02 março, 2012

A pausa na veia dramática,

Confesso que a minha veia dramática manifesta-se em demasia neste espaço, existe alguma porta que abro todos os dias para vestir a pele de qualquer personagem que surge na minha mente. Dou coragem aos meus lábios para beijar o espelho que se encontra à minha frente, às minhas mãos para ferir os meus braços e deixar escorrer o sangue para um frasco e pinto os meus cabelos em tons cinzentos sem pensar duas vezes por detrás destas palavras, já que na realidades somos colocados em regras de condutas. Espreita-se unicamente uma pequena sombra das loucuras que se deseja profundamente, como se fosse a última vontade à face da Terra. A veia dramática eleva as horas às últimas que me restam (conseguem entender?)


 
 

É Lisboa uma das partes que me inspira de momento. Todos dizem que se mudam passado algum tempo de permanência na grande cidade e não pensem que é ilusão. Realmente existe uma mudança e caso não exista um equilíbrio e os olhos bem abertos para o quem somos, para o que desejamos então existe uma perdição estampada em qualquer esquina, nas estações do metro. Não me livrei de quebrar um coração para reparar o meu (o acto desumano mais próximo de traição que conheço), não me livrei de beber uma garrafa de vinho enquanto chorava com amigos, não consegui não mudar nem um pouco. É necessário saber em que boca não devemos cair, existem algumas dispostas a amassar-nos, devorar-nos sem dó nem piedade (e com isto não coloco qualquer interpretação erótica). Mas no contacto com novas pessoas vou encontrando pequenos tesouros como estes. Graças a uma das melhores amigas fiquei a conhecer esta senhora de 90 anos que realça o que sempre pensei sobre a velhice e a autenticidade como artista. Não é dia de cortar o meu coração em postas, haverá mais oportunidades para esse acto. Hoje são os pequenos objectos e as grandes pessoas que me levam.
 E foi aqui que passei a conhece-la um pouco mais.

25 fevereiro, 2012

Um beijo à loucura,


Desconheço se existe alguma doença mental relacionada com o vaguear excessivamente no mundo da fantasia e deslocar-se da realidade. De todas as vezes em que visito o meu médico de família nunca conseguia abrir a boca para lhe fazer essa pergunta, quem sabe por se não é por medo quem sabe se não é por loucura. Existe sempre uma admiração nos olhos dele em todas as vezes em que coloco os pés no estabelecimento recheado com um cheiro intenso. O cheiro típico de algumas pessoas que já passaram muitos anos nesta vida, no presente, sem qualquer expectativa de um longo futuro, aqueles que apreciam olhar para trás para saber o que poderiam ter melhorado (apesar de não terem permissão nem memória para assinalar os erros como aviso na próxima vida) e com isto não me interpretem mal, não tenho nada contra o cheiro característico, nasce nas minhas mãos uma vontade de sentir as rugas vincadas, de beijar a passagem do tempo com lábios envelhecidos e ressequidos graças à sensibilidade de uma pele idosa. Talvez o meu médico de família fique admirado pelo que acabei de escrever e pensar naquela hora, por a cor dos meus olhos se perder de todas as vezes em que começo a imaginar. Ou então abre a boca num espanto por me ver com uma peruca diferente de todas as vezes, quando não me lembro da noite anterior colocar tinta nos cabelos (as tintas sem qualidade, que ao fim de várias lavagens acaba por desaparecer). Nos últimos dias tenho vontade de colocar um tom cinzento, maldito mediatismo!

Nem um terço da minha loucura está presente nestas palavras, é uma reduzida porção que me leva a questionar se existe um diagnóstico para os loucos de fantasia. Coloco doses excessivas de batom para o cieiro no lábio superior e vaselina no inferior, talvez para conseguir realizar as minhas fantasias com mais facilidade e acreditem-se que pode dar jeito. Nunca ninguém vos disse que a loucura passa um pouco pela excessividade de erotismo? Acreditam que passa em toca em muitas questões que maioria das pessoas preferia nem pensar. Quando vagueio excessivamente penso em carne humana, nos prazeres e tentações de apenas uma noite. Nas horas anteriores ao clímax, ao orgasmo, as ditas horas de tesão (num português rasco, terrivelmente rançoso – agora que analiso o quanto estes últimos dois adjectivos moem qualquer língua) aliadas a uma loucura física.
Desejo por hora fazer dezenas de tatuagens no corpo, é a única loucura que nunca ponderei fazer à última hora por permanecer no corpo por um tempo definido. Carimbar um “para sempre” em relação a questões visuais magoa o coração, esvazia as veias por ser carregado de futilidade e sujidade. Se me chamam de louco, nunca sabem a diferença dentro de mim. Gritam aos sete ventos a minha loucura, analisam-na e tentam interpretar. Não falo em compreender, isso é um verbo demasiado caro para mentes vestidas e amarradas, não existem braços abertos nessas células cerebrais. Interpretam para colocar o meu corpo no inferno, para ser queimado por um suposto Diabo que está pronto para me morder, para consumir a minha alma. E nestas questões imagino a alma como um pedaço de tecido em que o bicho demoníaco pode vestir, colocar no pescoço ou simplesmente limpar a boca depois de uma refeição. De todas as vezes em que vou ao médico de família, ele acaba sempre por analisar os meus olhos para detectar alguma anomalia. “Sofre com tensão ocular”, e o seu espanto permanece quando pergunto “Apenas isso?”. Incha de indignação, o nervosismo é palpável e a raiva é consumível pelos botões da minha camisa.

