15 junho, 2012

A morte no Cabo das Tormentas,



Consigo ver as veias e o sangue a passar nos teus olhos, completamente despidos de qualquer proteção muscular com o verdadeiro poder da tua observação a inquietar-me a alma. Tenho a capacidade de explorar os teus ossos, o teu esqueleto com a minha simples visão por ter o conhecimento a inflamar-me as decisões e a deturpar os meus desejos. Tenho-te a ti e ao teu esqueleto deitados no meu sofá, na individualidade própria de cada corpo humano, com a sensação de ter a tua alma pregada à brancura de cada osso da tua constituição. Um arrepio percorre os meus músculos quando colocas a mão sobre a minha perna, para acariciar ou magoar em seguida com um ligeiro aperto na pele. Esse arrepio alastra-se pelos cabelos por ter um cadáver a beijar-me o pescoço, a mexer nos meus fios capilares no mesmo segundo e a desejar-me furiosamente, evocando todos os espíritos. Um desejo mútuo de possuir os teus ossos, de quebrar toda a tua constituição e de procurar o coração que falta na tua caixa torácica cresce aos poucos. Leva-me daqui, leva-me daqui por não aguentar mais os espaços rodeados de seres humanos, de vivacidade, de trivialidade e crueldade que rodeiam todos os dedos recheados de carne, de pulsação e sangue azul. Um sangue que coloquei na tua boca, um disfarce contra a ausência de lábios carnudos. Falta-te um pouco de carne para conseguir amparar-te nos meus braços, falta-me um sorriso já que não escondes os dentes límpidos por detrás de qualquer tipo de pele, falta-te um sentido de vida por estares colocado no limiar da diferença quando o oxigénio passou por todo o teu pescoço pela primeira vez. E a tua língua continua a incendiar-me, a tua mão gela-me as pernas enroladas na tua cintura. Quero puxar os cabelos que te faltam na nuca, ambiciono um pouco de carne para apertar quando os teus lábios possuírem os meus. Quando trocarmos de papéis, quando me roubares toda a humanidade.

Conheci-te no teu próprio funeral, quando o teu corpo estava pousado no caixão e a tua alma estava sentada ao meu lado. Conheci-te quando sussurraste a confissão de me observar há alguns anos, por teres a capacidade de sair do teu corpo durante a noite e olhares para os meus olhos castanhos quando estava a ler uma enciclopédia. Nas horas de leitura dos meus dez anos de idade, dos meus quinze, dos meus vinte. Sentei-me no banco da capela sem ter permissão para te responder, demasiadas lágrimas eram libertadas devido ao teu suicídio, à tua inconformidade para com a linha dos vivos, dos que permanecem na Terra sem qualquer lógica ou plano. Por me amares à distância, por apenas existir o desejo de pintar os cabelos num tom cinzento e utilizar roupas negras nos pouco mais de vinte e cinco anos de existência. E a promessa de teres uma última experiência sexual antes de partires foi colocada em cima do banco, mas não esperava desejar um cadáver depois da meia-noite. Uma constituição óssea recheada de desejo para possuir às duas da manhã. À medida que escrevo penso, não quero falar nisto, não quero pensar nisto, não quero relembrar isto. Mas se não comunicar sobre os tormentos da minha alma nunca vou chegar ao cabo da Boa Esperança. Os medos consomem a minha pele se não soltar palavras e o meu corpo decompõe-se ao estado de um igual cadáver por não ter controlo sobre a situação, sobre os meus pensamentos. Não quero falar sobre isso, continuava a pensar, o ciclo vicioso entrava em ação a balançar todas as peças. Consigo ver as veias nos teus olhos, com os meus lábios a tocarem na tua boca, a tentarem morder os teus ossos frágeis.

Corro rapidamente para fugir dos meus fantasmas, corro para fugir dos teus fantasmas. Passo horas a correr, mesmo se equivalerem a anos. As pessoas passam demasiado tempo a correr, gastam o tempo a apaixonar-se quando deviam amar o próprio corpo, ao invés de desejarem cadáveres e almas sem um corpo. Tenho-te a ti e preciso de um pouco mais de realidade, só me apercebo deste desejo quando passo horas a observar as paredes de um novo quarto, totalmente brancas e sem qualquer decoração. Tenho-te a ti mas prenderam-me os pulsos numa cama para as horas passarem a loucura não consumir o meu cérebro. Quero falar sobre o que me vai no coração, sobre todas as pulsações que teimam em matar este músculo. Tantas vezes citado, tantas vezes maltratado. O meu barco afundou-se no cabo das Tormentas. Os destroços ficaram contigo e estou apaixonado pelo passado, por ti até ao momento em que olhar para ti e ver-te como o futuro. Mas para não me consumir, vou falar sobre isto a todos os ventos, vou falar sobre isto até a minha voz se esgotar.

14 junho, 2012

Matar fantasmas,


Está na hora de te escrever para te abrir a porta dos meus sentimentos, do meu coração e para te guardar nas minhas memórias. Os meus dedos acarinham pequenos choques por ser capaz de oferecer um pouco de energia ao teu fantasma, no momento em que soletro o teu nome na escuridão do meu quarto e à medida que despejo o passado sobre as carpetes verdes. Esses pequenos choques atormentam a minha lógica, a velocidade com que escrevo e o meu raciocínio para sussurrar o que vai na alma. Quando se fala baixinho, todas as outras pessoas falam igualmente baixo por saberem que se trata de um assunto sério, recheado de insegurança, um assunto inundado em lágrimas e veneno. O teu fantasma está presente ao lado da minha alma, por teres sido mais do que um dia ou uma noite como muitos seres humanos sem qualquer pureza costuma rotular. Nas caçadas noturnas, as minhas elegantes, humanas, todas as que acontecem dentro de um recinto, ao invés de armas, cordas e ferros são colocados quilos de maquilhagem, roupas acabadas de comprar, cremes nas mãos e todos os fios de cabelos são alinhados. Nesta descrição da procura desenfreada por um único beijo que console os músculos, a tesão, suguei-te um pouco a alma à medida que nos beijávamos e pedia-te para “ficares comigo” quando a minha existência precisava unicamente de um ser humano perto. Apesar de todos os outros olhos experimentarem-te e mesmo com o rótulo de uma aventura passageira para aumentar o ego, foste mais, és mais, serás mais daqui a uns anos. Escrevo-te para te libertar de mim, para voares violentamente por todos os céus e conseguires proclamar-te como o conquistador de novas terras, novos desejos e sonhos. Pelo teu telefone conseguiste escrever que te encontravas bem, que não precisavas de mim, a tua ira inflamou-me os cabelos, os meus olhos castanhos e as minhas unhas roídas. Sempre ouvi dizer que qualquer alma curada ou tranquila não sente necessidade de se alimentar de um dos sete pecados mortais, a ira. E quem sabe se não foi buscar um pouco de inveja, questiono-me frequentemente sobre isso.

