19 março, 2012

Existe um coração em todas as criaturas,

Nunca publiquei este conto num espaço próprio. Lembro-me que a intenção era escrever um conto de Natal para o blogue de um amigo e este foi o resultado. Apontei a data. 19 de Dezembro de 2010 e por incrível peguei nele hoje, dia 19 de Março de 2012. Foi bom relembrá-lo, ver que o crescimento está presente.
Um sussurro não é como uma melodia que percorre o ouvido, fazendo carícias e confortando serenamente, torna-se em algo diabólico quando o desejo em escutá-lo aumenta gradualmente. Liberta-se da boca venenosa alheia e desaparece estupidamente, numa corrida rápida cujo objectivo final é atingir a meta e possuir todos os lucros prometidos. Todos os sussurros percorriam os seus ouvidos com a língua, saboreando-os tranquilamente. O ar que percorria o seu corpo escanzelado até aos pulmões tornava-se escasso, na tentativa de capturar todos os sussurros ela utilizava todos os tipos de energia. Com origem nos fantasmas, companheiros da sua vida, os sussurros aterrorizavam as noites, faziam transpirar até o corpo não conter mais impurezas para libertar pelos poros, situados em todos os recantos da pele. Mergulhava num oceano recheado de vozes pulsantes, consumidoras de todos os estilos de consciência e quando duas mãos apertavam o nariz e o pescoço, a jovem rapariga transportava-se para o presente. Um tiquetaque proveniente do relógio poisado na mesinha de cabeceira era uma prova de existência na realidade, uma vez que era tantas vezes puxada para o imaginário mal fechava os olhos, todas as vezes que impedia a luz de entrar no espírito.
Todas as sensações proporcionadas pelos pesadelos provinham de uma saudade gélida, as brisas congelantes aspiravam o peito sedutoramente. A mão da jovem tocava em cavidades húmidas onde outrora estava presente uma caixa torácica, recheada com dois pulmões, um coração e alguns ossos para a protecção dos órgãos essenciais. Uma toalha pendurada na casa de banho servia para secar os dedos sujos pela humidade corporal incaracterística. O ar apodrecido pelo ambiente em que vivia era inspirado pelas narinas, percorria a garganta e ao invés de violar, na tentativa de arrombar todas as células dos dois pulmões queimados pelo tabaco em demasia, apenas se desvanecia novamente pelo ambiente sugador de todo o tipo de felicidade existente em carne e osso. Uma lágrima percorria o seu rosto desde o primeiro dia em que o vazio estava presente no peito, literalmente. Já lhe passou pela mente colocar uma bateria dentro do buraco para escutar uma batida estridente, todas as vezes em que o silêncio se apodera e agarra as suas mãos denegridas.
Ao abrir as janelas de casa, todos os olhares na rua dirigem-se à rapariga com cabelos louros e perfuram-na ainda mais numa pseudo fatalidade que a deveria matar, já diziam os populares que “o olhar pode matar”. Apetecia-lhe gritar até não restar mais nenhum pedaço de corpo, todas as tripas explodiriam e embateriam no vidro da janela para a qual estava virada. Mas não passa de uma mentira, uma ilusão. Não devia ter vendido a alma a uma espécie de diabo que lhe assaltou os pesadelos com promessas inventadas e um contracto na mão. Brilhante, prateado. Continha todos os desejos pelo qual ansiava e assinar friamente, toda a sua caixa torácica foi sugada a uma velocidade estonteante com sangue negro a manchar o contrato, que se diluiu no peito da criatura sorridente. Pelas mãos do diabo foi plantada, na Terra, uma espécie de árvore e até aos dias de hoje ainda espera que o seu crescimento dê os frutos ambicionados. Tantas centenas de anos já esvoaçaram e os olhos ainda não conseguem ver qualquer tipo de evolução naquele pedaço de terra em específico. Uma lágrima não passa de uma tentativa para dar vida ao que faleceu há imenso tempo. Nunca ouviste falar em burla? A sensação de ter sido burlada invadia a rapariga, um coração, pulmões e todas as ligações tinham-lhe sido retiradas e só conseguia respirar de alívio por não ter negociado o seu cérebro, o único elemento que dá vida à carcaça que a carrega.
Todas as sensação de vivacidade que experimentava tinham origem mal os seus ouvidos captavam o som dos sapatos de um príncipe que saltava da sua janela e a tomava nos braços, para um noite de sexo. Precisava de duas mãos a percorrem os seus seios, de sentir um corpo dentro do seu com toda a violência e audácia para colmatar a falta de batimentos do coração e a circulação de sangue que vertia a partir do buraco no seu peito. Era o preço a pagar enquanto a árvore não florescia, seguindo o ciclo natural de vida. Os cabelos louros não passavam de simples artefactos, objectos para atingir energia na alma. Mal o príncipe abandonava os aposentos, descendo pelas mesmas pedras por onde tinha trepado, ela só tinha vontade de sentir uma faca nas mãos e arrancar os olhos do seu rosto. Afinal, desferir golpes no próprio corpo também trazia a adrenalina suficiente para se sentir viva. Quando desceu as escadas até ao pedaço de lama em que estava plantada a sua felicidade, chorou e suspirou sofregamente. Arrancou tantos pedaços de terra que as unhas se desfizeram, deitando pequenas gotas de sangue. Entranhando na terra toda uma vida recheada de pesadelos, fantasmas, sussurros, dias de chuva e desgraças. Pedaços de lama destruíram os cabelos louros, tornando-os negros, os dedos deitavam sangue de tanta raiva contida neles e o buraco encheu-se de pó, pedaços de pequenos bichos que consomem os corpos mortos e pequenas pedras.
Adrenalina, sensações de vivacidade experimentaram o corpo da jovem pela primeira vez de uma forma inconsciente. Lentamente, mostraram que estavam presentes nos braços ou nos pés, quem sabe nos próprios olhos. O pequeno diabo desenterrou-se, aparecendo de um pequeno pedaço de terra escurecida pelos desgostos.
- Não podes ambicionar todos os tipos de felicidade do Mundo sem utilizar qualquer tipo de energia, entendes? Não te é permitido ambicionar todos os sonhos sem um pouco de esforço? Se não fores tu própria a conquistá-los, ficas sem coração. Sem alma, minha querida. A partir desse momento não passarás de um corpo que apodrece bem aos poucos. – E a caixa torácica da rapariga aparece, magicamente, nas mãos do jovem diabo. Ao entrar no vazio que a preenchia, as lágrimas que brotavam do seu rosto e salpicavam o diabo provocavam o nascimento de asas esbranquiçadas nas costas da criatura malvada. Ao chorar de felicidade, o diabo transformava-se ternamente num anjo, a aparência maquiavélica desaparecia-lhe como um tornado destruidor de todos os terrenos existentes.
- E sabes, não podes alcançar a felicidade sem qualquer tipo de amor alheio. Qualquer tipo de amor torna-te mais humana.
E ele voou em direcção às nuvens, nunca nenhum olho humano voltou a captar a sua presença. E até hoje, a jovem dorme descansadamente. 

