19 dezembro, 2014

Da ode ao passado e a todas as amizades destruídas


(escrevi-te com este senhor na cabeça. Walt Whitman, inspira-me a cada dia que passa. começo a pensar se a minha verdadeira religião pertence à literatura e aos grandes escritores e poetas, ao invés das figuras religiosas, a Ele. perdoa-me porque não quero destabilizar qualquer presença superior, colocada na bíblia mas não deixo de me sentir em casa à medida que abro um bom livro e as páginas começam a ser viradas, transformam-se em amor, do mais puro que senti por objetos e por uma arte. levam-me, Whitman, antes de começar a tentar escrever)

O passado é, na maioria das vezes, um chão cheio de cacos de vidro. Pedaços de espelhos partidos espalhados pelo chão, num espaço que os meus pés descalços circulam. O caminho faz-se mentalmente, nas horas em que nem os livros ou séries conseguem acalmar-me e deslumbrar-me, sem mãos dados a nenhum ser humano do presente ou futuro, esse cada vez mais próximo. O passado corta-me um pedaço do lábio, esvazio-me de sangue sujo para sentir a dor de escolhas pessoais ou alheias. Quando o chão está cheio dos nossos cacos de vidro, provenientes das nossas escolhas, há sempre forma de encontrar uns sapatos para evitar as feridas nos pés, sejam de boa qualidade, tenham péssimos acabamentos ou materiais sem resistência. A fatalidade reina nos cacos de vidro espalhados por uma outra pessoa, que come um dos nossos órgãos, levando um pedaço da minha essência. O passado é um chão cheio de cacos de vidro para me cortarem as costas, na brisa suave embaladora dos meus sentidos. Um corpo despido de preconceitos, sozinho, no meio de uma divisão sem cómodas ou armários. O meu corpo permanece em convulsões, à espera de uma das tuas palavras para voltarmos a conversar, a partilhar a mais profunda das intimidades. O passado é, na maioria das vezes, uma armadilha. 

Nunca te escrevi por pensar que devias ser tu a corrigir os erros que nos colocaram nesta ausência. Não há palavras, não há carinho ou ternura em poucas palavras trocadas, mesmo as enviadas. Há tempo para presenciar a tua evolução sem mim, tenho quase os olhos fechados à tua presença digital mas não resisto em dar uma espreitadela. A nossa relação não envolvia beijos na boca, orgasmos intensos ou brincadeiras com sexo, estava longe dessas ações. Uma intimidade confortável suavizava as nossas partilhas, desabafos reles sobre as nossas curtas vidas e seriedade pelas horas de maior fragilidade. Escrevo-te por me teres abandonado o barco e por nos teres transformado num passado, em que os teus cacos permanecem no meu chão. De forma voluntária, na tua cadeira, decidiste deixar cair a maioria dos espelhos que compunham a nossa sala de estar. As janelas, esplendor de um novo dia brilhante, foram fechadas e o ar nunca mais circulou na nossa casa. A nossa casa singela, a nossa amizade pura. Os vidros espalharam-se pelo chão, rodaram durante horas num circulo pouco percetível ao olhar humano. Os meus olhos ainda hoje choram pela nossa amizade, instalada no passado, desmaiada no chão com cacos de vidro. Escrevo-te pelo constante medo em ouvires, de forma altiva, a minha sinceridade – uma característica capaz de incomodar e destronar o teu universo cor-de-rosa, um mundo criado na tua cabeça para viveres melhor. Nem sequer tentes dizer mentiras, apontar para o meu possível engano, já que os anos em que vivi ao teu lado (mesmo de uma forma digital, o romance da presença e do tato termina e nem conseguimos fazer nada para impedir) deram-me capacidade para te conhecer como a palma das minhas mãos.

Tinha gosto em saber se soletras o meu nome, tenho as minhas dúvidas, cada vez maiores sobre este comportamento. As minhas delicadas mãos, com unhas roídas, pegam num dos teus cacos de vidro e cortam um pedaço de carne do meu lábio inferior. Para, de todas as vezes em que decidires passar os teus lábios na minha bochecha, sentires o cheiro a sangue. Hoje não se canta a amizade. Tinhas tanto gosto nos momentos em que escrevia para ti e nunca te mostrei as dezenas de textos que fiz, a pensar em ti. 