Num sofrimento pessoal, individual, tinha a alma quebrada por não organizar sentimentos em relação à minha alma gémea. Por saber que a encontrei e não conseguir aceitar que precisava de esperar, de beijar, de respirar um pouco de vida, de ferir as minhas asas antes de deixar de voar. Quando encontrei o amor da minha vida, nem sequer tinha voado por terrenos proibidos, aqueles em que qualquer arma está apontada às duas asas e a morte é iminente. A minha alma derretia-se nos minutos em que me encontraste. Ardia e permanecia numa cova, pronta para a Morte a enterrar, para fechar poucos capítulos numa sala de arquivo. Quando te encontrei, estava desmaiado pelo álcool que circulava pelas veias. Desmaiado ou adormecido, como quiseres chamar. À medida que libertava as minhas mágoas por todos os canos, ao deixar que água escorresse pelo meu rosto para acordar da minha melancolia, senti as tuas mãos sobre os meus cabelos numa tentativa de aconchego. Se as horas que passei fossem transferidas para o presente talvez te tivesse dado um tiro fatal no peito para me deixares sozinho, sem perturbações. Que todas as cobras do Mundo rastejem pelo chão, penso que foi dessa forma que Deus condenou este ser vivo pela maldade provocada a Eva, doce e inocente que descobriu a nudez depois de trincar o fruto proibido. Esse fruto, equivalente a uma maçã, trincado também pela Branca de Neve nos contos de fadas. Sejas a cobra ou o fruto apetecido, a minha garganta asfixiou, as minhas cordas vocais partiram-se no momento em que te pedi para voares por o meu coração estar vazio, por não existir absolutamente nada para oferecer.

Nas tuas lições de voo não te esqueceste da derradeira aula: aplicações da palavra sempre quando alguém pede para sairmos da sua vida. Nesses minutos as tuas penas brilharam à luz do Sol, escrevo-te agora para dar um ponto final. Não desejo parágrafos, pontos finais são mais atraentes quando não existe nem uma gota de compaixão. No inferno aguardam-me todas as cobras venenosas, prontas para enterrar os dentes na minha carne. Sussurro baixinho para todos me levarem a sério, para me levar a sério.

09 junho, 2012

Rascunho sobre as paixões,

Sinto a leveza de umas mãos a passarem, a tocarem nos meus fios de cabelo. A leveza é sentida na rápida e simples passagem pela cor castanha dos curtos fios, na voz sussurrante recheada de encantamentos. São cantadas várias músicas aos meus ouvidos conservados. Ao criar-me, Deus desejou uma passagem temporal lenta ao meu corpo, no momento em que coseu a alma a estes pulmões, a este coração, aos lábios carnudos. Passa os dedos pálidos pelos meus cabelos para pressentir a pureza da minha alma, exposta a todos os elementos cancerígenos dos outros seres humanos. Ao criar-me pensou na minha existência como uma paixão, não como uma experiência. Todas as tentativas associadas às experiências de laboratório trazem mecânica, frivolidade, passagem rápidas. Esperava-me uma mão pálida e serena a massajar-me os cabelos, ao contrário de uma mão áspera, com dedos fortes e uma violência extrema em todos os tecidos celulares. Os meus olhos não recebiam a luz do Sol, encontrava-me deitado à beira mar com as ondas a enrolar à minha volta. 

À medida que Ele passava as mãos pelos meus cabelos, as ondas protestavam para tocarem nos meus pés, o elemento mais destruído pela vida urbana, pelos sapatos apertados, pelo lixo depositado em todas as esquinas onde dezenas de jovens eram violados. Apelavam, rezavam ao enrolarem para sentir a minha destruição. Os meus lábios recebiam o ar de Deus, a olhar-me serenamente. Soltava lágrimas pelos caminhos traçados, pela ausência de inocência na minha essência e com a outra mão tocou no vazio do meu peito. Mexeu nas cavidades, a temperatura baixa da caixa torácica gelou-lhe os dedos fantasmagóricos. Chorava por uma morte corporal da sua criação, do seu amante. Deus sentia a minha vivacidade depositada nos lábios e desejava colocar-me no mar, uma dualidade que o matava espiritualmente.

Ao tocar-lhe nos cabelos viu o passado, sentiu e bebeu todas as experiências da vida humana. O sabor de vários cigarros, as roupas assentadas no peito trabalhado por todas as máquinas de origem humana, as calças nas pernas, as pulseiras a apertarem-lhe o pulso. O bater do coração parou-lhe a respiração, à medida que entrava nas minhas experiências humanas e engasgou-se com estas novas sensações. Meteu as mãos à garganta para não sentir a morte por asfixia. Em todos os minutos em que bebeu do liquido da minha alma, as ondas conservavam energia para me levar, por me amarem e para me guardarem na imensidão das águas do mar. Cantavam odes, glorificavam uma divindade que desprezavam todos os dias. Enrolavam-se para destruir uma possessão divina, uma paixão imortal. Ele continuava a enrolar-me os fios de cabelo com os dedos. Na minha morte corporal senti a confiança a esvoaçar pelas minhas cordas vocais, com o silêncio a penetrar na escuridão daquela noite.

