25 novembro, 2010

esta noite vou olhar o espelho. vou abraçar-me contra esse reflexo desconhecido deste não-nascer que, sem querer, moldei. esta noite vou espiar esse pedaço de vidro que me quer fazer crer que o corpo que abraço não é senão o cadáver onde a minh'alma habita.
o vidro estoirou. mil estilhaços. um sem fim de olhares repetidos espalhados pelo chão.
cuidado, não te cortes

01 novembro, 2010

a tua ausência é a causa desta busca desenfreada por minutos de prazer amargo. são vazios todos os corpos que ao meu lado acordam nas manhãs deste outono caprichoso. entrego-me a quem me deseja, finjo desejar a quem me entrego numa ânsia insane de te encontrar, numa quimera ardente de fazer ressuscitar nos teus sonhos foragidos todo o meu delírio por ti.
a noite está fria e tu tardas a abrir a porta. de dentro do teu quarto ouço os gemidos que me pertencem. pára de fingir, esse orgasmo é meu e quem está por cima de ti não sou eu.

05 outubro, 2010

despejou o pacote de açúcar inteiro para dentro da chávena. ia sorvendo, num êxtase lento e impaciente, a infusão carmim que a luz do candeeiro a óleo projectava no seu rosto. tinha os ombros descobertos e o seu peito espreitava por entre os buracos de renda da camisa branca que vestia naquela noite. a imagem dela representava as mil quimeras que me assaltavam a alma. toda ela me perseguia incessante pelas ruas da cidade a uma hora demasiado tardia para as minhas fantasias não passarem da inocência de uns beijos foragidos. toda ela me levava ao encontro de uma sedução adiada por mil noites, ao encontro de um sem fim de chagas que ficaram por fechar.
os meus dedos já não saciam a sua ausência.

24 setembro, 2010

subitamente morri no teu desamor. dei por mim nas teias da minha habitual demência de só enxergar gentes sem existência aparente...e morri. morri sem me sentir. morri jurando que a tua inebriante solução de genes  não me tornaria a tentar jamais.

16 setembro, 2010

quem nunca morreu várias vezes ao dia ?

Liberto fantasmas a toda a hora, em todos os minutos e segundos. Dores fortes com origem num coração partido, quebrado no meio da rua provocam um mau estar, uma falha na minha coordenação que passa despercebida. Uma boa máscara de ferro sempre auxilia em surpresas aterradoras, onde só falta a presença de um palhaço diabólico com todo o circo assassino. Presos numa espécie de jaula, estes fantasmas aterrorizam o meu espírito, deturpam a minha audição, corroem o meu olhar e comem o coração. A caixa torácica guarda-os exemplarmente bem, não há escapatória possível a este tipo de ferro. Ossos brancos e húmidos, presentes num corpo tão apodrecido pelo desgosto.
Cada batimento do coração é o soluço, o pontapé, gemido do fantasma preso nessa caixa ramificada, musculada. De vez em quando sobem à mente, criando uma imagem temivelmente desconfortável. Umas lágrimas soltam-se em plena avenida, com o Sol a brilhar em cima da minha cabeça, sinto-me tão leve na presença de todos aqueles corpos que caminham ao meu lado. É como se não existissem, cada grito com início nas minhas cordas vocais e destino final no sistema solar não é sentido por ninguém. Como se não existissem, preciso de uma boas mãos que destruam as minhas defesas. Há alguns meses atrás houve alguém que as destruiu, plantou fantasmas de amor, regou, alimentou e desapareceu quando a ampulheta deixou cair alguns grãos de areia. Mal sabia que os meus ossos se restabeleciam, como se o cálcio entrasse numa quantidade em excesso. Não quero ouvir estes fantasmas que provocam um batimento no meu coração, uma ferida de proporções mínimas.
Os fantasmas abraçam-me profundamente, em plena liberdade. São autênticos pássaros que voam desesperadamente ou limitam-se a encarnar uma brisa gélida que envolve o meu corpo e beija a minha boca, secando-a violentamente. E não tenho lábios alheios que limpem esse sangue, suguem as minhas defesas hipócritas. Envolvam-me, fantasmas. Enquanto não tenho companhia, neste dia de Inverno. Não habitam mais o meu coração, soltos como criminosos culpados. Condenar-vos? Nunca. Sinto-me tão leve sem vocês, desfrutem de uma pseudo liberdade. O meu coração vai parando aos poucos mas ainda ouço alguns dentro de mim.
Deixei a avenida. Havia demasiados rostos que podiam observar-me, arrancar-me-iam a máscara de ferro. Derretiam-no e vendiam-no para ter um dinheiro extra, não fosse a crise comer os seres humanos. Mal o meu corpo cai na cama, os fantasmas furiosos explodem o meu coração, devoram-me. A minha pele estremece, os olhos fecham serenamente. Nunca ninguém me amou de uma forma tão violenta, chego a pensar se o amor também pode ser frívolo. Ou o canibalismo. Mas ao colocarem os dentes sobre um pedaço da minha carne, tudo se desvanece. Nada se dissolve, basta desaparecer numa leve brisa. O sangue mancha os lençóis, preciso de ti. Desculpa pedir-te isto mas preciso de uma pessoa em carne e osso ao meu lado. É a última vez que te faço este pedido, sinto-me tão morto sem ti.
Libertar fantasmas não é mais do que uma função essencial para a minha existência.
Quem nunca morreu várias vezes ao dia?