O grande problema é quando me olho ao espelho. É o único objecto que me faz duvidar da minha doença, a invenção que coloca esforço de todas as vezes em que quero deixar a realidade. Vejo os olhos castanhos, remexo nos cabelos desgrenhados e passo um dedo da mão direita sobre o meu queixo, sentindo a pele marcada com borbulhas. Perfeição equivale a destruição. Colagem é drenagem. Imitação é o mesmo de descoloração. Nestas viagens pelo mundo dos sonhos e fantasia, pergunto-me onde estou e como sou? Numa realidade existe algo de imperfeito que me apaixona, na fantasia a perfeição é a religião, a razão pelo qual me sento a rezar e a pedir para ser abençoado com tal característica. Onde estão os filósofos prontos a julgar-me? De cada vez que aparecem frades, modelos, padeiros ou até mesmo padres (se é que existe diferença) tentam todos puxar pelos cabelos para sentir dor. A sensação que me pode salvar da loucura, diz um deles. A única que pode tocar na espinha, dizem todos os outros em coro.
No fim da consulta pergunto-me onde está o papel para o internamento. Nesse segundo é a primeira vez que não olha para mim surpreendido.

19 fevereiro, 2012

Ode às idealizações,


O peão estava pronto para atravessar a estrada no momento em que o carro atravessaria a rua a mais de duzentos quilómetros por hora, ou devo dizer segundo? Num mundo em que é necessário explicar tudo ao pormenor nunca se sabe se as palavras que libertamos são entendidas correctamente, já que contextos não são revelados e todos sabemos que a máquina humana não está habituada a pensar. Como estava a escrever anteriormente, o peão estava pronto para atravessar a estrada e colocar fim à própria vida num acto conturbado, quem sabe plenamente entediado por não ter uma vida que idealizou ou ambicionou.

Ambos sabemos que o ser humano adora idealizações, combinações, planeamentos. Maioria das senhoras idealiza um neto que os filhos homossexuais supostamente vão ter. Maioria dos homens espera que as suas filhas não sejam tocadas por nenhum rapaz até se casarem (e normalmente são essas que caçam todos os pedaços de carne musculada que andam pela rua, numa exibição digna de estar numa montra de qualquer loja dirigida para um público rigoroso). Maioria dos filhos quer mostrar a sua masculinidade misturada com insensibilidade através do número de namoradas que vão levando para casa. Todas as pessoas são iludidas pela primeira cara-metade até o tempo limite para consumo se esgotar. Ideias, sonhos, ambições e desejos que estão escritos na testa de qualquer pessoa que ande na rua com medo do pensamento alheio, a espreitar o caixote do lixo do vizinho para denunciar a primeira falta de cuidado, o cheiro imundo provocado pelo descuido da vizinha que estava ocupada a cuidar dos cinco filhos, a arrumar a casa e a tratar da sogra senil enquanto o marido se encontrava a ter um orgasmo com a secretária na empresa. Demasiados clichés que se vão repetindo ao longo de gerações, vou olhando para o relógio e para o calendário à espera da hora em que vou desistir de acreditar em qualquer tipo de mudança.
Espero sentado, espero em pé, observo e sinto receio de cair em idealizações tal como todos os outros. As imagens mentais que me levam à loucura momentânea permanecem nas minhas veias, acompanham as viagens do meu sangue quando coloco a colher de cereais na boca, mal acabo de acordar. Demasiado tabaco deixado pela minha mãe (especulações, sempre gostei de imaginar a minha mãe a fumar. Talvez por ela ser totalmente contra o fumo ou contra o veneno que está associado a um cigarro?), acaba sempre por sujar a bancada quando tiro uma das tigelas compras na feira do meu bairro. O bairro que me viu a crescer, a pentear os cabelos das bonecas e dos maridos das bonecas. As estradas que me beijaram os joelhos nos dias em que comecei a tentar andar de bicicleta, que me acalmaram quando me sentei com um livro a desfrutar dos raios solares. As estradas que me conseguem ver-me como um simples peão a arriscar a vida pela ausência de concretização de sonhos, por não ter pintado os cabelos num tom cinzento como desejei há dois meses atrás e por me teres abandonado. Abandono é o meu fruto, aquele que descasco todas as noites para me acompanhar o chá, queima a língua e aquece as minhas mãos quando pego na chávena e levo à boca.

Maioria das pessoas sonha com uma mansão com quatro andares, dez quartos e cinco mil casas de banho sem esquecer das duas piscinas (uma interior e outra exterior, para variar nas estações do ano). Algumas pessoas. Maioria das pessoas têm uma pequena casa, com dois quartos, uma casa de banho, uma cozinha e uma sala. Maioria das pessoas vive num pequeno apartamento, com paredes de cartão e com barulho a infiltrar-se todos os dias, nas madrugadas de lua nova. Queimei os lábios ao beber chá e nesse momento decidi transformar-me num peão e ser algo diferente, a diferença no campo da vulgaridade. Chamo de vulgaridade porque já se inventou tudo, já se reinventou mais alguma coisa, nem consigo cometer um suicídio particularmente chocante como ambicionava. Coloco uma roupa decente, transformo-me num peão de um jogo de xadrez e resolvo brincar com o meu próprio destino. Pergunto-me qual a novidade desta decisão, enrola-me o pescoço, toco no meu rosto à medida que vou olhando pela janela. Acabei de idealizar uma morte, acabei por me deixar levar por um dos meus maiores medos e coloco-me de joelhos no chão, com a cabeça virada para cima. Não sei se rezar irá trazer algum conforto ou paz, necessária para sentir vivacidade nos meus músculos, chamo por uma divindade que nunca esteve comigo. Ou então nunca chamei por Ele, como todos gostam de colocar em maiúsculas para mostrar respeito. Mas como vou mostrar respeito por algo que não compreendo? A minha boa educação consegue sussurrar-me aos ouvidos e mantenho as mãos ligadas, à medida que vou proferindo passagens da Bíblia que me ficaram na cabeça, das vezes em que a minha avó me obrigou a estar sentado nas missas de domingo. Antes do café, antes do almoço.
Transformei-me num peão, pronto para acabar com a minha vida. Idealizei um acontecimento. E por isso pergunto-me, o que estou ainda a fazer aqui? A comer a minha própria pele, a experimentar as unhas roídas.

