03 dezembro, 2013

Deixa-me mergulhar nas tuas águas (palavras) quentes

Escrevo mais uma vez para ti. 

Nesta vida plena, nos meus leves vinte e dois anos, em que qualquer um acha um peso violento para o meu rosto de rapaz. Esse rapaz que ainda assenta nos meus pulmões para impedir os meus vícios. Nesta vida plena escrevo, mais uma vez para ti, a mudar as palavras, os verbos e os adjetivos de lugar para mostrar-te de quantas maneiras posso mostrar o meu amor por ti. O carinho escorre por todos os meus comportamentos e os meu gestos no teu rosto delicado, arranjado para me olhares.

Já foi um rosto destroçado, despedaçado como uma porcelana no chão sujo. Consigo ver-te esse lado, o que não conversas comigo por já estar arrumado pacificamente no passado. Escrevo mais uma vez para ti nas minhas pétalas azuis, estas que me protegem do frio numa casa tão envelhecida. Sabias do pequeno buraco que fiz numa das paredes da sala? Estava simplesmente encostado e o meu cotovelo recolheu reduzidos centímetro do material que a minha casa é construída.

Escrevo mais uma vez para ti.


Deixa-me mergulhar nas tuas águas quentes, na cor límpida da doçura do teu oceano. Lágrimas salgadas, corpos podres constroem um oceano atlântico gélido e completamente salgado. Não é à toa que tantas almas chorem por arrependimentos, ausências de salvações e palavras de uma vida passada. É necessário um ciclo natural da natureza. Sabias que nunca consegui compreender esta minha associação da natureza com o trabalho dos espíritos que ficam presos na Terra? Assusta-me a minha visão da maioria dos acontecimentos, por sentir que a loucura me pode matar um dia destes e é a ti que vou virar o meu desespero. Quando me falam em amor, para além do amor, do sexo, do carinho, do mimo que troco contigo, lembro-me também da loucura corporal que pode ser adquirida com o passar do tempo. É uma loucura, eu sei mas penso em todas as possibilidades.
Já que é a primeira vez que alguém me vê como uma casa definitiva, para viver confortavelmente a vida toda. Não brinques comigo, nunca brincaste, nem nunca vais brincar. Construir a tua casa na minha alma é a maior responsabilidade que vais ter na tua vida e o teu coração está pronto para mim, para os meus devaneios.
Escrevo mais uma vez para ti. A loucura não me ameaça, meu amor, e a minha casa gélida ameaça matar-me com um calor súbito. A vitória está do nosso lado por sermos uma das poucas pessoas que ousa celebrar a vida nestes tempos tão negros.

27 novembro, 2013

Mas tenho receio de fechar os olhos e ter a pele enrugada (...)

É extremamente cedo para decidir o ritmo e o batimento do meu coração. Esclarecendo qualquer um que pergunta "mas não é precisamente a mesma coisa", não se trata, efetivamente, da mesma coisa. Ritmo e batimento. Batimento e ritmo. Batimento e ritmo do meu coração, nunca há duas palavras iguais nem nunca as escrevemos da mesma forma. O ressoar da pulsação no meu coração e a velocidade com que o faz. Tenho juventude nas minhas mãos, nos meus cabelos, em todo o meu corpo e sinto a minha cabeça a decidir a tua presença como fundamental na minha existência, já efetuada a permanência no meu coração. Todas as ligações com os fios e coração foram estabelecidas ao longo das nossas discussões no primeiro semestre deste ano. Somos mestres na arte do "quanto mais me bates mais gosto de ti" sem os exageros da violência agarrados a esta velha frase. Há certeza na minha alma para saber que és tu. Tu, tu e tu, suspira-me o vento gelado de novembro nos meus ouvidos e nos meus cabelos a precisarem de serem colocados debaixo de água. Não tenho escolha nem quero ter, consome-me a juventude com paixão.


Mas tenho receio de fechar os olhos e ter a pele enrugada e ausência de força nos meus músculos.


Leve criança sentada no cadeirão, anseio pela tua chegada, de comboio desde o norte do país até à capital. O ritmo e o batimento do meu coração dependem do estado do teu rosto, aniquilado por um trabalho um tanto ou quanto ingrato depois de três anos enfiado numa licenciatura nas matemáticas e a repuxar matérias relacionadas com os mercados e mais números que não compreendo na minha cabeça tão elaborada para os textos e arte. Depende dos teus olhos, brilhantes pela minha alma e por todas as minhas vibrações. Sentado no cadeirão, anseio e desejo o momento em que colocas a chave na ranhura e enches os meus lábios, sem perguntar pelo meu dia. Uma naturalidade que despejas depois da libertação do desejo. Todas as discussões começadas quase no início deste ano para se converterem no conforto dos meus braços, dos nossos músculos a acariciarem-se mutuamente sem mecânica na equação. A nossa equação tão simples e sem regras complexas neste momento. Celebramos todos os dias as nossas existências. O meu corpo a procurar uma fonte de rendimento num país tão miserável, sem condições de mandar cantar 3 ou 4 cegos, e tu meu amor, numa fonte recheada de água morna. Celebramos, beijamos, abraçamos a nossa existência numa aura de confiança, paixão e futuro misturados nos nossos pés. Assentes no chão de madeira da nossa casa.

