17 janeiro, 2013

Rascunhos sobre 2013 (II)


Querida Catarina,

É bom começar qualquer carta desta forma, não é? Tinha mil e quinhentos nomes para te chamar, desde Amélia, Janete, fofinha, qualquer coisa do género que plantasse repugnância e quilos de mel para ver o sorriso no teu rosto. Tantos clichés que li em livros acabam por se refletir na vida real, por vezes coloco-me a pensar se os milhares de pessoas que vivem em Portugal não passam todas de clichés. Neste momento encontramo-nos numa situação precária, em que todos precisam de um emprego decente, com casas cada vez mais recheadas em que pais e filhos começam a não suportarem-se mais, uma taxa de suicídio a aumentar para satisfazer que nem uma cereja em cima do bolo. Ainda ontem vi ao teu lado uma taxa de jovens que ainda vivem com os pais e, à medida que conversavas comigo, só me lembrava do quão deturpado estava aquela taxa por se terem esquecido dos que vivem longe dos pais e são sustentados por eles. Grande maioria dos meus amigos encontra-se nesta situação, detesto dar nomes às pessoas nas descrições mais precárias e aflitivas como bem sabes, mais de metade dos teus amigos também se encontra assim apesar das exceções. São as exceções que me fazem conter um pouco mais de esperança, sabias? Trazem alguma luz ao meu coração quando todas as veias e músculos tendem a apodrecer graças a medidas de austeridade a assombrarem cada vez mais as paredes da minha casa, as paredes das minhas tias, dos meus vizinhos, dos meus conhecidos. As histórias de fantasmas, de pessoas endividadas começam a pesar na minha escrita, começo a pensar se não devia escrever um livro com várias personagens a desejarem pagar as dívidas, com um pouco de máfia por detrás a exigir-lhes o dinheiro e a colocarem-lhes um fim da linha, da vida. Talvez conseguisse fazer dessa ficção um autêntico best-seller pela familiaridade de tantas pessoas nessa situação.

E agora pergunto-te para onde vamos nós? O que vai ser de nós quando acabarmos os nossos mestrados? Ainda me resta mais de ano e meia mas e a ti? Falta uma tese. Faltam meses e nem vale a pena pensar na passagem dos minutos, a minha mãe ainda me vai dizendo para vivermos um minuto com energia, com todo o sangue que nos corre no peito e em todo o corpo – porque tal como disseste não passamos de garrafões de cinco litros de sangue, lembraste de quando disseste isso na cozinha da nossa casa? Parece que estou a ouvir os nossos risos ao lado do Jorge, o mexicano e amigo que gostava de ter todos os dias quando chegasse a casa. No fundo, somos uma família lá em casa. Neste momento com três pessoas, um dos nossos teve de partir e infelizmente permanecem aves selvagens no nosso ninho. Para onde vamos nós, pergunto-me novamente. Vamos para casa por enquanto, sentamo-nos no sofá, na nossa sala com uma parede roxa e uma caricatura horrenda para depois irmos jantar e quem sabe ver um filme. Mas os melhores momentos são as conversas, sobre sexo, sobre a vida, desabafos de emoções alimentadas ao longo dos nossos anos de existência. Até já escrevemos uma lista do que queremos fazer neste ano, eu, tu e o Jorge: ir ao cinema ver o Les Miserábles de preferência, ir ao restaurante sushi em Alvalade, fazer outras coisas que nem me lembro.

Temos felicidade, família e sorriso nas veias. Nem todos podem dizer o mesmo, amiga.


06 janeiro, 2013

Rascunhos sobre 2013 - I



Não vou esperar nada das pessoas, foi essa a minha promessa para este novo ano em que coloquei os pés. Sabe extraordinariamente bem distribuir um pouco de essência branca pelas pessoas – sempre tive esta imagem, da pureza com cor branca – e não exigir nada em troca. Se o ano morto, alojado no passado, trouxe sabedoria dividida em 365 dias decidi então não esperar nada do ser humano, apesar de ter uns maravilhosos exemplares a acompanhar o meu caminho, a ajudar na recolha das pedras que ficam pelo caminho. Esses seres humanos não vão construir um castelo, como o outro escreveu se não me engano, nem vão colocar essas pedras nos bolsos, na melhor das hipóteses acabam por vende-las para se aguentarem mais uns tempos neste país miserável, para não voarem para outras terras.

O meu país encontra-se envelhecido, na miséria pura e sem qualquer adereço. Antes da pobreza económica encontra-se na pobreza espiritual e cultural. As almas deixam-se deturpar pelas chamadas “novas tecnologias”, por cada porta que fica aberta graças a estas novas conversas, um novo ser humano é envenenado automaticamente. Não existe a definição de respeito no século XXI ou de boa educação. Qualquer desconhecido, amigo do nosso amigo, chega ao café e cumprimenta-o a ele sem dar atenção ao estranho que se encontra à sua frente. Aos nossos olhos castanhos, ao nosso casaco bege, ao nosso “olá, bom dia”. Umas horas depois recebo, e com certeza vocês também, uma notificação no smartphone com um pedido de amizade no Facebook e, minutos depois, lá descobriu a minha conta no Twitter e decide seguir o que me vou dizendo para a grande quantidade de pessoas com um perfil nesta rede. Ao mexer o café não libertou qualquer palavra, um incentivo para conversar, sobre qualquer livro ou as nuvens que circulavam na auto-estrada do céu. São estas as relações do nosso século, que se mantém cada vez mais impessoais, ausentes de qualquer essência, de uma alma com várias camadas de tecidos. Oh miserável povo, que não consegue oferecer um abraço, sabe apenas escrevê-lo. Maldita gente que tanto roubou e não tem mãos para agarrar nas rédeas de milhões de pessoas. Aflige-me neste momento os pequenos seres humanos, as novas descendências, que bebem aos treze ou catorze anos até desmaiarem no meio das ruas sem que os supostos amigos se preocupem. O frio, a geada cai durante a madrugada e o álcool paralisa todos os sentidos. Onde está a verdadeira adolescência precoce, com filmes para verem até de madrugada e casa dos colegas para dormirem? O conhecimento matou a inocência da adolescência, costuma dizer a minha mãe.

Não espero nada das pessoas, decidi prometer a mim mesmo e ao sexto dia cumpro solenemente. Ainda ontem tive uma conversa com a Catarina, em que ela me perguntava o que se passa com as pessoas? Gostava de lhe ter respondido: não sei, se queres que seja sincero. Há alguma coisa a tirá-las do sério, ou é a depressão ou é a felicidade extrema que as transforma em egoístas profissionais, em que os seus olhos não olham para as terras vizinhas. Neste momento deixei de trocar de mensagens com ela para ter o seu domingo descansado, a trabalhar para a faculdade, a ler ou a ver um filme. É melhor do que ter um bicharoco ao seu lado sempre a apitar ou a vibrar. O telefone é o novo animal doméstico do século XXI. E os animais vão sendo abandonados, nem os próprios jornais deixam escapar essa miséria.

26 dezembro, 2012

Os quilómetros que me separam de ti




Separam-nos centenas e centenas de quilómetros, daqueles que podem ser atravessados a barco, e continuamos a incendiar o peito, o meu e o teu. Não ouço fado ao pé de ti, por teres um ouvido mais apurado para a língua inglesa e não apreciares o canto dos portugueses, mas gostava de te mostrar as maravilhas da nossa língua para conseguires chegar um ponto mais ao meu coração – esse, fechado numa arca na tua casa de Lisboa. Se ouvisses o fado, as composições, as guitarras a ecoarem em Martim Moniz, conseguirias colocar as unhas sem nenhuma imperfeição nos músculos do meu coração. Digo-te para não tirares essa música, quando me preparava para o concerto da Carminho no Coliseu dos Recreios, e ouves um pouco a voz dos meus tormentos – esses, nascidos pelos meus familiares que teimam em continuar a levantar as saias da minha mãe ou os livros secretos dos meus pais. Um tormento que não vai nascer de ti, colocas as sementes da nossa união no chão de madeira da minha casa com esperança de ver as flores a nascer mal acorde, ao abrir a janela da sala. Separam-nos centenas e centenas de quilómetros, como escrevi anteriormente, e continuo a sentir a tua presença nas palmas da minha mão, à espera de ter uma caneta e algumas resmas de papel para escrever em homenagem ao teu corpo, aos teus olhos castanhos e ao teu cabelo comprido e brilhante.
               