15 março, 2012

O coração de metal e a santidade,


Um coração de metal e um cinzeiro são os dois objetos que faziam falta no meu corpo e na igreja em que me sentava, respetivamente para não existir uma certa confusão nas vossas cabeças. Tenho sempre a mania de escrever, deitar palavras para o ar em primeiro para satisfação pessoal e em seguida para a segunda ou terceira pessoa, com uma paciência equivalente a santidade para continuar. Um coração de metal para ninguém o aceitar e um cinzeiro para colocar mais um dos meus prazer num local de adoração, de tranquilidade para os mais crentes. Sentado num dos bancos, sem ferir os joelhos, sinto-me a olhar para Jesus Cristo (uma imitação com valor monetário para os mais pobres de espírito e ambiciosos por objetos alheios) com um cigarro na boca, a fumar e a entregar a minha alma aos pecados. Os pecados são tipicamente humanos, pergunto-me se todos os santos nunca cometeram um único. Desejos de carne vão florescendo no meu interior. Preciso de um pequeno controlo para não seduzir a mulher, dona de casa, sentada num dos bancos com um terço nas mãos e um decote a gritar aos meus ouvidos os pedidos de paixão, ou então o homem com um rosto petrificado pelo medo, com fato e gravata e um historial de traições no casamento que rebentariam com qualquer moralista.  
Nunca vou ser suficientemente bondoso, humano para ser colocado numa cruz. Não vou deixar o mundo de pecadores para me santificar e purificar todos os litros de sangue que correm no meu corpo. Um coração de metal para alojar na cavidade húmida e um cinzeiro para apagar o cigarro. Não sinto a santidade na minha mochila, que me acompanha todos os dias.

13 março, 2012

Quando o telefone tocou,

Quando o telefone tocou, qual despertador descontrolado no meio do silêncio acolhedor, a sensação de monotonia soprou no meu ouvido novamente, a querer carinho, a influenciar-me para me sentar e acordar como todos os dias passados, pertencentes a ações controladas. Nesse momento atirei o telefone para debaixo da cama e coloquei as minhas mãos no meu corpo, nesta individualidade erótica que me aflige e corrói a alma de desejos nos dias nublados. Passo os dedos pelo peito, coloco as unhas em pedaços de carne para abrir um pouco a boca e aconchegar o oxigénio vital para os pulmões danificados pelo tabaco, de consumos de anos e anos seguidos sem a mínima pausa. Quando as unhas vermelhas chegam ao pescoço sinto a vontade de cantar, de afastar demónios negros sentados no passado. Um movimento lento, estudado para começar em qualquer peça de teatro, erótico para os olhos alheios que me observam através dos sonhos. As sensações das línguas de terceiros ou quartos a passarem sobre as minhas pernas incendeiam-me, remexem-me e deixam-me nesta introspeção amaldiçoada. Quando o telefone tocou, o som continuou debaixo da cama e as minhas mãos continuaram a tocar-me serenamente.