A todas as experimentações saboreadas por este deus do Olimpo respondia com silêncio, por indignação, para partir e amar novamente Hades. Na minha imortalidade, beijaria a divindade servente às Terras inferiores, rasgaria as roupas do guardião de todos os mortes na sede de desejo. Sonhava com o imperdoável. Quando Deus me enrolava os fios de cabelo castanho, escondia os meus desejos profundos. As ondas imploravam e continuavam a rezar para me levarem. A leveza das mãos passou para o meu peito, ao empurrar-me para o mar. O sal das águas conservou-me rapidamente e enrolou-me no fundo do oceano.

Libertei um sorriso ao permanecer deitado em todas as rochas, ao sentir-me livre. As ondas lavaram os meus pés, ofereceram-me juventude eterna. Toquei nos lábios de um deus morto, apedrejado por todos os seres humanos, capaz de descer aos confins do Mundo. Enrolei as minhas mãos sobre o seu pescoço para o olhar atentamente, ao sentir que me levava das profundezas do mar. As ondas lavaram-me os pés brancos e senti o início da vida com a morte corporal.

21 maio, 2012

A Intimidade


É difícil conjugar estética com os desejos mais ambiciosos nos lugares mais escondidos e com mentalidades em linhas retas. É difícil acordar com um cabelo alinhado, sem mostrar sinais da desarrumação passada. Diria mesmo que é fodido amar sem limites, confiar, oferecer um pouco de intimidade a um outro ser humano. Quando muitos se preocupam com o que vestir às oito da manhã, existem outros que choram com o sabor de traição nos lábios, com os dedos a derreter graças a alguns papéis. Tomo o café sem saber o que está à minha espera, encantado para os meus olhos castanhos – sempre senti essa ausência como a alavanca para a descoberta, o anseio para acordar todas as manhã – e continuo a barrar o pão torrado com doce de morango, à espera que um corvo traga as notícias logo pela manhã, mesmo a associar este animal selvagem a um mensageiro da noite. Bebe-se um gole de café acompanhado, ao som de uma segunda voz a soltar pela boca uma série de sonhos ou com o som de um telefone. É uma segunda presença que se manifesta fisicamente ou tecnologicamente, não há margem para dúvidas que se oferece um pouco de intimidade em todos os momentos. Apesar de não existir carne à minha frente para tocar, aparecem palavras escritas por mensagens de um ser a 300 quilómetros de distância. Dar intimidade requer companhia, dizem as minhas células. Ser humano que ocupa o trono a partir do momento em que se gastam minutos de atenção com ele.

Oferecer intimidade é dar a uma segunda personagem o papel de protagonista, equivalente a um nobre ou mesmo a um rei por se oferecer as entranhas, os segredos, os acidentes domésticos – um pouco de café na roupa, as mãos recheadas de água que são limpas às calças, a queda quase eminente contra o chão devido aos sapatos escorregadios – equivale a uma coroação através da admiração profunda, os sentimentos florescem à velocidade da luz. Ou diria, a uma velocidade lenta? O botão de uma rosa demora algum tempo a abrir. Esses minutos, essas horas, esses segundos pulsam-me na pele, no espaço em que dois seres humanos criam uma bolha de intimidade. É difícil quando essa bolha sofre cortes, o oxigénio entra e invade o ambiente, os meus olhos castanhos entram em contato com um novo ar, morrem com a luz do Sol. É complicado superar o desalinho dos fios de cabelo e tentar perdoar algo que corroeu essa intimidade.


Sobe-me um pouco à garganta o ácido do estômago de cada vez que recordo as palavras recheadas de veneno. O veneno da cobra que encantou Eva no Paraíso. Está na Bíblia, quase todos conhecem. Refiro este livro, o mais conhecido de todos, não para banalizar mas para saber que me afeta. Tudo o que me toca, tudo o que me faz pensar é referido. Assim como escrevo sobre a minha mãe, o meu pai, a minha família, o amor da minha vida, escrevo sobre a Bíblia. Quando quebro a intimidade com alguém sinto vontade de rezar, de me ajoelhar no chão nestes estranhos desejos que tantas vezes passam pela minha cabeça. De sussurrar a Deus, de senti-Lo nos meus braços até não conseguir respirar, de chorar e afundar-me com Ele. Coloco-o em maiúsculas para não sofrer represálias, como é evidente. E quero sussurrar no momento em que engulo intimidade, de todas as esquinas e recantos.

Acordo todos os dias a pensar quais vão ser os sapatos que vou usar nesse dia. Muito depois do Sol nascer não sei como estão os meus olhos castanhos. E choro porque te perdi e há algum tempo que não conseguia soltar as palavras. A nossa bolha de intimidade perdeu-se no horizonte e, pela primeira vez, o oxigénio atormentou as minhas cordas vocais. Escrevo tão atentamente e desafortunadamente porque há alguns dias atrás não sabia o que escrever, não encontrava as frases ideais, identificação era algo que não fazia parte do dicionário sempre que olhava para os meus rascunhos. Agora vejo, doem-me os ossos das mãos por sentir o significado da intimidade. Equivale a falar, a estar acompanhado, a mostrar os meus cabelos desgrenhados, os restos de tintas que ficaram em alguns fios. Sem medo de represálias, sem juramentos, sem análises. Nunca existe uma avaliação de uma das partes quando a intimidade perfuma o ambiente. É fodido amar sem limites. Mas chega a uma altura da vida em que é necessário assinalar as fronteiras.


Escrevo isto para ti, minha amiga. São estas as palavras que te quero oferecer. Sem uma cor, apenas com um cinzento e uma declaração de amor. Tomo o café e o telefone não toca, prefiro a companhia da minha mãe, mesmo que seja em sonhos já que a sua hora de entrada no emprego é às seis e meia da manhã e nunca acordo de madrugada.

16 abril, 2012

Tentei colocar um ponto final (...)