17 dezembro, 2014

A tua língua tende a sacrificar-me a sanidade


Os frutos vermelhos, amadurecidos pela passagem do tempo, não permanecem muitos dias na base de vidro da tua sala de estar. Uma cozinha amarelada pelo fumo dos cigarros soltos, em reuniões intermináveis e conversas infinitas. Paredes descascadas, em que pedaços de tinta caem em noites de tempestade à medida que os teus dois gatos negros percorrem cada canto, à procura de um novo tesouro ou de um novo recanto para adormecerem. Restam as maçãs verdes, numa base de inocência firme e longe de enfrentarem a brisa diária, carregada de injúrias e embates, que lhes leva a cor. Mas as tuas mãos lançam-se a cada maçã que tende a amadurecer, para levares aos teus lábios e não devorares em demorados minutos. São minutos de transpiração, de sofreguidão capaz de travar as minhas acções momentâneas. 

Se me percorresses a barriga com a carne dos teus lábios ou as minhas mãos com a tua respiração, era capaz de comandar um exército. Ao contrário da rigidez, cobria-os de álcool para olhá-los sem roupa. Despidos de sentimentos ou de preconceitos, a ver-lhes o sexo inchado e repleto de desejo por sexo. Não pelo meu corpo mas pelo meu objeto sexual, conservado até agora dos maus olhados, um desejo animal e carnívoro. A tua língua tende a sacrificar-me a sanidade. O teu peito a atrasar-me a respiração pelos poucos quilómetros que nos separam. Escorrego dos lençóis e entrego-me a uma santidade, desconhecida à minha mente. Fecho os olhos para desapareceres.

Mas os teus dentes trituram a pele da maçã vermelha, saboreiam-na vagamente. Os teus dedos arrastam-se pela base de vidro em que todas as maçãs permanecem. A porta é fechada e a escuridão envolve a cozinha amarelada. Falta oxigénio.

14 novembro, 2014


(da nuvem de lixo, da cultura popular e com capacidade de chegar a milhões de pessoas, esse lixo que perturba o meu coração e mexe com os meus órgãos pela vulgaridade. Uma vulgaridade que tende a comer-me o requinte, nesta sociedade cada vez mais negra)

De tempos a tempos necessito de estar algum tempo sem escrever, sem colocar nada cá para fora. São demasiadas horas, felizmente, a escrever dentro de um escritório. A escrever para dois projetos da consultora para a qual trabalho nestes dias, lugar onde passo a maioria do meu tempo como qualquer português ou portuguesa com sorte em ter um emprego. Vejamos, chamam sortudo a quem sente o local de trabalho como um lugar seguro e assegurado, pelo menos por uns bons anos ou meses. Ser sortudo quando devia ser um direito de cada ser humano que caminha nesta sociedade? E é nestes tempos de pausa em que os meus olhos rodam em círculos, como uma colher a mexer o café. A remexer o açúcar que se mistura com o café negro, quase queimado pelas mãos descuidadas da empregada. Uma empregada que me olha de cima a baixo, a avaliar a minha confiança pela aparência, pela barba que deixei por fazer e na roupa mal combinada. Está um dia chuvoso lá fora, em Coimbra, mais propriamente nos arredores onde os meus pais vivem.

Permaneço deste lado, à espera que uma vaga de transformação liquide os vestígios de infantilidade que podem restar em mim. A colher continua a mexer o café neste dia em que a trovoada demonstra a força de uma natureza incompreensível aos nossos olhos.

14 julho, 2014

Histórias


História da minha vida.

07 junho, 2014

A perfeição dos meus dias



Nunca te esqueces de todas as palavras colocadas nas páginas do meu corpo. Soltas, rasgadas, livres. Tento rechear as minhas páginas com adjetivos para te encantar e ressinto-me sobre este pormenor, como se não fosse normal desejar atingir um nível de perfeição elevado para ti. Perfeição só é alcançada por níveis. Alguns seres humanos não conseguem alcançar nem a metade do nível máximo, pobres desgraçados que desfazem o próprio corpo com as lágrimas que deitam fora. Outros conseguem chegar a essa metade ou até um pouco mais do que isso e enchem os meus olhos castanhos de alegria, com os raios solares a oferecerem vida às minhas mãos. E eu, juntamente com outros seres humanos, tentamos chegar ao fim. Um fim bem encostado à perfeição. Escrevo-te, com um sorriso no meu rosto desfeito pelo vento destes últimos dias, com o cabelo enorme e por cortar. Escrevo-te com palavras de proletário e pobre de espírito, a precisar de mais umas horas de sono e uma ambição de ter a tua alma ao lado da minha carne. Essa sensação que me é capaz de levar à perfeição. 

