
Sai do meu corpo na hora em que adormeci com os auscultadores nos ouvidos, com a divina Cat Power e a sua voz melancólica e cansada a ecoar-me por todos os tecidos na alma. As ameaças de destruição interior estavam em cima da mesa, o desastre do passado tombava sobre as minhas pernas e coração, na medida em comparar-se a uma jarra recheada de água prestes a cair para um ser humano. Lábios feridos, cabelos desgrenhados e olhos fechados para uma relação sexual com o meu espírito. Elevei-me acima da minha mente e deitei-me sobre o corpo estendido na cama, esse que tinha falta de cuidados da minha parte. Faltavam-me as lágrimas para chorar a separação espiritual que se manifestava na minha existência, com a visão sobre os meus cabelos castanhos, a boca fechada, o peito parado. Como simples personificação de uma parte da minha existência, sob a forma de espírito, tentava agarrar nas minhas mãos para sentir vivacidade, movimento em alguns segundos mas não restava nada. Começou a chover, os meus ouvidos conseguiram detectar, e o coro do meu funeral fez-se soar, a minha agonia continuava à medida que os ponteiros do relógio se moviam.
Sentei-me à janela, a escutar o que a natureza tinha para me revelar enquanto o som das músicas da Cat Power continuavam a bombear o corpo deitado sobre a cama, sem qualquer espécie de vitalidade. A ausência de lágrimas incomodava, magoava. Tratava-se de incapacidade corporal já que me sentia completamente incompleto, nesta ironia de palavras que utilizava e que arranhavam a minha conduta. Completamente incompleto, com a ausência de um sentido para a vida. A natureza cantava-me frustrantemente, sem entender que as cores da minha alma estendiam-se ao preto, ao branco, ao cinzento. Uma inundação infernal rebolava sobre os tapetes, sorrindo maldosamente e apontado o dedo para mim num tom desaprovador. O amor abandonou-me há tanto tempo, o calor deixou o meu coração, o sangue parou – enumerava à medida que cantarolava para espantar os “males de espírito”, na espera de um beijo que reiniciasse a minha vida. Desta vez seria um início planeado, desejado e nunca apareceria ao contrário do que queria. Tenho tantas saudades de um beijo, este pensamento martelava a minha mente quando a tua figura aparecia de surpresa, a visitar os meus sonhos e os meus pesadelos (amor que é amor conhece todos os lados do ser humano que ama, nem que demore anos para espreitar). À janela continuei a cantar, a espantar tudo o que me fazia mal – incluindo as imagens dos beijos alheios que esse amor dava a terceiros, quartos, quintos se fosse preciso – e as lágrimas nunca apareceram, unicamente o vazio que martelava a existência. O corpo morto em cima da cama nunca se mexeu, dentro da normalidade. Não lhe restava nada, apenas a música que ecoava graças aos auscultadores.
Quando um dos meus progenitores apareceu à porta do meu quarto, não me mexi tal como o corpo estendido, a voz dela começou a elevar-se por nascerem pensamentos com raízes venenosas na sua mente. E num acesso de fúria tocou-lhe, tocou-me, sem pressentir vida. Um revestimento de pânico cobriu a voz melancólica, o acesso de raiva desapareceu subitamente e os seus braços enrolaram o meu corpo. Assistia plenamente a tudo, com um copo na mão. O copo que continha uma boa porção do meu sangue. Seria essa a forma de fazer amor comigo, saborear o meu sangue vermelho à medida que um ataque de pânico revestia o quarto. Os coros do funeral continuavam e faziam-me fungar, uma vez que lágrimas nunca apareceriam. Quando esse líquido vital entrou por todos os meus tecidos, cai numa espécie de lógica misturada com algum nível de emoção e sai da janela, ajoelhando-me ao lado do meu corpo.
Volta, meu amor. Que fizeste a ti próprio? Volta, volta para mim. – Os braços delas continuavam a embalar-me, com a mágoa a inflamar as cordas vocais na noite perfeitamente normal e sem qualquer acontecimento programado. Ajoelhei-me ao lado do meu corpo e rezei, como nunca o tinha feito. Rezei para regressar completamente renovado, como se me tivessem beijado apaixonadamente. Os arrepios voltaram, balançavam toda a minha existência. Quando o ar voltou ao corpo, abri os olhos e estava ofegante, com braços à minha volta. Onde estavas? Onde estavas, meu estúpido? - Perguntava-me com amor sob a forma de raiva. Não faço ideia, acho que voltei a nascer.
Cat Power continuou a tocar, a chuva continuou lá fora, a minha progenitora saiu para libertar o medo na casa de banho e o amor abandonou-me. É uma noite normal, como pensei.
3 comentários:
Estou tão atrasada aqui nas leituras que comecei à procura desta entrada (eu anoto num bloco qual a próxima entrada a ler, para ler todos os blogues por ordem) às 23:30, mais ou menos. Repara que horas são.
Valeu a pena, definitivamente. No primeiro momento lógico, senti que, mais uma vez, te estava a tirar o chapéu por transformares tristeza em beleza. Sentia-me um pouco desconfortável, porém, porque não gosto de ver desmotivação... não acredito que precisemos de um motivo para viver, para além de ter uma vida. No entanto, a segunda parte agradou-me imenso. Criatividade potencializada, creio, com arte de alta qualidade. *suspira* Como eu gosto de te ler.
A propósito, eu adicionei-te em dois e-mails diferentes, um tem Veloso, o meu apelido, pelo meio, o outro é do Gmail e é todo esquisitóide, cheio de códigos. Tem letras, números e um símbolo. Não digo mais por privacidade, espero que entendas. xD Mas não era isso que queria dizer (eu e a mania das divagações!). Eu adicionei-te porque tenho um grupo de contactos a quem costumo enviar as minhas edições do mês, ou seja, aquelas publicações acerca das obras de arte favoritas que encontrei no deviantART... Eu cheguei-te a mostrar, não foi? Pois é, eu achei que, se havia pessoa interessada em receber isso, essa pessoa eras tu. Corrige-me, sem medos, se estiver em erro! :D
Inté!
É a minha vez de dizer: como eu gosto de ver que continuas a ler-me. Como eu gosto de ver que perdes horas a ler o que vou escrevendo. Oh Cármen, não tens ideia do quanto sabe bem saber que tenho pessoas a acompanhar-me mesmo que seja numa plataforma na Internet.
Tenho de ir verificar essas coisas dos e-mails. Nem reparei sinceramente. Mas eu vou ver. E tenho uma página do Expressividade no Facebook onde vou colocando as minhas coisinhas. Não sei se viste.
Um beijo.
Eu não tenho conta no FB. :/
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