Deixo a água, proveniente do chuveiro cá de casa, correr pela banheira e não consigo relaxar um pouco por saber que não vou tocar nos recantos do teu corpo, as minhas mãos continuam a ver-se nesta solidão, ao purificar o meu corpo na água límpida e quente cá em casa. Posso voar para te encontrar e anseio por todas as manhãs, dignas de serem esculpidas pelas marcas que deixei nas tuas costas com os meus dentes. Os meus dentes brancos afundaram-se na tua pele branca e a minha língua saboreou um pouco dos teus sentimentos, colocados nas células, libertados com o vapor na divisão apertada da casa. Ao passar os meus lábios pelas tuas costas, tinha prazer ao discutir contigo os discos da Rihanna ou da Lady Gaga, essas divas do mainstream, acessível a todos, e gostava de te fazer ver o que pode ser considerado talento e entretenimento, a principal diferença a afligir-me. As duas entreterem, a distrair a população das grandes conversas sobre a crise, das eleições, dos grandes filmes do ano ou das obras de arte e uma delas a compor e a cantar verdadeiramente do coração. Dizia-te isso e não concordas no que tem mais valor, aprecias fugazmente quem te consegue distrair dos estudos, o que costumo de chamar obras de arte superficiais. Enquanto isso, as minhas mãos continuavam a desenhar arestas, pontas por todo o teu corpo esculpido. Quero voar a ti neste momento, todos os meus desejos recaem nesse ponto. Arroios continua no mesmo lugar e é quase como o nosso ponto de encontro, a nossa casa. Tenho saudades da grande cidade, dos carros, dos meus casacos compridos, de andar com a mochila as costas e das leituras até horas tardias na biblioteca. Queria alimentar-me do teu ar para não gastar dinheiro – o desejo de todos os apaixonados e pobres de finanças.

Quero percorrer o rio Mondego contigo, tenho de trazer-te cá acima. Voa para mim, deixa-os por umas horas e anda cá. Continuamos a conversa sobre os livros que ando a ler. A minha fixação pela obra da Inês Pedrosa delicia-me, nunca conheci tão boa escritora de romances em Portugal. Têm todos a mania de colocar a Margarida Rebelo Pinto num pedestal e não consigo levá-la a sério, como escritora ou sequer como artista, como já te tinha dito. Voltarias a dizer que entretém as pessoas, apesar de nunca teres pegado num livro dela – felizes são aqueles que vivem na ignorância, penso acerca disso quando me dizes isso. Vamos para a margem do rio, percorremos a pé, corremos para exercitar o corpo e beijamo-nos no final. Não sei quem quero enganar, ao imaginar-nos nas vezes em que tomámos banho não conseguia deixar de pensar nas alturas em que fizemos amor. Esse amor cheio de loucuras, posições mais atrevidas para os conservadores. Os meus lábios a passarem pelos teus quando sentia o teu peito debaixo do meu, a respirar a minha existência. Separam-nos centenas de quilómetros neste momento e só queria tocar nos teus olhos castanhos. Não é preciso dizer “Fica. Fica cá a dormir em casa”, sabes os meus desejos mais profundos.

Escrevo-te todos os dias. Quando estou a construir um conto, um simples trabalho da faculdade, ao folhear um novo livro. Sentes o cheiro à tinta da caneta mesmo com todos os quilómetros a separarem-me de ti. Se todas as paixões não usassem o conteúdo geográfico para quebrar laços, existiria muito mais amor nos dias cinzentos, recheados de chuva. Escrevo-te amanhã, sei que vais estar à minha espera.

21 dezembro, 2012

O amor para ti e para mim



Aos poucos, aprendo o ver os significados da palavra amor. Essa palavra que resiste à passagem do tempo, à destruição dos mundos, à morte de personagens vivas e determinadas para a nossa existência. É uma palavra capaz de se tornar em ação. Pelo pequeno-almoço que costumamos tomar juntos, pela quantidade de pizza e coca-cola que vamos colocando dentro do organismo – e só nós sabemos o quão mal faz à nossa saúde – pela falta de vontade em fazer exercício físico. Sinto amor quando olho para a tua cara, acabada de acordar depois de uma noite recheada de álcool ou danificada graças a um dia inteiro a estudar, quando os teus olhos castanhos contêm olheiras do tempo e das vivências. Também as bochechas cor-de-rosa, capazes de me fazer colocar as mãos e apertar – até não ter mais forças para tocar num recanto da tua alma.

Levanto-me da cama, mesmo antes de chegarmos sequer a adormecer, para beber contigo uma garrafa de vinho verde e fumar um cigarro. No meio da nossa casa, envelhecida pelas gerações anteriores que por lá passaram e pelo fumo que sai das nossas bocas, somos capazes de colocar qualquer jogo de palavras em cima da mesa – é isso que os grandes amigos, companheiros de casa, namorados de longa data fazem. No meio da sala nasce a intimidade, apenas nossa. Uma intimidade que nos faz segurar um copo de vinho, um cigarro na outra ou a apagar-se no cinzeiro e com conversas no caminho de Ti, de Deus, de uma divindade. Queríamos e conseguimos dizer-Te tudo o que sentíamos, que és uma espécie de beleza divina, enumerámos os momentos em que sentimos a tua presença. Não te coloquei agora em letra maiúscula porque significas amor para os meus ossos, os meus olhos também castanhos e até para os meus lábios. E sabemos que todos os problemas, as centenas de beijos alheios que trocamos com desconhecidos provém de uma falta de amor extrema.

Essa falta de amor leva a loucuras interiores, pensei contigo. Não foram precisas palavras para chegar a esta conclusão. Existem pessoas que moram nos quartos ao nosso lado com falta de amor, à espera de serem ouvidas plenamente durante uma conversa. A gritarem interiormente e a serem ignoradas por todo esse teatralismo e dramatismo, nascidos no fundo de um qualquer poço – o que se encontra no lugar de um coração. No meio das lamúrias, não consegui perceber, em conversa contigo, o motivo por os outros terem fome e sede de amor. Arde-me a garganta quando penso que não consigo amar ninguém, disse-me uma amiga minha há uns tempos atrás. Talvez seja essa a sensação, não a perceciono por sentir-me feliz há algum tempo, por ter o meu peito cheio de sangue, sensações e sentimentos carregados de boas vivências.  As caças que vemos em qualquer bar ou no largo do nosso bairro provêm das ausências de autoestima e não compreendo essa sensação, apenas um terço.

O que me dá mais gosto em ti é ver-te sair de casa com um raio brilhante, mesmo nos minutos em que te apetece gritar – como aconteceu há algumas semanas, ao notares a falta de uma das nossas garrafas de vinho verde. Enche-me todo o peito quando usas uma cor preta, a conjugar com os teus cabelos compridos. Orgulho-me quando falamos em Deus, quando falamos de amor. Não sinto nem tu sentes fome de amor, lá no fundo. Pertencemos a um conjunto de pessoas que nasceram com sorte neste campo, minha amiga.