18 fevereiro, 2012

Uma vírgula,



Um artista não sobrevive. Um artista vive.
Intensa, exaustivamente. Dolorosamente, violentamente. Numa correria de sentimentos e inteligência extremos. Queima-se e não volta a entrar na fogueira, dos sonhos, da mentira, da infelicidade.
Eu vou ser um artista. Pelo menos já estou a viver. 

10 fevereiro, 2012

Às 22:22 vou sentir-me,



Não ando a sentir-me. É terrível acordar de manhã com os cabelos desgrenhados e esquecer-me de penteá-los, numa atitude inconsciente de despreocupação com pequenos actos que estavam plantados dentro de mim. Assusta o meu espírito o momento em que não consigo falar alto para mim mesmo, a reclamar desta falta de despreocupação, na tentativa de tentar melhorar. Não ando a sentir os meus músculos, os poucos que possuo, depois de tomar um duche. Uma combinação de bem-estar abandonou-me há algum tempo, como se me tivesse fugido sem deixar um aviso, trazendo o desamparo para o presente. Os cigarros desapareceram-me da boca, uma boca extremamente sedenta de desejo invisível. Os dentes talvez tenham ficado amarelos pela falta de cuidado, à medida que ia aumentando os litros de álcool que permaneciam nas veias todas as noites. A ausência das minhas mãos sobre os meus cabelos castanhos, de tom escuro, gritou à minha consciência para a mudança, o vento atingiu a minha espinha e levou a essência da minha alma. Deixei de tocar-me há alguns minutos nestas horas de vida, de atingir orgasmos para me divertir sozinho, de sair à noite para beijar alguém, com adrenalina nas acções, com a respiração violenta. Deixei de fazer amor com a mente, de despir cada peça de roupa de alguém interessante, de desperte o meu coração. A roupa extravagante nunca mais viu a luz da noite, as botas metalizadas ficaram guardados no sapateiro, os cremes que podiam aumentar a minha juventude nunca saíram das prateleiras de qualquer loja. Os meus pés encontram-se parados, a partir do momento em que não deixo o meu trabalho de lado, em que todos os extraterrestres pedem missões quase impossíveis. Não me posso queixar, são seres de outro mundo e não do submundo que aterrorizam muitos das pessoas por quem consigo ter amor. E onde pára isso? Não ando a sentir-me, não ando a sentir o bombardear do meu coração – amor meu, volta para mim, amor excitante, urgente, amável, qualquer nome que lhe posso chamar porque nos dias que correm amor é qualquer sinal de vitalidade, pensam muitos – não ando a colocar as mãos em mim, num acto de amor-próprio.
Vou andar a descobrir novos caminhos, novos tipos de sensações. Os sentimentos vão fortalecer mas vou renascer espiritual, corporalmente. Queria pintar o cabelo num tom totalmente preto, despejar litros de tinta nos cabelos se fosse preciso e não tive a coragem necessária. Mudar para sentir equivale a possuir coragem, equivale a tirar as pedras dos sapatos que impedem o percorrer do caminho. Equivale a colocar todos os medos nos baldes para a reciclagem, equivale a pintar as unhas de preto quando qualquer homem quer sê-lo com maiúsculas. Nunca ninguém pensou em alimentar fantasias do inconsciente, os primeiros olhos são menos importantes do que os segundos, terceiros, quartos ou quem sabe, quintos? É necessária uma faca, uma pequena lâmina afiada que trespasse o meu coração, rasgue pedaços da alma e me consuma.  Permaneço deitado no meu caixão, à espera do despertar à meia-noite. Quando abrir, vou deitar cá para fora as minhas composições, vou escrever sobre o que me apaixona, vou amar ainda mais quem ficou com o meu coração, é tempo de tocar os sinos. Aproxima-se o momento de sentir, cometer mais um crime de sentir. Nunca me soou tão magnificamente cometer um crime a mim próprio, vou voltar à minha essência. Vou pintar os lábios, colocar as mãos em mim. 
Às 22:22 vou atingir um orgasmo, que saudades.

08 fevereiro, 2012

Falo de ti às pedras das estradas todos os dias,

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória, 
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São os astros que me tombam do regaço.

Florbela Espanca, A Mensageira das Violetas



No Sol que iluminou o dia apercebi-me, com o cigarro na boca, da ausência de respeito pelos teus sentimentos, pela tua condição de amante a partir do momento em que abri a boca para te falar sobre o meu coração, sem cuidado, sem espaço para pensar. Nas palavras cortantes, no entrecortar de pormenores essenciais, não atendi ao teu amor, ao teu sentimento proveniente de outros tempos. Neste flutuar em que a minha vida se encontra, nesta necessidade de pausa em que o meu corpo necessita. Oh, quando somos nós que cometemos o erro é fatal para todas as veias, amortece o aceleramento dos batimentos cardíacos, a alma morre um pouco mais. A partir do segundo em que me apercebi do erro pela ausência e pela mudança dentro de mim, pedaços da alma derreteram, provas que necessito de mostrar ficaram mais fortes. Oh, as acções vão ser o meu ingrediente principal, a minha alma continua a mesma com algumas defesas. Necessito de retirar essas defesas para contigo, se o meu papel se invertesse, se o jornalista fosse a segunda pessoa e me perguntasse “Quem te conhece melhor?”, provavelmente diria o teu nome, não me ocorre outro depois da minha mãe e do meu pai. E com isto peço-te desculpa. Desculpas não se pedem, evitam-se, diriam muitos. Com os erros aprende-se, existe formação humana, com isto ama-se um pouco mais. Odeio-me à meia-noite de todos os dias, quando um novo dia começa. Isso vai mudar, acabou-se o desgaste. Começa o renascimento, a subida aos céus. Oh, perdoa-me meu amor. Se soubesses o quão morto estive hoje. Se eu soubesse o quão morto estiveste hoje. Neste flutuar em que a minha vida se encontra, tento entender as tuas páginas. As minhas são escritas de forma rabiscada, quando estiver contigo, aconchegado, a partilhar a vida, vou lê-las ainda melhor. A minha alma gémea está comigo, ficarei sempre contigo. Perdoa-me, falo de ti às pedras das estradas todos os dias da minha vida.