A tua voz continua igualmente potente nos dias em que a rouquidão teima em manter-se na minha voz, com as cordas vocais a degradarem-se com as impotências da intelectualidade. A tua voz continua a hipnotizar-me nos dias em que não existe um interesse nas pedras do chão, em que os relógios não conseguem avisar-me furiosamente dos meus compromissos, porque o som é melodioso, tenebroso para quem procura paz de espírito. Quebrei corações por divertimento tal como dizia a outra, comi músculos vitais para sobreviver e guardei o sangue para coleção, deixando-os no fundo do armário (a noção do tabu, de não me sentir bem por não exibir os litros de sangue colhidos). Quando o telefone tocou e quando pensei que ia obter monotonia, algo mudou radicalmente nos meus olhos, a ação terminou no início do acontecimento. Chegou a hora em que sinto os arrepios de êxtase a formarem-se no fundo do coração e da mente, em que os fantasmas ganham carne e conseguem apertar-me os braços, numa tentativa de deixar as marcas. É o minuto em que os meus olhos vertem lágrimas por não conseguir ouvir tão aproximadamente a tua voz, sabendo que está plantada na minha veia aorta, deliciosa para os carnívoros e vampiros que correm atrás de mim. As paredes das ruas continuam a encherem-se de flashes quando caminho, exceto nos momentos em que as minhas mãos envolvem apaixonadamente o meu corpo, em que o cheiro a sexo paira no ar. Remexo as pernas na cama à espera da posse dos fantasmas, do arrojado momento em que morro e volto à vida graças a diversos orgasmos. São os meus ídolos quando procuro alguém para amar, já que os vivos estão recheados de defeitos fatais.

Na hora em que antigo o orgasmo, sinto a sujidade a invadir-me o peito. A desilusão de obter milhares de vozes e permanecer na solidão gélida. Sou o teu admirador, sou o teu admirador de coração e será que reparas nisso, pergunto-me. O relógio badala, dá sinal para os meus cordões. Estou nu. No sentido literal e quem sabe, psicológico (com a pausa para assimilarem a ideia). Quando o telefone tocou, a tua voz apaixonou-me lentamente e gritei para explodir com a minha lógica.

12 março, 2012

(...) não consigo deixar de me apaixonar por inteligência,

Ir ao ModaLisboa na posição de Imprensa levou-me a um campo mais profundo, não duvidem. É curioso saber quem aprecia realmente o mundo da moda, quem contém algum conteúdo e quem são aqueles com a capacidade de ter os pés no chão. O lado contrário também existe e está presente, as pessoas que não sabem o que significa estética, que pensam que a aberração pode abrir novas portas (e quem sabe se não abrem, mas onde anda foi parar a naturalidade, a elegância?). Estar presente num evento destas proporções, mesmo sendo em Portugal, é sentir-se como se os dias de Carnaval estivessem novamente no calendário e é conhecer pessoas novas, com um bom discurso, com conteúdo dentro das massas cinzentas. Estar ali é também ver alterações nos comportamentos das pessoas, equivale a crescimento. Sabe a subir os degraus e a compreender o funcionamento da sociedade, das hierarquias.
O tema Freedom supostamente significava “símbolo de mudança assertiva no caminho de novas e essenciais formas de estar e ver o mundo” ou então “renovar o estabelecido”. Questiono-me então: porque soou tudo igual e sem a suposta liberdade, na sua maioria? Perdoem-me os que não concordam comigo mas as coleções pareceram-me muito iguais, as tendências portuguesas continuam muito no mesmo, não abrem asas. E onde andam as pessoas com verdadeiro talento? Onde andam esses brilhos que conheço tantas vezes? Tive o prazer de conhecer algumas pessoas realmente talentosas, com cérebro a funcionar claramente e com um bom gosto extremo. Mas digo, a maioria não sabe porque está sentada num banquinho do desfile, não entende que o importante (desculpem a ingenuidade, se assim o acharem) é apreciar a arte. É tudo a que se resume: arte. E basta saber como pegar nela e usá-la para mudar um pouco a zona de conforto. Amo muito uns bons sapatos mas não consigo deixar de me apaixonar por inteligência.


O StreetLights.pt gostou da minha mochila, que andou sempre comigo todos os dias. O Espalha-Factos tem sido o local onde deixo a minha crítica. Em Outubro quem sabe se não estarei outra vez a ver as novas apresentações. Sinto o coração mais rico.


(um dos meus predilectos, já agora - Os Burgueses)

02 março, 2012

A pausa na veia dramática,

Confesso que a minha veia dramática manifesta-se em demasia neste espaço, existe alguma porta que abro todos os dias para vestir a pele de qualquer personagem que surge na minha mente. Dou coragem aos meus lábios para beijar o espelho que se encontra à minha frente, às minhas mãos para ferir os meus braços e deixar escorrer o sangue para um frasco e pinto os meus cabelos em tons cinzentos sem pensar duas vezes por detrás destas palavras, já que na realidades somos colocados em regras de condutas. Espreita-se unicamente uma pequena sombra das loucuras que se deseja profundamente, como se fosse a última vontade à face da Terra. A veia dramática eleva as horas às últimas que me restam (conseguem entender?)


 
 

É Lisboa uma das partes que me inspira de momento. Todos dizem que se mudam passado algum tempo de permanência na grande cidade e não pensem que é ilusão. Realmente existe uma mudança e caso não exista um equilíbrio e os olhos bem abertos para o quem somos, para o que desejamos então existe uma perdição estampada em qualquer esquina, nas estações do metro. Não me livrei de quebrar um coração para reparar o meu (o acto desumano mais próximo de traição que conheço), não me livrei de beber uma garrafa de vinho enquanto chorava com amigos, não consegui não mudar nem um pouco. É necessário saber em que boca não devemos cair, existem algumas dispostas a amassar-nos, devorar-nos sem dó nem piedade (e com isto não coloco qualquer interpretação erótica). Mas no contacto com novas pessoas vou encontrando pequenos tesouros como estes. Graças a uma das melhores amigas fiquei a conhecer esta senhora de 90 anos que realça o que sempre pensei sobre a velhice e a autenticidade como artista. Não é dia de cortar o meu coração em postas, haverá mais oportunidades para esse acto. Hoje são os pequenos objectos e as grandes pessoas que me levam.
 E foi aqui que passei a conhece-la um pouco mais.