03 dezembro, 2012

"Era uma vez um rapaz que viu Deus"


Gostaria de começar a contar a minha história a partir do típico, vulgar e incentivo aos finais felizes “era uma vez” para que o frio gélido não chegar aos meus pés como neste momento ameaça passar pelas frestas das janelas envelhecidas, nesta casa em Lisboa. Gostava de tentar escrever lentamente estas três palavras mágicas para saírem do dicionário, arrumado no fundo da minha mochila, esta peça fundamental para compreender qualquer língua – mesmo a amar profundamente a minha língua portuguesa e ser tremendamente suspeito nas minhas escolhas. Gosto de contar as minhas histórias a partir daqui. “Era uma vez um rapaz com o cabelo desgrenhado no meio das ruas”, “Era uma vez uma rapariga com os pulmões secos pelo fumo do tabaco”. Consigo imaginar estas palavras na minha cabeça no momento em que os meus limites de imaginação estendem-se mais um pouco. Tornar uma rosa vermelha num tom arroxeado ou esverdeado, sem qualquer alteração – com a intenção de a tornar normal, sem qualquer traço distinto – ou mesmo colocar a boca na posição dos olhos castanhos num ser humano. “Era uma vez um rapaz que ultrapassou os limites da normalidade”, penso e escrevo em uma das palmas da minha mão.


Se tivesse sangue azul talvez ponderasse em deixar de escrever, talvez acabasse com esta forma de expressão capaz de bombear furiosamente o meu coração. Se o sangue azul percorresse as minhas veias, era bem capaz de deixar de fazer suposições e colocar em prática. Abandonar a típica questão do “se fizesse exercício físico talvez fosse uma pessoa mais saudável” ou “talvez se estudasse um pouco mais iria tirar uma nota melhor”, pequenas suposições tendentes a nascer como raízes venenosas no meio do meu chão. Agora, perto das onze e meia, coloco as suposições no lixo. Com as minhas mãos geladas, escrevo-te a Ti. Talvez por ter tantas dúvidas na tua existência, por acreditar que és uma invenção do Homem para ter fé nos momentos mais fatais. Por desejar em sentir a tua presença, o teu amor nos momentos em que as brisas geladas fazem força para entrar pelas persianas verdes da minha casa. Esta casa de madeira, capaz de me receber novamente depois de tanta rejeição pessoal, ao fim de tanta procura de um novo espaço nos dias mais quentes de Verão e ao lado de uma amiga, em forma de espírito por a sua ausência. Escrevo-te a Ti por cheirar o meu sangue azul de uma outra vida, se isso for possível.
                
Contarei a minha história com as três palavras mágicas a partir do momento em os meus olhos castanhos olharem-te serenamente, confiante da tua presença. E coloco-te no mesma dimensão de todos os outros seres humanos pela tua quantidade de defeitos, por me encheres destas suposições e questões materialistas. “Se pensasse um pouco mais ti se calhar ia atingir mais facilmente a paz de espírito”, paz de espírito essa que é atingida graças a um outro ser humano que me dá a mão, que me beija os lábios apaixonadamente e me leva a fazer sexo por um ato de amor. Sexo nos dias mais frios, com a temperatura a alojar-se nas paredes do meu quarto, recheadas de postais alusivos a Lisboa e ao meu novo caminho. Deves sentir-me nesses momentos, especialmente quando chego ao meu ponto máximo e grito ou sinto uma mão a tapar a minha boca. Nesses momentos de êxtase humano e sem qualquer tipo de mecânica – a não ser a dos corpos.
                
“Era uma vez o rapaz que viu Deus”, que viu João, que viu Leonardo. Imagino-te com nomes como nós. Afinal Jesus era o teu filho e vejo tantas pessoas com o teu nome. “Era uma vez um rapaz a viver feliz”. Descrevo-me, escrevo-te e sonho um dia encontrar-Te. Gosto de começar as minhas histórias por aquele início a que chamei vulgar.

02 dezembro, 2012

Tudo em mim és tu


Tudo em mim és tu.
Tudo em ti sou eu.
Tudo em nós somos nós.
Tudo em mim és tu – disse mais uma vez.

(tenho tanta felicidade, alegria e sentido para viver nas minhas veias que ameaça a explodir em qualquer momento, a qualquer hora do dia)

20 novembro, 2012

A esperança no ser humano

"tudo em mim és tu."

Fere-me cada vez mais não ter uma gota de esperança a circular em qualquer uma das minhas veias pelas pessoas. Aquilo a que chamamos de ser humano tão bem pode ser chamado de lobo, de monstro, de cão pelas suas caraterísticas cada vez mais persuasivas em colocar os dentes num pedaço de carne. Pedaço de carne, esse que está colocado no braço de um inocente, o que caminha na rua da grande cidade ou mesmo na pequena vila – a caminho do trabalho ou do centro de emprego à procura de um pouco de esperança na vida rotineira portuguesa – com um sorriso, com inocência apesar de todas as dificuldades enfrentadas e a serem enfrentadas, tudo depende do ponto de vista e do tempo verbal a ser usado. Tenho uma canção que pretendo colocar cá para fora de modo a fazer frente a estes monstros, sentados ao meu lado todos os dias e também para espantar todos os meus medos, inseguranças e pecados.  

Não tenho confiança nas pessoas por já não me restar um pedaço de fé por elas. Tenho uma relação especial com Deus – quem enfrenta o que vou despejando neste pedaço pode notar o quão particular é esta minha relação – uma espécie de relacionamento a tentar equilibrar o amor e ódio. Uma das questões que me aterroriza o coração é o facto de se todos fomos criados à Sua semelhança significa que também Ele tem um coração recheado de maldade? Na minha infância incutiram-me a imagem de um Deus recheado de amor, pronto a perdoar qualquer pecado acumulado. Bastava conversar com o padre, confessar as nossas imundices, beijar-lhe as mãos se for preciso para o pedido chegar até ao céu – uma espécie de paraíso estava reservado a todos os que fizessem este ritual de todas as vezes em que caíssem na tentação, em que fizessem sexo só pelo prazer (pergunto-me todos os dias quem não o faz se sabe tão bem). Mas se os ensinamentos estão corretos então isso quer dizer que Deus também contém um pouco de maldade, de sentimentos maldosos tal como todos os monstros que olham para nós na sala de aula, no metro, na minha própria casa em Lisboa? Este é um dos pontos que me temer o ser humano, apesar de estar apaixonado por um. Posso dizer que tenho a melhor pessoa neste momento ao meu lado, a amar-me, estou com um sorriso no rosto de todas as vezes em que estou de mãos dadas, em que coloco cá para fora os meus tormentos, as minhas ideias, os pedaços da minha alma. Se Deus está recheado de maldade então há uma outra zona do corpo, do tecido da alma que contém um amor brilhante pronto a acolher todos os pecadores – assim como também estou, preparado para receber nos meus braços os que mais gosto e aqueles que nem sorriem à minha frente.

Precisamos de evolução, meus monstros. Preciso de regressar daqui a algumas centenas de anos – de ficar a descansar quando chegar a minha hora, no que diz respeito a esta vida e depois voltar num novo corpo, numa personalidade completamente diferente – necessito de regressar e ver a evolução do ser humano, sem que termine o Mundo entretanto. Mesmo com um aviso de necessidade de evolução bem na minha testa ainda me falta tantas coisas para aprender. Talvez seja também uma das razões para algumas também nutrirem confiança no ser humano, tal como eu.  É isso que mais me fere. É essa possibilidade que balança o meu coração nestes dias de chuva.

Um dia, vou ser totalmente livre. Uns daqueles dançarinos de rua com capacidade de beijar ainda mais intensamente, daqueles que roubam as almas alheias com declarações. Sem promessas à mistura porque retira a condição humana ao Homem. Precisamos de evolução, de começar a fazer amor ao invés de sexo, de beijar e não de passar os lábios. O meu coração regenera ao perceber que afinal tenho um pouco de esperança em mim, em ti, nele e em qualquer pessoa que passa na rua.

08 novembro, 2012

Querido Satanás e Deus,



(O mais bonito desta carta foi o dono ter morrido, vítima de um ataque no coração)

Quase que me escorrega o cigarro da ponta dos dois dedos que o seguram e traz-me uma forte dor ao coração, por um dos meus maiores prazeres quase desvanecer-se em segundos. Em toda a minha vida utilizei sempre a palavra “quase” – quase fui ator, quase fui escritor, quase fui estudante, quase que tive os cabelos loiros, já soube qual foi o meu género. Apesar de todas as vezes em que coloco a palavra quase na minha existência também desconheço qual o género a que pertenço, na realidade. O corpo num certo lugar, a cabeça numa outra zona, os lábios carnudos a pertencer a um homem são, sem problemas de saúde e a minha cabeça a preencher os lábios imaginados com uma cor vermelha, sedutores para todos os caçadores noturnos. Apesar das confusões, autênticos furacões destruidores das minhas convicções, consigo ter prazeres mundanos – fumar num final de tarde, com uma caneca recheada de chá quente.