05 fevereiro, 2012

PS - As pessoas ficam melhor ao Sol,


Presto atenção a alguns pormenores já que outros vou deixando escapar, para bem longe do meu campo de visão. Umas vezes consigo sentir-me extremamente bem com a forma como passo a porta de casa para abraçar o tempo que passa, das outras vezes os pequenos tecidos que conseguem aniquilar o poder de uma gélida temperatura são constantemente acertados e colocados no sítio correcto numa tentativa de satisfação do meu lado mais organizado (que neste momento, tantos lados da minha vida e personalidade estão desorganizados. Quais, perguntam-se vocês. E eu não respondo a isso). A partir do momento em que tenta prestar atenção aos pormenores, existe a tendência de permanecer em silêncio, com a boca fechado, com as opiniões e gostos todos guardados. Trata-se de egoísmo, a partir do momento em que digo o que estou a pensar não passa a ser uma algo só meu (mesmo que seja uma loucura, uma fantasia que a minha cabeça alimenta a todas as horas), são mecanismos de defesa contra tudo. E quando digo tudo, pessoas da minha natureza contém também dificuldade em confiar em que amam profundamente.  Essas por vezes são as mais terríveis de confiar, a mente organizada faz previsões do que os olhos alheios vão pensar de nós e se nos diferenciarmos vamos estar a ir por outro caminho, outro padrão (e com isto poderia estar a desenhar mais hipóteses, é a faceta mais natural de um ser humano como eu).
As pessoas ficam melhor ao Sol, ouvi numa música que tinha guardado no computador. Gostava que os raios solares brilhassem novamente na minha cara. Com os meus óculos escuros, um chapéu dos grandes na cabeça e a vestir unicamente uns calções, desejava aproveitar novamente uma das melhores estações do ano. Sou um apaixonado pelo Verão, pelo descanso, pelas ondas do mar, pelas pessoas a gastar o tempo com a família e amigos num local recheado de areia e água salgada, numa simplicidade envolta em paz. Falta-me sentir a areia no momento em que escrevo, falta-me olhar para alguns pormenores. Desejo o mar para me esquecer dos problemas que a minha cabeça vai elaborando e as pequenas inseguranças que vai plantando. Oh, é simplesmente isto. Hoje só escrevo isto. Neste dia de frio, eu quero que o Sol regresse e desejo olhar para todos os pormenores.
E neste dia volto a escrever o amor que tenho por ti. Volto a redesenhá-lo, volto a guardá-lo, volto a mostrar-te se não estiveres longe. Essa distância fria é que me mata durante alguns minutos. O Sol traz o calor, os reflexos, a cor loura. De que cor é o amor? As pessoas ficam melhor ao Sol.

29 janeiro, 2012

"I like boring things" - VI












Fantasy love is much better than reality love. Never doing it is very exciting. The most exciting attractions are between two opposites that never meet.

hoje sou eu e as minhas fantasias.
vou fazer amor com algumas  pessoas, até já.

26 janeiro, 2012

Um copo de vinho,



Quando foi o último dia em que tive o mundo nas mãos? 
Embrulhado com um simples cobertor na mansão de quatro andares contínuo à espera de todos os fantasmas, recheados de promessas elaboradas em vidas passadas. Não há espaço para colocar qualquer aquecedor ou mesmo para acender as lareiras, não existe dinheiro que pague as extravagantes contas de electricidade. Os donos da casa encontram-se presos nas mais de quatro paredes (afinal, uma mansão de verdade contém dezenas de paredes e por norma alimenta-se uma história baseada na ausência de amor), as suas mãos geladas pela constante passagem do relógio biológico tocam serenamente nos meus ombros. Os meus ombros equilibrados por pensamentos com natureza filosófica e existência superficial, conotada por simples abrilhantadores, obras-primas em forma de roupas com qualidade e sem inteligência nas questões de conhecimento. São dois ombros, esta palavra que continua a ressoar nos meus ouvidos e a massajar os meus olhos castanhos, são dois que sustentam os meus sonhos, os meus desejos de suicídio e de gula, as ambições que soletram o caminho que devo tomar para encontrar a felicidade. Encontro-me embrulhado com um simples cobertor branco, para tentar disfarçar o pecado nos meus pensamentos. O frio continua a atravessar a minha pele, enrola o estômago e fere os lábios, prontos a saborear uma desconhecida ou um desconhecido. Recheado de novas sensações, vou sonhando com a chegada de novas formas de sexualidade. O amor na forma mais pura e personificado num ser humano, esse já o encontrei. E vou esperar pela felicidade ao lado dele, confiar e dar as mãos no presente (o único tempo mais próximo da realidade). As mãos fantasmagóricas dos donos da casa continuam a tocar nos pedaços de músculo, na tentativa de alcançarem os ossos. Ossos – a parte do corpo mais pesada, a agonia pormenorizada de um passado repleto de desejos anorécticos em futuro e sonhos – brancos, a cor da pureza. Quando foi o último dia em que tive o mundo nas minhas mãos?
Nunca o deixei de ter. Nos minutos em que atinjo um orgasmo, na hora em que acabo de pintar os meus cabelos (faço-o constante), nos dias em que consigo esquecer a minha loucura e distinguir a realidade da fantasia criada pelo meu cérebro. Quando seguro um copo de vinho tinto nas minhas mãos, com o olhar perverso a espiar uma orgia na casa vizinha. Dois homens com uma rapariga no meio, a aproveitar a transparência de homossexualidade, todas as qualidades destes seres do futuro (uma vez que uma parte dos seres humanos não consegue aceitar esta realidade perfeitamente comum). As mãos da jovem passam pelos cabelos dos jovens que encontram-se nos lábios um do outro, que puxam a carne feminina para eles, retirando a pouca pureza que poderia existir naquele ser. Alinhar numa orgia não é sinal de pureza, não é sinal de depravação, é sinal de satisfação. Carnal. Existencial. A mansão que me acolhe continua gelada e o meu coração entra nas chamas, enrola-se no desejo excitante de me juntar aquela orgia. O vinho tinto sabe-me a chocolate ao sentir a excitação no meu sexo (e chamo-lhe isto para ser elegante, como qualquer pessoa deve ser na hora em que está a escrever, a despejar sentimentos, o que quiserem chamar-lhe). Tenho o mundo nas mãos, não deixo de o ter. Tento enganar-me por pensar o contrário.
Escolho abandonar a mansão e dirigir-me à casa mais pobre em mobílias, em espaço e em lembranças mas rica em desejo, amor, sexo mesmo que momentâneo. Deixo o copo em cima da bancada da cozinha e quando bato à porta da casa, não há interrupção. Levam-me e os meus lábios entram naquelas sensações, acompanhando os alheios, as mãos tocam-me furiosamente. Quando é que deixei de ter o mundo nas minhas mãos? Deixei alguma vez de ter?

