Adormeci no meu quarto, numa noite perfeitamente normal e casual sem qualquer tipo de promessas lançadas para o oxigénio tóxico, característica do ambiente em que caminho e descanso a todas as horas. O amor
abandonou-me há algum tempo, sem qualquer intenção de voltar num curto período de tempo para me envolver numa segurança apetecível e deliciosa, acabou por levar as malas com todos os objectos que lhe pertenciam e deixou-me um beijo. Um toque ao de leve nos meus lábios para conseguir o meu espírito conseguir dar a volta por cima, com a intenção de me oferecer um início fora dos meus planos. Veio trazer desorganização ao meu bem-estar, às minhas roupas, ao meu coração e aos meus pulmões, fracos no funcionamento desde a manhã em que regressei ao Mundo. As lágrimas queimaram a pele do meu rosto graças ao suposto sal que contém, passadas centenas de horas decidi chorar para uma garrafa de licor
com o intuito de saborear-me quando me sentir sozinho. Naquela noite sem qualquer marcação ou intenção de ocorrer um acontecimento especial, acabei por adormecer em cima dos lençóis brancos e com um cobertor sobre as pernas, os ventos gelados andavam a dar cabo dos meus músculos que se ressentiam cada vez mais do frio nórdico (e psicológico).
Sai do meu corpo na hora em que adormeci com os auscultadores nos ouvidos, com a divina Cat Power e a sua voz melancólica e cansada a ecoar-me por todos os tecidos na alma. As ameaças de destruição interior estavam em cima da mesa, o desastre do passado tombava sobre as minhas pernas e coração, na medida em comparar-se a uma jarra recheada de água prestes a cair para um ser humano. Lábios feridos, cabelos desgrenhados e olhos fechados para uma relação sexual com o meu espírito. Elevei-me acima da minha mente e deitei-me sobre o corpo estendido na cama, esse que tinha falta de cuidados da minha parte. Faltavam-me as lágrimas para chorar a separação espiritual que se manifestava na minha existência, com a visão sobre os meus cabelos castanhos, a boca fechada, o peito parado. Como simples personificação de uma parte da minha existência, sob a forma de espírito, tentava agarrar nas minhas mãos para sentir vivacidade, movimento em alguns segundos mas não restava nada. Começou a chover, os meus ouvidos conseguiram detectar, e o coro do meu funeral fez-se soar, a minha agonia continuava à medida que os ponteiros do relógio se moviam.
Sentei-me à janela, a escutar o que a natureza tinha para me revelar enquanto o som das músicas da Cat Power continuavam a bombear o corpo deitado sobre a cama, sem qualquer espécie de vitalidade. A ausência de lágrimas incomodava, magoava. Tratava-se de incapacidade corporal já que me sentia completamente incompleto, nesta ironia de palavras que utilizava e que arranhavam a minha conduta. Completamente incompleto, com a ausência de um sentido para a vida. A natureza cantava-me frustrantemente, sem entender que as cores da minha alma estendiam-se ao preto, ao branco, ao cinzento. Uma inundação infernal rebolava sobre os tapetes, sorrindo maldosamente e apontado o dedo para mim num tom desaprovador. O amor abandonou-me há tanto tempo, o calor deixou o meu coração, o sangue parou – enumerava à medida que cantarolava para espantar os “males de espírito”, na espera de um beijo que reiniciasse a minha vida. Desta vez seria um início planeado, desejado e nunca apareceria ao contrário do que queria. Tenho tantas saudades de um beijo, este pensamento martelava a minha mente quando a tua figura aparecia de surpresa, a visitar os meus sonhos e os meus pesadelos (amor que é amor conhece todos os lados do ser humano que ama, nem que demore anos para espreitar). À janela continuei a cantar, a espantar tudo o que me fazia mal – incluindo as imagens dos beijos alheios que esse amor dava a terceiros, quartos, quintos se fosse preciso – e as lágrimas nunca apareceram, unicamente o vazio que martelava a existência. O corpo morto em cima da cama nunca se mexeu, dentro da normalidade. Não lhe restava nada, apenas a música que ecoava graças aos auscultadores.
Quando um dos meus progenitores apareceu à porta do meu quarto, não me mexi tal como o corpo estendido, a voz dela começou a elevar-se por nascerem pensamentos com raízes venenosas na sua mente. E num acesso de fúria tocou-lhe, tocou-me, sem pressentir vida. Um revestimento de pânico cobriu a voz melancólica, o acesso de raiva desapareceu subitamente e os seus braços enrolaram o meu corpo. Assistia plenamente a tudo, com um copo na mão. O copo que continha uma boa porção do meu sangue. Seria essa a forma de fazer amor comigo, saborear o meu sangue vermelho à medida que um ataque de pânico revestia o quarto. Os coros do funeral continuavam e faziam-me fungar, uma vez que lágrimas nunca apareceriam. Quando esse líquido vital entrou por todos os meus tecidos, cai numa espécie de lógica misturada com algum nível de emoção e sai da janela, ajoelhando-me ao lado do meu corpo.
Volta, meu amor. Que fizeste a ti próprio? Volta, volta para mim. – Os braços delas continuavam a embalar-me, com a mágoa a inflamar as cordas vocais na noite perfeitamente normal e sem qualquer acontecimento programado. Ajoelhei-me ao lado do meu corpo e rezei, como nunca o tinha feito. Rezei para regressar completamente renovado, como se me tivessem beijado apaixonadamente. Os arrepios voltaram, balançavam toda a minha existência. Quando o ar voltou ao corpo, abri os olhos e estava ofegante, com braços à minha volta. Onde estavas? Onde estavas, meu estúpido? - Perguntava-me com amor sob a forma de raiva. Não faço ideia, acho que voltei a nascer.
Cat Power continuou a tocar, a chuva continuou lá fora, a minha progenitora saiu para libertar o medo na casa de banho e o amor abandonou-me. É uma noite normal, como pensei.