12 junho, 2013

Celebração do corpo


Nunca olho para o meu corpo. Os meus olhos castanhos olham “em diagonal” para os meus braços finos, para as unhas e dedos mais do que roídos, para as minhas calças skinny (em que cabe, por vezes, outras pernas da grossura das minhas) e para os meus pés demasiadamente pequenos para o género masculino – uma outra travessura colocada na minha cabeça e na de todos os portugueses, os valores e princípios colocados para o sexo masculino e feminino: exige-se a um corpo determinada forma e contorno para estar nos padrões da beleza. São esses padrões, valores, princípios que constroem uma visão. Complicam a tarefa que dou aos meus olhos castanhos em esvaziarem-se de qualquer preconceito e receio. É tão complicado livrarmo-nos desses estereótipos, fortes quando a diferença ganha poder no meu quotidiano, com regras de conduta podres e cinzentas para o meu estado de espírito. Tal como existem padrões para os outros, já que o outro está sempre presente para quem odeia ver-se como um individual, existe um formado e alimentado na minha mente. Desenho tantos universos alternativos e não consigo livrar-me das regras básicas deste mundo, ou uma mulher tem de obrigatoriamente casar-se com um senhor para ter filhos ou uma menina não se apaixona naturalmente por outra menina. Talvez seja um pecado olhar para as histórias dessa forma, os efeitos do que me foi incutido desde pequeno acaba sempre por ter um efeito secundário por mais mínimo que seja. 

A minha mãe olha para mim e diz que não perdia nada se tivesse mais uns quilos, se as minhas costas fossem mais largas, se tivesse mais cintura, se os meus pés não fossem tão magros quando calço um sapato e acaba por ficar-me extremamente largo. Mas, minha querida mãe e todas as outras mães no universo, porque é que olhas para mim e não afirmas em primeiro lugar as minhas qualidades? Consigo chegar onde não consegues, quando tentas colocar-te numa escada para agarres algum objeto lá em casa, o meu cabelo é forte e não anda sempre pelo chão tal como o teu. Existe uma proteção por detrás de todas as declarações dos defeitos que vais libertando dos teus lábios, não seria um regozijo para ti se um ser humano não apontasse qualquer defeito no meu corpo? Os humanos constroem a sua humanidade, fogem da divindade ao apontar defeitos em qualquer espécime idêntico. Funciona desta forma e nem nos próximos cinquenta anos vai mudar, quando meu corpo estiver fraco, envelhecido e os meus cabelos cinzentos começarem a cair. Não aprecio olhar para o meu corpo quando o tenho de fazer e celebrar. A masturbação é um pecado, bem sabemos, mas para quê atingir o prazer individual se nem se quer olhamos para os nossos corpos em condições? Há uns tempos, uma rapariga disse-me que nunca tinha atingido o prazer sozinha. Mas então, minha querida, como é que o vais conduzir até aos recantos do teu corpo, recheado de surpresas inimagináveis? Talvez ainda te vá ouvir na minha casa a abrir a boca para soltares gemidos profundos, quando há incentivos não há problema em liberta o desejo carnal. Não troco beijos com desconhecidos por motivo nenhum, é um teste. Até que ponto vai o desejo presente no coração, nas hormonas, nos pulmões e na língua, imagino na minha cabeça. Andam todos tão recheados de desejo que escondem os livros eróticos em capas, com esse propósito, para não serem recriminados.

Sexo, sexo, sexo. Deus deu-nos isso. Qual é a divindade que oferece instrumentos só com o objetivo de recriminar e colocar nas portas do Inferno? Tenho paz em todas as igrejas a que vou, não são assim tantas ao longo de um ano, conforto quando me sento num dos bancos e um pouco de frio por não deixarem entrar os raios de Sol. Nesses momentos também não olho para o meu peito, coloco a mão e sinto um poder extremo a querer fugir. Talvez seja isso que falta um pouco a todos, sentir o poder dentro do nosso corpo. A mim nunca me faltou coragem para tal ato, só não gosto dos olhares alheios e críticos à minha volta. Posso não olhar para o meu corpo mas dou-lhe tanto amor.

07 junho, 2013

Morrer em ti


Devia ter-me afogado em ti. Não consigo desenhar a tua carne e os teus olhos, só tenho as tuas palavras para viajarem na minha mente. Devia ter ficado sem respirar durante mais de uma hora para a minha alma estar longe do meu corpo por alguns momentos. Sinto uma saudade ardente do teu queixo ao pé do meu, da tua respiração a perturbar os meus fios de cabelo castanhos e dos meus lábios a saborearem os teus recantos, como se alguma vez isso tivesse acontecido e não me julgassem um louco. É tudo uma epifania dos meus pensamentos mais escondidos, da minha vontade em tocar no teu rosto à medida que vamos fugindo mais e mais um do outro. Passam-se quilómetros, horas e não consigo tocar na temperatura gelada das águas do mar. Nesta violência de emoções há um último desejo que não concretizei: dar-te a mão direita e sentir a tua pele por uma última vez, como se fosse possível pensar em última vez. A minha mente, meu anjo, continua a pregar-me partidas e continuo a dançar para libertar os meus demónios. Seres maléficos e puros de vontade personificada em gritos, discussões, vontades e amor escondido

Devia ter deixado o meu corpo afogar-se em ti para ser a última vez. Anseio por renascer em ti quando olhar para os teus olhos castanhos e misturar as minhas lágrimas com o tecido da tua alma.