Falta-nos uma lareira e o que nos salva são os cobertores e os aquecedores. Electricidade a circular nas nossas paredes. Amor a viajar nas nossas veias. Colidimos nas horas de prazer, enrolados nos lençóis durante os dias frios.
- Tenho frio, liga o aquecedor! - E ainda não tinhas sentido o toque dos meus lábios no teu peito e em toda a tua pele das pernas. É impossível escolher ou definir o ritmo e batimento do meu coração mas tenho em mim que és tu a minha escolha, Onde permanecem os nossos olhos? Em ti. Em mim. No teu cabelo encaracolado, doce para os meus dedos mexerem. Tinha uma ausência em escrever e hoje fizeste-me quebrar o jejum da boa forma e tradicional em escrever. Lápis, papel e tu. Junto a mim.

E permaneço no cadeirão, a ouvir a tua chave entrar na nossa porta.

29 outubro, 2013

Estou num lugar cheio de luz



Já não me alimento das tuas lágrimas e do teu vómito, declarado por ti por uma mera troca de mensagens por uma rede social depois do nosso fim. Decidi não realizar mais a mistura da clareza de uma água límpida e de uma substância mastigada e ácida de um órgão no meu corpo, dado a incompatibilidade que a minha alma tem com os sabores agridoces. Pode ser uma contradição dizer-te que não suporto o equilíbrio de um tom amargo e azedo nas minhas veias, sinto-me saturado disso por ter um sangue vermelho e puro nas minhas veias e o veneno que a pouca experiência de 22 anos de existência me ofereceram. Qualquer dia vou afogar-me com a minha toxicidade, ao deixar cair a água do chuveiro sob o meu corpo e sentir a acidez a subir no meu corpo por todas as maldades idealizadas e os pedidos por perdão sem intenção e força. Quando esse momento chegar, da minha morte por afogamento em terra, vou agarrar a minha garganta pelo simples gesto de dramatismo. Todo o ser humano imagina uma morte serena, com o corpo a cair aos pedaços e sem capacidades não é verdade? Onde conjugar o Alzheimer caso atinga o nosso cérebro e as nossas memórias? Imaginar uma morte perto dos 30 com um ataque de coração ou um acidente de carro? Mesmo estas duas últimas opções para uma morte precoce são dramáticas. Somos uma desgraça enquanto seres, assino em qualquer documento que contenha este facto. Berro para os anjos que descansam no Olimpo, de forma a ouvirem os meus pensamentos e as minhas atitudes.

Mas para atingir, neste momento, a limpeza da minha alma decidi não alimentar-me mais das tuas lágrimas em mistura com o vómito que libertaste ao colocar um ponto final da tua existência. Resta-me por agora um baixar de cabeça, para quem partilhou tanto da minha intimidade e do amor. Devo também dizer que não foram poucas as vezes em que senti pena da tua esquisitice – quando se trata apenas de estupidez e mania por querer a diferença estampada nos gostos e atitudes – e amar plenamente um ser humano é não sentir pena em grande parte dos acontecimentos. Mesmo não me alimentando da podridão que me ofereceste, seu idiota, ainda sinto pena de ti pela cobardia que me mostras. Os teus olhos pequenos não têm a coragem suficiente para olhar para o meu corpo, para a minha magreza extrema que um dia afirmaste amar. Gostava de dizer que te ouviria, caso decidisses falar comigo algum dia, mas isso é mentira. De podridão e escuridão num ser humano prefiro afastar-me. Acidentalmente deste um passo para entrar na minha vida e, assim, para me livrar de um outro lixo que influenciava o meu coração, foste uma bola de neve que acabou a tempo. Apresento-me como um ser renovado, capaz de amar profundamente e com ensinamentos na carteira. As minhas paixões continuam no meu coração, nos recantos dos tecidos da minha alma.


O quão refrescante é dizer que já há algum tempo que não me alimento do teu rasto agridoce, recheado de escuridão. A dor acabou há muito tempo e nunca pensei que era um desastre. Chegará o dia em que isso acontece. Sou um pleno desastre em todas as minhas ações. Entrego-me agora a um dos melhores seres humanos e sei que é o meu deus do Olímpio, com capacidade de me levar para o paraíso e aí descansar em paz. Estou num lugar cheio de luz.

20 outubro, 2013

Dentro dos meus olhos castanhos

Já não escrevo há tanto tempo e, por vezes, tenho a certeza de que perdi a prática e as palavras perderam o sentido no meio dos meus pensamentos. Ou escorrem pelo cano, nas horas em que coloco o chuveiro na minha cabeça, ou fogem da miséria dos meus olhos castanhos ao brilharem por estares à minha frente. Sobre ti escrevo em primeira pessoa, sem medos de entregar as minhas palavras, as minhas mãos, as minhas unhas roídas, os meus pés recheados de cortes dos sapatos apertados. O amor é entregar a perfeição e a imperfeição do ser humano, canto-te aos ouvidos por não saber o que é berrar por amar. Já não escrevo há algumas semanas e sentia essa ausência, apesar de estares a preencher o meu coração. Posso cantar pelas quatro paredes da minha casa e mesmo assim só te ias rir. Por isso ou pela minha invenção esta noite. Não foste tu que sorriste para mim quando decidi colocar a minha cadeira ao meu lado, só para apoiar a minha mão esquerda? Nos limites do nosso existe um infinito, deixa-me explicar-te isto para entenderes melhor o que quero dizer, tenho a impressão de que não compreendes. Existe um infinito quando penso no nosso amor: quando coloco a minha dedicação a ti, não consigo pensar em números, quantidades. Medições quando a matéria diz respeito a componentes do coração? Oh, nunca amar foi tão perfeito e brilhante aos meus olhos.