Perfeição é um lugar, um recanto verde e recheado de pássaros a cantar, uma praia sem ondas violentas e pessoas a caminharem com um livro nas mãos. Perfeição é ter cabelos louros, uma pele suave, um corpo intocado, é dar-te tesão quando não tenho nada mais a oferecer-te, é tocar nos teus lábios e saboreá-los quando tenho sede. A minha geração é a da velocidade, dos que não têm paciência e cedem aos impulsos, como a minha amiga citou um filósofo há uns dias. A minha geração quer encontrar a perfeição num momento em que é impossível, por não conseguirmos juntar um pouco de dinheiro. O cigarro está sempre nas nossas bocas, o álcool nas veias e queremos atingir, mesmo assim, atingir a perfeição. Esse lugar vazio, buraco escuro, furacão, bairro destruído, esse Sol que ambiciono. Repito a palavra, mais uma vez e mais uma vez.

Ao tentar encher as minhas páginas de adjetivos e palavras corretas, consegues levar-me pelo mais perverso e sexual de que sou capaz. A tua língua passa por todo o meu corpo, desejo-a todas as horas sobre mim. As tuas mãos passam pelas minhas e têm a capacidade de parar o lápis que trago comigo. É nesses momentos em que me apetece colocar um cigarro nos lábios e acende-lo.

Sou tão jovem para sentir este amor por ti. Sou tão irresponsável, a meu ver, para estar tão apaixonado por ti. Especialmente por todos os centímetros da tua alma. Mas ela não em escapa, permanece nas minhas mãos em todas as horas. Deixa-me amar-te um pouco mais, todos os dias da minha vida tão curta. Daqui a alguns anos posso estar morto e quero ir satisfeito, se isso acontecer.

07 maio, 2014

Para quem já te perdeu


Houve uma época em que decidimos descansar durante alguns meses. Nessas horas o nosso espaço foi invadido por um silêncio demasiadamente perturbador, com capacidades de me deixar pouco à vontade e adepto da discussão sem mero sentido, a refrescar todos os sofás da nossa amizade. Durante todas as noites fomos assistindo à ausência da luz da lua nos nossos caminhos de ouro, tal as travessias de Oz, e nunca percebemos porque é que as nossas mãos deixaram de se tocar. Nesses meses, ouvia unicamente o eco da tua voz, numa palavra tão distante, tão provocante por permaneceres no fundo do nosso oceano. Os relógios tocavam todos à meia-noite, na passagem para um novo, e nunca ouvia os teus novos pedidos e desejos. 

Desenganem-se todos os seres que idolatram uma amizade sem deveres, sem obrigações humildes. Unicamente a solidão comanda a ausência de obrigações, por um corpo não ter responsabilidades por um outro, diferente do seu, com órgãos recheados de novo sangue e palpitações. A tua voz, minha amiga, encanta-me todos os dias, mesmo a imaginada ao ler uma das tuas mensagens. Os teus sorrisos encantam-me o espírito, nos minutos em que as ondas teimam em revoltar os meus pulmões, recheados de cinzas do cigarro na minha boca. Somos, em dias chuva, a insanidade desgarrada e os olhos recheados de lágrimas brilhantes. Para vocês que não sabem, as lágrimas brilhantes provêm de uma amizade denominada como sincera. Não há curvas nas nossas palavras, unicamente linhas retas para seguirmos sempre em frente. O vento não nos deixa cruzar o olhar com os nossos fantasmas do passado, esses que gostam de voltar às caixas que abrimos num passado tão distante. 

É tarde e tenho agora um cansaço, proveniente de um dia de trabalho, que teima em infiltrar-se nos meus olhos castanhos. Olhos que teimam a continuar a ver para ti, por ti. Somos a luz e nunca mais vamos voltar à época em que fechámos os nossos lábios e nunca mais se sentiu um movimento.

Cartas rápidas de quem perdeu amizades.