És imortal, já escrevi tanto para ti, só para ti e continuas sem saber ou ler.

06 junho, 2013

O vinho branco, tomado à janela do meu quarto


Há curiosidades que nascem nos meus pensamentos e não me conseguem largar. Acabam por tornar-se pequenos pesados, o meu subconsciente faz questão de trabalhar todas as noites para me assustar mais um pouco, e não escapam até os exteriorizar. Se mexer os meus lábios com esses pensamentos a mergulharem nos meus neurónios sou capaz de jurar que digo serenamente obsessão, escuridão. Duas palavras terminadas em ão que dançam comigo todas as noites, a olharem para o meu corpo adormecido na cama. Não há qualquer tipo de música tranquilizadora para os meus ouvidos e para a minha alma, alguma palavra que transpareça exatamente a minha intenção. Nem os meus olhos castanhos ganham um pouco mais de vivacidade quando estou a sorrir para esses pesadelos, para as curiosidades aprisionadas na minha cabeça. A minha voz teima em ganhar vida quando o silêncio e a escuridão se apoderam do meu quarto, chego mesmo a jurar que não há nenhuma presença nesse curto espaço e efetivamente não há, tenho as minhas paranoias a incendiarem-me a mente.

Tenho-te a ti nos meus pensamentos, à meia-noite que todos os relógios marcam no meu país e apercebo-me de que algumas senhoras, à procura de uma encarnação magnífica de Deus poderoso, já deixaram os sapatos em qualquer escada para ser encontrado. Quando o coração de um ser humano teima em bater violentamente, em remexer nos órgãos do corpo, o cérebro não para de desenhar o rosto de uma outra pessoa. Essas damas premeditam os passos, descalçam-se para o feitiço de um final feliz continuar. Houve um idiota qualquer que decidiu contar uma história e propagou-se, que nem a Bíblia, em que só as tolas acreditam e, a partir desse momento, só há espaço no corpo para a outra pessoa, o outro ser humano, o outro ser humano. O outro, o outro, o outro que se propaga como um vírus. Nem há oportunidade para o egoísmo asfixiar um pouco o sorriso da nossa personificação de amor, neste caso da minha personificação do que é amor. Não digo que o amor, definição e palavra com conceitos tão complexos, não esteja colocado nos meus animais (de estimação), na minha roupa, nos meus objetos, nas minhas mãos e até no meu cabelo mas o que seria de mim sem ter um espécime, ser humano e com semelhanças a tantos outros seres, a quem entregar o meu amor e conforto? Teria um egoísmo tão forte e elevado caso deixasse de pensar no outro ser humano, se não me deixasse levar pela minha tentativa de encontrar a personificação de amor puro?

Sonho com as minhas mãos a mudarem um rosto, uma troca dos lábios, a minha unha a passar por essa leve carne e a abrir feridas para o sangue ser livre, os meus dedos a entrarem nuns olhos claros, cheios de brilho e azuis. Obsessão, escuridão e um pouco de frustração. Só me posso libertar destas curiosidades, das trocas que posso fazer num corpo, através dos sonhos. Os cirurgiões podem fazer estas alterações mas só com a devida autorização da alma que comanda o corpo – mas nós comandamos mesmo o nosso corpo, pergunto-me a mim mesmo. Tenho esta imagem no fundo do meu telemóvel, o corpo mente, e enquanto não a compreender não vou retirá-la. Acontece com todas as minhas imagens que tenho no telefone, somos tão geração do século XXI que nem me dou ao trabalho de desenhar essas impressões e imagens. Basta clicar num website recheado de imagens para o nosso sonho aparecer, escarrapachado para vermos. Os seres humanos são mesmo iguais, interrogo-me mais uma vez.  Existia perfeição caso tivesse liberdade de mudar um nariz, qualquer tipo de cabelo e aborrecimento a correr-me nas veias. Neste momento apetece-me levar a minha personificação para algum lugar e deixar que faça de mim o que quiser. Consome os meus olhos, os meus lábios, os meus cabelos mas deixa-me a alma para continuar a viver. Ainda há um fio de esperança para os tolos, gosto de acreditar.

Já não soltava as minhas palavras há tanto tempo. Neste momento sinto uma ferida, a minha personagem escritor gosta de sofrer um pouco, alguns minutos por dia. A minha alma continua com um sorriso genuíno e bebe um pouco de vinha branco, acompanhada. Nunca gostei de encarar a vida como uma escuridão divina e o mais curioso é o facto de alguém, que não me conhece como pessoa, pensar que estou num sofrimento desgraçado.

01 junho, 2013

Quando deixo de escrever temporariamente


Não escrevo há muito tempo e a sensação que me fere o coração, de uma forma violenta e descoordenada, é a forma como não necessito das palavras para demonstrar o meu estado de espírito. Só o silêncio já é indicador de algum sinal fora do comum, este querer circular no meio das ruas sem nada à volta. Desejo, nos meus sonhos, de estar sentado num espaço branco com luz do mesmo tom a acompanhar, sem objetos ou seres vivos, mesmo que sejam árvores, um lago, mar ou rio. Tenho, nesses sonhos, uma caneta negra ao pé de mim e a liberdade em desenhar o que me vai no coração. De me deixar levar e desenhar, riscar, desenhar, riscar, desenhar, riscar e voltar a desenhar mais uma vez nesta infinidade, em que não há buracos nem poços. Mas o que vai na cabeça de um ser humano quando só há vazio à sua volta? Silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio. Custou-me mesmo escrever tão seguidamente estas palavras mas é a verdade.