Não escrevo há tanto tempo, só pela simples razão de querer aprofundar um pouco mais os meus sentimentos por ti. Há uma entrega idealizada e em tons cor-de-rosa nos primeiros meses, um lidar com a rotina e o amor certo quando o tempo escorre pelas mãos de duas pessoas e, no final, a promessa de permanecerem juntos por toda a eternidade. Talvez só tenha experimentado a primeira entrega antes de me entregar à tua alma. Pergunto-me todos os dias como não consegui perceber a tua beleza quando te vi a primeira vez. Ou talvez tenha sentido, por o meu coração não se ter calado desde o primeiro dia do ano. Os meus órgãos não pararam até as palavras desenharem os nossos corpos, numa primeira instância. O amor é entregar a perfeição com um toque de imperfeição para dar brilho aos lábios. Berro para os meus sentidos: Onde estiveste toda a minha vida? Vivi tantos anos sem te ter aqui, nos meus braços e dentro dos meus olhos castanhos. As palavras nunca estiveram perdidas dentro da minha existência, cada vez mais tenho a certeza, nas minhas entranhas, de estar a destruir as minhas fraquezas e os meus limites e catalisar, dentro do meu coração, uma nova visão no ser humano.



O meu coração renasceu dentro dos teus pulmões, recheados de fumo pelos cigarros que injetas todos os dias ao acordares e adormeceres ao meu lado. Ao meu lado, ao meu lado, ao meu lado.

08 agosto, 2013

O amor consome-me e a loucura ameaça acompanhar-me


Perdoa-me Satanás por ainda não ter caído nas tuas garras, infectadas pela solidão de todas as almas e as perversidades das mentes deturpadas e maldosas.
Acolhe-me, Deus, nos teus braços recheados de compaixão e sensações de paz, agora que o amor chegou novamente à minha casa. Os meus aposentos, os meus pulmões, carregam pela última vez o sentimento amor. É a última vez se tiver de ser. Estive para viver para sempre nas sombras e na escuridão, sabes que nunca o fiz por em todos os momentos, os segundos em que tomava a decisão e ouvia a tua voz. Perdoa-me Satanás por não ter escolhido o teu caminho, um ser humano precisa sempre de ter dois percursos mesmo nos sonhos. A mente liberta-me e lança-me sempre para o caminho mais negro e recheado de pedras, um incentivo para circular na minha vida real.
Tenho-o. Desejo-o. Adoro-o, mais a caminhar para outro sentimento se é que me entendes. Por teres colocado um ser humano, de cabelos encaracolados, na minha vida e a admirar-me a alma ao invés do corpo numa primeira instância. Deu-me a mão mal os olhos castanhos atravessaram os meus quando só desejava abraçar o meu corpo e peito. Nem te conto esses minutos, com uma felicidade a incendiar as minhas veias, desejei assentar as minhas mãos na cintura magra. Mas nenhum corpo ultrapassa a minha magreza extrema, por incrível que pareça, surpreendo-me sempre por os corpos alheios serem sempre melhores do que os meus e esta constatação não é elaborada em baixa auto-estima.

Deste-me a conhecer demasiadas vezes a sensação de abandono, proporcionada por outros seres. Não merecem ser chamados de humanos por tal acto, capazes de rebolarem no sangue proveniente dos meus olhos. Gritei, rebolei no chão com as mãos a esmurrarem a pedra do chão na minha casa, em vão, unicamente para todos os meus fantasmas começarem a sorrir e a desejarem a minha união com todo o grupo em qualquer casa abandonada, o típico cliché associada ao espiritismo que tanto adoram. Por escolher um amor demasiado jovem sofri as consequências, mais um desvio para sagrar o amor verdadeiro e puro, sem consumação desmedida e egoísta. Satanás diz-me, em todas as conversas, que o amor é um acto egoísta, inconsequente, recheado de paixão. Uma paixão capaz de destruir órgãos, o coração inclusive. Nunca me sussurrou sobre o sentimento, sobre a paz de espírito oferecida por um sentimento nascido de todas as entranhas e de toda a certeza. Tenho-o, não o quero perder. Desejo-o e não consigo controlar o meu sangue. Adoro-o num amor inacreditável. E ainda não consigo acreditar e prever onde o nosso amor vai levar-me, a mim e a ti.

Perdoa-me Satanás por não ver-te mais como o meu companheiro.
Acolhe-me Deus. Ele está na minha vida e estou tremendamente apaixonado.