Quase que me escorrega o cigarro da mão ao imaginar-me como uma mulher de cabelos louros, olhos castanhos e hipnotizadores e um corpo dotado de perfeição – essa condição que muda a cada olhar, por cada ser humano que passa pela rua e coloca os olhos em mim. Tal como num circo imagino a prisão perpétua ao lado das panteras negras. Ao agarrar o cigarro dos mais caros e compridos não tenho problema ao imaginar-me num espetáculo de dominação. No meio da insanidade tenho o chá colocado em cima da mesa da esplanada e a outra mão com um chicote. A esquerda, aquela em que escrevo todas as memórias, a que define todos os filhos do Diabo. Nem Satanás conseguiu distribuir-me um género em condições, aprisionou-me num corpo perfeito e beijou a minha mente – purificada, totalmente pertencente a Deus, recheada de imperfeições e feminina. Quero deixar crescer todos os meus fios de cabelo mas a realidade traz-me à superfície. Os raios solares queimam a minha pele branca, as cordas vocais estão danificadas pelo chá quente que acabei de tomar.

Quase que fui mulher, quase que vi os meus pais casados. Hoje sou uma jovem mulher plenamente alimentada a partir da minha cabeça e quando beijo o meu jovem amado no meio das ruas, todos despejam venenos nas nossas cabeças. Destroem os meus cabelos louros – imaginados solenemente – permanece o corpo masculino e perfeitamente cuidado com alimentação vegetariana. No final da tarde, com o chicote colocado em cima da mesa e as grades a apertarem as minhas costelas, liberto lágrimas pelo meu progenitor não aceitar as minhas definições liberais e a minha voz consumida num mundo completamente livre. Falta-lhe ver com olhos reais o cimento carregado de paixão, a visão de eternidade. Liberto lágrimas pelas condenações perpétuas, soltas em todas as janelas, pela insanidade presa no meu cérebro. Agarro no chicote e fecho-me na jaula com panteras negras, essas que pressentem o meu cheiro. Deixo os meus cabelos louros do lado de fora, todos os meus disfarces encantados e as mentiras superficiais – alimentadas pela mente para enganar a sociedade conservadora e cega. Essas panteras deitam-se serenamente, a aconchegarem um novo elemento atirado pela sociedade, longe de ser treino por esse mesmo dito conjunto de pessoas
.
Toca um violino como som de fundo e não vejo o meu amado a abrir a porta da jaula. Falta-me oxigénio para alimentar a minha mente. O poder da alma é mais poderoso do que a minha condição corporal. É noite, já os relógios dão as doze badaladas e quero vencer. Venço com todas as minhas forças. Hoje trata-se de uma aceitação sem qualquer quase colocado pelo meio. E fumei todo o cigarro, até ao fim da hora senti que me comeram os cabelos louros e falta pouco para o cérebro ser destruído.

25 outubro, 2012

Amor a 1,5


Deixo qualquer tipo de imagem, pintura ou fotografia, no meu espaço pessoal para revelar o meu estado de espírito - esta é uma verdade universal. Sou totalmente a favor das palavras, desprezo a tendência de "uma imagem vale mais do que mil palavras" no meu quotidiano mas hoje desejo colocar os meus dois mil sentimentos incorporados em apenas uma imagem. Não tomo café a esta hora, não queimo a língua com a caneca quente, a que supostamente tinha o meu chá de morango. Ao invés disso tenho uma aula de Públicos da Cultura à minha frente - ensinamentos que coloco na minha mente
à medida que escrevo, liberto palavras para explicar um pedaço da minha alma.

Talvez o amor seja coisa deste Mundo. Se existem outros tipos de amor, desconhecidos à raça humana então alguém que a descubra. Por volta de 1969, as pessoas viram o Homem a chegar à Lua. A evolução da imprensa no século vinte levou a que a imprensa jornalística colocasse a noção de informação entre dois pólos: intelectual e de lucro. Quando é que vão descobrir o antídoto para o amor puro? Em 2013? Longe disso, penso serenamente nesta hipótese. Olho para os meus colegas na sala de aula e penso na minha felicidade - tão elevada que não tenho capacidade de a medir (como se um estado de espírito fosse possível de medir através de réguas ou fita métrica, esses meios tão rudimentares). O amor é coisa deste Mundo. São estas simples palavras que deixo no Expressividade. Hoje as imagens de um abraço, de um beijo nos lábios, de mãos a tocarem-se valem mais do que mil palavras. Um dia invento uma imagem para a confiança.

Chego à conclusão de que coloquei demasiadas palavras para dizer: estou feliz, tão feliz.

13 outubro, 2012

I'm all the fishes in the sea


Seek me out.
Look at, look at, look at, look at me.
I'm all the fishes in the sea.


Com uma chávena cheia de café ao meu lado não tenho qualquer tipo de problema em admitir que me encontro numa felicidade extrema. Um tipo de felicidade que me faz querer descansar profundamente, desejo esse que tenho elaborado ao nível artístico. Na idade dos vinte e um (extremamente jovem, como muitos fazem questão de salientar) já devia ter um pouco mais de juízo, não devia dar ouvido a algumas incertezas que por vezes ousam e teimam em marcar os meus batimentos cardíacos. Não diria que qualquer Homem pudesse afligir-se com sensibilidade - quando colocada em dose exagerada num corpo humano - e sou a primeira prova dessa sensação. Preocupo-me por deitar lágrimas criadas na aura da felicidade ao invés da profunda solidão, ao qual estava habituado nos últimos meses.

As palavras libertadas por um corpo colocado ao fundo do poço, deitado fora por mãos alheias, são mais carregadas de sentimento, de vivência, de profundidade. É essa a condição de todos os artistas, nunca ouvi falar de uma alma extremamente certa, correta e recheada de felicidade a lançar grandes obras literárias - ou então trata-se de uma falta de cultura (talvez seja) - com os raios solares a brilhar nos fios capilares e nos dentes extraordinariamente brancos. O café arrefece na chávena, as palavras continuam a querer sair dos meus dedos e o meu coração continua a bater solenemente por estares neste momento longe de mim. Longe geograficamente, perto espiritualmente. Penso cada vez mais em escrever uma obra-prima sobre a felicidade, a questão que poucos fazem: o que acontece quando se encontra a felicidade, mesmo que essa seja momentânea? Até agora tenho encontrado pedaços desse estado de espírito, normalmente ligados com uma data de validade - como os iogurtes, acabam por azedar depois de um mês - mas apareceu uma alma que teima em continuar ao meu lado, a querer ver os meus defeitos. Os curtos, os extensos, os grandes e pequenos. Quando estou com a tua alma teimo em roer as unhas, em retirar um pouco da minha beleza. Com os dedos recheados de sangue, bebo um pouco de café para acelerar os fluxos da minha alma. É condição de um artista ser belo em dias negros? São tantas as questões que comem o meu coração e tu teimas em ficar comigo. O café queima-me a língua, não o faz às alcoviteiras da minha terra. Essas que gostam de lançar os olhos negros para as minhas andanças, mesmo que suba para uma motorizada e chegue aos 200 quilómetros por hora para ninguém me ver.