E como vi num livro do José Luís Peixoto, em duas páginas li unicamente a palavra quero morrer. Mas da forma como estou só vou pedindo a Deus, com a minha caneta preta na mão, deixa-me morrer. Deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer. E tenho de escrever mesmo estas palavras, os meus dedos já me estavam a começar a doer por estar a fazer o mesmo movimento no teclado, as mesmas teclas a serem pressionadas. Quero morrer para acordar como novo e sinto que estou nesse processo. Deixa-me morrer sem ninguém ao meu lado, faço este pedido mais especificamente para não levar nenhum corpo ao meu lado, basta os meus ossos e o meu corpo – a caraterística que um amigo meu me apontou sempre nos meus textos, que falo muito sobre ossos e sangue. Quem sabe, não é? Não escrevo há muito tempo e espero não continuar assim mas tenho a certeza de que esta paragem me vai fazer bem, todas acabam por fazer.

06 maio, 2013

(IV)


Querido amigo,    

Há demasiados pontos finais na vida de um ser humano. Pequenas rochas que são colocadas na existência de um homem ou de uma mulher, que atropelam e fazem tropeçar qualquer corpo. Os pontos finais ainda conseguem ser um sinal positivo na vida de uma alma, não é? Gostava de perceber como é que há tantas pessoas que conseguem sobreviver com reticências ou um ponto e vírgula, à espera que os acontecimentos continuem a desenrolar-se e no fim acabam por morrer no meio da estrada, sem acreditar no amor, no romance, num futuro recheado de luz. Mas continuo a dizer que existem demasiados pontos finais, comem o coração como se saboreassem uma tarte de morango (a cor vermelha e o sangue, a relembrar um molho ainda mais doce, contribuem para esta visão). Os seres humanos saboreiam e tiram-nos tantas fatias da tarde que acabamos por não ter nada mais para oferecer quando uma nova pessoa aparece na nossa vida. E não falo das pessoas como se estivessem sempre a aparecer às dezenas em dias, perdoa-me se não me compreendes. Mas escrevo para ti, meu amigo. Tu que sempre me compreendeste e vais continuar, tu que continuas a dar-me conselhos e a ligar ao invés de escrever quando te escrevo uma mensagem às duas, três ou quatro da manhã.

Ainda ontem rebolei das pedras do meu próprio corpo, quando a mente se desliga após um desgosto com algum ser humano, e nunca deixaste de colocar as mãos e o próprio corpo para amparar-me a queda. Quando uma amizade é pura, como a nossa, não é necessário estar sempre um ao pé de ti. Vivemos a 300 quilómetros um do outro e a nossa amizade mantém-se firme, como sempre esteve, honesta e simples. Começo a ficar cansado das outras amizades (aquelas que exigem sempre 200% de mim, mesmo quando tenho o coração destroçado), não aguento ouvir certas vozes em alguns dias da minha vida. Acho inaceitável quando as pessoas gostam de colocar demasiadas vírgulas numa amizade, para atrapalhar sempre a segunda pessoa, a suposta que amam ou idolatram. É essa elevação e exagero dos sentimentos que corroem o coração. Tenho o orgulho de dizer que não somos assim. Gosto de te falar sobre os pontos finais que colocam à minha frente, os outros que vejo fora da minha existência - nem que seja para comentar que não vamos fazer o mesmo de forma a não cair no erro – e nos finais que acontecem às pessoas que amo. Esses são os mais dolorosos, os que torcem o meu coração vermelho e fraco graças à má alimentação que faço de vez em quando.
Reza por mim, vai pensando em mim tal como vou fazer. A nossa amizade é realmente pura.

Com amizade.

22 abril, 2013

Pausa para os assuntos triviais



Ultimamente sinto que estou sempre a mil. Em qualquer questão da minha vida, quer seja com os meus amigos, com os meus pais, com o meu trabalho do mestrado (agora que me lembro soa sempre a duas mil e quinhentas tarefas para fazer e estão em cima da minha secretária) ou mesmo com os meus pequenos projetos. Uma crítica escrita ali, uma notícia escrita acolá, o visionamento de um filme ou espetáculo a meio do mês e tralhas de livros para serem lidos. Faz-me desejar algumas coisas: gostava que o meu dia tivesse 48 horas sem necessitar de dormir e não fosse necessário levantar-me para fazer comida, é o mal das pessoas com gosto em comer, em preparar uma ótima refeição elaborada para simplesmente se sentarem e sentirem todos os prazeres. No meio da velocidade mil com que encaro todas as minhas tarefas (o que não é necessariamente presságio de bom sinal) tenho sempre uma que aprecio fazer lentamente: ler um bom romance e avaliar todas as personagens e acontecimentos.