Abri a caixa com o coração ensanguentado e todas as veias à mostra, inflamadas por não estarem guardadas dentro de uma humidade humana, dentro de um conforto cru dos ossos. Senti a vontade de abrir essa caixão por não ter um sentido nesta manhã, passava das onze horas para ser mais preciso. A essa hora tive uma crise filosófica, das crises em que sou capaz de conversar com as minhas roupas, elaborar um diálogo sobre a vida, a morte, a existência. Decidi retirar a caixa que se encontrava debaixo da minha cama para encontrar um pouco de luz, apenas mais uma das tentativas que me percorrem as veias em todas as horas para encontrar um sentido, um caminho revestido a ouro. Cheirava a morte no momento em que abri a caixa negra, revestida com pequenas linhas feitas a ouro. O cheiro a morte penetrou no ar e uma vontade para dançar apoderou-se das minhas pernas magras e escanzeladas. Escrevo agora por saber qual o rumo que devo tomar daqui para a frente, nas horas seguintes. Despejo várias palavras por pressentir um fantasma nas minhas costas e por ter toda a certeza que se trata de uma personagem a encenar no meu corpo. Estes dias devoram confusão e solidão. As palavras consomem desejos sexuais, os que são libertados numa pista de dança.

Tentei colocar um ponto final mas saiu-me unicamente uma parágrafo por pressentir que tenho mais alguma coisa para contar. Quando a abri a caixa com o coração recheado de sangue dentro dela, suguei a minha própria alma para o vazio. Esse espaço sem definição e sem nome. No momento em que a destranquei, os meus cabelos castanhos adquiriram um tom avermelhado e palidez tomou conta dos pigmentos da minha pele. As filosofias tornaram-se acessórios de roupa e o sangue adquiriu um sabor doce, no momento em que passei a língua sobre as minhas mãos sujas. A juventude desvaneceu-se nesse instante e a uma obra de arte foi pintada dentro do meu coração. Na necessidade de pressentir umas mãos fortes, retirei o coração sem vida dentro da caixa. Pertencia a uma espécie de bruxa, com várias maldições na carteira e algumas visões de infelicidade no fundo da mala. Essa feiticeira pertencia a um círculo de magia negra, capaz de tomar conta do planeta se assim o decidissem. Esse coração proporcionava juventude eterna a quem o trincasse, ouvia as preces e histórias dos mais antigos na minha cabeça. Tentei colocar um ponto final mas fiquei com a eternidade à frente, a partir do momento em que os meus dentes trincaram o pedaço de carne. Desfiz as minhas intenções a curto prazo. Espera-me uma eternidade recheada de juventude até a máquina estiver desfeita.

Abri a caixa com o coração ensanguentado e nem fazia ideia de que encontraria um sentido para a vida tão carregado de pureza. A humanidade no meu corpo encontra-se glorificada, a minha alma morreu para a divindade. E os meus lábios necessitam de um beijo profundo.

05 abril, 2012

Pausas de inspiração,


 Talvez me suicide. Talvez necessite de um pouco de descanso. Talvez pinte os cabelos com tons azuis, a fugir para o turquesa. Talvez seja o dia da minha morte. Talvez esteja a chover amanhã. Recheado de uma palavra que coloca as minhas pernas para o ar. Os planos morreram. E esta imagem fascinou-me.

E tive o luxo de criar uma página no Facebook. No fundo talvez não saiba o que vou colocar lá. Tenho necessidade de partilhar pequenas coisas com as pessoas, tão pequenas que não se justifica escrever infinitamente sobre isso. Uma imagem basta, qualquer hiperligação. Conceitos que gostava de explorar ficam pela página na rede social.

03 abril, 2012

Questões num domingo à tarde, com chá a acompanhar,


Falam de confiança em tardes de domingo com um chá a acompanhar, colocam-se as questões sobre amores de vidas anteriores e as várias dúvidas de quem começou ainda agora a vida e parece que a vê desaparecer daqui a alguns anos pelos dedos. Chora-se na mesa azul de casa, sentados à volta do sofá com o computador a passar qualquer uma das séries televisivas mais comentadas do momento ou um simples blogue, a escorrer arte por todos os cantos, a ser o fundo do ambiente de trabalho. Tecnologias que não ultrapassam o valor dos sentimentos enquanto as canecas sobem aos lábios, o chá de menta entra pela garganta em alguns minutos e as vozes elevam-se para dar opiniões, para discutir determinados assuntos que as quadro paredes conservam. Existe alguém que necessita de se sentar ao piano no meio da conversa, carrega um dramatismo dentro do coração, uma saudade por aquele a quem vai sempre chamar de amor, de predileção, de paixão. É a única maneira de expulsar demónio, de esquecer as saudades que assaltam o coração e perturbam a mente na partilha à mesa azul, naquele domingo à tarde. Deviam ser umas 15 horas quando se reuniram.


Enquanto as colheres mexiam o conteúdo adocicado, alguém mexia nos cabelos e comentava-se a confiança colocada em jogo, naquele momento à medida que se partilhava as experiências. Pequenos contactos com quedas ao fundo do poço, com desgostos amorosos que partiram o coração, com sorrisos que inundaram as almas nos momentos em que a luz se tinha desvanecido. A confiança nas palavras que eram libertadas, misturadas com o líquido demasiadamente quente por um microondas ao fundo da cozinha.  Todas as relações são baseadas nesse pormenor que move todos os poderes à face da Terra. Onde conservam os grandes amantes a força para continuarem a lutar pela presença um do outro, pelos beijos que trocam, pelas fugas que planeiam para esquecer o Mundo durante algumas horas? Como existe a troca de informações entre parceiros se um deles não acreditar nas palavras do outro. Para onde vai o conceito de parceiro e parceira se a confiança não correr nas veias, onde colocam os pés para dançar na sala que construíram juntos no sábado de manhã? Movem-se montanhas, duram épocas para se conquistar a confiança. Demoram segundos para se perder no meio do vazio. É levado pelo vento ao mínimo deslize, mesmo sendo carregado de inocência. Um beijo alheio rouba uma conquista proclamada aos grandes deuses. Uma mão colocada no sítio errado do corpo leva à proteção do rosto. À medida que as colheres colocavam o chá de menta no ponto ideal, estas pequenas ideias povoam aquelas cabeças. As lágrimas alimentavam o conteúdo que iria percorrer os corpos humanos de vários seres poderosos. O sal das lágrimas continha experiências, jovens na candura, idosos no contar das gerações e épocas pelo qual passaram. Ouve alguém que deu a ideia do som do piano parar por uns momentos. A confiança e liberdade para se pronunciarem tais desejos estavam fortificados por uma ausência. A primeira vez em que se confiava num sentido negativo, na ausência de perda por dizer a alto e bom som o desejo. Parem o piano, pedia uma das jovens à mesa dentro das quatro paredes brancas. E o silêncio percorreu todas as espinhas.

