19 fevereiro, 2012

Ode às idealizações,


O peão estava pronto para atravessar a estrada no momento em que o carro atravessaria a rua a mais de duzentos quilómetros por hora, ou devo dizer segundo? Num mundo em que é necessário explicar tudo ao pormenor nunca se sabe se as palavras que libertamos são entendidas correctamente, já que contextos não são revelados e todos sabemos que a máquina humana não está habituada a pensar. Como estava a escrever anteriormente, o peão estava pronto para atravessar a estrada e colocar fim à própria vida num acto conturbado, quem sabe plenamente entediado por não ter uma vida que idealizou ou ambicionou.

Ambos sabemos que o ser humano adora idealizações, combinações, planeamentos. Maioria das senhoras idealiza um neto que os filhos homossexuais supostamente vão ter. Maioria dos homens espera que as suas filhas não sejam tocadas por nenhum rapaz até se casarem (e normalmente são essas que caçam todos os pedaços de carne musculada que andam pela rua, numa exibição digna de estar numa montra de qualquer loja dirigida para um público rigoroso). Maioria dos filhos quer mostrar a sua masculinidade misturada com insensibilidade através do número de namoradas que vão levando para casa. Todas as pessoas são iludidas pela primeira cara-metade até o tempo limite para consumo se esgotar. Ideias, sonhos, ambições e desejos que estão escritos na testa de qualquer pessoa que ande na rua com medo do pensamento alheio, a espreitar o caixote do lixo do vizinho para denunciar a primeira falta de cuidado, o cheiro imundo provocado pelo descuido da vizinha que estava ocupada a cuidar dos cinco filhos, a arrumar a casa e a tratar da sogra senil enquanto o marido se encontrava a ter um orgasmo com a secretária na empresa. Demasiados clichés que se vão repetindo ao longo de gerações, vou olhando para o relógio e para o calendário à espera da hora em que vou desistir de acreditar em qualquer tipo de mudança.
Espero sentado, espero em pé, observo e sinto receio de cair em idealizações tal como todos os outros. As imagens mentais que me levam à loucura momentânea permanecem nas minhas veias, acompanham as viagens do meu sangue quando coloco a colher de cereais na boca, mal acabo de acordar. Demasiado tabaco deixado pela minha mãe (especulações, sempre gostei de imaginar a minha mãe a fumar. Talvez por ela ser totalmente contra o fumo ou contra o veneno que está associado a um cigarro?), acaba sempre por sujar a bancada quando tiro uma das tigelas compras na feira do meu bairro. O bairro que me viu a crescer, a pentear os cabelos das bonecas e dos maridos das bonecas. As estradas que me beijaram os joelhos nos dias em que comecei a tentar andar de bicicleta, que me acalmaram quando me sentei com um livro a desfrutar dos raios solares. As estradas que me conseguem ver-me como um simples peão a arriscar a vida pela ausência de concretização de sonhos, por não ter pintado os cabelos num tom cinzento como desejei há dois meses atrás e por me teres abandonado. Abandono é o meu fruto, aquele que descasco todas as noites para me acompanhar o chá, queima a língua e aquece as minhas mãos quando pego na chávena e levo à boca.

Maioria das pessoas sonha com uma mansão com quatro andares, dez quartos e cinco mil casas de banho sem esquecer das duas piscinas (uma interior e outra exterior, para variar nas estações do ano). Algumas pessoas. Maioria das pessoas têm uma pequena casa, com dois quartos, uma casa de banho, uma cozinha e uma sala. Maioria das pessoas vive num pequeno apartamento, com paredes de cartão e com barulho a infiltrar-se todos os dias, nas madrugadas de lua nova. Queimei os lábios ao beber chá e nesse momento decidi transformar-me num peão e ser algo diferente, a diferença no campo da vulgaridade. Chamo de vulgaridade porque já se inventou tudo, já se reinventou mais alguma coisa, nem consigo cometer um suicídio particularmente chocante como ambicionava. Coloco uma roupa decente, transformo-me num peão de um jogo de xadrez e resolvo brincar com o meu próprio destino. Pergunto-me qual a novidade desta decisão, enrola-me o pescoço, toco no meu rosto à medida que vou olhando pela janela. Acabei de idealizar uma morte, acabei por me deixar levar por um dos meus maiores medos e coloco-me de joelhos no chão, com a cabeça virada para cima. Não sei se rezar irá trazer algum conforto ou paz, necessária para sentir vivacidade nos meus músculos, chamo por uma divindade que nunca esteve comigo. Ou então nunca chamei por Ele, como todos gostam de colocar em maiúsculas para mostrar respeito. Mas como vou mostrar respeito por algo que não compreendo? A minha boa educação consegue sussurrar-me aos ouvidos e mantenho as mãos ligadas, à medida que vou proferindo passagens da Bíblia que me ficaram na cabeça, das vezes em que a minha avó me obrigou a estar sentado nas missas de domingo. Antes do café, antes do almoço.
Transformei-me num peão, pronto para acabar com a minha vida. Idealizei um acontecimento. E por isso pergunto-me, o que estou ainda a fazer aqui? A comer a minha própria pele, a experimentar as unhas roídas.

2 comentários:

ςοφία disse...

Adorei. Tens um olhar diferente sobre as coisas mesmo pegando naquelas que todos conhecemos, isso é precioso, David.

(Agora vem a parte do comentário comandada pela psicóloga que quis ser um dia) Não tenhas medo de idealizar. Não o faças muito. Mas idealiza o suficiente para sonhares, para teres a noção de quando a realidade é boa ou má. Para poderes ter o termómetro que te diga se podes suspirar de alivio e baixar os braços para apenas viver ou se, pelo contrário, tens de arregaçar as mangas e tentar mudar a tua realidade.

Eu ando a aprender a idealizar menos. Costumava idealizar tanto que me esquecia de arranjar coragem para arriscar, para sair do sonho, sair do conforto, para viver.

Beijinhos *

David Pimenta disse...

O problema é idealizar em demasia quando se trata de questões do coração. É essa a verdadeira aprendizagem que todos devem fazer. Idealizar para sonhar e parar quando o mundo de sonho é demasiado confortável.

Beijinho, minha querida.