14 abril, 2014

Aos bons amigos



Novos ventos fazem esvoaçar as minha entranhas em pleno Cais do Sodré. Os meus refúgios, a força representada pelas minhas velhas amizades, continuam serenos e recheados de erva, tratada por duas mãos. São as nossas mãos, todas juntas e a tocarem-se em plenas ruas de Lisboa, que revelam os nossos maiores segredos e a cumplicidade que acumulámos durante alguns anos. Os sorrisos não foram libertados em vão, deitados no meio da rua. Neste momento, em que a maioria de nós tenta encontrar um porto seguro num país tão destabilizado e ingrato para os mais jovens, sinto-nos com mais força e prontos a colocar a armadura para enfrentar políticas ameaçadoras.

Ainda não nos falta o pão, estamos assegurados por um ano pelo menos no mesmo lugar na maioria dos casos. Tenho um sorriso plantado nos meus lábios por saber que, se for necessário, vamos dar o pão na boca a um dos nossos. Somos um nosso, plantámos a nossa equação de energia ainda nos corredores daquela faculdade em Coimbra. Cidade que tendo a detestar com todos os meus condões, com todas as minhas vontades mas é a nossa cidade. Foi naquelas ruas, tão negras desde a nossa saída, que trocámos conversas, promessas ingénuas, obscenidades, perversidades e mesmo desejos sexuais, com alguma cerveja ou café a acompanhar se fosse preciso. Livros da faculdade caíam-nos pelo buraco negro das malas. Mal lhe tocávamos se for preciso mas estudávamos uns com os outros, numa camaradagem que aparece agora tatuada nos nossos caminhos.

Novos ventos esvoaçam os meus poucos cabelos castanhos e dão vida às minhas veias. O que seria de mim se estivesse e encontrar a felicidade numa ilha isolada, sem vocês, questiono-me. Existe sempre um hoje para nós, vai estar plantado no futuro próximo já que não conseguimos calendarizar os nossos desejos. Os futuros distantes não existem, as ideias concretas e seguros estão fora do circuito para nós. Mas nós estamos cá, prontos a limpar lágrimas. Sejam de tristeza profunda ou de felicidade pura.

A todos os meus bons amigos. Os que foram e os que continuam ao pé da minha alma.

26 março, 2014

O padrão geométrico de todos os corações


Os teus braços, as minhas mãos, os meus lábios quase carnudos e os teus cabelos castanhos, desgrenhados logo pela manhã, os nossos olhos inchados ao despertar numa mistura incontrolável de cheiros. Nos lençóis da minha cama, com os gatos das vizinhas a miarem e a lutarem à minha janela. São esses alguns dos sons e movimentos que cheiramos pela manhã - nesta confusão de cheiros e sons que sinto de madrugada, ainda o Sol acena por todas as nuvens cinzentas no céu presente no infinito da minha cabeça. Os meus braços a agarrarem os teus ou a minha língua a saborear o teu peito trazem um turbilhão às minhas semanas, é daqueles tornados recheados de carne e sangue num zigue zague tremendo. 

Que costurem aqueles que clamam que as relações não devem ser um padrão geométrico, segmentos alternados. São tantos os seres humanos a falecerem no meio da rua, a esvoaçarem das aves que sentem um prazer, inocente a meu ver, de apararem. Segurar, com os ossos das asas, um corpo quase morto forma uma monotonia. O chá ferve todos os dias por volta das cinco, se saíram cedo do trabalho. O alarme de alguns carros despertam na madrugada, por serem sempre as mesmas mãos a tentarem arrombar. E sabe bem acender as luzes às quatro da manhã para afastar fantasmas ou os corpos que elaboram sempre as mesmas artimanhas. 

Os meus lábios encontram os teus, logo pela manhã, e perpetuam o lugar de paraíso que és. Os meus dentes tocaram na tua carne, numa tendência de canibalismo que nasce em mim todos os dias. A cada dia apaixono-me cada vez mais por ti.

10 março, 2014

Cada olhar ainda é o primeiro



Os dias são cheios de ti, da tua carne, dos teus olhos castanhos e das tuas palavras.
Nunca me viste dançar no meu quarto, na hora em que estou a ouvir os meus discos predilectos, mas um dia vou deixar-te, por ser tão relaxante. Liberto fantasmas e tensões em menos de cinco minutos, depois de um café com algumas das minhas almas gémeas. Ao contrário do que possam dizer, as almas gémeas também se encontram nos amigos. Nos seres que nasceram para abraçarmos, para tocarmos com as nossas mãos e para acolherem as nossas lágrimas. Sei que elas acolhem as minhas frustrações nos grandes baús, colocados na veio mais desprezível do coração.
Continuas a seduzir-me, tantos meses depois. Cada olhar ainda é o primeiro.

