12 novembro, 2011

Os loucos de espírito fazem amor com o próprio corpo,

O vento alcança os meus cabelos, massajando-os e cuspindo neles num rodopio malandro que me leva a ganhar um pouco mais de rugas de expressão. Quando tal fenómeno acontece, o simples plantar das rugas de expressão de indignação ou mesmo de felicidade, cai na minha alma o caminhar do tempo e a falta de vivência que posso estar a ter nos minutos que passaram e que vão passando à medida que penso no assunto. Trata-se de suposições, dúvidas que inflamam as minhas veias à medida que os pensamentos vão inundando a minha mente, a cada minuto e não há forma de carregar no botão de paragem para evitar um acidente de ondas dentro da minha cabeça. O vento vai continuando a massajar os meus cabelos com os lábios suaves, cuidados graças a uma operação violenta à pele (como se qualquer brisa conseguisse ter pele, as minhas divagações vão acabar por matar-me um dia).

Os meus braços encontram-se cansados de ver o mundo na primeira pessoa, de elaborar o meu estilo artístico na individualidade e na visão dos meus olhos castanhos de tons escuros. Nos momentos em que suporto o peso do (meu) mundo não consigo pensar em mais ninguém a não ser em mim, não vejo amor em qualquer segundo ser humano. Demasiado egoísta para usar o acessório de amigo a combinar com as minhas roupas, demasiado egocêntrico para mudar qualquer valor no meu planeta, nunca vou ser capaz de o melhorar. Os desejos percorrem os nervos faciais, irritando a pele morena do meu rosto bronzeado na tarde de domingo (naquele Verão em que trocámos demasiados beijos e juras eternas de amor que nunca vou quebrar), os desejos individuais e desnecessários. Se quero dançar no meio da minha casa coloco um impedimento na minha acção, como se tivesse mil olhos a julgar e a percorrer o meu corpo. E talvez seja essa a minha morte, daqui a alguns anos. Se o suicídio passar pelo meu coração, numa fase aparentemente excêntrica (é este o adjectivo que me faz pensar no quão difícil é conviver comigo mesmo nas tardes em que não existe absolutamente nada para fazer, quero apertar o meu próprio pescoço e fazer amor com o meu corpo, quero um segundo corpo para puder dar asas às minhas obscenidades), se a morte sorrir para a minha existência vou ter os mil olhares na minha mente e o medo vai apoderar-se da minha acção. Segurança, diriam algumas verdadeiras amigas estivessem a ler o que escrevo. Falta segurança nas minhas acções, acusaria uma delas na sua voz suave e melancólica, no mais pequeno pormenor até ao desenrolar da vida. Talvez seja por isso que me custa escrever cada vez mais escrever na primeira pessoa, existe uma insegurança apegada à vulgaridade existente na minha existência. Os meus braços encontram-se cansados de ver o mundo na primeira pessoa mas não querem passar essa tarefa para uma segunda pessoa, que conte a minha história com sentimentos deturpados por uma individualidade completamente diferente da minha. O meu vento alcança os meus cabelos e acaba por ir saboreando o meu corpo, com manias para o envelhecimento a cada dia que passa. O que vou fazer quando a juventude começar a desaparecer do meu corpo? Não quero afundar-me neste medo, meus caros.

Os meus monólogos deliciam-me, apodrecem a minha pureza mas nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Nem fazem ideia do quando dava para ter o meu corpo separada da minha alma, neste momento. Existe um desejo obscuro de fazer amor com o meu corpo e chorar à medida que o amar intensamente nesses minutos – vou aproveitá-lo enquanto sou jovem.

E um viva aos loucos de espíritos! O vento continua a massajar os meus cabelos.

4 comentários:

Paula disse...

David, a vida cansa demasiado. Por vezes até as pessoas me cansam e há certas coisas para as quais continuo com os níveis de tolerância reduzidos sem perspectivas de aumento. Mas (in)tolerâncias à parte.

Vai haver sempre uma insegurança já dizia o orson welles "É preciso ter dúvidas só os estúpidos tem confiança absoluta em si mesmos". É por isso que somos loucos porque ainda que inseguros e sem chão ousamos viver, ousamos ser parvos, gozados, ser vistos quando estávamos no momento alto da nossa dança connosco ou ser interrompidos a meio de um importante monologo connosco mesmos. E por isso mesmo que cheios de rugas e com grande dificuldade de locomoção aposto que haverá algo em nós novo que é esta parvoíce que nos faz reparar naquilo que passa despercebido, esta loucura de ousar viver a de ousar ser feliz todos os dias.

David Pimenta disse...

A vida cansa mas dá vontade de vivê-la, cada vez mais e de uma forma ainda mais intensa para experimentar todas as sensações. Pode cansar e não fazemos nada mais do que lamentar mas não dispensamos a vida a que tivemos direito. É essa a melhor parte.
E são loucos os que se queixam, sabes?

Paula disse...

Daí ter chegado à conclusão que ousar viver contrariando a monotonia dos dias e da vida é a melhor forma de viver. Queixando-mo-nos, reclamando sendo fieis a nós próprios sem nos perdermos.

David Pimenta disse...

E espero nunca me perder e ser sempre fiel ao que acredito, mesmo nos momentos de maior crise. Espero questionar-me e ter ainda mais força nas minhas certezas.