25 fevereiro, 2012

Um beijo à loucura,


Desconheço se existe alguma doença mental relacionada com o vaguear excessivamente no mundo da fantasia e deslocar-se da realidade. De todas as vezes em que visito o meu médico de família nunca conseguia abrir a boca para lhe fazer essa pergunta, quem sabe por se não é por medo quem sabe se não é por loucura. Existe sempre uma admiração nos olhos dele em todas as vezes em que coloco os pés no estabelecimento recheado com um cheiro intenso. O cheiro típico de algumas pessoas que já passaram muitos anos nesta vida, no presente, sem qualquer expectativa de um longo futuro, aqueles que apreciam olhar para trás para saber o que poderiam ter melhorado (apesar de não terem permissão nem memória para assinalar os erros como aviso na próxima vida) e com isto não me interpretem mal, não tenho nada contra o cheiro característico, nasce nas minhas mãos uma vontade de sentir as rugas vincadas, de beijar a passagem do tempo com lábios envelhecidos e ressequidos graças à sensibilidade de uma pele idosa. Talvez o meu médico de família fique admirado pelo que acabei de escrever e pensar naquela hora, por a cor dos meus olhos se perder de todas as vezes em que começo a imaginar. Ou então abre a boca num espanto por me ver com uma peruca diferente de todas as vezes, quando não me lembro da noite anterior colocar tinta nos cabelos (as tintas sem qualidade, que ao fim de várias lavagens acaba por desaparecer). Nos últimos dias tenho vontade de colocar um tom cinzento, maldito mediatismo!

Nem um terço da minha loucura está presente nestas palavras, é uma reduzida porção que me leva a questionar se existe um diagnóstico para os loucos de fantasia. Coloco doses excessivas de batom para o cieiro no lábio superior e vaselina no inferior, talvez para conseguir realizar as minhas fantasias com mais facilidade e acreditem-se que pode dar jeito. Nunca ninguém vos disse que a loucura passa um pouco pela excessividade de erotismo? Acreditam que passa em toca em muitas questões que maioria das pessoas preferia nem pensar. Quando vagueio excessivamente penso em carne humana, nos prazeres e tentações de apenas uma noite. Nas horas anteriores ao clímax, ao orgasmo, as ditas horas de tesão (num português rasco, terrivelmente rançoso – agora que analiso o quanto estes últimos dois adjectivos moem qualquer língua) aliadas a uma loucura física.
Desejo por hora fazer dezenas de tatuagens no corpo, é a única loucura que nunca ponderei fazer à última hora por permanecer no corpo por um tempo definido. Carimbar um “para sempre” em relação a questões visuais magoa o coração, esvazia as veias por ser carregado de futilidade e sujidade. Se me chamam de louco, nunca sabem a diferença dentro de mim. Gritam aos sete ventos a minha loucura, analisam-na e tentam interpretar. Não falo em compreender, isso é um verbo demasiado caro para mentes vestidas e amarradas, não existem braços abertos nessas células cerebrais. Interpretam para colocar o meu corpo no inferno, para ser queimado por um suposto Diabo que está pronto para me morder, para consumir a minha alma. E nestas questões imagino a alma como um pedaço de tecido em que o bicho demoníaco pode vestir, colocar no pescoço ou simplesmente limpar a boca depois de uma refeição. De todas as vezes em que vou ao médico de família, ele acaba sempre por analisar os meus olhos para detectar alguma anomalia. “Sofre com tensão ocular”, e o seu espanto permanece quando pergunto “Apenas isso?”. Incha de indignação, o nervosismo é palpável e a raiva é consumível pelos botões da minha camisa.

O grande problema é quando me olho ao espelho. É o único objecto que me faz duvidar da minha doença, a invenção que coloca esforço de todas as vezes em que quero deixar a realidade. Vejo os olhos castanhos, remexo nos cabelos desgrenhados e passo um dedo da mão direita sobre o meu queixo, sentindo a pele marcada com borbulhas. Perfeição equivale a destruição. Colagem é drenagem. Imitação é o mesmo de descoloração. Nestas viagens pelo mundo dos sonhos e fantasia, pergunto-me onde estou e como sou? Numa realidade existe algo de imperfeito que me apaixona, na fantasia a perfeição é a religião, a razão pelo qual me sento a rezar e a pedir para ser abençoado com tal característica. Onde estão os filósofos prontos a julgar-me? De cada vez que aparecem frades, modelos, padeiros ou até mesmo padres (se é que existe diferença) tentam todos puxar pelos cabelos para sentir dor. A sensação que me pode salvar da loucura, diz um deles. A única que pode tocar na espinha, dizem todos os outros em coro.
No fim da consulta pergunto-me onde está o papel para o internamento. Nesse segundo é a primeira vez que não olha para mim surpreendido.

19 fevereiro, 2012

Ode às idealizações,


O peão estava pronto para atravessar a estrada no momento em que o carro atravessaria a rua a mais de duzentos quilómetros por hora, ou devo dizer segundo? Num mundo em que é necessário explicar tudo ao pormenor nunca se sabe se as palavras que libertamos são entendidas correctamente, já que contextos não são revelados e todos sabemos que a máquina humana não está habituada a pensar. Como estava a escrever anteriormente, o peão estava pronto para atravessar a estrada e colocar fim à própria vida num acto conturbado, quem sabe plenamente entediado por não ter uma vida que idealizou ou ambicionou.