06 março, 2014

Ao mergulhares nas minhas águas



Nunca mergulhaste em mim, nas profundezas das minhas águas e nos meus encantos de espuma, superficiais como toda a espuma do mar. O Sol renasceu no horizonte e derrotou todo o frio inquietante, temperaturas de um inverno vestido com um fato de ouro, a iludir todos os crentes e sôfregos por um raio solar. Sentiam-no a brilhar lá ao fundo, em territórios longínquos, no instante em que gelava todos os ossos do corpo. Encanto-me com os teus lábios, perdidos na rouquidão do teu chamamento em dias de nevoeiro, apaixona-me a tua delicadeza em dias de tempestade. Falta-me um casaco até aos pés nesses dias, em que molhas os pés e não consegues entrar nas ondas violentas, recheadas de forças, nascidas no meu interior hercúleo. Injetas-me adrenalina em todos os momentos de discussão e de paixão. Ao passares a língua pelo meu peito, ao saboreares a minha pele e ao gritares para mim, à espera que corrija um defeito humano. Como se os defeitos não fosse humanos, num universo paralelo. Constróis uma relação ao meu lado, a mergulhares em águas desconhecidas. Passa-me a mão no rosto, prepara-me a pele moreno e os cabelos castanhos, o sal é destruidor e corrói-me a graciosidade. 

Ao entrares nas minhas águas salgadas vais desejar mergulhar de olhos abertos. Bem abertos para assimilares todos os meus recantos, os meus segredos e as mentiras escondidas no fundo de um baú, presas ao passado, arrumadas até à minha morte. Arregala os olhos para me veres, para sentires a minha respiração, o dióxido de carbono libertado, imaterial, gasoso aos olhos humanos. Os meus olhos ternos alimentam os teus peixes, as tuas águas e qualquer outro ser vivo. Cigarros, cigarros são agarrados pelas tuas mãos e colocados nos teus dedos para assimilares todo o fumo. Não te deixes poluir, o teu reino e a tua vivacidade sagaz. Entra em mim, flutua, deixa os teus caracóis dissolverem-se pelos anos ao meu lado, com a minha alma a acompanhar-te todos os dias. Dias recheados de sol, dias inundados pelas águas da chuva. Chuva cada vez mais poluída pelos carros que circulam nesta cidade horrenda e violentamente bela. Foge para a praia, quero correr atrás de ti. Abraça-me, mergulha comigo. Os dias somos nós, cada partícula do nosso corpo, cada comportamento. Os dias morrem em nós e nós morremos com eles. 

17 fevereiro, 2014

Exílio


Leva-me ao teu exílio, às entranhas da tua caixa torácica. Num mundo escurecido por todas as construções que são elaboradas, todos os dias pela maioria dos seres humanos que se sentam nos carros e conduzem, a minha única salvação é o interior do teu corpo. Viajo a partir dos teus lábios, dos teus beijos, esses a percorrerem o meu pescoço e todo o meu corpo. Não deixo as minhas mãos escaparem dos teus lábios carnudos, os meus dedos envelhecidos pelo meu vício de roer as unhas e todas as peles. O Inverno clama pelo meu sangue, a cair dos meus dedos nos momentos em que apanho os autocarros, ao virar uma página do livro aterrador. Diz o meu nome quando passares a tua língua pelo meu queixo, antes de encontrares a minha. Não tenhas medo de levar-me ao teu exílio, ao lugar onde te refugias livremente de todas as loucuras desenhadas pelos desconhecidos. Construímos a nossa realidade com as nossas vivências e alguns desconhecidos têm o condão de nos alterar os planos, quando decidem cair ao pé das linhas do metro, dos comboios. 

No segundo dia, vimos a luz do nosso dia. Ao tocar nos teus ossos, sem o calor da luz no dia na tua caixa torácica, senti a vibração da tua voz. Permaneço nas tuas cordas vocais para te suavizar a voz, prejudicada pelo fumo dos cigarros. Tira toda a nicotina das unhas antes de me levares só para ti, continuo a fazer pedidos mesmo quando ninguém me pede a mim nem a ti. No terceiro dia, vimos o céu. Juntos.

05 janeiro, 2014

A salvação no diário dos desesperados e toda a minha loucura a pregar-me partidas


Salvação, leva-me para os teus braços. 