Apaixonei-me há algum tempo, tenho a dizer. Não fugi do sentimento quando o senti nas minhas veias, como estava acostumado a fazer. Quis beijar-te, sentir os teus lábios nos meus e a tua língua na minha boca quando comecei a ficar sem oxigénio depois de olhar para os teus olhos claros. Aconteceu-me isso naquele ambiente de festa, em que o calor humano - as chamadas hormonas - andavam pelos ares na capital portuguesa, no Terreiro do Paço. Naquelas luzes em que não quis largar a tua mão, com receio de me perder de ti no meio de centenas de seres humanos. Mesmo quando tudo se resumo a um nós tenho esse receio que invade o meu peito - o de me perder de ti. Todos os meus sorrisos equivalem a uma troca de palavras deste medo - o de me perder contigo - isto escrevo-o nos recantos da minha alma, na minha imaginação assexuada. Com as minhas mãos a rodear toda a chávena branca, sinto o vapor a beijar os meus óculos azuis, a escreverem declarações de monotonia, essas que não pretendem ficar nas minhas ações. Tenho uma aflição cada vez maior com a minha sensibilidade, com as lágrimas de que liberto. São lágrimas de felicidade, meus nobres amantes. Podia gritar ao vento, a minha garganta já estaria morta por esta altura do ano. Quando quis beijar-te no meio de todas aquelas luzes e sons fi-lo, puxei-te para mim e bati palmas aos meus desejos. Apaixonei-me por ti a partir desse momento, um pouco antes ao sentir vontade de pegar na tua mão e levar-te comigo pelas ruas da Bica.

Eras quem desejava conhecer há muitos anos. Não vou conhecer ninguém que me traga tanta felicidade como tu me trazes neste momento, depois de tantos meses a curar-me, a aprender novamente a amar os meus próprios cabelos castanhos, as minhas doces cicatrizes espalhadas pelo meu corpo anorético, consegui redescobrir o antídoto para o único tipo de felicidade: o que me torna louco, livre, belo e altruísta. Bebo o meu café, saboreio com a minha língua ao passá-la pelos lábios e digo-te para procurares um único peixe no oceano - ao contrário da pequena frase que coloquei ao início da minha divagação. Procura um único peixe dourado no meio de todo o oceano porque é esse que amas. Terminei o meu café e vejo-te à minha frente. Vou viver mais um pouco.

03 outubro, 2012

Um apontamento sobre os possíveis regressos,


Se existe uma paragem em qualquer criação de arte, mesmo as progressivas, significa que tenho à minha frente um bom caminho em questões do coração. Trata-se de uma lavagem nos olhos, nos cabelos castanhos, nos lábios degradados graças à nova vaga de frio que sinto ao ir para as aulas às seis da tarde. É uma purificação de todo o meu corpo, esse que se encontra enrola pela minha alma e traz uma nova dimensão à paragem que desenho neste momento às minhas palavras, às personagens que revivem na minha mente todos os dias. A mensagem tem os dois lados da moeda: o bom – o excecional – por ter uma alma brilhante em todos os dias da minha vida, o mau por um artista ganhar toda a sua força nos momentos trágicos, no drama, ao sofrer um derrame no coração. O coração, esse brilhante músculo que tantas vezes já foi tema das minhas longas “palestras sobre o viver bem, ter um relacionamento estável e ter um sorriso no rosto” – essas longas palestras que não davam em nada de ser escritas por não ter dados em concreto, por sentir o frio de um abandono voluntário nas minhas veias.

Esse abandono que não vai existir. Encontra-se inundado de dedicação, de mãos fortes, de cabelos pretos. Esses cabelos pretos que me enrolam as veias e asfixiam-me por não aguentar as famosas borboletas no estômago. Os lábios pequenos que me consomem a cada dia que passa, a cada nova promessa que é libertada durante a tarde. Abdico da minha condição, a minha paixão pela elaboração de história, se te tiver no fim. No fim de uma vida terrena, de uma existência finitiva. E peço, peço todos os dias para que o vivo neste momento seja eterno, que esteja à tua espera quando partir – tenho esta sensação de que vou falecer não muito tarde, chamem-me de louco! Se existe uma paragem é sinal de que o fado alcançou o meu coração. É necessário um novo chamamento, meus caros. Estou a amar, estou a amar – gritei três vezes à janela do meu quarto na grande cidade. 

22 junho, 2012

Lição nº 1 para a destruição pessoal


Para a destruição pessoal basta provar com a ponta da unha alguns dos ingredientes oferecidos por uma vida sem uma ponta de luz, devorada por todos os filósofos pessimistas. 
Veneração por terceiros, compaixão, perdão. Na minha lista colocaria dezenas de ingredientes, classificados como características plenamente humanas, para perder-me nos esgotos de uma vida poderosa, em que coloco a coroa e reino completamente sozinho, com todos a obedecer-me e a terem o medo como um inibidor potente. Quando as empregadas fizeram alguns bolos na cozinha, passei a unha por alguns dos ingredientes que compunham o chocolate, o doce de morango e as cerejas usadas em várias tortas. Os raios solares que invadiam as cozinhas foram invadidos por uma escuridão capaz de matar o meu coração e a pureza do meu espírito, a bruxa com quem troquei beijos apaixonados olhava-me fixamente no fundo da cozinha para apreciar o roubo da minha alma por demónios do passado. Ao tocar nos meus lábios colocou a mão no meu peito, pressentindo o vazio de uma caixa torácica e amaldiçoando as minhas boas intenções por ainda não conseguir amá-la. O amor destrói, é uma tempestade de Inverno que leva todos os terrenos, casas, pessoas no redemoinho fulminante. Com um coração partido existe um prazer a roubar uma vida humana, a ver profundamente o desvanecimento de uma alma para o reino dos céus. O amor destrói um corpo humano, arromba todos os andares do corpo, retira os órgãos dos devidos lugares e desliga fios de acesso ao sistema nervoso. A bruxa estudava-me atentamente sempre que a rapariga de cabelos dourados, perita em rejeição e discriminação, passava por mim. Os olhos negros perscrutavam todas as alterações, um pequeno arrepio que caminhava pela minha espinha, o suspiro ligeiro que se soltava da minha boca. Ao estudar-me e perceber que o meu coração não batia por ela, tinha o desejo de o arrancar e comer com os próprios dentes. O maior prazer era ter o sangue a escorrer pelos lábios frios como o gelo, o êxtase chegaria se mergulhasse no meu sangue, quente e acabado de sair de um corpo sem vida. O amor destrói, o amor não correspondido corrói. Apesar de toda a magia a percorrer as suas veias, a bruxa sem nome conseguia amar um simples humano com os seus olhos negros, o cabelo castanho claro e a pele branca. Seduziam um simples mortal recheado de sexualidade, de serenidade nos seus atos, com simplicidade no comportamento. Um mortal que nunca entregaria o coração para toda a eternidade, pronto a amar uma herdeira de todas as forças do Mal. Queria roubá-lo e terminar com a vida dele para não ter de sofrer mais sempre que caminhasse ao seu lado, corroía-lhe o próprio coração desfeito pelas trevas este amor. Tinha o desejo de se ajoelhar a seus pés quando conseguia ser mais poderosa do que ele, a veneração comia-lhe o estômago e todas as mãos. Nestes momentos continuava a olhar para ela distraída e firmemente. 

15 junho, 2012

A morte no Cabo das Tormentas,



Consigo ver as veias e o sangue a passar nos teus olhos, completamente despidos de qualquer proteção muscular com o verdadeiro poder da tua observação a inquietar-me a alma. Tenho a capacidade de explorar os teus ossos, o teu esqueleto com a minha simples visão por ter o conhecimento a inflamar-me as decisões e a deturpar os meus desejos. Tenho-te a ti e ao teu esqueleto deitados no meu sofá, na individualidade própria de cada corpo humano, com a sensação de ter a tua alma pregada à brancura de cada osso da tua constituição. Um arrepio percorre os meus músculos quando colocas a mão sobre a minha perna, para acariciar ou magoar em seguida com um ligeiro aperto na pele. Esse arrepio alastra-se pelos cabelos por ter um cadáver a beijar-me o pescoço, a mexer nos meus fios capilares no mesmo segundo e a desejar-me furiosamente, evocando todos os espíritos. Um desejo mútuo de possuir os teus ossos, de quebrar toda a tua constituição e de procurar o coração que falta na tua caixa torácica cresce aos poucos. Leva-me daqui, leva-me daqui por não aguentar mais os espaços rodeados de seres humanos, de vivacidade, de trivialidade e crueldade que rodeiam todos os dedos recheados de carne, de pulsação e sangue azul. Um sangue que coloquei na tua boca, um disfarce contra a ausência de lábios carnudos. Falta-te um pouco de carne para conseguir amparar-te nos meus braços, falta-me um sorriso já que não escondes os dentes límpidos por detrás de qualquer tipo de pele, falta-te um sentido de vida por estares colocado no limiar da diferença quando o oxigénio passou por todo o teu pescoço pela primeira vez. E a tua língua continua a incendiar-me, a tua mão gela-me as pernas enroladas na tua cintura. Quero puxar os cabelos que te faltam na nuca, ambiciono um pouco de carne para apertar quando os teus lábios possuírem os meus. Quando trocarmos de papéis, quando me roubares toda a humanidade.

