21 maio, 2012

A Intimidade


É difícil conjugar estética com os desejos mais ambiciosos nos lugares mais escondidos e com mentalidades em linhas retas. É difícil acordar com um cabelo alinhado, sem mostrar sinais da desarrumação passada. Diria mesmo que é fodido amar sem limites, confiar, oferecer um pouco de intimidade a um outro ser humano. Quando muitos se preocupam com o que vestir às oito da manhã, existem outros que choram com o sabor de traição nos lábios, com os dedos a derreter graças a alguns papéis. Tomo o café sem saber o que está à minha espera, encantado para os meus olhos castanhos – sempre senti essa ausência como a alavanca para a descoberta, o anseio para acordar todas as manhã – e continuo a barrar o pão torrado com doce de morango, à espera que um corvo traga as notícias logo pela manhã, mesmo a associar este animal selvagem a um mensageiro da noite. Bebe-se um gole de café acompanhado, ao som de uma segunda voz a soltar pela boca uma série de sonhos ou com o som de um telefone. É uma segunda presença que se manifesta fisicamente ou tecnologicamente, não há margem para dúvidas que se oferece um pouco de intimidade em todos os momentos. Apesar de não existir carne à minha frente para tocar, aparecem palavras escritas por mensagens de um ser a 300 quilómetros de distância. Dar intimidade requer companhia, dizem as minhas células. Ser humano que ocupa o trono a partir do momento em que se gastam minutos de atenção com ele.

Oferecer intimidade é dar a uma segunda personagem o papel de protagonista, equivalente a um nobre ou mesmo a um rei por se oferecer as entranhas, os segredos, os acidentes domésticos – um pouco de café na roupa, as mãos recheadas de água que são limpas às calças, a queda quase eminente contra o chão devido aos sapatos escorregadios – equivale a uma coroação através da admiração profunda, os sentimentos florescem à velocidade da luz. Ou diria, a uma velocidade lenta? O botão de uma rosa demora algum tempo a abrir. Esses minutos, essas horas, esses segundos pulsam-me na pele, no espaço em que dois seres humanos criam uma bolha de intimidade. É difícil quando essa bolha sofre cortes, o oxigénio entra e invade o ambiente, os meus olhos castanhos entram em contato com um novo ar, morrem com a luz do Sol. É complicado superar o desalinho dos fios de cabelo e tentar perdoar algo que corroeu essa intimidade.


Sobe-me um pouco à garganta o ácido do estômago de cada vez que recordo as palavras recheadas de veneno. O veneno da cobra que encantou Eva no Paraíso. Está na Bíblia, quase todos conhecem. Refiro este livro, o mais conhecido de todos, não para banalizar mas para saber que me afeta. Tudo o que me toca, tudo o que me faz pensar é referido. Assim como escrevo sobre a minha mãe, o meu pai, a minha família, o amor da minha vida, escrevo sobre a Bíblia. Quando quebro a intimidade com alguém sinto vontade de rezar, de me ajoelhar no chão nestes estranhos desejos que tantas vezes passam pela minha cabeça. De sussurrar a Deus, de senti-Lo nos meus braços até não conseguir respirar, de chorar e afundar-me com Ele. Coloco-o em maiúsculas para não sofrer represálias, como é evidente. E quero sussurrar no momento em que engulo intimidade, de todas as esquinas e recantos.

Acordo todos os dias a pensar quais vão ser os sapatos que vou usar nesse dia. Muito depois do Sol nascer não sei como estão os meus olhos castanhos. E choro porque te perdi e há algum tempo que não conseguia soltar as palavras. A nossa bolha de intimidade perdeu-se no horizonte e, pela primeira vez, o oxigénio atormentou as minhas cordas vocais. Escrevo tão atentamente e desafortunadamente porque há alguns dias atrás não sabia o que escrever, não encontrava as frases ideais, identificação era algo que não fazia parte do dicionário sempre que olhava para os meus rascunhos. Agora vejo, doem-me os ossos das mãos por sentir o significado da intimidade. Equivale a falar, a estar acompanhado, a mostrar os meus cabelos desgrenhados, os restos de tintas que ficaram em alguns fios. Sem medo de represálias, sem juramentos, sem análises. Nunca existe uma avaliação de uma das partes quando a intimidade perfuma o ambiente. É fodido amar sem limites. Mas chega a uma altura da vida em que é necessário assinalar as fronteiras.


Escrevo isto para ti, minha amiga. São estas as palavras que te quero oferecer. Sem uma cor, apenas com um cinzento e uma declaração de amor. Tomo o café e o telefone não toca, prefiro a companhia da minha mãe, mesmo que seja em sonhos já que a sua hora de entrada no emprego é às seis e meia da manhã e nunca acordo de madrugada.

3 comentários:

Paula disse...

Detesto esse sentimento: 'perda de intimidade'. E eu não gosto de detestar coisas acho que detestar é um sentimento muito forte pelo amargo de boca que sempre deixa a suscitar um acordar turbulento de raiva e rancor. Mas não o consigo evitar! Aprendi a andar às curvas com ele entre músicas, muitas páginas escritas de desabafos comigo e raiva rancorizada, muitos caminhos que são traçados não comigo mas sozinha com os meus pensamentos.

Mas sabes porque é que isto acontece é porque acredito nas pessoas. Acredito nas pessoas porque aprendi a confiar nelas e a fazê-las parte de mim. É por isso que é fodido amar sem limites por confiarmos e deixarmos tanto de nós nessa pessoa, nessa relação, nessas coisas...
Quando por momentos a relação se modifica até achamos que isso foi em vão, que confiámos demais, que partilhámos demais... Mas sabes é isso que nos faz crescer, evoluir, que faz de nós pessoas que vivem e não se limitam a existir. Por isso pode ser fodido amar sem limites, pode custar, pode doer, podemos por momentos (só momentos) achar que desistir é a melhor solução. Mas acho que falo pelos dois quando digo que nem seriamos nós se não fossemos assim desta forma. I am right?

Gonçasonblog disse...

David, tenho-te a confessaar que tens um texto introdutório extraordinário, diria mais, o texto todo. Abraço

David Pimenta disse...

Ler o que vocês me disseram sobre o texto deixa-me sempre tão bem, nem vocês sabem o quanto!