Ambos sabemos que o ser humano adora idealizações, combinações, planeamentos. Maioria das senhoras idealiza um neto que os filhos homossexuais supostamente vão ter. Maioria dos homens espera que as suas filhas não sejam tocadas por nenhum rapaz até se casarem (e normalmente são essas que caçam todos os pedaços de carne musculada que andam pela rua, numa exibição digna de estar numa montra de qualquer loja dirigida para um público rigoroso). Maioria dos filhos quer mostrar a sua masculinidade misturada com insensibilidade através do número de namoradas que vão levando para casa. Todas as pessoas são iludidas pela primeira cara-metade até o tempo limite para consumo se esgotar. Ideias, sonhos, ambições e desejos que estão escritos na testa de qualquer pessoa que ande na rua com medo do pensamento alheio, a espreitar o caixote do lixo do vizinho para denunciar a primeira falta de cuidado, o cheiro imundo provocado pelo descuido da vizinha que estava ocupada a cuidar dos cinco filhos, a arrumar a casa e a tratar da sogra senil enquanto o marido se encontrava a ter um orgasmo com a secretária na empresa. Demasiados clichés que se vão repetindo ao longo de gerações, vou olhando para o relógio e para o calendário à espera da hora em que vou desistir de acreditar em qualquer tipo de mudança.
Espero sentado, espero em pé, observo e sinto receio de cair em idealizações tal como todos os outros. As imagens mentais que me levam à loucura momentânea permanecem nas minhas veias, acompanham as viagens do meu sangue quando coloco a colher de cereais na boca, mal acabo de acordar. Demasiado tabaco deixado pela minha mãe (especulações, sempre gostei de imaginar a minha mãe a fumar. Talvez por ela ser totalmente contra o fumo ou contra o veneno que está associado a um cigarro?), acaba sempre por sujar a bancada quando tiro uma das tigelas compras na feira do meu bairro. O bairro que me viu a crescer, a pentear os cabelos das bonecas e dos maridos das bonecas. As estradas que me beijaram os joelhos nos dias em que comecei a tentar andar de bicicleta, que me acalmaram quando me sentei com um livro a desfrutar dos raios solares. As estradas que me conseguem ver-me como um simples peão a arriscar a vida pela ausência de concretização de sonhos, por não ter pintado os cabelos num tom cinzento como desejei há dois meses atrás e por me teres abandonado. Abandono é o meu fruto, aquele que descasco todas as noites para me acompanhar o chá, queima a língua e aquece as minhas mãos quando pego na chávena e levo à boca.

Maioria das pessoas sonha com uma mansão com quatro andares, dez quartos e cinco mil casas de banho sem esquecer das duas piscinas (uma interior e outra exterior, para variar nas estações do ano). Algumas pessoas. Maioria das pessoas têm uma pequena casa, com dois quartos, uma casa de banho, uma cozinha e uma sala. Maioria das pessoas vive num pequeno apartamento, com paredes de cartão e com barulho a infiltrar-se todos os dias, nas madrugadas de lua nova. Queimei os lábios ao beber chá e nesse momento decidi transformar-me num peão e ser algo diferente, a diferença no campo da vulgaridade. Chamo de vulgaridade porque já se inventou tudo, já se reinventou mais alguma coisa, nem consigo cometer um suicídio particularmente chocante como ambicionava. Coloco uma roupa decente, transformo-me num peão de um jogo de xadrez e resolvo brincar com o meu próprio destino. Pergunto-me qual a novidade desta decisão, enrola-me o pescoço, toco no meu rosto à medida que vou olhando pela janela. Acabei de idealizar uma morte, acabei por me deixar levar por um dos meus maiores medos e coloco-me de joelhos no chão, com a cabeça virada para cima. Não sei se rezar irá trazer algum conforto ou paz, necessária para sentir vivacidade nos meus músculos, chamo por uma divindade que nunca esteve comigo. Ou então nunca chamei por Ele, como todos gostam de colocar em maiúsculas para mostrar respeito. Mas como vou mostrar respeito por algo que não compreendo? A minha boa educação consegue sussurrar-me aos ouvidos e mantenho as mãos ligadas, à medida que vou proferindo passagens da Bíblia que me ficaram na cabeça, das vezes em que a minha avó me obrigou a estar sentado nas missas de domingo. Antes do café, antes do almoço.
Transformei-me num peão, pronto para acabar com a minha vida. Idealizei um acontecimento. E por isso pergunto-me, o que estou ainda a fazer aqui? A comer a minha própria pele, a experimentar as unhas roídas.

18 fevereiro, 2012

Uma vírgula,



Um artista não sobrevive. Um artista vive.
Intensa, exaustivamente. Dolorosamente, violentamente. Numa correria de sentimentos e inteligência extremos. Queima-se e não volta a entrar na fogueira, dos sonhos, da mentira, da infelicidade.
Eu vou ser um artista. Pelo menos já estou a viver. 