Conheci-te no teu próprio funeral, quando o teu corpo estava pousado no caixão e a tua alma estava sentada ao meu lado. Conheci-te quando sussurraste a confissão de me observar há alguns anos, por teres a capacidade de sair do teu corpo durante a noite e olhares para os meus olhos castanhos quando estava a ler uma enciclopédia. Nas horas de leitura dos meus dez anos de idade, dos meus quinze, dos meus vinte. Sentei-me no banco da capela sem ter permissão para te responder, demasiadas lágrimas eram libertadas devido ao teu suicídio, à tua inconformidade para com a linha dos vivos, dos que permanecem na Terra sem qualquer lógica ou plano. Por me amares à distância, por apenas existir o desejo de pintar os cabelos num tom cinzento e utilizar roupas negras nos pouco mais de vinte e cinco anos de existência. E a promessa de teres uma última experiência sexual antes de partires foi colocada em cima do banco, mas não esperava desejar um cadáver depois da meia-noite. Uma constituição óssea recheada de desejo para possuir às duas da manhã. À medida que escrevo penso, não quero falar nisto, não quero pensar nisto, não quero relembrar isto. Mas se não comunicar sobre os tormentos da minha alma nunca vou chegar ao cabo da Boa Esperança. Os medos consomem a minha pele se não soltar palavras e o meu corpo decompõe-se ao estado de um igual cadáver por não ter controlo sobre a situação, sobre os meus pensamentos. Não quero falar sobre isso, continuava a pensar, o ciclo vicioso entrava em ação a balançar todas as peças. Consigo ver as veias nos teus olhos, com os meus lábios a tocarem na tua boca, a tentarem morder os teus ossos frágeis.

Corro rapidamente para fugir dos meus fantasmas, corro para fugir dos teus fantasmas. Passo horas a correr, mesmo se equivalerem a anos. As pessoas passam demasiado tempo a correr, gastam o tempo a apaixonar-se quando deviam amar o próprio corpo, ao invés de desejarem cadáveres e almas sem um corpo. Tenho-te a ti e preciso de um pouco mais de realidade, só me apercebo deste desejo quando passo horas a observar as paredes de um novo quarto, totalmente brancas e sem qualquer decoração. Tenho-te a ti mas prenderam-me os pulsos numa cama para as horas passarem a loucura não consumir o meu cérebro. Quero falar sobre o que me vai no coração, sobre todas as pulsações que teimam em matar este músculo. Tantas vezes citado, tantas vezes maltratado. O meu barco afundou-se no cabo das Tormentas. Os destroços ficaram contigo e estou apaixonado pelo passado, por ti até ao momento em que olhar para ti e ver-te como o futuro. Mas para não me consumir, vou falar sobre isto a todos os ventos, vou falar sobre isto até a minha voz se esgotar.

14 junho, 2012

Matar fantasmas,


Está na hora de te escrever para te abrir a porta dos meus sentimentos, do meu coração e para te guardar nas minhas memórias. Os meus dedos acarinham pequenos choques por ser capaz de oferecer um pouco de energia ao teu fantasma, no momento em que soletro o teu nome na escuridão do meu quarto e à medida que despejo o passado sobre as carpetes verdes. Esses pequenos choques atormentam a minha lógica, a velocidade com que escrevo e o meu raciocínio para sussurrar o que vai na alma. Quando se fala baixinho, todas as outras pessoas falam igualmente baixo por saberem que se trata de um assunto sério, recheado de insegurança, um assunto inundado em lágrimas e veneno. O teu fantasma está presente ao lado da minha alma, por teres sido mais do que um dia ou uma noite como muitos seres humanos sem qualquer pureza costuma rotular. Nas caçadas noturnas, as minhas elegantes, humanas, todas as que acontecem dentro de um recinto, ao invés de armas, cordas e ferros são colocados quilos de maquilhagem, roupas acabadas de comprar, cremes nas mãos e todos os fios de cabelos são alinhados. Nesta descrição da procura desenfreada por um único beijo que console os músculos, a tesão, suguei-te um pouco a alma à medida que nos beijávamos e pedia-te para “ficares comigo” quando a minha existência precisava unicamente de um ser humano perto. Apesar de todos os outros olhos experimentarem-te e mesmo com o rótulo de uma aventura passageira para aumentar o ego, foste mais, és mais, serás mais daqui a uns anos. Escrevo-te para te libertar de mim, para voares violentamente por todos os céus e conseguires proclamar-te como o conquistador de novas terras, novos desejos e sonhos. Pelo teu telefone conseguiste escrever que te encontravas bem, que não precisavas de mim, a tua ira inflamou-me os cabelos, os meus olhos castanhos e as minhas unhas roídas. Sempre ouvi dizer que qualquer alma curada ou tranquila não sente necessidade de se alimentar de um dos sete pecados mortais, a ira. E quem sabe se não foi buscar um pouco de inveja, questiono-me frequentemente sobre isso.

Num sofrimento pessoal, individual, tinha a alma quebrada por não organizar sentimentos em relação à minha alma gémea. Por saber que a encontrei e não conseguir aceitar que precisava de esperar, de beijar, de respirar um pouco de vida, de ferir as minhas asas antes de deixar de voar. Quando encontrei o amor da minha vida, nem sequer tinha voado por terrenos proibidos, aqueles em que qualquer arma está apontada às duas asas e a morte é iminente. A minha alma derretia-se nos minutos em que me encontraste. Ardia e permanecia numa cova, pronta para a Morte a enterrar, para fechar poucos capítulos numa sala de arquivo. Quando te encontrei, estava desmaiado pelo álcool que circulava pelas veias. Desmaiado ou adormecido, como quiseres chamar. À medida que libertava as minhas mágoas por todos os canos, ao deixar que água escorresse pelo meu rosto para acordar da minha melancolia, senti as tuas mãos sobre os meus cabelos numa tentativa de aconchego. Se as horas que passei fossem transferidas para o presente talvez te tivesse dado um tiro fatal no peito para me deixares sozinho, sem perturbações. Que todas as cobras do Mundo rastejem pelo chão, penso que foi dessa forma que Deus condenou este ser vivo pela maldade provocada a Eva, doce e inocente que descobriu a nudez depois de trincar o fruto proibido. Esse fruto, equivalente a uma maçã, trincado também pela Branca de Neve nos contos de fadas. Sejas a cobra ou o fruto apetecido, a minha garganta asfixiou, as minhas cordas vocais partiram-se no momento em que te pedi para voares por o meu coração estar vazio, por não existir absolutamente nada para oferecer.

Nas tuas lições de voo não te esqueceste da derradeira aula: aplicações da palavra sempre quando alguém pede para sairmos da sua vida. Nesses minutos as tuas penas brilharam à luz do Sol, escrevo-te agora para dar um ponto final. Não desejo parágrafos, pontos finais são mais atraentes quando não existe nem uma gota de compaixão. No inferno aguardam-me todas as cobras venenosas, prontas para enterrar os dentes na minha carne. Sussurro baixinho para todos me levarem a sério, para me levar a sério.