06 setembro, 2010

hoje entraste no quarto e não bateste à porta
foi a primeira vez que não bateste à porta
entraste e atiraste com a roupa para dentro do armário
foi a primeira vez que abriste o meu armário
deitaste-te nua a meu lado
fingi dormi
não tentaste acordar-me
as tuas pernas tocavam as minhas e embriagavam a minha líbido
a ponta dos teus seios desenhava mil encantos na pele das minhas costas e os teus lábios percorriam o meu pescoço sincronizados com a oração da tua respiração
hoje dei por mim a pedir a deus que não permitisse que me masturbasse
hoje foi a primeira vez que as tuas mãos o fizeram por mim

01 setembro, 2010

não suporto mais o odor deste quarto. sinto-me febril. a minha epiderme cobre-se de suores nocturnos e nódoas negras e chagas e sinais do tempo e do destino. sou uma puta triste e apaixonada e não há pior no mundo do que uma puta apaixonada. lembro-me incessantemente do tempo em que percorria a calçada desta cidade sedenta de uns braços que me envolvessem, sedenta de carne humana numa alma animal que me fizesse viver os mil e um pecados da luxúria. um qualquer corpo que me tomasse como um capricho mudo nuns quaisquer lençóis lavados. depois apanhava a roupa do chão, mudava os lençóis e fazia a cama como se nada tivesse acontecido ali, como se tudo aquilo não passasse de um espasmo de insanidade erótico numa realidade imaginária.
mas hoje, hoje o erotismo morreu em mim. morreu quando esta febre crónica se apoderou deste corpo demasiado cansado. hoje tive mil convulsões e náuseas e um ardor tal que desejei largar-te de vez e voltar ao orgasmo fácil numa realidade não tão doentia quanto esta.

12 julho, 2010

larguem-me! que raio faço eu aqui? onde estão os lençóis? e a janela? porque está aberta a janela? o meu corpo jaz sobre a retrete e perdi a minha líbido algures neste compartimento! mas larguem-me, eu quero perceber! onde está o corpo que tomei como meu? onde estão as mãos embriagadas que percorriam os meus seios em busca de sobridade? e a janela? fechem essa janela de vez! tenho os ossos partidos, o meu corpo não é  agora senão um saco de pele e fel e cera e sangue e excrementos e lágrimas e óleo e esperma e...larguem-me por amor de deus, larguem-me! cremem-me a alma se não me pretendem elucidar sobre o que se passou aqui! quantas vezes penetraram o meu corpo sem eu dar por nada? digam-me, filhos da puta! digam-me quantas não foram as vezes que morreram em mim espasmos de amor? quantas não foram as vezes em que despi corpos sendentos de que lhes fosse concedido o desejo de alguém lhes despir a alma? larguem-me! atirem esse corpo para debaixo da terra e fechem a janela! ninguém tem de saber de nada.