10 fevereiro, 2012

Às 22:22 vou sentir-me,



Não ando a sentir-me. É terrível acordar de manhã com os cabelos desgrenhados e esquecer-me de penteá-los, numa atitude inconsciente de despreocupação com pequenos actos que estavam plantados dentro de mim. Assusta o meu espírito o momento em que não consigo falar alto para mim mesmo, a reclamar desta falta de despreocupação, na tentativa de tentar melhorar. Não ando a sentir os meus músculos, os poucos que possuo, depois de tomar um duche. Uma combinação de bem-estar abandonou-me há algum tempo, como se me tivesse fugido sem deixar um aviso, trazendo o desamparo para o presente. Os cigarros desapareceram-me da boca, uma boca extremamente sedenta de desejo invisível. Os dentes talvez tenham ficado amarelos pela falta de cuidado, à medida que ia aumentando os litros de álcool que permaneciam nas veias todas as noites. A ausência das minhas mãos sobre os meus cabelos castanhos, de tom escuro, gritou à minha consciência para a mudança, o vento atingiu a minha espinha e levou a essência da minha alma. Deixei de tocar-me há alguns minutos nestas horas de vida, de atingir orgasmos para me divertir sozinho, de sair à noite para beijar alguém, com adrenalina nas acções, com a respiração violenta. Deixei de fazer amor com a mente, de despir cada peça de roupa de alguém interessante, de desperte o meu coração. A roupa extravagante nunca mais viu a luz da noite, as botas metalizadas ficaram guardados no sapateiro, os cremes que podiam aumentar a minha juventude nunca saíram das prateleiras de qualquer loja. Os meus pés encontram-se parados, a partir do momento em que não deixo o meu trabalho de lado, em que todos os extraterrestres pedem missões quase impossíveis. Não me posso queixar, são seres de outro mundo e não do submundo que aterrorizam muitos das pessoas por quem consigo ter amor. E onde pára isso? Não ando a sentir-me, não ando a sentir o bombardear do meu coração – amor meu, volta para mim, amor excitante, urgente, amável, qualquer nome que lhe posso chamar porque nos dias que correm amor é qualquer sinal de vitalidade, pensam muitos – não ando a colocar as mãos em mim, num acto de amor-próprio.
Vou andar a descobrir novos caminhos, novos tipos de sensações. Os sentimentos vão fortalecer mas vou renascer espiritual, corporalmente. Queria pintar o cabelo num tom totalmente preto, despejar litros de tinta nos cabelos se fosse preciso e não tive a coragem necessária. Mudar para sentir equivale a possuir coragem, equivale a tirar as pedras dos sapatos que impedem o percorrer do caminho. Equivale a colocar todos os medos nos baldes para a reciclagem, equivale a pintar as unhas de preto quando qualquer homem quer sê-lo com maiúsculas. Nunca ninguém pensou em alimentar fantasias do inconsciente, os primeiros olhos são menos importantes do que os segundos, terceiros, quartos ou quem sabe, quintos? É necessária uma faca, uma pequena lâmina afiada que trespasse o meu coração, rasgue pedaços da alma e me consuma.  Permaneço deitado no meu caixão, à espera do despertar à meia-noite. Quando abrir, vou deitar cá para fora as minhas composições, vou escrever sobre o que me apaixona, vou amar ainda mais quem ficou com o meu coração, é tempo de tocar os sinos. Aproxima-se o momento de sentir, cometer mais um crime de sentir. Nunca me soou tão magnificamente cometer um crime a mim próprio, vou voltar à minha essência. Vou pintar os lábios, colocar as mãos em mim. 
Às 22:22 vou atingir um orgasmo, que saudades.

08 fevereiro, 2012

Falo de ti às pedras das estradas todos os dias,

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória, 
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São os astros que me tombam do regaço.

Florbela Espanca, A Mensageira das Violetas



No Sol que iluminou o dia apercebi-me, com o cigarro na boca, da ausência de respeito pelos teus sentimentos, pela tua condição de amante a partir do momento em que abri a boca para te falar sobre o meu coração, sem cuidado, sem espaço para pensar. Nas palavras cortantes, no entrecortar de pormenores essenciais, não atendi ao teu amor, ao teu sentimento proveniente de outros tempos. Neste flutuar em que a minha vida se encontra, nesta necessidade de pausa em que o meu corpo necessita. Oh, quando somos nós que cometemos o erro é fatal para todas as veias, amortece o aceleramento dos batimentos cardíacos, a alma morre um pouco mais. A partir do segundo em que me apercebi do erro pela ausência e pela mudança dentro de mim, pedaços da alma derreteram, provas que necessito de mostrar ficaram mais fortes. Oh, as acções vão ser o meu ingrediente principal, a minha alma continua a mesma com algumas defesas. Necessito de retirar essas defesas para contigo, se o meu papel se invertesse, se o jornalista fosse a segunda pessoa e me perguntasse “Quem te conhece melhor?”, provavelmente diria o teu nome, não me ocorre outro depois da minha mãe e do meu pai. E com isto peço-te desculpa. Desculpas não se pedem, evitam-se, diriam muitos. Com os erros aprende-se, existe formação humana, com isto ama-se um pouco mais. Odeio-me à meia-noite de todos os dias, quando um novo dia começa. Isso vai mudar, acabou-se o desgaste. Começa o renascimento, a subida aos céus. Oh, perdoa-me meu amor. Se soubesses o quão morto estive hoje. Se eu soubesse o quão morto estiveste hoje. Neste flutuar em que a minha vida se encontra, tento entender as tuas páginas. As minhas são escritas de forma rabiscada, quando estiver contigo, aconchegado, a partilhar a vida, vou lê-las ainda melhor. A minha alma gémea está comigo, ficarei sempre contigo. Perdoa-me, falo de ti às pedras das estradas todos os dias da minha vida.