18 julho, 2013

Purgatório


O amor equivale a um purgatório. Trata-se de um espaço de espera, não se contam as horas e os minutos por ser proibido a utilização dos relógios. Espera-se por alguma coisa que há-de vir, mesmo quando existe uma relação fixa em confiança, preocupação, amor, carinho e uma pitada de respeito. Amar é ser egoísta, não há outra forma de confiança. Existe uma preocupação com o outro ser, amado desde as profundezas. Tal preocupação exige na maioria das vezes, no subconsciente, uma reciprocidade. O ser humano não gasta o tempo com outro sem esperar receber nada em troca, nem nas palavras cheias de amor soltadas ao vento. Esse vento tem de passar pelo destinatário, a quem dirigimos essas palavras, a brisa vai tocar nas roupas a quem se dirige. As músicas escritas por muitos cantores são ouvidas pelo ser em que se inspiraram, a quilómetros de distância quem sabe, os textos redigidos por muitos escritores consagrados chegam a quem têm de chegar: à divina inspiração, seja ela de que tipo for, uma objeto, um animal, um lugar, uma pessoa. A preocupação colocada nessas palavras e nesses textos - existe sempre uma preocupação, nem que seja ela maldita, armadilhada - tem sempre o objetivo de chegar a quem foi escrita. O amor equivale ao purgatório, ao tempo de espera para recebermos uma mensagem de volta, um beijo, dedos do cabelo para o afastar da nossa cara, para recebermos palavras de preocupação. Morremos sem a resposta, precisa-se dela em minutos, em dias, em meses, em anos num caso mais extremo. Nasce uma comichão em todos os corações quando isso não acontece, cultivam-se histórias trágicas e alimentam-se finais desoladores por não existir uma resposta de volta. Desgraçados são os amores não correspondidos, que nunca vão receber a resposta. Nem uma chamada, nem uma mensagem ou uma carta. Quem sabe, um e-mail já que os tempos apontam para uma evolução. Mas não é nesse tempo de espera que se encontra uma parte da beleza? A perfeição não se encontra no tempo gasto, nas palavras soltas e colocadas numa carta ou em qualquer aparelho? Existe um ciberespaço, existe um espaço físico em que os conteúdos circulam. Falta avisar as gaivotas para continuarem a levar novos seres para todos os lugares. O amor é um purgatório cheio de ideias românticas, mesmo as gaivotas entraram em greve como quase todo o meu país se encontra: em uma greve económica, em que muitas pessoas morrem à fome, e uma greve de valores em que a esperança na cultura e nos valores morre a cada dia que passa. Não quero contar as horas, desejo entrar no purgatório. 

Oh, resta-me esperar por algo. Não vivo sem estar à espera de alguma coisa, guardo esse sentimento nos meus olhos, nos meus lábios, nos meus desejos.

19 junho, 2013

Aprender algo com o passado dentro das ondas do mar


Entrei em ti, nas tuas águas, para fechar os olhos e parar um pouco a respiração. Não era essa a intenção inicial, ao colocar os pés nas águas do teu mar, mas é a conclusão a que chego neste momento. O fogo, capaz de circular nas minhas veias, parou e o meu coração dá-se por vencido. Escrevi um disco, um livro, tudo para ti quando devia ter deixado a minha caneta em cima da secretária, sem gastar dezenas de litros de tinta negra como fiz. Às tantas polui o mar por ter andado a escrever em grande quantidade. As tuas ondas acolhem-me num passado distante. Remexem em todo o meu corpo, retiram-lhe temperatura e desejam enrolar-me para não conseguir respirar. O teu interior nunca esteve tão revoltado. Nunca sonhaste em acolher-me na tua profundidade. São duas hipóteses que tantas vezes aparecem na minha mente, na minha alma. Entrei em ti e as tuas ondas acolheram-me. Mergulhei e nadei nas águas límpidas que me ofereceste, sem me aperceber que as minhas lágrimas tornavam as águas turvas, sem qualquer brilho ou cor. O azul límpido deu lugar a um cinzento turvo e nunca mais consegui ver as rochas, os seres vivos e os restos dos barcos afundados na tua profundidade.

Entrei em ti para agora estar deitado nas areias e ouvir, unicamente, o som das tuas ondas. Não sinto os raios solares como deveria, faltam dois dias para o Verão, e tenho uma tempestade dentro de mim. Trovões, vento e nuvens revoltadas a penetrar em mim há meses e meses. Quero entrar novamente para me afogar mas tu nunca vais deixar. Ou já não me amas?