09 junho, 2012

Rascunho sobre as paixões,

Sinto a leveza de umas mãos a passarem, a tocarem nos meus fios de cabelo. A leveza é sentida na rápida e simples passagem pela cor castanha dos curtos fios, na voz sussurrante recheada de encantamentos. São cantadas várias músicas aos meus ouvidos conservados. Ao criar-me, Deus desejou uma passagem temporal lenta ao meu corpo, no momento em que coseu a alma a estes pulmões, a este coração, aos lábios carnudos. Passa os dedos pálidos pelos meus cabelos para pressentir a pureza da minha alma, exposta a todos os elementos cancerígenos dos outros seres humanos. Ao criar-me pensou na minha existência como uma paixão, não como uma experiência. Todas as tentativas associadas às experiências de laboratório trazem mecânica, frivolidade, passagem rápidas. Esperava-me uma mão pálida e serena a massajar-me os cabelos, ao contrário de uma mão áspera, com dedos fortes e uma violência extrema em todos os tecidos celulares. Os meus olhos não recebiam a luz do Sol, encontrava-me deitado à beira mar com as ondas a enrolar à minha volta. 

À medida que Ele passava as mãos pelos meus cabelos, as ondas protestavam para tocarem nos meus pés, o elemento mais destruído pela vida urbana, pelos sapatos apertados, pelo lixo depositado em todas as esquinas onde dezenas de jovens eram violados. Apelavam, rezavam ao enrolarem para sentir a minha destruição. Os meus lábios recebiam o ar de Deus, a olhar-me serenamente. Soltava lágrimas pelos caminhos traçados, pela ausência de inocência na minha essência e com a outra mão tocou no vazio do meu peito. Mexeu nas cavidades, a temperatura baixa da caixa torácica gelou-lhe os dedos fantasmagóricos. Chorava por uma morte corporal da sua criação, do seu amante. Deus sentia a minha vivacidade depositada nos lábios e desejava colocar-me no mar, uma dualidade que o matava espiritualmente.

Ao tocar-lhe nos cabelos viu o passado, sentiu e bebeu todas as experiências da vida humana. O sabor de vários cigarros, as roupas assentadas no peito trabalhado por todas as máquinas de origem humana, as calças nas pernas, as pulseiras a apertarem-lhe o pulso. O bater do coração parou-lhe a respiração, à medida que entrava nas minhas experiências humanas e engasgou-se com estas novas sensações. Meteu as mãos à garganta para não sentir a morte por asfixia. Em todos os minutos em que bebeu do liquido da minha alma, as ondas conservavam energia para me levar, por me amarem e para me guardarem na imensidão das águas do mar. Cantavam odes, glorificavam uma divindade que desprezavam todos os dias. Enrolavam-se para destruir uma possessão divina, uma paixão imortal. Ele continuava a enrolar-me os fios de cabelo com os dedos. Na minha morte corporal senti a confiança a esvoaçar pelas minhas cordas vocais, com o silêncio a penetrar na escuridão daquela noite.

A todas as experimentações saboreadas por este deus do Olimpo respondia com silêncio, por indignação, para partir e amar novamente Hades. Na minha imortalidade, beijaria a divindade servente às Terras inferiores, rasgaria as roupas do guardião de todos os mortes na sede de desejo. Sonhava com o imperdoável. Quando Deus me enrolava os fios de cabelo castanho, escondia os meus desejos profundos. As ondas imploravam e continuavam a rezar para me levarem. A leveza das mãos passou para o meu peito, ao empurrar-me para o mar. O sal das águas conservou-me rapidamente e enrolou-me no fundo do oceano.

Libertei um sorriso ao permanecer deitado em todas as rochas, ao sentir-me livre. As ondas lavaram os meus pés, ofereceram-me juventude eterna. Toquei nos lábios de um deus morto, apedrejado por todos os seres humanos, capaz de descer aos confins do Mundo. Enrolei as minhas mãos sobre o seu pescoço para o olhar atentamente, ao sentir que me levava das profundezas do mar. As ondas lavaram-me os pés brancos e senti o início da vida com a morte corporal.

21 maio, 2012

A Intimidade


É difícil conjugar estética com os desejos mais ambiciosos nos lugares mais escondidos e com mentalidades em linhas retas. É difícil acordar com um cabelo alinhado, sem mostrar sinais da desarrumação passada. Diria mesmo que é fodido amar sem limites, confiar, oferecer um pouco de intimidade a um outro ser humano. Quando muitos se preocupam com o que vestir às oito da manhã, existem outros que choram com o sabor de traição nos lábios, com os dedos a derreter graças a alguns papéis. Tomo o café sem saber o que está à minha espera, encantado para os meus olhos castanhos – sempre senti essa ausência como a alavanca para a descoberta, o anseio para acordar todas as manhã – e continuo a barrar o pão torrado com doce de morango, à espera que um corvo traga as notícias logo pela manhã, mesmo a associar este animal selvagem a um mensageiro da noite. Bebe-se um gole de café acompanhado, ao som de uma segunda voz a soltar pela boca uma série de sonhos ou com o som de um telefone. É uma segunda presença que se manifesta fisicamente ou tecnologicamente, não há margem para dúvidas que se oferece um pouco de intimidade em todos os momentos. Apesar de não existir carne à minha frente para tocar, aparecem palavras escritas por mensagens de um ser a 300 quilómetros de distância. Dar intimidade requer companhia, dizem as minhas células. Ser humano que ocupa o trono a partir do momento em que se gastam minutos de atenção com ele.

Oferecer intimidade é dar a uma segunda personagem o papel de protagonista, equivalente a um nobre ou mesmo a um rei por se oferecer as entranhas, os segredos, os acidentes domésticos – um pouco de café na roupa, as mãos recheadas de água que são limpas às calças, a queda quase eminente contra o chão devido aos sapatos escorregadios – equivale a uma coroação através da admiração profunda, os sentimentos florescem à velocidade da luz. Ou diria, a uma velocidade lenta? O botão de uma rosa demora algum tempo a abrir. Esses minutos, essas horas, esses segundos pulsam-me na pele, no espaço em que dois seres humanos criam uma bolha de intimidade. É difícil quando essa bolha sofre cortes, o oxigénio entra e invade o ambiente, os meus olhos castanhos entram em contato com um novo ar, morrem com a luz do Sol. É complicado superar o desalinho dos fios de cabelo e tentar perdoar algo que corroeu essa intimidade.


Sobe-me um pouco à garganta o ácido do estômago de cada vez que recordo as palavras recheadas de veneno. O veneno da cobra que encantou Eva no Paraíso. Está na Bíblia, quase todos conhecem. Refiro este livro, o mais conhecido de todos, não para banalizar mas para saber que me afeta. Tudo o que me toca, tudo o que me faz pensar é referido. Assim como escrevo sobre a minha mãe, o meu pai, a minha família, o amor da minha vida, escrevo sobre a Bíblia. Quando quebro a intimidade com alguém sinto vontade de rezar, de me ajoelhar no chão nestes estranhos desejos que tantas vezes passam pela minha cabeça. De sussurrar a Deus, de senti-Lo nos meus braços até não conseguir respirar, de chorar e afundar-me com Ele. Coloco-o em maiúsculas para não sofrer represálias, como é evidente. E quero sussurrar no momento em que engulo intimidade, de todas as esquinas e recantos.

Acordo todos os dias a pensar quais vão ser os sapatos que vou usar nesse dia. Muito depois do Sol nascer não sei como estão os meus olhos castanhos. E choro porque te perdi e há algum tempo que não conseguia soltar as palavras. A nossa bolha de intimidade perdeu-se no horizonte e, pela primeira vez, o oxigénio atormentou as minhas cordas vocais. Escrevo tão atentamente e desafortunadamente porque há alguns dias atrás não sabia o que escrever, não encontrava as frases ideais, identificação era algo que não fazia parte do dicionário sempre que olhava para os meus rascunhos. Agora vejo, doem-me os ossos das mãos por sentir o significado da intimidade. Equivale a falar, a estar acompanhado, a mostrar os meus cabelos desgrenhados, os restos de tintas que ficaram em alguns fios. Sem medo de represálias, sem juramentos, sem análises. Nunca existe uma avaliação de uma das partes quando a intimidade perfuma o ambiente. É fodido amar sem limites. Mas chega a uma altura da vida em que é necessário assinalar as fronteiras.