05 fevereiro, 2012

PS - As pessoas ficam melhor ao Sol,


Presto atenção a alguns pormenores já que outros vou deixando escapar, para bem longe do meu campo de visão. Umas vezes consigo sentir-me extremamente bem com a forma como passo a porta de casa para abraçar o tempo que passa, das outras vezes os pequenos tecidos que conseguem aniquilar o poder de uma gélida temperatura são constantemente acertados e colocados no sítio correcto numa tentativa de satisfação do meu lado mais organizado (que neste momento, tantos lados da minha vida e personalidade estão desorganizados. Quais, perguntam-se vocês. E eu não respondo a isso). A partir do momento em que tenta prestar atenção aos pormenores, existe a tendência de permanecer em silêncio, com a boca fechado, com as opiniões e gostos todos guardados. Trata-se de egoísmo, a partir do momento em que digo o que estou a pensar não passa a ser uma algo só meu (mesmo que seja uma loucura, uma fantasia que a minha cabeça alimenta a todas as horas), são mecanismos de defesa contra tudo. E quando digo tudo, pessoas da minha natureza contém também dificuldade em confiar em que amam profundamente.  Essas por vezes são as mais terríveis de confiar, a mente organizada faz previsões do que os olhos alheios vão pensar de nós e se nos diferenciarmos vamos estar a ir por outro caminho, outro padrão (e com isto poderia estar a desenhar mais hipóteses, é a faceta mais natural de um ser humano como eu).
As pessoas ficam melhor ao Sol, ouvi numa música que tinha guardado no computador. Gostava que os raios solares brilhassem novamente na minha cara. Com os meus óculos escuros, um chapéu dos grandes na cabeça e a vestir unicamente uns calções, desejava aproveitar novamente uma das melhores estações do ano. Sou um apaixonado pelo Verão, pelo descanso, pelas ondas do mar, pelas pessoas a gastar o tempo com a família e amigos num local recheado de areia e água salgada, numa simplicidade envolta em paz. Falta-me sentir a areia no momento em que escrevo, falta-me olhar para alguns pormenores. Desejo o mar para me esquecer dos problemas que a minha cabeça vai elaborando e as pequenas inseguranças que vai plantando. Oh, é simplesmente isto. Hoje só escrevo isto. Neste dia de frio, eu quero que o Sol regresse e desejo olhar para todos os pormenores.
E neste dia volto a escrever o amor que tenho por ti. Volto a redesenhá-lo, volto a guardá-lo, volto a mostrar-te se não estiveres longe. Essa distância fria é que me mata durante alguns minutos. O Sol traz o calor, os reflexos, a cor loura. De que cor é o amor? As pessoas ficam melhor ao Sol.

29 janeiro, 2012

"I like boring things" - VI












Fantasy love is much better than reality love. Never doing it is very exciting. The most exciting attractions are between two opposites that never meet.

hoje sou eu e as minhas fantasias.
vou fazer amor com algumas  pessoas, até já.

26 janeiro, 2012

Um copo de vinho,



Quando foi o último dia em que tive o mundo nas mãos? 
Embrulhado com um simples cobertor na mansão de quatro andares contínuo à espera de todos os fantasmas, recheados de promessas elaboradas em vidas passadas. Não há espaço para colocar qualquer aquecedor ou mesmo para acender as lareiras, não existe dinheiro que pague as extravagantes contas de electricidade. Os donos da casa encontram-se presos nas mais de quatro paredes (afinal, uma mansão de verdade contém dezenas de paredes e por norma alimenta-se uma história baseada na ausência de amor), as suas mãos geladas pela constante passagem do relógio biológico tocam serenamente nos meus ombros. Os meus ombros equilibrados por pensamentos com natureza filosófica e existência superficial, conotada por simples abrilhantadores, obras-primas em forma de roupas com qualidade e sem inteligência nas questões de conhecimento. São dois ombros, esta palavra que continua a ressoar nos meus ouvidos e a massajar os meus olhos castanhos, são dois que sustentam os meus sonhos, os meus desejos de suicídio e de gula, as ambições que soletram o caminho que devo tomar para encontrar a felicidade. Encontro-me embrulhado com um simples cobertor branco, para tentar disfarçar o pecado nos meus pensamentos. O frio continua a atravessar a minha pele, enrola o estômago e fere os lábios, prontos a saborear uma desconhecida ou um desconhecido. Recheado de novas sensações, vou sonhando com a chegada de novas formas de sexualidade. O amor na forma mais pura e personificado num ser humano, esse já o encontrei. E vou esperar pela felicidade ao lado dele, confiar e dar as mãos no presente (o único tempo mais próximo da realidade). As mãos fantasmagóricas dos donos da casa continuam a tocar nos pedaços de músculo, na tentativa de alcançarem os ossos. Ossos – a parte do corpo mais pesada, a agonia pormenorizada de um passado repleto de desejos anorécticos em futuro e sonhos – brancos, a cor da pureza. Quando foi o último dia em que tive o mundo nas minhas mãos?
Nunca o deixei de ter. Nos minutos em que atinjo um orgasmo, na hora em que acabo de pintar os meus cabelos (faço-o constante), nos dias em que consigo esquecer a minha loucura e distinguir a realidade da fantasia criada pelo meu cérebro. Quando seguro um copo de vinho tinto nas minhas mãos, com o olhar perverso a espiar uma orgia na casa vizinha. Dois homens com uma rapariga no meio, a aproveitar a transparência de homossexualidade, todas as qualidades destes seres do futuro (uma vez que uma parte dos seres humanos não consegue aceitar esta realidade perfeitamente comum). As mãos da jovem passam pelos cabelos dos jovens que encontram-se nos lábios um do outro, que puxam a carne feminina para eles, retirando a pouca pureza que poderia existir naquele ser. Alinhar numa orgia não é sinal de pureza, não é sinal de depravação, é sinal de satisfação. Carnal. Existencial. A mansão que me acolhe continua gelada e o meu coração entra nas chamas, enrola-se no desejo excitante de me juntar aquela orgia. O vinho tinto sabe-me a chocolate ao sentir a excitação no meu sexo (e chamo-lhe isto para ser elegante, como qualquer pessoa deve ser na hora em que está a escrever, a despejar sentimentos, o que quiserem chamar-lhe). Tenho o mundo nas mãos, não deixo de o ter. Tento enganar-me por pensar o contrário.
Escolho abandonar a mansão e dirigir-me à casa mais pobre em mobílias, em espaço e em lembranças mas rica em desejo, amor, sexo mesmo que momentâneo. Deixo o copo em cima da bancada da cozinha e quando bato à porta da casa, não há interrupção. Levam-me e os meus lábios entram naquelas sensações, acompanhando os alheios, as mãos tocam-me furiosamente. Quando é que deixei de ter o mundo nas minhas mãos? Deixei alguma vez de ter?