12 junho, 2013

Celebração do corpo


Nunca olho para o meu corpo. Os meus olhos castanhos olham “em diagonal” para os meus braços finos, para as unhas e dedos mais do que roídos, para as minhas calças skinny (em que cabe, por vezes, outras pernas da grossura das minhas) e para os meus pés demasiadamente pequenos para o género masculino – uma outra travessura colocada na minha cabeça e na de todos os portugueses, os valores e princípios colocados para o sexo masculino e feminino: exige-se a um corpo determinada forma e contorno para estar nos padrões da beleza. São esses padrões, valores, princípios que constroem uma visão. Complicam a tarefa que dou aos meus olhos castanhos em esvaziarem-se de qualquer preconceito e receio. É tão complicado livrarmo-nos desses estereótipos, fortes quando a diferença ganha poder no meu quotidiano, com regras de conduta podres e cinzentas para o meu estado de espírito. Tal como existem padrões para os outros, já que o outro está sempre presente para quem odeia ver-se como um individual, existe um formado e alimentado na minha mente. Desenho tantos universos alternativos e não consigo livrar-me das regras básicas deste mundo, ou uma mulher tem de obrigatoriamente casar-se com um senhor para ter filhos ou uma menina não se apaixona naturalmente por outra menina. Talvez seja um pecado olhar para as histórias dessa forma, os efeitos do que me foi incutido desde pequeno acaba sempre por ter um efeito secundário por mais mínimo que seja. 

A minha mãe olha para mim e diz que não perdia nada se tivesse mais uns quilos, se as minhas costas fossem mais largas, se tivesse mais cintura, se os meus pés não fossem tão magros quando calço um sapato e acaba por ficar-me extremamente largo. Mas, minha querida mãe e todas as outras mães no universo, porque é que olhas para mim e não afirmas em primeiro lugar as minhas qualidades? Consigo chegar onde não consegues, quando tentas colocar-te numa escada para agarres algum objeto lá em casa, o meu cabelo é forte e não anda sempre pelo chão tal como o teu. Existe uma proteção por detrás de todas as declarações dos defeitos que vais libertando dos teus lábios, não seria um regozijo para ti se um ser humano não apontasse qualquer defeito no meu corpo? Os humanos constroem a sua humanidade, fogem da divindade ao apontar defeitos em qualquer espécime idêntico. Funciona desta forma e nem nos próximos cinquenta anos vai mudar, quando meu corpo estiver fraco, envelhecido e os meus cabelos cinzentos começarem a cair. Não aprecio olhar para o meu corpo quando o tenho de fazer e celebrar. A masturbação é um pecado, bem sabemos, mas para quê atingir o prazer individual se nem se quer olhamos para os nossos corpos em condições? Há uns tempos, uma rapariga disse-me que nunca tinha atingido o prazer sozinha. Mas então, minha querida, como é que o vais conduzir até aos recantos do teu corpo, recheado de surpresas inimagináveis? Talvez ainda te vá ouvir na minha casa a abrir a boca para soltares gemidos profundos, quando há incentivos não há problema em liberta o desejo carnal. Não troco beijos com desconhecidos por motivo nenhum, é um teste. Até que ponto vai o desejo presente no coração, nas hormonas, nos pulmões e na língua, imagino na minha cabeça. Andam todos tão recheados de desejo que escondem os livros eróticos em capas, com esse propósito, para não serem recriminados.

Sexo, sexo, sexo. Deus deu-nos isso. Qual é a divindade que oferece instrumentos só com o objetivo de recriminar e colocar nas portas do Inferno? Tenho paz em todas as igrejas a que vou, não são assim tantas ao longo de um ano, conforto quando me sento num dos bancos e um pouco de frio por não deixarem entrar os raios de Sol. Nesses momentos também não olho para o meu peito, coloco a mão e sinto um poder extremo a querer fugir. Talvez seja isso que falta um pouco a todos, sentir o poder dentro do nosso corpo. A mim nunca me faltou coragem para tal ato, só não gosto dos olhares alheios e críticos à minha volta. Posso não olhar para o meu corpo mas dou-lhe tanto amor.

07 junho, 2013

Morrer em ti


Devia ter-me afogado em ti. Não consigo desenhar a tua carne e os teus olhos, só tenho as tuas palavras para viajarem na minha mente. Devia ter ficado sem respirar durante mais de uma hora para a minha alma estar longe do meu corpo por alguns momentos. Sinto uma saudade ardente do teu queixo ao pé do meu, da tua respiração a perturbar os meus fios de cabelo castanhos e dos meus lábios a saborearem os teus recantos, como se alguma vez isso tivesse acontecido e não me julgassem um louco. É tudo uma epifania dos meus pensamentos mais escondidos, da minha vontade em tocar no teu rosto à medida que vamos fugindo mais e mais um do outro. Passam-se quilómetros, horas e não consigo tocar na temperatura gelada das águas do mar. Nesta violência de emoções há um último desejo que não concretizei: dar-te a mão direita e sentir a tua pele por uma última vez, como se fosse possível pensar em última vez. A minha mente, meu anjo, continua a pregar-me partidas e continuo a dançar para libertar os meus demónios. Seres maléficos e puros de vontade personificada em gritos, discussões, vontades e amor escondido

Devia ter deixado o meu corpo afogar-se em ti para ser a última vez. Anseio por renascer em ti quando olhar para os teus olhos castanhos e misturar as minhas lágrimas com o tecido da tua alma.

És imortal, já escrevi tanto para ti, só para ti e continuas sem saber ou ler.