Ainda hoje estava na aula de Literacias para os Novos Media e falávamos sobre educação informal, acho que foi assim. Em que podemos ler alguma coisa e não tínhamos planeado aprender algo, não me recordo exatamente se foi assim porque como sei, a minha cabeça estava a mil, bem longe da sala de aula. Tendo em conta a matéria da aula, para desabafar estupidamente, aprendo sempre alguma coisa com os romances lights que leio. Nem que seja a fórmula que o escritor ou escritora usou: um drama no início, o pobre casal que nunca se encontra e no fim acaba tudo bem, normalmente com a descoberta de um grande segredo. E todos se perdoam no final. Gosto de pensar no quão longe me levam estes livros e não recomendo a ninguém. Tenho gosto de parar as leituras técnicas, com os livros que levo da biblioteca da minha faculdade, para começar a ler um todo lamechas. O Comer, Orar, Amar foi um desses exemplos. Desta vez, apeteceu-me ler uma viagem já que não tenho assim tanto dinheiro para sair fora do nosso país-ervilha (Portugal é mesmo pequeno) para andar um pouco pela Índia, Itália (ah, bela Roma!) e também pela Indonésia. Desta última paragem ficou-me o desejo tremendo de ir a Bali, apreciar as praias com uma boa companhia. E não é que me surpreendeu? Uma espécie de diário – e não sou nada fã – que acabou por dar algum prazer.

É como digo, posso andar com a cabeça a mil mas pelos menos uns quinze minutos das minhas vinte e quatro horas disponíveis acabam por estar reservados para a minha leitura com prazer. Estou em descanso apesar do trabalho que me aguarda, vamos lá ver como corre daqui para a frente.

17 abril, 2013

Ausência (II)



Gostava de aperceber-me das minhas ausências. Para com a escrita, para com as pessoas, com as viagens, com os lugares ou até mesmo com os objetos já que existem horas em que todo circulo embate no meu corpo mas deixem-me explicar. Imaginem um pequeno ponto dentro de um círculo, com uma seta a rodar sempre na mesma direção, em voltas infinitas. Mais uma volta, o ponto negro no meio do nada em que necessita de tocar em novas almas, tecidos completamente reluzentes deixados num qualquer lugar abandonado, cheiros de cabelos castanhos, ruivos ou louros para ativar as sensações. Uma segunda volta e mais uma e uma outra, num constante movimento à medida que o ponto continua parado no meio. Tinha gosto em aperceber-me das pequenas ausências, na minha condição de ponto final no meio da folha branca e encurralado pela linha circular com uma seta no início (ou será no fim, pergunto aos botões das camisas que costumo vestir quando acabo de tomar um duche). Ao observar as voltas da única linha, transportadora de todas as experiências a passar ao meu lado, não tenho olhos castanhos e perfeitos. Sinto-os unicamente brancos e coloco as minhas mãos para sentir a minha própria, carregadas de experiências e sensações individuais. O individualismo, tão presente em todos os seres humanos.

Passam-se semanas e vou absorvendo todo o vento que as voltas da seta me transmitem, unicamente uma sensação gelada ou quente, depende sempre do tempo que se faz sentir na rua. (Dou as minhas vénias pelo aparecimento do Sol e do bom tempo, a relembrar a primavera do ano passado). Gostava mesmo de me aperceber das minhas ausências para não fazer tão mal aos meus pulmões ou às minhas cordas vocais fortes, prontas para gritar. Estou à espera do sinal, de qualquer coisa com origem nas pessoas, nas viagens, nos lugares ou objetos que tenho guardado em casa. A queda de um livro nos meus pés ou na minha cabeça. Mas talvez não precise de um comportamento tão banal, as minhas cordas vocais a qualquer momento vão explodir em segundos e começo a dançar para as paredes do meu quarto observarem e colocarem um sorriso. A linha, com uma seta no início, vai virar-se na minha direção e perfurar o meu corpo. Agora limito-me a absorver e a descansar nos meus lençóis brancos, com algumas lágrimas e gargalhadas pelo meio. Apercebo-me, ao despejar um pouco da ausência e gelo, mesmo nestes dias primaveris.


Deixa-te de merdas, por favor - digo para mim mesmo.

29 março, 2013

Ausência


Faltam-me palavras para descrever este vazio. Falta sempre alguma coisa, um alimento essencial para as proteínas equilibrarem a saúde de um corpo ou um batom vermelho a qualquer rapariga de forma a melhorar o estado dos lábios.

Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.

Com espaçamentos bem sentidos nas minhas pulsações. De repente é como se todos os acontecimentos estivessem parados, a minha cabeça é um globo parado no meio de todas as horas. Costumam dizer-me para escolher quais as melhores horas em todos os meus dias e não consigo, neste momento, escolher qualquer uma. Cheiram a fumo. Graças à paragem e à ausência de palavras, que têm como destino a descrição desta falta de alguma coisa no meu peito, tenho uma vontade extraordinária de beber uma ou duas garrafas de vinho branco. Nasce em mim um desejo extremo, com uma intensidade igual à ânsia por álcool, de vomitar frases sem sentido nenhum e começar a chorar. Por não estar há demasiados dias na minha casa na capital, por não ter maioria dos seres humanos que conseguiram retirar alguma parcela de amor da minha alma. Passam-se seis, sete, oito dias e não aguento mais estas quatro paredes. Falta-me sempre alguma coisa. A mim, a ti ou ao outro ser humano que está a caminhar na rua. É isto: falta-me alguma coisa.
Desaparece chuva, estás a dar comigo em doido. Sinto a mergulhar nos meus pensamentos, tão férteis nestes dias de descanso.