22 janeiro, 2012

Vim procurar o amor (à porta certa),


Vim procurar o amor à porta errada, na entrada que tantas vezes me viu apodrecer no chão graças ao álcool em demasiada quantidade nas veias. A porta que presencia de todas as vezes em que consigo sair de casa com alguma felicidade, de pouca dose para não exceder o limite máximo, para não enfurecer o coração. No dia em que coloquei tinta cinzenta no cabelo, houve alguém que mandou uma gargalhada ao lado da porta da minha casa. Colocou a mão na boca, no medo do meu olhar que perfurar a alma como raiz venenosa. Os meus cabelos cinzentos, numa tentativa de atrair os holofotes vulgares de pessoas igualmente vulgares nas ruas recheadas de pobreza, brilharam na solidão. Um sentimento que tenta encontrar sempre algum tipo de austeridade, como as pessoas tentam nos dias que correm de uma forma exaustiva. Brilharam pela simplicidade de um acto recheado de complexidade. No amor de colocar a espécie de pasta incolor nos meus cabelos, o meu sorriso foi a gravação que penetrou a memória gasta por preocupações demasiado rascas. Na prostituição em que coloco todos os dias o meu cérebro (ou será que é preciso existir uma distinção entre cérebro e mente?), lembro-me de sorrir perante a pequena mudança que estava prestes a garantir ao meu aspecto físico. Quando bati naquela porta à procura de amor, fecharam-na violentamente sem medo de ferir. Um comportamento que demorou segundos e marcou anos de existência. E os meus pensamentos são dotados de algum tipo de velocidade ou de elasticidade. Ao sair de casa, depois do acto de amor-próprio a gargalhada do desconhecido penetrou os meus ossos. A única parte da constituição humana que está mais evidente no meu corpo. O sorriso malévolo que se desenhou graças à invulgaridade de uma pessoa vulgar. Os meus medos ganharam uma amplitude (é amplitude?) ainda maior, fora da normalidade de todos os dias. O amor não apareceu nesse momento, nem veio ter comigo. O amor nasceu. Quando vieram à procura de amor na minha porta, mantive-a aberta. Disposto a receber quem aparecesse, de aspecto mais rasco ou invulgar, com um brilho fabuloso capaz de colocar sementes de inveja em qualquer ser humano. Ofereci esse amor, depois de pintar os cabelos naquela tarde. Quando uma porta se fecha, o mundo não acaba. Nem tive tempo de fazer parágrafos, “isto” aconteceu em poucos minutos. Não dei parágrafos porque não tive tempo para pensar. Demorei pouco tempo a pintar o cabelo. Não sei em quanto tempo abri a minha porta.

12 janeiro, 2012

Relembrar que (...)




(…) talvez vá sentir saudades desta vida, na minha terra, na cidade que me viu crescer plenamente. A cidade que notou a minha presença por breves momentos enquanto estudava o básico, a terra que me viu ambicionar em grande quantidade quando as escadas do ensino superior estavam à minha frente. Talvez vá sentir falta do fortalecimento daqueles laços, aqueles que me alimentaram um pouco mais o coração. Talvez vá sentir falta dos copos recheados de vinho branco ou cerveja em jantares afundados em convívio, amizade e demasiado álcool. Vou sentir falta da clarificação do espírito, das conversas interiores provocadas por estas pessoas. Pessoas que levo na minha capa (traje tão pouco usado pela minha falta de paciência). Nunca fui de mostrar a tradição de Coimbra, andei a senti-la.
O vento leva-me agora. Regressarei no futuro, o único tempo tão incerto. Deixo-me guiar pelos meus desejos. 