06 junho, 2013

O vinho branco, tomado à janela do meu quarto


Há curiosidades que nascem nos meus pensamentos e não me conseguem largar. Acabam por tornar-se pequenos pesados, o meu subconsciente faz questão de trabalhar todas as noites para me assustar mais um pouco, e não escapam até os exteriorizar. Se mexer os meus lábios com esses pensamentos a mergulharem nos meus neurónios sou capaz de jurar que digo serenamente obsessão, escuridão. Duas palavras terminadas em ão que dançam comigo todas as noites, a olharem para o meu corpo adormecido na cama. Não há qualquer tipo de música tranquilizadora para os meus ouvidos e para a minha alma, alguma palavra que transpareça exatamente a minha intenção. Nem os meus olhos castanhos ganham um pouco mais de vivacidade quando estou a sorrir para esses pesadelos, para as curiosidades aprisionadas na minha cabeça. A minha voz teima em ganhar vida quando o silêncio e a escuridão se apoderam do meu quarto, chego mesmo a jurar que não há nenhuma presença nesse curto espaço e efetivamente não há, tenho as minhas paranoias a incendiarem-me a mente.

Tenho-te a ti nos meus pensamentos, à meia-noite que todos os relógios marcam no meu país e apercebo-me de que algumas senhoras, à procura de uma encarnação magnífica de Deus poderoso, já deixaram os sapatos em qualquer escada para ser encontrado. Quando o coração de um ser humano teima em bater violentamente, em remexer nos órgãos do corpo, o cérebro não para de desenhar o rosto de uma outra pessoa. Essas damas premeditam os passos, descalçam-se para o feitiço de um final feliz continuar. Houve um idiota qualquer que decidiu contar uma história e propagou-se, que nem a Bíblia, em que só as tolas acreditam e, a partir desse momento, só há espaço no corpo para a outra pessoa, o outro ser humano, o outro ser humano. O outro, o outro, o outro que se propaga como um vírus. Nem há oportunidade para o egoísmo asfixiar um pouco o sorriso da nossa personificação de amor, neste caso da minha personificação do que é amor. Não digo que o amor, definição e palavra com conceitos tão complexos, não esteja colocado nos meus animais (de estimação), na minha roupa, nos meus objetos, nas minhas mãos e até no meu cabelo mas o que seria de mim sem ter um espécime, ser humano e com semelhanças a tantos outros seres, a quem entregar o meu amor e conforto? Teria um egoísmo tão forte e elevado caso deixasse de pensar no outro ser humano, se não me deixasse levar pela minha tentativa de encontrar a personificação de amor puro?

Sonho com as minhas mãos a mudarem um rosto, uma troca dos lábios, a minha unha a passar por essa leve carne e a abrir feridas para o sangue ser livre, os meus dedos a entrarem nuns olhos claros, cheios de brilho e azuis. Obsessão, escuridão e um pouco de frustração. Só me posso libertar destas curiosidades, das trocas que posso fazer num corpo, através dos sonhos. Os cirurgiões podem fazer estas alterações mas só com a devida autorização da alma que comanda o corpo – mas nós comandamos mesmo o nosso corpo, pergunto-me a mim mesmo. Tenho esta imagem no fundo do meu telemóvel, o corpo mente, e enquanto não a compreender não vou retirá-la. Acontece com todas as minhas imagens que tenho no telefone, somos tão geração do século XXI que nem me dou ao trabalho de desenhar essas impressões e imagens. Basta clicar num website recheado de imagens para o nosso sonho aparecer, escarrapachado para vermos. Os seres humanos são mesmo iguais, interrogo-me mais uma vez.  Existia perfeição caso tivesse liberdade de mudar um nariz, qualquer tipo de cabelo e aborrecimento a correr-me nas veias. Neste momento apetece-me levar a minha personificação para algum lugar e deixar que faça de mim o que quiser. Consome os meus olhos, os meus lábios, os meus cabelos mas deixa-me a alma para continuar a viver. Ainda há um fio de esperança para os tolos, gosto de acreditar.

Já não soltava as minhas palavras há tanto tempo. Neste momento sinto uma ferida, a minha personagem escritor gosta de sofrer um pouco, alguns minutos por dia. A minha alma continua com um sorriso genuíno e bebe um pouco de vinha branco, acompanhada. Nunca gostei de encarar a vida como uma escuridão divina e o mais curioso é o facto de alguém, que não me conhece como pessoa, pensar que estou num sofrimento desgraçado.

01 junho, 2013

Quando deixo de escrever temporariamente


Não escrevo há muito tempo e a sensação que me fere o coração, de uma forma violenta e descoordenada, é a forma como não necessito das palavras para demonstrar o meu estado de espírito. Só o silêncio já é indicador de algum sinal fora do comum, este querer circular no meio das ruas sem nada à volta. Desejo, nos meus sonhos, de estar sentado num espaço branco com luz do mesmo tom a acompanhar, sem objetos ou seres vivos, mesmo que sejam árvores, um lago, mar ou rio. Tenho, nesses sonhos, uma caneta negra ao pé de mim e a liberdade em desenhar o que me vai no coração. De me deixar levar e desenhar, riscar, desenhar, riscar, desenhar, riscar e voltar a desenhar mais uma vez nesta infinidade, em que não há buracos nem poços. Mas o que vai na cabeça de um ser humano quando só há vazio à sua volta? Silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio. Custou-me mesmo escrever tão seguidamente estas palavras mas é a verdade.