Um simples acto, diriam alguns que se trata de um ato, que acarreta anos de processamento. De treino. Ou de simples naturalidade, despertar de algo dentro do coração. A partir das 17, ninguém passou a olhar para os olhos castanhos ou azuis alheios da mesma forma. Existiu preenchimento de uma forma fabulosa.

01 abril, 2012

Quem escreve por gosto não (se) cansa

Para quem desconhece, sou mais um estagiário neste momento na área do Jornalismo. Todos sabem que as portas do mercado português andam fechadas, as pessoas andam a matar outras para conseguir chegar a algum lugar decente, com um ordenado decente. Amor à profissão é algo que não consigo pressentir no olhar de muitos seres humanos ou então não me cruzo com aqueles que me podiam provar o inverso. Mas ainda me dá gosto de trabalhar na redação do Diário de Notícias desde janeiro, apesar de não ganhar absolutamente nada (e ainda me lembro do verso de uma das canções da Lana del Rey, a cantar que o dinheiro é a razão. Ela é que tem razão lá no fundo senão nem teria uma carreira neste momento, perdoem-me os mais fanáticos). Para além das pequenas notícias que vou escrevendo, estas duas foram as minhas duas grandes primeiras com mais de mil caracteres.

Para além da coluna sobre o Rock in Rio diariamente (e enganem-se todos os que pensam que não é necessário ter um pouco de criatividade e imaginação para se escrever e noticiar sobre um festival todos os dias), fui até ao Castelo de S. Jorge em Lisboa para conhecer os programas que andam a acontecer por lá. Soube bem andar pelas muralhas, por todos os espaços a conhecer e a fazer o papel de crítico. Apesar de um jornalista não ser crítico, está no campo para ir a fundo nas questões e a passar para o público – ao escrever isto constato que é esta a vida que quero apesar de todas as dificuldades resumidas no primeiro parágrafo – e foi de meu encanto ter sido recebido de forma tão positiva no castelo da capital. Já o segundo artigo foi feito de última hora. O mini concerto de fado (um dos meus estilos musicais prediletos), no auditório do DN, contou com a minha presença e da Catarina. Às oito da noite tínhamos dois mil caracteres para escrever sobre aquilo. E realmente quem escreve por gosto não cansa, passado pouco tempo nasceu algo de qualidade. É o que vos apresento por aqui.
As coisas andam más mas quando encontramos o amor da nossa vida, como é o caso do Jornalismo para a minha alma, sabemos que é isso que queremos no futuro. E tens razão Lana, o dinheiro continua a ser a razão para muitas das situações e acontecimentos.

Não sei se conseguem ler mas aqui fica. O primeiro sobre o Castelo de S. Jorge e o segundo sobre o mini concerto.



Ps - Provavelmente vou tirar um mestrado em Artes. Cinema, Música e Literatura - as três paixões da minha vida. O resto é um passatempo.