24 março, 2013

A curta carta que me esqueci de deixar ao fundo das tuas escadas


Estou curioso para tocar nos ossos que protegem o teu coração. Costumam chamar caixa torácica. É um nome demasiadamente frágil para uma fortaleza, essa que protege o nosso órgão mais poderoso e reconhecido por inúmeros artistas. Quero oferecer-te o meu.
Engana-te se pensas que te vou deixar ao fundo das escadas do teu prédio. Precisa de ser polido todos os dias, como o ia deixar para qualquer ser humano lhe colocar os olhos em cima? Vou antes deixar as minhas máscaras e um pouco das minhas mentiras à porta da tua casa, já que tens a coragem de destruir o meu lado maléfico. E as minhas poções mágicas? Essas levo-as na minha mala, assim podemos lançar gargalhadas por alguns anos.

19 março, 2013

Ao mostrar-te o meu amor por ti, senti a minha alma a ser sugada pelo teu beijo


Pediste-me para escrever-te o que ia na minha alma e para te enviar, apenas a ti por não quereres partilhar as minhas visões sobre ti com mais ninguém, os meus desenhos sobre os contornos da tua alma podem só permanecer connosco como em qualquer relação. É esse o meu pensamento, desejo só entregar-me a ti como nunca desejei com mais ninguém. É curioso escrever-te a ti, com a vontade de sublinhar por debaixo das palavras “a ti”, riscar e fazer traços para manter as palavras – é isso que as crianças fazem nas folhas brancas, desenham, despejam uma pequena quantidade do subconsciente e colocam a inocência no papel, essa caraterística esgotável com o passar do tempo. Ao colocar palavras num papel destinadas aos teus olhos, às tuas leituras, equivale a entregar-me como costumava fazer em oração, de todas as vezes em que entrava numa igreja. Não te questiones sobre este assunto, nunca trago à superfície da minha pele o assunto sobre a religião para não amargar a minha saliva, de forma a não ter veneno a correr por escassos minutos nas minhas veias. Pediste-me para escrever e faço-o agora como se fosses o meu livro em branco.

Tenho a fantasia de me beijares a ponta dos dedos, de colocares a língua na minha pele e manteres para sentir as pontas da minha alma. Tenho esta mania de pensar nas almas como um material quente, as fogueiras que faço na minha casa em Coimbra, a temperatura extremamente alta no meu quarto graças ao aquecedor elétrico ou a água a ferver que cai do meu chuveiro. Ofereces essa elevação aos meus comportamentos, nas alturas em que olho para o relógio e não consigo realizar mais nada – tenho demasiados projetos inacabados e tenho receio de este que te escrevo fazer parte da longa lista deixada em cima da mesa. Esses projetos materializam-se em objetos reais, colocados em cima da minha secretária ou no fundo do meu computador, aqueles documentos deixados em aberto nas pastas digitais. Não existem daqueles alertas auto programados, capazes de nos esbofetear para regressarmos às nossas palavra, às ideias, às imagens construídas por palavras em frente ao computador – não ultrapassam as palavras por não saber mexer nos programas informáticos ou em algo relacionado com a construção de websites, não sou um bicho da informática.


Bebemos a essência das pessoas, as entranhas de quem amamos profundamente. Banalizamos um gesto realizado sem uma intenção de troca. Ofereço-te as minhas palavras sem querer ouvir os gritos das transparências da tua alma, viajante através dos tempos e a planear trocas de corpos. Gostava de te mostrar a força com que acredito na teoria das viagens das almas e na fraqueza que a fé católica no meu peito, no fascínio que sinto ao pensar numa viagem da minha alma, essa que ultrapassa as minhas simples vivências e experiências terrenas, por todos os lugares imagináveis. É dessa matéria que se constroem os sonhos. Ultimamente sonho com tão pouco, a minha alma só materializa forças para viajar em paragens do meu coração, como aconteceu no início deste ano que está a terminar. Não me lembro dos meus sonhos recheados de brilho e luzes brancas e esse é um dos meus problemas, queria olhar para os pirilampos que invadem as imagens fabricadas pelo meu coração e pelo meu corpo. Esses bichos luminosos apareceram no meu inconsciente por ter a tua presença fixada nos meus ossos brancos e protegidos dentro dos meus ossos húmido. Tenho agora em mim a imagem de um sacerdote, preso em amor a um Deus maior e magnífico, a beber o sangue dentro de um cálice. De sacrifícios, de paixão ao ser humano mais desfeito. Vejo-me a beber o teu sangue, num ato de intimidade. Oferece-mo, bebemos todos os dias a essência dos outros. A minha seriedade, as expressões que saem da minha boca, os meus conselhos vestem a tua imagem, os teus comportamentos. As minhas mãos pressentem os teus cantos, a força da tua voz ao sorrir e gargalhar no horizonte. 