E como vi num livro do José Luís Peixoto, em duas páginas li unicamente a palavra quero morrer. Mas da forma como estou só vou pedindo a Deus, com a minha caneta preta na mão, deixa-me morrer. Deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer, deixa-me morrer. E tenho de escrever mesmo estas palavras, os meus dedos já me estavam a começar a doer por estar a fazer o mesmo movimento no teclado, as mesmas teclas a serem pressionadas. Quero morrer para acordar como novo e sinto que estou nesse processo. Deixa-me morrer sem ninguém ao meu lado, faço este pedido mais especificamente para não levar nenhum corpo ao meu lado, basta os meus ossos e o meu corpo – a caraterística que um amigo meu me apontou sempre nos meus textos, que falo muito sobre ossos e sangue. Quem sabe, não é? Não escrevo há muito tempo e espero não continuar assim mas tenho a certeza de que esta paragem me vai fazer bem, todas acabam por fazer.

06 maio, 2013

(IV)


Querido amigo,    

Há demasiados pontos finais na vida de um ser humano. Pequenas rochas que são colocadas na existência de um homem ou de uma mulher, que atropelam e fazem tropeçar qualquer corpo. Os pontos finais ainda conseguem ser um sinal positivo na vida de uma alma, não é? Gostava de perceber como é que há tantas pessoas que conseguem sobreviver com reticências ou um ponto e vírgula, à espera que os acontecimentos continuem a desenrolar-se e no fim acabam por morrer no meio da estrada, sem acreditar no amor, no romance, num futuro recheado de luz. Mas continuo a dizer que existem demasiados pontos finais, comem o coração como se saboreassem uma tarte de morango (a cor vermelha e o sangue, a relembrar um molho ainda mais doce, contribuem para esta visão). Os seres humanos saboreiam e tiram-nos tantas fatias da tarde que acabamos por não ter nada mais para oferecer quando uma nova pessoa aparece na nossa vida. E não falo das pessoas como se estivessem sempre a aparecer às dezenas em dias, perdoa-me se não me compreendes. Mas escrevo para ti, meu amigo. Tu que sempre me compreendeste e vais continuar, tu que continuas a dar-me conselhos e a ligar ao invés de escrever quando te escrevo uma mensagem às duas, três ou quatro da manhã.

Ainda ontem rebolei das pedras do meu próprio corpo, quando a mente se desliga após um desgosto com algum ser humano, e nunca deixaste de colocar as mãos e o próprio corpo para amparar-me a queda. Quando uma amizade é pura, como a nossa, não é necessário estar sempre um ao pé de ti. Vivemos a 300 quilómetros um do outro e a nossa amizade mantém-se firme, como sempre esteve, honesta e simples. Começo a ficar cansado das outras amizades (aquelas que exigem sempre 200% de mim, mesmo quando tenho o coração destroçado), não aguento ouvir certas vozes em alguns dias da minha vida. Acho inaceitável quando as pessoas gostam de colocar demasiadas vírgulas numa amizade, para atrapalhar sempre a segunda pessoa, a suposta que amam ou idolatram. É essa elevação e exagero dos sentimentos que corroem o coração. Tenho o orgulho de dizer que não somos assim. Gosto de te falar sobre os pontos finais que colocam à minha frente, os outros que vejo fora da minha existência - nem que seja para comentar que não vamos fazer o mesmo de forma a não cair no erro – e nos finais que acontecem às pessoas que amo. Esses são os mais dolorosos, os que torcem o meu coração vermelho e fraco graças à má alimentação que faço de vez em quando.
Reza por mim, vai pensando em mim tal como vou fazer. A nossa amizade é realmente pura.

Com amizade.

22 abril, 2013

Pausa para os assuntos triviais



Ultimamente sinto que estou sempre a mil. Em qualquer questão da minha vida, quer seja com os meus amigos, com os meus pais, com o meu trabalho do mestrado (agora que me lembro soa sempre a duas mil e quinhentas tarefas para fazer e estão em cima da minha secretária) ou mesmo com os meus pequenos projetos. Uma crítica escrita ali, uma notícia escrita acolá, o visionamento de um filme ou espetáculo a meio do mês e tralhas de livros para serem lidos. Faz-me desejar algumas coisas: gostava que o meu dia tivesse 48 horas sem necessitar de dormir e não fosse necessário levantar-me para fazer comida, é o mal das pessoas com gosto em comer, em preparar uma ótima refeição elaborada para simplesmente se sentarem e sentirem todos os prazeres. No meio da velocidade mil com que encaro todas as minhas tarefas (o que não é necessariamente presságio de bom sinal) tenho sempre uma que aprecio fazer lentamente: ler um bom romance e avaliar todas as personagens e acontecimentos.

