06 janeiro, 2013

Rascunhos sobre 2013 - I



Não vou esperar nada das pessoas, foi essa a minha promessa para este novo ano em que coloquei os pés. Sabe extraordinariamente bem distribuir um pouco de essência branca pelas pessoas – sempre tive esta imagem, da pureza com cor branca – e não exigir nada em troca. Se o ano morto, alojado no passado, trouxe sabedoria dividida em 365 dias decidi então não esperar nada do ser humano, apesar de ter uns maravilhosos exemplares a acompanhar o meu caminho, a ajudar na recolha das pedras que ficam pelo caminho. Esses seres humanos não vão construir um castelo, como o outro escreveu se não me engano, nem vão colocar essas pedras nos bolsos, na melhor das hipóteses acabam por vende-las para se aguentarem mais uns tempos neste país miserável, para não voarem para outras terras.

O meu país encontra-se envelhecido, na miséria pura e sem qualquer adereço. Antes da pobreza económica encontra-se na pobreza espiritual e cultural. As almas deixam-se deturpar pelas chamadas “novas tecnologias”, por cada porta que fica aberta graças a estas novas conversas, um novo ser humano é envenenado automaticamente. Não existe a definição de respeito no século XXI ou de boa educação. Qualquer desconhecido, amigo do nosso amigo, chega ao café e cumprimenta-o a ele sem dar atenção ao estranho que se encontra à sua frente. Aos nossos olhos castanhos, ao nosso casaco bege, ao nosso “olá, bom dia”. Umas horas depois recebo, e com certeza vocês também, uma notificação no smartphone com um pedido de amizade no Facebook e, minutos depois, lá descobriu a minha conta no Twitter e decide seguir o que me vou dizendo para a grande quantidade de pessoas com um perfil nesta rede. Ao mexer o café não libertou qualquer palavra, um incentivo para conversar, sobre qualquer livro ou as nuvens que circulavam na auto-estrada do céu. São estas as relações do nosso século, que se mantém cada vez mais impessoais, ausentes de qualquer essência, de uma alma com várias camadas de tecidos. Oh miserável povo, que não consegue oferecer um abraço, sabe apenas escrevê-lo. Maldita gente que tanto roubou e não tem mãos para agarrar nas rédeas de milhões de pessoas. Aflige-me neste momento os pequenos seres humanos, as novas descendências, que bebem aos treze ou catorze anos até desmaiarem no meio das ruas sem que os supostos amigos se preocupem. O frio, a geada cai durante a madrugada e o álcool paralisa todos os sentidos. Onde está a verdadeira adolescência precoce, com filmes para verem até de madrugada e casa dos colegas para dormirem? O conhecimento matou a inocência da adolescência, costuma dizer a minha mãe.

Não espero nada das pessoas, decidi prometer a mim mesmo e ao sexto dia cumpro solenemente. Ainda ontem tive uma conversa com a Catarina, em que ela me perguntava o que se passa com as pessoas? Gostava de lhe ter respondido: não sei, se queres que seja sincero. Há alguma coisa a tirá-las do sério, ou é a depressão ou é a felicidade extrema que as transforma em egoístas profissionais, em que os seus olhos não olham para as terras vizinhas. Neste momento deixei de trocar de mensagens com ela para ter o seu domingo descansado, a trabalhar para a faculdade, a ler ou a ver um filme. É melhor do que ter um bicharoco ao seu lado sempre a apitar ou a vibrar. O telefone é o novo animal doméstico do século XXI. E os animais vão sendo abandonados, nem os próprios jornais deixam escapar essa miséria.

2 comentários:

Sofia Mendes disse...

Gostei muito, David! E concordo plenamente contigo.

Eu também vejo a inocência da adolescência a ficar extinta. É triste, até porque todos nós precisamos da nossa criança, e esta geração vai precisar dela e vai vivê-la na altura errada. 'Penso eu de que.'

Sou livre do telemóvel, quem me conhece sabe que me esqueço de responder a mensagens quase todos os dias, e sabes porquê? Porque até hoje ainda só tenho 5 animais de estimação, um cão e 4 gatos, que felizmente me ocupam muito tempo. Acho que mais pessoas deviam fazer o mesmo.
Contudo, é raro ver alguém livre das coisas. Eu bem queria ser ainda mais.

Mas, adorei mesmo o que escreveste!

Beijinhos*

oui mais non disse...

Excelente! Colocas em palavras sábias o paradigma actual da nossa sociedade. Nestes tempos, é mesmo melhor não esperar nada das pessoas. No teu post vi traduzido aquilo que tenho vindo a pensar para mim nos últimos tempos. Por vezes acho que isto é crescer, isto de não esperar nada dos outros. Mas cada vez mais me convenço que é a "pobreza espiritual e cultural", que bem referes, que move este meu pensamento. Não posso mudar o mundo, vou-me mudar a mim! Excelente texto, novamente! Beijinhos, David