por estas pessoas são os choques com outras do mesmo tipo, no meio da rua ou num transporte público, desastrosos e sinalizador de sarilhos prestes a chegar devido às feridas (quem sabe também as futuras) que o músculo irá recolher. Ao invés de uma mala saída de uma das lojas mas refinadas e populares do país, transportam o coração como se de um acessório se tratasse e posso dizer que cuidam desse pormenor como se fosse a própria vida, uma vez que os abutres estão dispostos a roubar a carne ao virar de uma esquina ou num simples bar por volta das duas da manhã (na hora em que o álcool estiver a circular por todos os órgãos, pobres coitados que já entraram em falência). Tal como alguns que incitam à moda de vestidos e roupa de carne, curada e tratada antecipadamente, outros transportam o coração nas mãos e o pobre acessório não consegue levar a carteira ou algum livro abandonado para ser devorado nas horas vagas.
Quando os saltos altos se fazem sentir numa sala recheada de estilos ou um simples brilho proveniente de um ser humano alheio ofusca a dezenas de metros, a insegurança invade este tipo de personagens. O coração pode ser queimado, danificado por quem se atravesse no caminho, pelos sorrisos que rasgam a pele de quarentonas ou quarentões (levando aos dentes de carnívoros em roupas vintage e extremamente caras, com a etiqueta a balançar no vestuário se for preciso). O órgão que não cabe na caixa torácica de diversos seres humanos é perigoso de uma forma inocente, capaz de esguichar um pouco de sangue para os vestidos quando alguma emoção extraordinariamente poderosa se faz sentir, quando uma lágrima escorre pelo rosto ou o arrepio que soltou ao visualizar uma obra de arte. As unhas pintadas destas pessoas, possuidoras de uma alma, ficam ainda mais vermelhas pela libertação de líquido quente indesejado. Os bastidores são bons para elas, que gostam de perfeição e de comandar um bom espectáculo de arte, música e quem sabe, até de moda.
O amor não bateu à porta. Quer dizer, bate todos os dias e sinto-o aqui dentro. Talvez seja por isso que mantenho o coração protegido na minha mala, numa caixa de vidro, para nenhum corvo decidir atacar-me solenemente, levando-me numa fatalidade desejada. Querido leitor, estou a sonhar demasiadamente alto. E talvez os bastidores sejam para mim. Não fazem ideia do brilho que podemos obter nas cabines. É pena os meus sonhos levaram-me mais longe, com eles está a ambição. Percebem?