Ainda hoje estava na aula de Literacias para os Novos Media e falávamos sobre educação informal, acho que foi assim. Em que podemos ler alguma coisa e não tínhamos planeado aprender algo, não me recordo exatamente se foi assim porque como sei, a minha cabeça estava a mil, bem longe da sala de aula. Tendo em conta a matéria da aula, para desabafar estupidamente, aprendo sempre alguma coisa com os romances lights que leio. Nem que seja a fórmula que o escritor ou escritora usou: um drama no início, o pobre casal que nunca se encontra e no fim acaba tudo bem, normalmente com a descoberta de um grande segredo. E todos se perdoam no final. Gosto de pensar no quão longe me levam estes livros e não recomendo a ninguém. Tenho gosto de parar as leituras técnicas, com os livros que levo da biblioteca da minha faculdade, para começar a ler um todo lamechas. O Comer, Orar, Amar foi um desses exemplos. Desta vez, apeteceu-me ler uma viagem já que não tenho assim tanto dinheiro para sair fora do nosso país-ervilha (Portugal é mesmo pequeno) para andar um pouco pela Índia, Itália (ah, bela Roma!) e também pela Indonésia. Desta última paragem ficou-me o desejo tremendo de ir a Bali, apreciar as praias com uma boa companhia. E não é que me surpreendeu? Uma espécie de diário – e não sou nada fã – que acabou por dar algum prazer.

É como digo, posso andar com a cabeça a mil mas pelos menos uns quinze minutos das minhas vinte e quatro horas disponíveis acabam por estar reservados para a minha leitura com prazer. Estou em descanso apesar do trabalho que me aguarda, vamos lá ver como corre daqui para a frente.

17 abril, 2013

Ausência (II)



Gostava de aperceber-me das minhas ausências. Para com a escrita, para com as pessoas, com as viagens, com os lugares ou até mesmo com os objetos já que existem horas em que todo circulo embate no meu corpo mas deixem-me explicar. Imaginem um pequeno ponto dentro de um círculo, com uma seta a rodar sempre na mesma direção, em voltas infinitas. Mais uma volta, o ponto negro no meio do nada em que necessita de tocar em novas almas, tecidos completamente reluzentes deixados num qualquer lugar abandonado, cheiros de cabelos castanhos, ruivos ou louros para ativar as sensações. Uma segunda volta e mais uma e uma outra, num constante movimento à medida que o ponto continua parado no meio. Tinha gosto em aperceber-me das pequenas ausências, na minha condição de ponto final no meio da folha branca e encurralado pela linha circular com uma seta no início (ou será no fim, pergunto aos botões das camisas que costumo vestir quando acabo de tomar um duche). Ao observar as voltas da única linha, transportadora de todas as experiências a passar ao meu lado, não tenho olhos castanhos e perfeitos. Sinto-os unicamente brancos e coloco as minhas mãos para sentir a minha própria, carregadas de experiências e sensações individuais. O individualismo, tão presente em todos os seres humanos.

Passam-se semanas e vou absorvendo todo o vento que as voltas da seta me transmitem, unicamente uma sensação gelada ou quente, depende sempre do tempo que se faz sentir na rua. (Dou as minhas vénias pelo aparecimento do Sol e do bom tempo, a relembrar a primavera do ano passado). Gostava mesmo de me aperceber das minhas ausências para não fazer tão mal aos meus pulmões ou às minhas cordas vocais fortes, prontas para gritar. Estou à espera do sinal, de qualquer coisa com origem nas pessoas, nas viagens, nos lugares ou objetos que tenho guardado em casa. A queda de um livro nos meus pés ou na minha cabeça. Mas talvez não precise de um comportamento tão banal, as minhas cordas vocais a qualquer momento vão explodir em segundos e começo a dançar para as paredes do meu quarto observarem e colocarem um sorriso. A linha, com uma seta no início, vai virar-se na minha direção e perfurar o meu corpo. Agora limito-me a absorver e a descansar nos meus lençóis brancos, com algumas lágrimas e gargalhadas pelo meio. Apercebo-me, ao despejar um pouco da ausência e gelo, mesmo nestes dias primaveris.


Deixa-te de merdas, por favor - digo para mim mesmo.

29 março, 2013

Ausência


Faltam-me palavras para descrever este vazio. Falta sempre alguma coisa, um alimento essencial para as proteínas equilibrarem a saúde de um corpo ou um batom vermelho a qualquer rapariga de forma a melhorar o estado dos lábios.

Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.

Com espaçamentos bem sentidos nas minhas pulsações. De repente é como se todos os acontecimentos estivessem parados, a minha cabeça é um globo parado no meio de todas as horas. Costumam dizer-me para escolher quais as melhores horas em todos os meus dias e não consigo, neste momento, escolher qualquer uma. Cheiram a fumo. Graças à paragem e à ausência de palavras, que têm como destino a descrição desta falta de alguma coisa no meu peito, tenho uma vontade extraordinária de beber uma ou duas garrafas de vinho branco. Nasce em mim um desejo extremo, com uma intensidade igual à ânsia por álcool, de vomitar frases sem sentido nenhum e começar a chorar. Por não estar há demasiados dias na minha casa na capital, por não ter maioria dos seres humanos que conseguiram retirar alguma parcela de amor da minha alma. Passam-se seis, sete, oito dias e não aguento mais estas quatro paredes. Falta-me sempre alguma coisa. A mim, a ti ou ao outro ser humano que está a caminhar na rua. É isto: falta-me alguma coisa.
Desaparece chuva, estás a dar comigo em doido. Sinto a mergulhar nos meus pensamentos, tão férteis nestes dias de descanso.