Pedes-me para escrever e a estas horas pressinto que termino o que tenho para te dizer. Há um Sol demasiado preguiçoso a dar-me ordens, para me recolher no meio do meu casulo construído por conhecimentos. Na era da informação, houve alguma pessoa a pensar na espécie de solidão provocada pelo conhecimento em demasia? Isso passa-me pelas veias, esse conhecimento da natureza humana, da sociologia da informação e penduro os conhecimentos como espanta-espíritos na minha casa. Ouço o barulho dentro do meu coração, esse isolamento no quarto de Coimbra. Sou suficientemente lúcido para saber que os meus amigos estão demasiadamente espalhados por todo o país – é esse o grande defeito da geografia. Tenho todo este calor por ti, por isso bebe-me, aconchega-te a mim e aos meus braços magros. É nestas alturas que gostava de ter um pouco mais de gordura para vestir-te e proteger-te de todo o frio que possa alcançar-te. Não quero ameaças, mesmo as provenientes da Natureza.

02 março, 2013

Rascunhos das dúvidas em relação ao futuro e à paixão (que vou sempre ter por ti)



Perco-me nas minhas fantasias e na realidade que tende a colocar-se à minha frente, para logo de seguida conseguir empurrar e assassinar nas escadas do meu prédio. Desenho centenas de fantasias na minha mente e uma força exterior ao meu corpo, à minha existência vulgar dá-me uma única realidade. Trata-se de uma doce condenação, nunca vou conseguir dispor da minha realidade. Despejo frases sem sentido para quem me lê devido à intensidade da realidade nos meus pensamentos nos últimos dias, por não conseguir aguentar mais a pressão colocada em cima do meu coração. Quando começo a estudar novamente as histórias criadas pela Disney, como a Bela Adormecida, em que adoro os cabelos louros da Bela e o terror incrustado no comportamento da Malévola, como na aventura da Alice por um mundo das maravilhadas criadas pela sua cabeça, quando esta atenção começa novamente significa que algo, bem nas profundidades da minha caixa torácica não se encontra são, livro de doenças filosóficas. Desenho centenas de fantasias e não posso desenhar nenhuma realidade.

Onde permanecem os meus pés quando quero dançar no meio da rua, sem me importar com qualquer ser humano que passe nesse instante ao pé de mim? Soluço no chão do meu quarto, em Coimbra, por não conseguir colocar os meus desejos na prática. Costumo pensar que só ao colocar um desejo em carne e ossos humanos é que consigo viver um pouco mais em paz. Nestas semanas tenho deixado o meu nervosismo comandar-me, por me perder no meio da fantasia proclamada na minha cabeça e na realidade colocada na minha casa em Lisboa. Ao dançar e sorrir na sala não tenho capacidades de suportar o esquecimento da brasileira em lavar a loiça dias seguidos, dói-me a respiração por ver tantos detalhes desalinhados quando o meu mundo devia ter um feitiço de perfeição, pronto a ser pedido por todos os outros seres humanos. Sonho tantas vezes em arrumar o armário alheio, desejo arejar todas as roupas que não me pertencem e necessitam de uma arrumação. Mas pergunto-me se não será um defeito extremo esta urgência em tornar tudo branco e brilhante. Como se estas duas caraterísticas pertencessem à noção de perfeição contida no imaginário dos génios, dos filósofos, nunca no cérebro dos cientistas ou matemáticos. O amor existe? A vontade de permanecer eternamente ao lado de uma alma, já que os corpos são consumidos ao fim de algum tempo, existe?

No meio daquelas fantasias são estas as perguntas, rabiscadas mais acima e anteriormente, as capazes de me fazer tropeçar no meio do quarto, o meu lugar sagrado. Perguntei-te a ti, há alguns dias se éramos capazes de ter uma relação como no início. Mas quem é que gosta de ser enganado? Diria num primeiro momento, os meus pulmões. Fumar apenas de vez em quando não os torna mais saudáveis, nem aumenta o meu prazo de validade. Depois o coração, por querer romance na hora em que me encontro numa transição. De paixão ao amor, do fogo para as águas calmas do rio. Ensina-me como suportar a metamorfose nos momentos em que os meus pés querem dançar no meio da rua. Sou incapaz de conjugar a minha fantasia com a nossa realidade, especialmente em fases novas.  Nós existimos, meu amor? A solidão encontra-se quente, dúvida da sua existência quando começo a pensar no presente. Deixei de colocar o futuro a longo prazo nos meus pensamentos por ser simplesmente humano, sem capacidades de adivinhação. Resto eu, restas tu, restam os meus e os teus amigos, a nossa família também colocada na equação. Quero respirar ofegantemente por não conseguir acalmar, faz-me isso. Ensina-me, dou-te a conhecer tantas possibilidades e gestos todos os dias. Moro todos os dias comigo, estou condenado.

19 fevereiro, 2013

A rapariga de olhos claros



Existe alguma coisa nos teus olhos claros, uma pequena luz que sinto nas profundezas das tuas frases ao elaborares um discurso nas nossas conversas corriqueiras. Fluem nas águas do nosso rio, sem qualquer objetos alheios atirados pelas caudas de serpentes. Essas, nascidas no meio dos bancos da escola e em casas alimentadas por ganância, ambição e uma pitada de inveja. Gostamos particularmente de dar nome às coisas, aos sentimentos quando deviam ser indefinidos para explorarmos essas sensações um pouco melhor, menina dos olhos claros. Como te escrevi no caderno ainda ontem, as palavras não só nossas como ouvi o outro professor a discursar e a comentar com os aspirantes a comunicadores num futuro bem próximo dos nossos pés. Apreciava particularmente encontrar uma explicação plausível para o brilho branco no meio dos teus olhos num cenário recheado de morcegos e pesadelos desenhados a lápis de carvão num quadro negro. Desejosos de proclamar grandes aventuras de amor, de profissionalismo ou até mesmo as grandes odes quando gesticulam de uma forma demasiadamente lenta, sem a preocupação da naturalidade nas veias.