19 março, 2012

Existe um coração em todas as criaturas,

Nunca publiquei este conto num espaço próprio. Lembro-me que a intenção era escrever um conto de Natal para o blogue de um amigo e este foi o resultado. Apontei a data. 19 de Dezembro de 2010 e por incrível peguei nele hoje, dia 19 de Março de 2012. Foi bom relembrá-lo, ver que o crescimento está presente.
Um sussurro não é como uma melodia que percorre o ouvido, fazendo carícias e confortando serenamente, torna-se em algo diabólico quando o desejo em escutá-lo aumenta gradualmente. Liberta-se da boca venenosa alheia e desaparece estupidamente, numa corrida rápida cujo objectivo final é atingir a meta e possuir todos os lucros prometidos. Todos os sussurros percorriam os seus ouvidos com a língua, saboreando-os tranquilamente. O ar que percorria o seu corpo escanzelado até aos pulmões tornava-se escasso, na tentativa de capturar todos os sussurros ela utilizava todos os tipos de energia. Com origem nos fantasmas, companheiros da sua vida, os sussurros aterrorizavam as noites, faziam transpirar até o corpo não conter mais impurezas para libertar pelos poros, situados em todos os recantos da pele. Mergulhava num oceano recheado de vozes pulsantes, consumidoras de todos os estilos de consciência e quando duas mãos apertavam o nariz e o pescoço, a jovem rapariga transportava-se para o presente. Um tiquetaque proveniente do relógio poisado na mesinha de cabeceira era uma prova de existência na realidade, uma vez que era tantas vezes puxada para o imaginário mal fechava os olhos, todas as vezes que impedia a luz de entrar no espírito.
Todas as sensações proporcionadas pelos pesadelos provinham de uma saudade gélida, as brisas congelantes aspiravam o peito sedutoramente. A mão da jovem tocava em cavidades húmidas onde outrora estava presente uma caixa torácica, recheada com dois pulmões, um coração e alguns ossos para a protecção dos órgãos essenciais. Uma toalha pendurada na casa de banho servia para secar os dedos sujos pela humidade corporal incaracterística. O ar apodrecido pelo ambiente em que vivia era inspirado pelas narinas, percorria a garganta e ao invés de violar, na tentativa de arrombar todas as células dos dois pulmões queimados pelo tabaco em demasia, apenas se desvanecia novamente pelo ambiente sugador de todo o tipo de felicidade existente em carne e osso. Uma lágrima percorria o seu rosto desde o primeiro dia em que o vazio estava presente no peito, literalmente. Já lhe passou pela mente colocar uma bateria dentro do buraco para escutar uma batida estridente, todas as vezes em que o silêncio se apodera e agarra as suas mãos denegridas.
Ao abrir as janelas de casa, todos os olhares na rua dirigem-se à rapariga com cabelos louros e perfuram-na ainda mais numa pseudo fatalidade que a deveria matar, já diziam os populares que “o olhar pode matar”. Apetecia-lhe gritar até não restar mais nenhum pedaço de corpo, todas as tripas explodiriam e embateriam no vidro da janela para a qual estava virada. Mas não passa de uma mentira, uma ilusão. Não devia ter vendido a alma a uma espécie de diabo que lhe assaltou os pesadelos com promessas inventadas e um contracto na mão. Brilhante, prateado. Continha todos os desejos pelo qual ansiava e assinar friamente, toda a sua caixa torácica foi sugada a uma velocidade estonteante com sangue negro a manchar o contrato, que se diluiu no peito da criatura sorridente. Pelas mãos do diabo foi plantada, na Terra, uma espécie de árvore e até aos dias de hoje ainda espera que o seu crescimento dê os frutos ambicionados. Tantas centenas de anos já esvoaçaram e os olhos ainda não conseguem ver qualquer tipo de evolução naquele pedaço de terra em específico. Uma lágrima não passa de uma tentativa para dar vida ao que faleceu há imenso tempo. Nunca ouviste falar em burla? A sensação de ter sido burlada invadia a rapariga, um coração, pulmões e todas as ligações tinham-lhe sido retiradas e só conseguia respirar de alívio por não ter negociado o seu cérebro, o único elemento que dá vida à carcaça que a carrega.
Todas as sensação de vivacidade que experimentava tinham origem mal os seus ouvidos captavam o som dos sapatos de um príncipe que saltava da sua janela e a tomava nos braços, para um noite de sexo. Precisava de duas mãos a percorrem os seus seios, de sentir um corpo dentro do seu com toda a violência e audácia para colmatar a falta de batimentos do coração e a circulação de sangue que vertia a partir do buraco no seu peito. Era o preço a pagar enquanto a árvore não florescia, seguindo o ciclo natural de vida. Os cabelos louros não passavam de simples artefactos, objectos para atingir energia na alma. Mal o príncipe abandonava os aposentos, descendo pelas mesmas pedras por onde tinha trepado, ela só tinha vontade de sentir uma faca nas mãos e arrancar os olhos do seu rosto. Afinal, desferir golpes no próprio corpo também trazia a adrenalina suficiente para se sentir viva. Quando desceu as escadas até ao pedaço de lama em que estava plantada a sua felicidade, chorou e suspirou sofregamente. Arrancou tantos pedaços de terra que as unhas se desfizeram, deitando pequenas gotas de sangue. Entranhando na terra toda uma vida recheada de pesadelos, fantasmas, sussurros, dias de chuva e desgraças. Pedaços de lama destruíram os cabelos louros, tornando-os negros, os dedos deitavam sangue de tanta raiva contida neles e o buraco encheu-se de pó, pedaços de pequenos bichos que consomem os corpos mortos e pequenas pedras.
Adrenalina, sensações de vivacidade experimentaram o corpo da jovem pela primeira vez de uma forma inconsciente. Lentamente, mostraram que estavam presentes nos braços ou nos pés, quem sabe nos próprios olhos. O pequeno diabo desenterrou-se, aparecendo de um pequeno pedaço de terra escurecida pelos desgostos.
- Não podes ambicionar todos os tipos de felicidade do Mundo sem utilizar qualquer tipo de energia, entendes? Não te é permitido ambicionar todos os sonhos sem um pouco de esforço? Se não fores tu própria a conquistá-los, ficas sem coração. Sem alma, minha querida. A partir desse momento não passarás de um corpo que apodrece bem aos poucos. – E a caixa torácica da rapariga aparece, magicamente, nas mãos do jovem diabo. Ao entrar no vazio que a preenchia, as lágrimas que brotavam do seu rosto e salpicavam o diabo provocavam o nascimento de asas esbranquiçadas nas costas da criatura malvada. Ao chorar de felicidade, o diabo transformava-se ternamente num anjo, a aparência maquiavélica desaparecia-lhe como um tornado destruidor de todos os terrenos existentes.
- E sabes, não podes alcançar a felicidade sem qualquer tipo de amor alheio. Qualquer tipo de amor torna-te mais humana.
E ele voou em direcção às nuvens, nunca nenhum olho humano voltou a captar a sua presença. E até hoje, a jovem dorme descansadamente. 

15 março, 2012

O coração de metal e a santidade,


Um coração de metal e um cinzeiro são os dois objetos que faziam falta no meu corpo e na igreja em que me sentava, respetivamente para não existir uma certa confusão nas vossas cabeças. Tenho sempre a mania de escrever, deitar palavras para o ar em primeiro para satisfação pessoal e em seguida para a segunda ou terceira pessoa, com uma paciência equivalente a santidade para continuar. Um coração de metal para ninguém o aceitar e um cinzeiro para colocar mais um dos meus prazer num local de adoração, de tranquilidade para os mais crentes. Sentado num dos bancos, sem ferir os joelhos, sinto-me a olhar para Jesus Cristo (uma imitação com valor monetário para os mais pobres de espírito e ambiciosos por objetos alheios) com um cigarro na boca, a fumar e a entregar a minha alma aos pecados. Os pecados são tipicamente humanos, pergunto-me se todos os santos nunca cometeram um único. Desejos de carne vão florescendo no meu interior. Preciso de um pequeno controlo para não seduzir a mulher, dona de casa, sentada num dos bancos com um terço nas mãos e um decote a gritar aos meus ouvidos os pedidos de paixão, ou então o homem com um rosto petrificado pelo medo, com fato e gravata e um historial de traições no casamento que rebentariam com qualquer moralista.  
Nunca vou ser suficientemente bondoso, humano para ser colocado numa cruz. Não vou deixar o mundo de pecadores para me santificar e purificar todos os litros de sangue que correm no meu corpo. Um coração de metal para alojar na cavidade húmida e um cinzeiro para apagar o cigarro. Não sinto a santidade na minha mochila, que me acompanha todos os dias.