04 janeiro, 2012

Quando se vende a alma,



Sentia unicamente uma manta impecavelmente limpa, livre de qualquer tipo de impureza, sobre o corpo à medida que os raios solares exploravam todos os pormenores. Os olhos não desejavam alcançar a clarividência do passado, guerreiro vitorioso no derrubamento da confiança construída ao longo dos anos, peste insolente capaz de destruir em segundos, como se adquirisse a forma de sombra, negra, escura, gelada. Não existia nada à volta, nem assombrosos apartamentos, estradas, viaturas de todas as formas e feitios, nem árvores, frutos ou qualquer outro objecto animado ou sem vida ao pé do corpo enrolado. Unicamente uma brisa proveniente do “nada”, um vazio que alcançava os seus tecidos naturais e lambia suavemente as costas protegidas por aquele cobertor (ou qualquer nome que lhe queira atribuir) e também os raios solares eram os únicos exemplares de vivacidade que tocavam neste corpo, que experimentavam saborear corporalmente a vida. Mantinha-se a serenidade, a incapacidade de demonstrar movimento no vazio em que se encontrava. E uma paz continuava a inundar a alma, como se a aflição do fim do Mundo não tivesse importância. A sobrevivência em caso de alucinação é só um pormenor, o espírito encontra-se presente em todas as horas, em todas as gerações em todos os julgamentos finais.
Vender a alma em qualquer vida terrena contém um preço fatal. Entregar o coração a qualquer ser desumano com a intenção de recompensas no futuro destrói a essência, agregada a qualquer sorriso ou lábio pintado. Planear o caminho detalhadamente até ao sopro final, com a venda da alma nos inícios, equivale a morte profunda. Resta unicamente o corpo, a tecnicidade de um sorriso elaborado pelas exigências formais, a ambição vazia de qualquer riqueza (o mal de muitos rostos presentes no planeta Terra), desaparecem os pequenos saltos pelo segundo de excitação provocada por uma boa notícia, voa o acordar para combater com armas de fogo o prazer malévolo, desaparece a pureza de um comportamento solidário, como daquela vez em que entreguei dinheiro a uma vagabunda que cirandava à volta de todos os carros estacionados, com um olhar semelhante à ausência de esperança, ao pânico do dia seguinte. Aquela alma, colocada dentro daquele corpo, estava à espera do julgamento, do castigo que previra quando os guardas irromperam pela sua casa a horas tardias para qualquer cidadão normal, ignorante de todas as sobrenaturalidades que vagueiam. Quando os braços ficaram presos numa espécie de corrente, os olhos viram o demónio a rebolar no espelho, olhando pateticamente para a situação. Gaba-se silenciosamente do acordo elaborado há anos atrás, colocava a mão no peito que continha o coração de quem era preso, saco de alimento para continuar a existir saudavelmente aos olhos de todas as divindades. Não lhe conseguiam colocar as mãos mas observavam os seus passos, não impediam qualquer venda por saberem que as lições tinham de ser aprendidas, para conseguirem perceber quem eram as boas almas, onde se instalavam as podres, dotadas de insensibilidade e inteligência. Quando aquela alma foi levada, essa espécie de demónio andava à procura de um novo sujeito para enganar.
O preço tem de ser saldado em qualquer segundo, aquele corpo estático não pressente a chegada do brilho tranquilizado, sob a forma d’Aquele que todos veneram, e pelo qual nunca existiu um pouco de admiração por parte de quem está a ser julgado. O passado continuava do lado esquerdo e o futuro estava prestes a sair pela porta, cansado de todas aquelas acções, com o conhecimento do seu aspecto final mas completamente fatigado das constantes mudanças de aparência. Alheia ou pessoal, daquele que se encontrava unicamente enrolado. Sentiu pela última vez aqueles raios solares, calorosos e ternos. Quando se sentou à sua frente, colocou a alma que mais amava à sua frente. Sorriu, falou calmamente e passou a mão pela cabeça. Mas destruiu essa existência, retirou-a de todas as dimensões. Dissecou-a à frente do espírito que se encontrava no julgamento, portador de uma voz excêntrica. Soltou o grito nesse momento, como se não fosse capaz de mais nada, qualquer acção seria desprovida de sentido sagrado. O demónio enganou mais um nesse momento, matou a existência de outra personalidade ao acolher um coração alheio no peito.
Quando se vende a alma sente-se o vazio. Um nada que se apodera das veias e retira toda a força da pulsação, o preço é fatal. Talvez o julgamento seja o final.

02 janeiro, 2012

"Nos meus sonhos, encontro uma felicidade em estado puro"