Proclama um pouco, ao meu lado, as nossas gargalhadas para os outros seres da nossa espécie reconhecerem a felicidade. Anotada, investigada, explicada para todos aqueles que não entendem a matéria dos sentimentos, da pureza. Talvez seja essa a palavra, pureza. Soletro no meio da minha sala, onde a solidão permanece deitada no meio do meu tapete, deixo enrolar-se entre os meus dedos e toco na mesa azul com a imaginação de um piano perfeito na minha cabeça. Falta-me tocar um pouco de música ao lado desses teus olhos claros, gémeos de um outro ser humano pouco semelhante a ti. Uma pessoa tem um pedaço de perfeição, gosto de repetir isto para mim mesmo nas minhas divagações. Se juntar todos os pedaços de perfeição das pessoas posso misturá-las, apertá-las e misturá-las como vários alimentos de uma receita. Posso misturar os pulmões, a traqueia, os cabelos louros, os lábios grossos, os rins numa tijela de cor viva para cozinhar a perfeição? Se Deus me deixasse fazer isso, ao criar o Adão e a Eva. Houve tantas coisas qu’Ele não fez e devia ter feito, como tantas personagens que circularam na história da humanidade. Talvez tenhas dois pedaços de perfeição, rapariga. Os teus olhos claros e a tua alma.

Continuo a pensar que as nossas almas viajaram juntas e só tinham de se encontrar neste preciso momento, ao lado de tantos corpos, esqueletos destruídos. Viver todos os dias não me cansa, ao contrário do que escreveu o Pedro Paixão. Viver todos os dias chega antes a aborrecer-me. Mas são os teus olhos claros que dão um pouco de luz aos meus castanhos, de um tom tão escuro assim como os meus cabelos.

16 fevereiro, 2013

A lagarta que vai viver sempre dentro de mim quando continuo a provar a mim mesmo o quão bonito é o meu rosto e o meu coração,



Para mim, não passas, por enquanto, de um rapazinho em tudo igual a cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. Para ti, não passo de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas, se me cativares, precisaremos um do outro. Serás para mim único no mundo. Serei única no mundo para ti.

- Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Prince

Existe uma transição que sempre me assustou os ossos e os recantos da minha alma por nunca ter conseguido ultrapassar: a metamorfose da paixão em amor. Se é que me aconteceu alguma vez um sentimento idêntico. As tulipas da minha casa acabaram por morrer de todas as vezes em que a metamorfose estava pronta para ser realizada. As pequenas lagartas explodiram dentro dos casulos, as pequenas substâncias de paixão não conseguiram voar acompanhadas e batizadas como amor. Desta vez, sussurras-me aos ouvidos a diferença. Pretende ser diferente, disse-me o meu Deus, aquele em que acredito nas manhãs mais conturbadas e nos dias de Sol poderosos. A transição encontra-se nos estados finais, neste momento. São precisos dois seres humanos para esta transição. Não te demores, o pequeno-almoço está preparado para ti. Vamos fazer amor, um ciclo vicioso de desejo e dedicação. Cheiro os pedaços da tua pele desde a tua testa até aos pés e sinto-me à vontade para beijar qualquer um dos teus dedos. As lagartas vão voar dentro de algum momento.

08 fevereiro, 2013

A mentira que escorre pela boca do ser humano


- Estou bem – menti.

Consegues enumerar, leitor ou leitora, a utilização da mentira escrita acima? Posso murmurar para ti, uma vez que nasce em mim a teoria de que quando falamos baixinho não são muitas as pessoas que nos conseguem ouvir, as milhares de vezes em que utilizei as palavras acima. Seguida do verbo mentir na minha frase ou nas minhas descrições. Existiram meses em que chegava a casa, no início do ano passado – já o meu tempo fora de Coimbra acontecia como atualmente – e esta mentira inflamava as minhas cordas vocais. Quer falasse com a minha mãe, o meu pai, uma das minhas primas, tios, tias ou avós, entornava a mentira delicadamente para não sentir a passagem do líquido venenoso por os todos os meus órgãos. Os primeiros a serem afetados foram os pulmões, agarrados igualmente a um vício maléfico de fumos, de nicotina, de pequenos cigarros enrolados. Objetos criados pelo ser humanos e para esquecer plenamente a dor profunda da alma. No meio do fumo libertado da minha boca conseguia camuflar as minhas lágrimas. Estou bem, dizia a todos aqueles que se juntavam a mim durante um jantar para fumarem. Estou bem, disse à minha mãe demasiadas vezes, em todas as horas pressentia os meus berros. Os gritos nasciam, multiplicavam-se violentamente à medida que as horas passavam. Nunca deixei a minha mãe colocar os braços e as mãos no meu corpo, os abraços nunca chegaram e tornaram-se em desejos. Quando o veneno verteu pelos meus olhos castanhos, as mãos envelhecidas da minha progenitora jovem agarraram em mim. Nem tudo está bem.