Escrevo isto para ti, minha amiga. São estas as palavras que te quero oferecer. Sem uma cor, apenas com um cinzento e uma declaração de amor. Tomo o café e o telefone não toca, prefiro a companhia da minha mãe, mesmo que seja em sonhos já que a sua hora de entrada no emprego é às seis e meia da manhã e nunca acordo de madrugada.

16 abril, 2012

Tentei colocar um ponto final (...)

Abri a caixa com o coração ensanguentado e todas as veias à mostra, inflamadas por não estarem guardadas dentro de uma humidade humana, dentro de um conforto cru dos ossos. Senti a vontade de abrir essa caixão por não ter um sentido nesta manhã, passava das onze horas para ser mais preciso. A essa hora tive uma crise filosófica, das crises em que sou capaz de conversar com as minhas roupas, elaborar um diálogo sobre a vida, a morte, a existência. Decidi retirar a caixa que se encontrava debaixo da minha cama para encontrar um pouco de luz, apenas mais uma das tentativas que me percorrem as veias em todas as horas para encontrar um sentido, um caminho revestido a ouro. Cheirava a morte no momento em que abri a caixa negra, revestida com pequenas linhas feitas a ouro. O cheiro a morte penetrou no ar e uma vontade para dançar apoderou-se das minhas pernas magras e escanzeladas. Escrevo agora por saber qual o rumo que devo tomar daqui para a frente, nas horas seguintes. Despejo várias palavras por pressentir um fantasma nas minhas costas e por ter toda a certeza que se trata de uma personagem a encenar no meu corpo. Estes dias devoram confusão e solidão. As palavras consomem desejos sexuais, os que são libertados numa pista de dança.

Tentei colocar um ponto final mas saiu-me unicamente uma parágrafo por pressentir que tenho mais alguma coisa para contar. Quando a abri a caixa com o coração recheado de sangue dentro dela, suguei a minha própria alma para o vazio. Esse espaço sem definição e sem nome. No momento em que a destranquei, os meus cabelos castanhos adquiriram um tom avermelhado e palidez tomou conta dos pigmentos da minha pele. As filosofias tornaram-se acessórios de roupa e o sangue adquiriu um sabor doce, no momento em que passei a língua sobre as minhas mãos sujas. A juventude desvaneceu-se nesse instante e a uma obra de arte foi pintada dentro do meu coração. Na necessidade de pressentir umas mãos fortes, retirei o coração sem vida dentro da caixa. Pertencia a uma espécie de bruxa, com várias maldições na carteira e algumas visões de infelicidade no fundo da mala. Essa feiticeira pertencia a um círculo de magia negra, capaz de tomar conta do planeta se assim o decidissem. Esse coração proporcionava juventude eterna a quem o trincasse, ouvia as preces e histórias dos mais antigos na minha cabeça. Tentei colocar um ponto final mas fiquei com a eternidade à frente, a partir do momento em que os meus dentes trincaram o pedaço de carne. Desfiz as minhas intenções a curto prazo. Espera-me uma eternidade recheada de juventude até a máquina estiver desfeita.

Abri a caixa com o coração ensanguentado e nem fazia ideia de que encontraria um sentido para a vida tão carregado de pureza. A humanidade no meu corpo encontra-se glorificada, a minha alma morreu para a divindade. E os meus lábios necessitam de um beijo profundo.

05 abril, 2012

Pausas de inspiração,


 Talvez me suicide. Talvez necessite de um pouco de descanso. Talvez pinte os cabelos com tons azuis, a fugir para o turquesa. Talvez seja o dia da minha morte. Talvez esteja a chover amanhã. Recheado de uma palavra que coloca as minhas pernas para o ar. Os planos morreram. E esta imagem fascinou-me.

E tive o luxo de criar uma página no Facebook. No fundo talvez não saiba o que vou colocar lá. Tenho necessidade de partilhar pequenas coisas com as pessoas, tão pequenas que não se justifica escrever infinitamente sobre isso. Uma imagem basta, qualquer hiperligação. Conceitos que gostava de explorar ficam pela página na rede social.

03 abril, 2012

Questões num domingo à tarde, com chá a acompanhar,


Falam de confiança em tardes de domingo com um chá a acompanhar, colocam-se as questões sobre amores de vidas anteriores e as várias dúvidas de quem começou ainda agora a vida e parece que a vê desaparecer daqui a alguns anos pelos dedos. Chora-se na mesa azul de casa, sentados à volta do sofá com o computador a passar qualquer uma das séries televisivas mais comentadas do momento ou um simples blogue, a escorrer arte por todos os cantos, a ser o fundo do ambiente de trabalho. Tecnologias que não ultrapassam o valor dos sentimentos enquanto as canecas sobem aos lábios, o chá de menta entra pela garganta em alguns minutos e as vozes elevam-se para dar opiniões, para discutir determinados assuntos que as quadro paredes conservam. Existe alguém que necessita de se sentar ao piano no meio da conversa, carrega um dramatismo dentro do coração, uma saudade por aquele a quem vai sempre chamar de amor, de predileção, de paixão. É a única maneira de expulsar demónio, de esquecer as saudades que assaltam o coração e perturbam a mente na partilha à mesa azul, naquele domingo à tarde. Deviam ser umas 15 horas quando se reuniram.


Enquanto as colheres mexiam o conteúdo adocicado, alguém mexia nos cabelos e comentava-se a confiança colocada em jogo, naquele momento à medida que se partilhava as experiências. Pequenos contactos com quedas ao fundo do poço, com desgostos amorosos que partiram o coração, com sorrisos que inundaram as almas nos momentos em que a luz se tinha desvanecido. A confiança nas palavras que eram libertadas, misturadas com o líquido demasiadamente quente por um microondas ao fundo da cozinha.  Todas as relações são baseadas nesse pormenor que move todos os poderes à face da Terra. Onde conservam os grandes amantes a força para continuarem a lutar pela presença um do outro, pelos beijos que trocam, pelas fugas que planeiam para esquecer o Mundo durante algumas horas? Como existe a troca de informações entre parceiros se um deles não acreditar nas palavras do outro. Para onde vai o conceito de parceiro e parceira se a confiança não correr nas veias, onde colocam os pés para dançar na sala que construíram juntos no sábado de manhã? Movem-se montanhas, duram épocas para se conquistar a confiança. Demoram segundos para se perder no meio do vazio. É levado pelo vento ao mínimo deslize, mesmo sendo carregado de inocência. Um beijo alheio rouba uma conquista proclamada aos grandes deuses. Uma mão colocada no sítio errado do corpo leva à proteção do rosto. À medida que as colheres colocavam o chá de menta no ponto ideal, estas pequenas ideias povoam aquelas cabeças. As lágrimas alimentavam o conteúdo que iria percorrer os corpos humanos de vários seres poderosos. O sal das lágrimas continha experiências, jovens na candura, idosos no contar das gerações e épocas pelo qual passaram. Ouve alguém que deu a ideia do som do piano parar por uns momentos. A confiança e liberdade para se pronunciarem tais desejos estavam fortificados por uma ausência. A primeira vez em que se confiava num sentido negativo, na ausência de perda por dizer a alto e bom som o desejo. Parem o piano, pedia uma das jovens à mesa dentro das quatro paredes brancas. E o silêncio percorreu todas as espinhas.

Um simples acto, diriam alguns que se trata de um ato, que acarreta anos de processamento. De treino. Ou de simples naturalidade, despertar de algo dentro do coração. A partir das 17, ninguém passou a olhar para os olhos castanhos ou azuis alheios da mesma forma. Existiu preenchimento de uma forma fabulosa.