31 outubro, 2011

solto-te todos os dias da minha loucura, nunca do meu coração,



Enrolei uma manta no meu corpo no dia infernal, objecto de estudo das previsões apocalípticas sobre o fim do Universo e de toda a existência criada ao longo de milhões e milhões de anos, esse dia que estava marcado nos calendários como as minhas últimas horas com algum tipo de desequilíbrio mental para levar à loucura nos vários campos da minha existência. A gaiola que levava nas mãos continha um pássaro de espécime rara, um animal sem qualquer tipo de vulgaridade e com todos os pedaços de antiguidade apegados à alma que se desenrolava num canto estrondoso, arrepiante para qualquer osso. De penas brancas e olhos castanhos, continha asas miraculosamente fortes e capazes de sobrevoar meio mundo sem paragens pelo meio em casos de testes fatais, cantava todos os dias quando o coração ameaçava parar. Escondia os sentimentos puros sobre as asas para que ninguém fosse capaz de analisar e roubar um pouco, para satisfação pessoal ou delícia maquiavélica. E olhava-me intensamente quando as lágrimas ameaçavam nascer nos meus leves e corrompidos olhos castanhos. As minhas mãos tocavam nas grades verdes que o prendiam, que o amavam numa irracionalidade fundamentada por alguns meses de convivência e existências anteriores. Complexa e coroada pela simplicidade, ao sabor da pureza nos cantos trocados em pleno corredor da casa que nos prendia. Os meus pés dançavam ao sabor de uma música que o velho gravador passava, umas mãos que ficaram registadas para sempre no tempo quando tocaram violentamente nas teclas do piano e deram vida à composição de um qualquer compositor reconhecido, um dos que estão mortos e famosos como é a regra geral para todos os grandes artistas. Agarrava na tua gaiola para dançares comigo ao sabor dos meus movimentos, das minhas sensações, num egoísmo histórico e provado por milhares de pessoas em histórias puramente ficcionadas e trespassadas para o papel. Apesar de nunca ter existido uma prisão literal para o teu corpo, os fenómenos loucos provenientes da minha mente é que te prendiam a mim num egoísmo frio e sem qualquer tipo de sentimento.
A minha memória levou-me aos segundos em que tinha a porta da tua gaiola aberta e fazíamos amor ao som das nossas vozes, em declarações espirituais e eternas da honestidade que corria nas nossas veias. Dois animais com diferenças mas com o mecanismo corporal idêntico. Sentava-me na minha janela enquanto estavas nos meus ombros e escrevia com a alma de artista no rosto, no meu sorriso que te enviava a cada segundo. Uma inundação de delicadeza emanava do teu corpo, nos teus gestos e nos teus cantos compreensíveis para o meu coração, que abria-se a cada dia que passava. As minhas roupas eram feitas à mão, nos dias em que o Sol desaparecia e dava lugar aos tons cinzentos para se fazerem sentir no céu, contigo ao meu lado. Pássaro que um dia decidiu partir com a promessa de voltar e ser feliz comigo, de nunca me abandonar apesar do voo que tinha em mente e na alma. Que um dia decidiu voar e no meu coração o decidi prender, não tendo desejos de o deixar sair. À medida que dançava na minha cozinha, numa loucura extremamente destruidora de qualquer tipo de purezas, concentrava-me na sua prisão. Intemporal, pneumática que acabaria com os meus pulmões. À medida que voavas, sentia o teu canto a chamar por mim, a precisar de mim enquanto continuava numa loucura sem qualquer tipo de medições e placas de aviso em relação às consequências. Chamei outros animais para virem ter comigo, fiz-lhes festas, encostei o meu rosto ao seu corpo e no fim, acabei sempre por deitá-los fora ou expulsar de casa porque o meu lugar era para ti, à medida que voavas. Cortava desejos de felicidade para ti, para voltares para mim como um animal recheado de vida e pureza, cantar-me-ás todas as experiências quando regressasses. Nunca interiorizei as tuas promessas. Até ao dia em que decidi cair. Quando a manta que tinha enrolada me fez tropeçar no corpo e bati com a cabeça no móvel da cozinha, houve algo que despertou na minha alma. Como se uma parte tivesse sido rasgada e misturada com o sangue que jorrou da minha cabeça. Quando pedi ajuda para me levares às tuas costas não hesitaste, nem duvidaste do teu amor tal como fui fazendo à medida de que te prendia no meu interior, nas danças de cozinha a percorrer o corredor da minha casa. Quando me levaste, soltei-te da gaiola da minha caixa torácica. Amar é libertar. Amar é ajudar. É preparar. O quarto de hospital continuava o mesmo de sempre, as minhas memórias recuavam alguns anos atrás, o dia em que precisei de ajuda para controlar os meus demónios fazia-se sentir quando os meus olhos pousaram e colheram novamente os traços das quatro paredes brancas. O teu canto soltou-me da loucura, dos pensamentos, continuaste a voar ao pé de mim e o teu sorriso permaneceu.
A gaiola continua com a porta aberta ao pé da janela.
Continuas a fazer paragens em minha casa, no meu coração. Soltei-te da minha loucura, nunca do meu coração. Amar é libertar, lá está, mas sei que nunca vais partir. Não és dos pássaros de Verão que permanecem na ausência durante tanto tempo sem dar notícias ou qualquer canto de amor, saudação. Permaneces no meu corpo, nas minhas janelas, na minha roupa, nos meus sorrisos pois nunca viajo sem nenhum para todos os lugares onde vou. Leva esta carta recheada de felicidade, profunda e eterna. Volta para mim, todos os dias.

4 comentários:

Ana Dória disse...

Este texto tem uma ternura tão grande em si. Uma mensagem bela e essêncial, uma saudosa forma de falar sobre amor...
Gosto dos pormenores que salientas, das metáforas tão harmoniosas.

Adoro ler estes teus registos, David, e confesso que gostaria de lê-los em papel, se é que me entendes. Decerto que outros concordam comigo.

Beijinho*

David Pimenta disse...

Acho que amor é algo que circula em mim de uma forma natural, noto em tudo o que faço muito sinceramente.
E gosto de escrever sobre ele porque venha quem vier existe amor, já tive oportunidade de experimentá-lo.

E agradeço-te tanto o apoio demonstrado nessas palavras, que me fazem tão bem ao coração.

Um beijinho bem forte e sentido *

Cármen disse...

A Ana tem razão, eu comprava um livro se este tivesse a tua assinatura. Não agora, que sou economicamente dependente, mas quando não o fosse.
Eu gostei sobretudo da personificação. Usar o pássaro enquanto ele simbólico de toda a realidade que queres representar é uma boa ideia. Este texto está, sobretudo, repleto de criatividade mágica.
O pormenor que mais me marcou foi o repouso do pássaro no teu ombro.
Este texto revela indiretamente muita coisa... está bonito.

David Pimenta disse...

Este texto foi, na altura, um ajuste de contas comigo mesmo. De uma forma bonita para retratar algo que estava representado de forma horrível no meu coração.
E consegui obter esse ajuste de contas, no final de tudo.

Agradeço-te Cármen, pela presença e sempre pelas opiniões construtivas. Espero que estejas sempre presente no meu cantinho.