Esperava pela elevação da sua voz, à medida que o sangue escorria pelas minhas costas. Um sangue quente, acabado de retirar do corpo morto, deixado na rua mais civilizada de toda a cidade. A minha máscara preta escondia uma parte do rosto, os olhos de tons azulados. A essência da alma deturpada por pecados carnais, acumulados ao longo dos anos. 
Nos meus sonhos, encontro uma felicidade em estado puro para ser despejada sobre os meus cabelos. Na fantasia desenhada pela minha mente, esses mesmos cabelos adquirem uma cor ruiva ou, na pior das hipóteses, um vermelho berrante que tem o dom de chamar a atenção a qualquer um que passa nas ruas estreitas. A fome de atenção acaba por ser aliviada em poucos segundos, os olhares desaprovadores, os sorrisos diabólicos com segundas intenções e os dedos indicadores a apontar na minha direcção saciam toda a ausência de amor que vou acumulando ao longo das minhas existências. Nos meus sonhos, consigo dar uso ao meu poder interior, espalhar um pouco de brilhantes pela rua (num drama digno de um filme rasco da série B, se conseguir ter alguma classificação) enquanto ajeito os cabelos vermelhos, não deixo que a falta de qualidade seja um dos factores presentes nestas elevações do corpo. O pathos provocado pelo sonho é muito mais eficaz do que aquele que Eisenstein pretendia com o seu cinema, ao construir técnicas de montagens com emoções à mistura de dois lados. As montagens elaboradas durante o sono ou quando se caminha na rua em pleno dia conseguem elevar o espírito muito mais além, o ser humano experimenta deixar os músculos, ossos, boca para assistir a uma acção mais promissora, pormenorizada.
Fechei os olhos e senti a carne macia dos teus lábios, com o desejo de a rasgar e triturar com a minha própria boca. Existiria algum pedaço da tua alma no pedaço destruído? Misturado com as pequenas gotas de sangue? Deixo e continuo a beijar-te, transmitindo arrepios a todas as partes do corpo, chorando de melancolia numa mistura com o êxtase. Duas sensações supostamente incompatíveis que alimentam o meu futuro suicídio. A máscara continuou no meu rosto, nesse momento trágico.
Não tenho sentido de estilo, mas tenho bom gosto. O fatal estilo que se encontra em decadência nos dias que correm graças à falta de pensamento em todos os pequenos seres, nascidos nos finais da geração de noventa e restante. Uma falta de estética, unhas roídas que arranham tábuas destruídas, corrompidas por filosofias com carácter duvidoso. Tábuas que se alimentam de tons fabricados para as massas, com um composições simples e sem grandes complexidades, que comem livros sem histórias dignas salvação. Nos meus sonhos, existe uma pureza inexplicável em todas pessoas. Uma cor saliente na pele, um toque suave em todas as mãos, uma delicadeza ao caminhar. Todas as vozes elevam-se aos céus, como se esse lugar fosse o destino final de todas as almas. Quando se escuta um canto morre-se durante alguns minutos, não são necessárias facas para cortar corações. Assassinos não são chamados, cabeças não são deixadas em cima de uma pista de dança. Nos meus sonhos encontro a felicidade que ando à procura na realidade, a emotividade ausente em qualquer coração, a racionalidade em poucas quantidades ao contrário do que se verifica. Desenho um sorriso no rosto quando chove torrencialmente. Deixo os sonhos falarem mais alto, em quase todos os momentos.
Os meus próprios desejos interrompiam a minha circulação, não sabia em que tempo verbal falar. Os meus dedos agarraram o teu pescoço e a minha máscara caiu no chão sujo. Ambiciono retirar-te a vida, sugar os sentimentos que dançam no teu corpo. Mas a minha falta de coragem é superior, viajo demasiadas vezes e não sou capaz de atirar-me contra o comboio que ressoa a sua presença com a buzina.  Os meus desejos são dinamites, todos os dias sinto-os como se fossem pequenos doces.

20 dezembro, 2011

Um cansaço a circular pelos dedos e a acumular-se nas vivências,


O cansaço acumulava-se no peso das vivências e circulava pelos meus dedos, à medida que o cigarro era consumido lentamente pela minha alma. Os lábios secos pelos dias e noites de Inverno não conseguiam tirar a essência da pequena substância graças aos ardores no meu espírito, transparente para quase todos os corpos que circulam pelo planeta e erram eficazmente quando a questão que enfrentam são as relações humanas. Sentado à janela, com os estoures quase levantados (em que não se via os pormenores deles), respirava o fumo para os vidros gelados. A neve que caia não tinha capacidade de fazer frente ao gelo que envolvia o meu coração. Depois de tantos abandonos, só conseguia pensar que o problema devia ser meu, da minha alma, da minha personalidade, dos meus cabelos, dos meus olhos, dos meus lábios. A frieza e um desprezo por um amor colocado num futuro tão próximo levariam a um afastamento da normalidade dos acontecimentos, nem o cigarro conseguirá aquecer os meus pulmões recheados de poluição alheia. Tenho o coração destruído, tenho-o calmo neste preciso momento como se nada conseguisse conquistá-lo ou destrui-lo, não existe qualquer reacção a um impulso enquanto estou sentado à janela, no meu mundo poderoso e controlado pelas minhas vontades. As depressões chegam mal um dos pés toca na zona fora da caixa, a tentativa de derrotar rotinas leva a essência de muitos para o esgoto. Uma luta por um vazio, quando as ambições são demasiadamente elevadas e a luz ao fundo do túnel desaparece, a primeira pela qual os olhos despertaram. A manta que enrolava as minhas pernas numa temperatura estável apareceu antes de começar a escrever, a ditar os podres da minha existência. Afinal sou demasiadamente introspectivo, penso demasiado em mim, comando a pensar no meu bem e esqueço-me de tudo o resto. Estou bem, estamos todos bem, basta a mente estar dentro deste modo, na individualidade de que todos os seres humanos são e devem ser capazes de conservar, amar e defender. Mas quando o gelo envolveu o meu coração, nem o amor-próprio escapou. Sob as diversas paredes que constroem uma casa, guardo um monstro. O monstro do abandono, que sente profundamente a ausência de diversas almas e pessoas (porque existe uma diferença abismal, se querem saber). Faltam uns segundos lábios, sente-se um “agora não dá” e promessas que foram feitas e conseguem aquecer. Existem os momentos em que não aquecem em que o medo se apodera das veias e desacelera o bombear do sangue. Os momentos de sufoco em que a mão prevalece sobre o peito, na tentativa de acalmar a caixa torácica, todos os órgãos que querem sair da boca. Desaparece em seguida, a confiança adquire as tonalidades do alma. Nunca existiu sentimento mais poderoso à face da Terra.