Existe sempre uma salvação ao virar da esquina para a maioria das pessoas, em épocas de horrores e crises existenciais. A salvação que me vai purificar e transportar-me para o reino dos céus é pura, de uma cor branca, com brilhos e um calor, daqueles ternos que se sentem no nascimento do sol. O sol começa na minha janela e termina novamente na minha janela. Mantém uma distância de segurança, por existir sempre o perigo de ataque da minha parte. Talvez tenha de receio da revolta humana durante a hora da verdade, em que todos vão descobrir a não existência da salvação ao virar da esquina. Nesse momento, num futuro demasiadamente próximo, vão explodir vidros para cortar os mais fracos de carne e proteger os mais fortes de espíritos, numa seleção natural da espiritualidade (ou será, como dizem alguns, da natureza?). Salva-me, preciso desesperadamente de ti para não andar nos ciclos viciosos da minha cabeça. São as tuas palavras que me trazem ao plano físico, no meio de todas as sobrenaturalidades dos meus sonhos. A realidade atinge-me quando estou deitado na tua cama e o toque me apaixona um pouco mais. Dissolve sorrisos por cima do meu corpo e da minha alma, é a experiência que quero colocar em prática.

No momento em que bebo um sumo de laranja, a partir da palhinha preta, sentado à minha janela pressinto a salvação em todas as janelas à minha volta como se a salvação fosse o desejo e cobiça alheia. Desejo pelo meu corpo e cobiça pela minha beleza e boa forma física, essa que só existe nos meus sonhos. Numa realidade em que não existe músculos no meu corpo, sento-me à varanda a tocar nas palavras dos meus livros e a desfrutar dos raios de Sol. À espera da minha salvação, ainda materializada nos meus livros e personificada nos meus desejos ambiciosos. Tudo não passa de uma loucura e a única sanidade são os teus lábios neste ciclo vicioso, em que regresso sempre aos teus braços e os meus cabelos continuam revoltados com a brisa marinha.

Salvação, leva-me para os teus braços. Ainda continuo à procura de Deus, em conversas antes de dormir mas não obtenho respostas às minhas ansiedades.

02 janeiro, 2014

2013

Poderia começar este ano com o novo número, ditador de uma mais um ano a acrescentar à minha idade oficial no momento em que setembro embater na minha carne, nos meus lábios e na minha respiração. Sentir um ano a passar é, só por si, merecedor de agradecimento e de celebrações. Ouço os barulhos e contagens para o novo ano chegar com compreensão, é uma meia noite diferentes de todas as outras ao longo do ano por ser tão especial e física aos olhos das pessoas. Começar este novo mês nos Aliados, no Porto, é uma bênção para o meu coração e para os meus olhos castanhos, cada vez mais abençoados pela clarividência. Ainda sinto o champanhe nos meus cabelos e todos a berrarem de alegria na principal praça do Porto, o amor e a amizade a berrarem no meio da rua.

Retiro a névoa dos meus olhos a cada ano que passa sobre a minha alma e construo cada vez mais um sorriso no meu rosto engelhado, desgastado pela poluição sonora das ruas e da maldade dos outros seres humanos. A maldade que o ano passado me fez ver em cada gesto alheio, cada palavra que ficou por dizer, contactos que ficaram na lista telefónica, esquecimentos que se ditaram fatais para o meu coração. Envelhecer, mesmo aos vinte e dois anos, é uma procura constante. Uma procura pelos sentidos da vida, pelos melhores caminhos a seguir. Trata-se de uma procura pela independência financeira que tarda a aparecer neste país. Juntamente com algumas lágrimas e vibrações de frustração, envelhecer na procura de um emprego e de satisfação profissional enjaula-se na pele e nas mãos, à medida que se percorre as ruas para entrar em edifícios e sentar em salas, onde estão seres humanos prontos a examinar-nos, depois de mais de 1500 candidatos. Demasiados pássaros, a abrirem asas e cantarem, para recolherem o maior número possível de sementes e milho. O vento sopra cada vez mais e os pássaros sentem-se a envelhecer, a ver passar os anos. Os planos para voarem para terras distantes, à procura de uma felicidade eterna, personifica-se cada vez mais, especialmente, em alguns dos meus amigos. Amigos, meus queridos, aos quais quero cuidar das asas mas não consigo. Quero cuidar das vozes brilhantes, prendê-las na comunidade, e não sou nada para o fazer. Sentir o novo ano no corpo equivale a ter esperança nas mãos e usá-la, esperança para ficar, viver, dançar e espantar os maus espíritos.