13 março, 2012

Quando o telefone tocou,

Quando o telefone tocou, qual despertador descontrolado no meio do silêncio acolhedor, a sensação de monotonia soprou no meu ouvido novamente, a querer carinho, a influenciar-me para me sentar e acordar como todos os dias passados, pertencentes a ações controladas. Nesse momento atirei o telefone para debaixo da cama e coloquei as minhas mãos no meu corpo, nesta individualidade erótica que me aflige e corrói a alma de desejos nos dias nublados. Passo os dedos pelo peito, coloco as unhas em pedaços de carne para abrir um pouco a boca e aconchegar o oxigénio vital para os pulmões danificados pelo tabaco, de consumos de anos e anos seguidos sem a mínima pausa. Quando as unhas vermelhas chegam ao pescoço sinto a vontade de cantar, de afastar demónios negros sentados no passado. Um movimento lento, estudado para começar em qualquer peça de teatro, erótico para os olhos alheios que me observam através dos sonhos. As sensações das línguas de terceiros ou quartos a passarem sobre as minhas pernas incendeiam-me, remexem-me e deixam-me nesta introspeção amaldiçoada. Quando o telefone tocou, o som continuou debaixo da cama e as minhas mãos continuaram a tocar-me serenamente.

A tua voz continua igualmente potente nos dias em que a rouquidão teima em manter-se na minha voz, com as cordas vocais a degradarem-se com as impotências da intelectualidade. A tua voz continua a hipnotizar-me nos dias em que não existe um interesse nas pedras do chão, em que os relógios não conseguem avisar-me furiosamente dos meus compromissos, porque o som é melodioso, tenebroso para quem procura paz de espírito. Quebrei corações por divertimento tal como dizia a outra, comi músculos vitais para sobreviver e guardei o sangue para coleção, deixando-os no fundo do armário (a noção do tabu, de não me sentir bem por não exibir os litros de sangue colhidos). Quando o telefone tocou e quando pensei que ia obter monotonia, algo mudou radicalmente nos meus olhos, a ação terminou no início do acontecimento. Chegou a hora em que sinto os arrepios de êxtase a formarem-se no fundo do coração e da mente, em que os fantasmas ganham carne e conseguem apertar-me os braços, numa tentativa de deixar as marcas. É o minuto em que os meus olhos vertem lágrimas por não conseguir ouvir tão aproximadamente a tua voz, sabendo que está plantada na minha veia aorta, deliciosa para os carnívoros e vampiros que correm atrás de mim. As paredes das ruas continuam a encherem-se de flashes quando caminho, exceto nos momentos em que as minhas mãos envolvem apaixonadamente o meu corpo, em que o cheiro a sexo paira no ar. Remexo as pernas na cama à espera da posse dos fantasmas, do arrojado momento em que morro e volto à vida graças a diversos orgasmos. São os meus ídolos quando procuro alguém para amar, já que os vivos estão recheados de defeitos fatais.

Na hora em que antigo o orgasmo, sinto a sujidade a invadir-me o peito. A desilusão de obter milhares de vozes e permanecer na solidão gélida. Sou o teu admirador, sou o teu admirador de coração e será que reparas nisso, pergunto-me. O relógio badala, dá sinal para os meus cordões. Estou nu. No sentido literal e quem sabe, psicológico (com a pausa para assimilarem a ideia). Quando o telefone tocou, a tua voz apaixonou-me lentamente e gritei para explodir com a minha lógica.

12 março, 2012

(...) não consigo deixar de me apaixonar por inteligência,

Ir ao ModaLisboa na posição de Imprensa levou-me a um campo mais profundo, não duvidem. É curioso saber quem aprecia realmente o mundo da moda, quem contém algum conteúdo e quem são aqueles com a capacidade de ter os pés no chão. O lado contrário também existe e está presente, as pessoas que não sabem o que significa estética, que pensam que a aberração pode abrir novas portas (e quem sabe se não abrem, mas onde anda foi parar a naturalidade, a elegância?). Estar presente num evento destas proporções, mesmo sendo em Portugal, é sentir-se como se os dias de Carnaval estivessem novamente no calendário e é conhecer pessoas novas, com um bom discurso, com conteúdo dentro das massas cinzentas. Estar ali é também ver alterações nos comportamentos das pessoas, equivale a crescimento. Sabe a subir os degraus e a compreender o funcionamento da sociedade, das hierarquias.
O tema Freedom supostamente significava “símbolo de mudança assertiva no caminho de novas e essenciais formas de estar e ver o mundo” ou então “renovar o estabelecido”. Questiono-me então: porque soou tudo igual e sem a suposta liberdade, na sua maioria? Perdoem-me os que não concordam comigo mas as coleções pareceram-me muito iguais, as tendências portuguesas continuam muito no mesmo, não abrem asas. E onde andam as pessoas com verdadeiro talento? Onde andam esses brilhos que conheço tantas vezes? Tive o prazer de conhecer algumas pessoas realmente talentosas, com cérebro a funcionar claramente e com um bom gosto extremo. Mas digo, a maioria não sabe porque está sentada num banquinho do desfile, não entende que o importante (desculpem a ingenuidade, se assim o acharem) é apreciar a arte. É tudo a que se resume: arte. E basta saber como pegar nela e usá-la para mudar um pouco a zona de conforto. Amo muito uns bons sapatos mas não consigo deixar de me apaixonar por inteligência.


O StreetLights.pt gostou da minha mochila, que andou sempre comigo todos os dias. O Espalha-Factos tem sido o local onde deixo a minha crítica. Em Outubro quem sabe se não estarei outra vez a ver as novas apresentações. Sinto o coração mais rico.


(um dos meus predilectos, já agora - Os Burgueses)

02 março, 2012

A pausa na veia dramática,

Confesso que a minha veia dramática manifesta-se em demasia neste espaço, existe alguma porta que abro todos os dias para vestir a pele de qualquer personagem que surge na minha mente. Dou coragem aos meus lábios para beijar o espelho que se encontra à minha frente, às minhas mãos para ferir os meus braços e deixar escorrer o sangue para um frasco e pinto os meus cabelos em tons cinzentos sem pensar duas vezes por detrás destas palavras, já que na realidades somos colocados em regras de condutas. Espreita-se unicamente uma pequena sombra das loucuras que se deseja profundamente, como se fosse a última vontade à face da Terra. A veia dramática eleva as horas às últimas que me restam (conseguem entender?)