Solto lágrimas, a aparência do meu rosto desfalece na solidão da minha casa, o cigarro consome-se entre fumo e o arder natural, provocado pela chama minúscula. Essas lágrimas, nascidas da maior podridão, são o reflexo natural das escolhas individuais e alheias. As escolhas dos outros que condicionam e dão novos rumos, para conseguir dançar com os sapatos correctos. O cansaço teimava em acumular-se nos meus pulmões para me destruir, para deixar-me numa morte rápida e sem dor. Pouco me importa como estavam os meus cabelos nesse final de tarde, à medida que via o Sol a desaparecer num horizonte desconhecido, dou mais importância ao estado dos meus sentimentos. À elevação da emoção ao invés da racionalização, quem sabe da emotiva. Passava-me tudo pela cabeça, os beijos trocados, as partilhas efectuadas, a confiança conquista, os orgasmos atingidos. E sentia falta dos beijos e dos orgasmos, uma vez que as outras duas permaneceram. Mas é isso que falta? – Pergunto-me ainda muitas vezes. Beijos e orgasmos arranjam-se ao virar da esquina, se estivermos dispostos a não sentir mais. Vendem-se às prostitutas carnais, se for preciso. Mas é isso que me falta?
O meu coração não aguenta. Sente falta mas precisa de descansar. O Inverno leva-me a dar uma volta, na brisa gelada e no consolo do fogo. O cigarro queimou-se na solidão, entre os meus dedos. Deitei-o pela janela, quando entrou o frio. Os meus lábios ficaram ainda mais secos, os meus cabelos mais esgadelhados mas o meu coração continuou intocável. Intocável, é essa a palavra correcta. Um dia vai morrer e há segundos em que desejo profundamente, em outros faço uma vénia à eternidade. Quem sabe se não o faço à medida que escrevo. Tantas vezes penso que só escrevo merda.

10 dezembro, 2011

As ondas não lavaram a minha alma,



Isto é uma continuação disto. Ela nunca abandonou o meu coração e decidi contar um pouco do depois. Nunca ninguém conta essa parte, pois não?


Não me deixaste morrer, meu Deus, quando as ondas me levaram e lavaram os pés (envelhecidos pelo súbito aceleramento dos acontecimentos). As ondas do mar levaram-me para um lugar distante, geograficamente longínquo para não Te encontrar na tua casa, já que a tua duração na condição de humano duraria alguns anos até o contrato elaborado com o Diabo terminar. A minha mente, ao flutuar na água recheada de sal, entregava-se aos desvairos humanos e básicos que consumiam a minha existência, puxavam o instinto de sobrevivência adormecido em qualquer ser humano que cumpra as suas tarefas diariamente, sem qualquer alteração que faça para o Mundo, o seu mundo monótono. A fome consumia os meus pulmões, apunhalava o meu coração e derretia a alma que teimava em permanecer naquele corpo. Um fogo abrasador, electrificado com arrepios brilhantes e tensos pelo meu pescoço, flamejava e destruía a única verdade que existia: o amor, ao relembrar-me das lágrimas do rosto de Deus e o orgulho que lhe acelerava o sangue nas veias à medida que construía o meu corpo, perfeitamente esculpido com dedicação. Um amor por quem passava delicadamente as mãos pelo meu rosto, enquanto o movimento dos pés no chão de madeira ecoava ritmicamente. O som da música de embalar circulava tremendamente, colocando o planeta num sossego fantasmagórico. O amor apaixonado pelo criador da obra-prima, da escultura de anos. As minhas lágrimas misturavam-se com o gelo do mar, que levou-me para longe. Os meus pés estavam lavados, os meus sapatos envernizados perderam-se no fundo do oceano, nas rochas incapazes de saborearem qualquer raio solar. Os cânticos das sereias ouviam-se, na interrogação pelo desconhecido par que naufragava.

O amor perdeu-se nos dias em que flutuei no vazio. Os meus ossos não davam sinais de vitalidade sempre que os tentava mexer, as minhas lágrimas eram consumidas pelas ondas malévolas e cheias de interesse por uma essência diferenciada por sentimentos humanos, os pulmões pouco ou nada funcionavam graças às baixas temperaturas. O meu cabelo ganhou uma tonalidade cinzenta, o relógio biológico desfazia-se pela ausência de rotina, com pés de avestruz que decidiram correr para longe de mim. O meu amor não sobrevive a um ataque existencial, de todas as vezes que me recordo do segundo em que as ondas me levaram. A força das tuas mãos continuam agrafadas às minhas costas, a tua ânsia em te livrares de mim, quando reparaste que não existia perfeição em mim, derreteu-me a respiração (o motivo da minha sobrevivência). Não soltaste promessas, não colocaste palavras na boca para me aconchegar, unicamente colocaste-me no Mundo para Te encontrares. Um Deus recheado de amor e perdão era a última imagem que desenharia de ti, depois de tudo o que vivi, observei e senti. Os seres humanos nunca foram capazes de elaborar uma imagem tua, nem possuo capacidades para tal feito glorioso (e isso polui-me a alma). Mas os meus olhos conseguiram ver-Te. No corpo humano, nos cabelos claros, brilhantes e no corpo perfeito que apelava por sexo. Um sexo caloroso, recheado de orgasmos pelo meio e uma violência divina. À medida que as ondas me levam, recordo-me dos teus lábios, sôfregos, sólidos e excitados. Carregados de força para possuírem todos os tecidos da minha alma, absolutamente guardada para feitos heróicos. Os feitos de Hércules estavam tão longe de mim e pensava que, no fundo, iria ter algo semelhante a ele, queria tê-lo conhecido. Não esperava pela força que exerceste sobre mim, quando cai para as ondas do mar me levarem. Elas levaram-me, deliciadas pelo cheiro a traição que ficou no ar. Levaram-me e arrastaram-me para um infinito sem definição, graças à falta de conhecimento de qualquer coisa que nunca foi alcançada por uma pessoa. Que nome reles, pessoa. Ou então coisa, porque era isso que eu era, sabem?


Pergunto-me se o amor ainda existe. A minha alma foi lavada de ressentimentos, mágoas, desilusões. Quando é que a força das tuas mãos me vai abandonar? Leva-me contigo, para o teu trono depois das nuvens. Como Zeus, que o Olimpo e todos os deuses que viviam com ele. Como te chamas para além de Deus? Oh, deixa-me morrer então. Oh, deixa. As ondas lavaram-me os pés mas não me lavaram a alma, como seria de esperar.