O ano passado trouxe a mágoa profunda de falhar no campo do amor, do companheirismo, mas fez-me encontrar-te, apaixonar-me e saber que sou merecedor de um bom final. Sei bem que aos 22, ninguém dita um final recheado de boas energias. Estou longe, muito longe de qualquer final da minha vida mas encontro-me numa linha contínua de prazer e amor neste preciso momento. Com os teus olhos castanhos e cabelo encaracolado soube, verdadeiramente, o significado de companheirismo nas minhas acções. Somos, neste momento, uma combinação de um amor claro e brilhante no meio das nossas discussões. Quando dançámos em julho, estava longe de imaginar que desejaria tanto a tua presença. Não há lugar unicamente para queixas, quero entrar neste ano a celebrar afincadamente a entrada do verdadeiro amor nos tecidos da minha alma. É neste momento em que todos os buracos, tecidos pelas traças na minha personalidade, são enterrados. É essa a sensação que tenho no meu sorriso. 

Estou cheio de amor na minha vida e agradeço aos meus pais, a ti, aos meus verdadeiros amigos que ao fim de tanto anos ainda se mantém ao meu lado e aos novos que surgem e constroem lugar no meu coração. Que venha 2014, que me consuma o corpo e me envelheça. Todo um ano é recheado de imagens. Que venham mais, só para mim.


15 dezembro, 2013

As palavras que demonstram a minha insanidade em relação ao meu amor que tenho por ti, pela tua alma



Deixa-me beber do teu sangue para chegar à eternidade e ao reino divino, colocado, para alguns, ao simples gole de álcool ou no cigarro em cima da mesa. Nestes tempos, com estas terras desbravadas, não sabes como controlar as minhas explosões de loucura, renascidas das minhas experiências. Resume-me as semanas, os dias, os meses, os anos para o meu olhar voltar a brilhar no minuto em que conversamos.

Hoje somos a simplicidade dos nossos beijos e dos nossos abraços. Não sinto necessidade de embrulhar, corromper as minhas palavras com magia das metáforas, personificações ou adjetivações por sentires as minhas palavras no teu peito. Somos a simplicidade dos nossos corpos, os músculos belos para os meus olhos castanhos. Mistura-te na minha alma, és o herdeiro das minhas entranhas.

Chegámos ao nosso reino. Construiremos agora a nossa casa, somos os gladiadores a combater a monotonia e a espalhar a boa nova por todos os descrentes. Chegámos a nossa casa e não resistimos às nossas almas, consumidas por investidas corporais. Chamam-lhe de sexo. Hoje somos a simplicidade dos nossos beijos, dos nossos abraços, dos nossos corpos e das almas. Essas que chegam aos céus todos os dias. Ouço a tua voz ao telefone. Deixa-me chorar, com a paixão a deixar marcas no meu corpo, instrumento para esta vida. Abre-me as portas do nosso reino.

06 dezembro, 2013

Consome-me de uma vez


Consome-me. Consome-me com a tua boca, com os teus lábios, os teus olhos castanhos e a beleza que emoldura o teu rosto e o teu corpo. Consome-me antes de me cobrires com a tua alma, os tecidos que amaciam os teus órgãos e dão um sentido a toda a nossa existência como se houvesse qualquer uma. Os seres humanos necessitam de uma lógica, um caminho para aprofundarem as simples ações: comer, respirar, tomar banho, estudar, amar. Deixa-me desmaiar no teu corpo e respirar os teus cabelos antes de fechar os meus olhos cansados. Nós, adolescentes ou eternos jovens, abraçamos a paixão e o amor para experimentar a intensidade e a plenitude. Falta-me a inocência ao teu lado. A tua presença deu-me a conhecer a pose para a eternidade, de frente para as câmaras a relembrar-me da viagem das nossas almas ao longo das gerações. Quebramos agora o que chamam de natural só por nos apaixonarmos, pergunto-me o que quebrámos anteriormente. Deixa-me agarrar na tua boca e consumir-te, alimentar os recantos do meu corpo e do meu coração para viver mais uma vez no meu silêncio. O meu barulho sempre me incomodou até chegares.

Consome-me com a tua boca. Consome-me de uma vez apenas e sem pressa. Conhece-me até à nossa eternidade, nesta leve brisa.