 
 

É Lisboa uma das partes que me inspira de momento. Todos dizem que se mudam passado algum tempo de permanência na grande cidade e não pensem que é ilusão. Realmente existe uma mudança e caso não exista um equilíbrio e os olhos bem abertos para o quem somos, para o que desejamos então existe uma perdição estampada em qualquer esquina, nas estações do metro. Não me livrei de quebrar um coração para reparar o meu (o acto desumano mais próximo de traição que conheço), não me livrei de beber uma garrafa de vinho enquanto chorava com amigos, não consegui não mudar nem um pouco. É necessário saber em que boca não devemos cair, existem algumas dispostas a amassar-nos, devorar-nos sem dó nem piedade (e com isto não coloco qualquer interpretação erótica). Mas no contacto com novas pessoas vou encontrando pequenos tesouros como estes. Graças a uma das melhores amigas fiquei a conhecer esta senhora de 90 anos que realça o que sempre pensei sobre a velhice e a autenticidade como artista. Não é dia de cortar o meu coração em postas, haverá mais oportunidades para esse acto. Hoje são os pequenos objectos e as grandes pessoas que me levam.
 E foi aqui que passei a conhece-la um pouco mais.

25 fevereiro, 2012

Um beijo à loucura,


Desconheço se existe alguma doença mental relacionada com o vaguear excessivamente no mundo da fantasia e deslocar-se da realidade. De todas as vezes em que visito o meu médico de família nunca conseguia abrir a boca para lhe fazer essa pergunta, quem sabe por se não é por medo quem sabe se não é por loucura. Existe sempre uma admiração nos olhos dele em todas as vezes em que coloco os pés no estabelecimento recheado com um cheiro intenso. O cheiro típico de algumas pessoas que já passaram muitos anos nesta vida, no presente, sem qualquer expectativa de um longo futuro, aqueles que apreciam olhar para trás para saber o que poderiam ter melhorado (apesar de não terem permissão nem memória para assinalar os erros como aviso na próxima vida) e com isto não me interpretem mal, não tenho nada contra o cheiro característico, nasce nas minhas mãos uma vontade de sentir as rugas vincadas, de beijar a passagem do tempo com lábios envelhecidos e ressequidos graças à sensibilidade de uma pele idosa. Talvez o meu médico de família fique admirado pelo que acabei de escrever e pensar naquela hora, por a cor dos meus olhos se perder de todas as vezes em que começo a imaginar. Ou então abre a boca num espanto por me ver com uma peruca diferente de todas as vezes, quando não me lembro da noite anterior colocar tinta nos cabelos (as tintas sem qualidade, que ao fim de várias lavagens acaba por desaparecer). Nos últimos dias tenho vontade de colocar um tom cinzento, maldito mediatismo!

Nem um terço da minha loucura está presente nestas palavras, é uma reduzida porção que me leva a questionar se existe um diagnóstico para os loucos de fantasia. Coloco doses excessivas de batom para o cieiro no lábio superior e vaselina no inferior, talvez para conseguir realizar as minhas fantasias com mais facilidade e acreditem-se que pode dar jeito. Nunca ninguém vos disse que a loucura passa um pouco pela excessividade de erotismo? Acreditam que passa em toca em muitas questões que maioria das pessoas preferia nem pensar. Quando vagueio excessivamente penso em carne humana, nos prazeres e tentações de apenas uma noite. Nas horas anteriores ao clímax, ao orgasmo, as ditas horas de tesão (num português rasco, terrivelmente rançoso – agora que analiso o quanto estes últimos dois adjectivos moem qualquer língua) aliadas a uma loucura física.
Desejo por hora fazer dezenas de tatuagens no corpo, é a única loucura que nunca ponderei fazer à última hora por permanecer no corpo por um tempo definido. Carimbar um “para sempre” em relação a questões visuais magoa o coração, esvazia as veias por ser carregado de futilidade e sujidade. Se me chamam de louco, nunca sabem a diferença dentro de mim. Gritam aos sete ventos a minha loucura, analisam-na e tentam interpretar. Não falo em compreender, isso é um verbo demasiado caro para mentes vestidas e amarradas, não existem braços abertos nessas células cerebrais. Interpretam para colocar o meu corpo no inferno, para ser queimado por um suposto Diabo que está pronto para me morder, para consumir a minha alma. E nestas questões imagino a alma como um pedaço de tecido em que o bicho demoníaco pode vestir, colocar no pescoço ou simplesmente limpar a boca depois de uma refeição. De todas as vezes em que vou ao médico de família, ele acaba sempre por analisar os meus olhos para detectar alguma anomalia. “Sofre com tensão ocular”, e o seu espanto permanece quando pergunto “Apenas isso?”. Incha de indignação, o nervosismo é palpável e a raiva é consumível pelos botões da minha camisa.

O grande problema é quando me olho ao espelho. É o único objecto que me faz duvidar da minha doença, a invenção que coloca esforço de todas as vezes em que quero deixar a realidade. Vejo os olhos castanhos, remexo nos cabelos desgrenhados e passo um dedo da mão direita sobre o meu queixo, sentindo a pele marcada com borbulhas. Perfeição equivale a destruição. Colagem é drenagem. Imitação é o mesmo de descoloração. Nestas viagens pelo mundo dos sonhos e fantasia, pergunto-me onde estou e como sou? Numa realidade existe algo de imperfeito que me apaixona, na fantasia a perfeição é a religião, a razão pelo qual me sento a rezar e a pedir para ser abençoado com tal característica. Onde estão os filósofos prontos a julgar-me? De cada vez que aparecem frades, modelos, padeiros ou até mesmo padres (se é que existe diferença) tentam todos puxar pelos cabelos para sentir dor. A sensação que me pode salvar da loucura, diz um deles. A única que pode tocar na espinha, dizem todos os outros em coro.
No fim da consulta pergunto-me onde está o papel para o internamento. Nesse segundo é a primeira vez que não olha para mim surpreendido.