22 janeiro, 2012

Vim procurar o amor (à porta certa),


Vim procurar o amor à porta errada, na entrada que tantas vezes me viu apodrecer no chão graças ao álcool em demasiada quantidade nas veias. A porta que presencia de todas as vezes em que consigo sair de casa com alguma felicidade, de pouca dose para não exceder o limite máximo, para não enfurecer o coração. No dia em que coloquei tinta cinzenta no cabelo, houve alguém que mandou uma gargalhada ao lado da porta da minha casa. Colocou a mão na boca, no medo do meu olhar que perfurar a alma como raiz venenosa. Os meus cabelos cinzentos, numa tentativa de atrair os holofotes vulgares de pessoas igualmente vulgares nas ruas recheadas de pobreza, brilharam na solidão. Um sentimento que tenta encontrar sempre algum tipo de austeridade, como as pessoas tentam nos dias que correm de uma forma exaustiva. Brilharam pela simplicidade de um acto recheado de complexidade. No amor de colocar a espécie de pasta incolor nos meus cabelos, o meu sorriso foi a gravação que penetrou a memória gasta por preocupações demasiado rascas. Na prostituição em que coloco todos os dias o meu cérebro (ou será que é preciso existir uma distinção entre cérebro e mente?), lembro-me de sorrir perante a pequena mudança que estava prestes a garantir ao meu aspecto físico. Quando bati naquela porta à procura de amor, fecharam-na violentamente sem medo de ferir. Um comportamento que demorou segundos e marcou anos de existência. E os meus pensamentos são dotados de algum tipo de velocidade ou de elasticidade. Ao sair de casa, depois do acto de amor-próprio a gargalhada do desconhecido penetrou os meus ossos. A única parte da constituição humana que está mais evidente no meu corpo. O sorriso malévolo que se desenhou graças à invulgaridade de uma pessoa vulgar. Os meus medos ganharam uma amplitude (é amplitude?) ainda maior, fora da normalidade de todos os dias. O amor não apareceu nesse momento, nem veio ter comigo. O amor nasceu. Quando vieram à procura de amor na minha porta, mantive-a aberta. Disposto a receber quem aparecesse, de aspecto mais rasco ou invulgar, com um brilho fabuloso capaz de colocar sementes de inveja em qualquer ser humano. Ofereci esse amor, depois de pintar os cabelos naquela tarde. Quando uma porta se fecha, o mundo não acaba. Nem tive tempo de fazer parágrafos, “isto” aconteceu em poucos minutos. Não dei parágrafos porque não tive tempo para pensar. Demorei pouco tempo a pintar o cabelo. Não sei em quanto tempo abri a minha porta.

12 janeiro, 2012

Relembrar que (...)




(…) talvez vá sentir saudades desta vida, na minha terra, na cidade que me viu crescer plenamente. A cidade que notou a minha presença por breves momentos enquanto estudava o básico, a terra que me viu ambicionar em grande quantidade quando as escadas do ensino superior estavam à minha frente. Talvez vá sentir falta do fortalecimento daqueles laços, aqueles que me alimentaram um pouco mais o coração. Talvez vá sentir falta dos copos recheados de vinho branco ou cerveja em jantares afundados em convívio, amizade e demasiado álcool. Vou sentir falta da clarificação do espírito, das conversas interiores provocadas por estas pessoas. Pessoas que levo na minha capa (traje tão pouco usado pela minha falta de paciência). Nunca fui de mostrar a tradição de Coimbra, andei a senti-la.
O vento leva-me agora. Regressarei no futuro, o único tempo tão incerto. Deixo-me guiar pelos meus desejos.