28 junho, 2010

morre! morre! morre!
morre besta personificada em carne humana!
morre num esgar de dor como nenhum outro!
morre lentamente num êxtase mudo!
morre! oh chaga eterna!oh cicatriz tamanha!oh nirvana inatingível!
morre hóspede sem convite!
morre romance cru, pornográfico!
morre em mim e espalha as cinzas pelo divã escarlate, as minhas estão à tua espera na carpete.

18 junho, 2010

hoje os ponteiros vão abraçar-se e a noite vai durar para sempre. só hoje, preciso que me arranques de mim e me conduzas através desses jogos de sedução ocos que só nos levarão ao orgasmo final. oh pedaço de ternura de que não me ouso desfazer! faz de mim o porto de abrigo dos teus sonhos eróticos! penetra-me com todos  os eufemismos do teu credo! suplanta-me com os disfemismos do teu fado e permite-me morrer na hipérbole desta intemperança voluptosa! esta gradação que de mim se apodera quando o teu corpo na minha alma toca com os dedos sujos do regozijo das outras, faz-me desejar agarrar a monogamia e prender-te em mim! 
já devia saber que, juntos, somos um oxímoro ignóbil.

15 maio, 2010

tudo em ti é efémero, excepto o encanto que a mim atiras sem dó nem piedade. tomara que as ruas desta cidade não tivessem perpetuado o nosso amor, doçura, era tudo tão mais fácil se se tivesse dissipado o teu odor da minha epiderme e se com ele tivessem morrido as palavras que teimam em permanecer. não há como escapar deste desejo ardente que me percorre incessante quando em ti os meus olhos posam.quiçá um dia pares com esta sedução oca que só adia o fim por mais um dia.                                                                   

14 maio, 2010

-posso abraçar-te?
-eu sou de vidro.
-eu abraço-te com jeitinho.
-tenho medo.
-medo?
-de me estilhaçar nos teus braços.
-se esse é o teu único fim, ao menos que seja comigo.

02 maio, 2010

é de mim ou tudo isto não passou de álcool em forma de gente? e o que restou foi um bafo intenso a vinho velho que me repugna e me faz desejar não ter dado tudo por mais um gole. embriaguei-me de ti e agora que já não estás aqui para me puxares o vómito, vou molhando a garganta com o que restou dos copos dos outros. todos os outros que vão abraçando comigo as garrafas de gim em noites como esta.

16 abril, 2010

hoje minh'alma está sedenta de palavras e romance. a minha líbido faz pressão sobre o meu clitóris e todo o universo que me rodeia se transforma em pornografia e excitação. os preliminares desta odisseia de carne e prazer são as palavras e o romance, preciso de agarrar esses espasmos da língua humana com a mesma força com que prendo o corpo do homem que me deixa o sexo molhado. tenho necessidade de ser acariciada e amada com a mesma intensidade com que me penetras vezes sem conta.
quiçá num dia como o de hoje percebas que esse verbo não soa bem com um pronome possessivo.

22 março, 2010

hoje dei por mim na tua cama. só deus sabe ao tempo que não me deitava nua nesses lençóis de flanela manchados com os orgasmos das tuas amantes. mas a carne humana é fraca e o institinto é estéril de auto-estima, portanto aqui estou eu, subjogada a este jogo ordinário de prazer e romance. é acutilante a intensidade com que me penetras, com que te apoderas do meu corpo, qual mero pertence teu. 
um dia, em lugar de arfar, mordo-te o pescoço.