Deixo-me prender no passado algumas vezes, nem que seja para escrever um pouco. Tento pensar na aura de sorte e prazer colocada sobre a minha cabeça, nos meus cabelos escuros, tendem a dizer-me isso muitas vezes e escuto atentamente para pressentir a minha condição. Tenho tudo o que desejei, exceto um emprego como muitos jovens neste país pobre e corrupto. Provavelmente, também vou voar daqui a uns anos, meses, horas, ninguém sabe os rodopios que a existência guarda no cofre da humanidade. A aura de sorte começou a partir do momento em que entreguei novamente o meu coração a um ser humano brilhante. Estou bem, dizia à minha anterior paixão enquanto a via a destruir-me. Aconteceu algumas vezes soletrarem a condição saudável da vossa cabeça à pessoa que amavam e sentirem um veneno a navegar pelo corpo, por todos os músculos até chegar à boca? Nas horas em que experimentava a traição na minha visão, ao sentir o desejo de quem amava por alheios, vomitava em todas as esquinas. Moro na casa que presenciou todas as minhas quedas, sempre que subia os quatro andares do meu prédio uma vontade súbita de me atirar até ao rés-do-chão era forte, arrastava-me, deixava-me o peito sem ar. Estou bem, perpetuava para mim mesmo ao caminhar lentamente pelo corredor em forma de U da minha querida casa em Lisboa. Mas hoje digo estou realmente bem. Muitas vezes nem são necessárias meias palavras pelo meio.

Um tom de voz para convencer terceiras ou quartas pessoas. Estou bem. Equivale agora a uma melodia, a uma lição de voo, a um doce de chocolate comprado na Baixa. Um dia de cada vez, como costuma a minha mãe dizer. Gosto de agarrar na mão dos mais idosos que conheço e acaricia-me os ouvidos quando me pedem para viver um dia de cada vez. Um Homem a começar os vinte anos não deve ter preocupações superficiais, tais como eles agora na casa dos setenta ou oitenta tiveram em épocas alojadas no passado. Estou bem, digo-lhes. Estou bem, dizem-me eles. O ser humano é um monstro curioso.


24 janeiro, 2013

(III)

Caro ML,

Ou devo colocar aqui o teu verdadeiro nome? Fazer trocas entre as letras, acrescentar mais algumas para conseguires perceber que me refiro a ti? Acho que não vale a pena, se estiveres a ler as minhas palavras vais logo ver que são destinadas a ti. Ando com uma vontade extrema de escrever cartas aos amigos que já me tocaram o coração, aqueles que ouviram num passado não tão distante algumas lágrimas e questões sobre qual ponte atravessar. És uma dessas criaturas, LM. Agora tratei-te pela ordem correta. Nem me atrevo a colocar neste texto as nossas conversas, todos os temas. Equivalia a colocar um desconhecido dentro da intimidade, a nossa pura e sem qualquer perversidade ou maldade, dão o nome que quiserem a intenções embrulhadas em maldade. Onde vamos parar neste país, com este futuro? Ainda ontem vi um vídeo da Ana Drago, deputada, a dizer ao seu colega para emigrar e não dizer estupidez acerca das pessoas que sempre viveram em Portugal com o ordenado mínimo, esses que pagam agora a grande dívida que nos arrasta cada vez mais para o lamaçal. Pergunto-te onde vamos parar e qual a verdadeira razão para não existir outra hipótese a não ser estarmos separados dos nossos pais, da tua irmã e dos nossos amigos a um avião de distância.

Não digo que sair de Portugal seja algo estupidamente mau, podemos colocar nas nossas bocas um novo sabor a cultura. A que realmente sabe o desconhecido, o nosso paladar consegue apurar? Se misturar este ingrediente com as lágrimas de saudade da minha mãe certamente azedará, meu grande amigo. Mexer violentamente uma nova cultura com as saudades de casa mancha as nossas roupas, as calças e até mesmo os sapatos. Somos obrigados a ir tomar um novo duche e rezar para que a conta da água ou da na luz não suba para valores exagerados. A brisa gelada atravessa-nos o corpo por sermos obrigados a sair do nosso país, apesar de não te importares assim tanto já que sempre falaste mais inglês do que português. São as nossas raízes, isso vai fazer-te confusão aposto. Deixamos as nossas raízes para trás e encontramos a felicidade ao lado das pessoas que nos amam, conseguimos alcançar a sorte nesse campo. “Porque você é velho, velho, velho, dos tempos da União Nacional”, começo a rir-me das palavras da Drago para não começar a chorar. Estamos nessa situação, a de rir para não chorar compulsivamente. Ando a ler o livro do José Rodrigues dos Santos, ‘A Mão do Diabo’, e não consigo parar por ser tão realista. Não as fugas do Tomás Noronha ou dos amigos super fixes e valentes por Lisboa. A situação de crise financeira, essa sim. É real, entranhou-se na pele de grande parte dos portugueses.

Nós continuamos aqui, à espera de um brilho nas vidas de milhões de pessoas. Esperamos na nossa amizade, com um copo de vinho a acompanhar as refeições e as nossas conversas. Ainda vamos apanhar uma bebedeira e deixar de lado a realidade durante algumas horas.