08 fevereiro, 2013

A mentira que escorre pela boca do ser humano


- Estou bem – menti.

Consegues enumerar, leitor ou leitora, a utilização da mentira escrita acima? Posso murmurar para ti, uma vez que nasce em mim a teoria de que quando falamos baixinho não são muitas as pessoas que nos conseguem ouvir, as milhares de vezes em que utilizei as palavras acima. Seguida do verbo mentir na minha frase ou nas minhas descrições. Existiram meses em que chegava a casa, no início do ano passado – já o meu tempo fora de Coimbra acontecia como atualmente – e esta mentira inflamava as minhas cordas vocais. Quer falasse com a minha mãe, o meu pai, uma das minhas primas, tios, tias ou avós, entornava a mentira delicadamente para não sentir a passagem do líquido venenoso por os todos os meus órgãos. Os primeiros a serem afetados foram os pulmões, agarrados igualmente a um vício maléfico de fumos, de nicotina, de pequenos cigarros enrolados. Objetos criados pelo ser humanos e para esquecer plenamente a dor profunda da alma. No meio do fumo libertado da minha boca conseguia camuflar as minhas lágrimas. Estou bem, dizia a todos aqueles que se juntavam a mim durante um jantar para fumarem. Estou bem, disse à minha mãe demasiadas vezes, em todas as horas pressentia os meus berros. Os gritos nasciam, multiplicavam-se violentamente à medida que as horas passavam. Nunca deixei a minha mãe colocar os braços e as mãos no meu corpo, os abraços nunca chegaram e tornaram-se em desejos. Quando o veneno verteu pelos meus olhos castanhos, as mãos envelhecidas da minha progenitora jovem agarraram em mim. Nem tudo está bem.

Deixo-me prender no passado algumas vezes, nem que seja para escrever um pouco. Tento pensar na aura de sorte e prazer colocada sobre a minha cabeça, nos meus cabelos escuros, tendem a dizer-me isso muitas vezes e escuto atentamente para pressentir a minha condição. Tenho tudo o que desejei, exceto um emprego como muitos jovens neste país pobre e corrupto. Provavelmente, também vou voar daqui a uns anos, meses, horas, ninguém sabe os rodopios que a existência guarda no cofre da humanidade. A aura de sorte começou a partir do momento em que entreguei novamente o meu coração a um ser humano brilhante. Estou bem, dizia à minha anterior paixão enquanto a via a destruir-me. Aconteceu algumas vezes soletrarem a condição saudável da vossa cabeça à pessoa que amavam e sentirem um veneno a navegar pelo corpo, por todos os músculos até chegar à boca? Nas horas em que experimentava a traição na minha visão, ao sentir o desejo de quem amava por alheios, vomitava em todas as esquinas. Moro na casa que presenciou todas as minhas quedas, sempre que subia os quatro andares do meu prédio uma vontade súbita de me atirar até ao rés-do-chão era forte, arrastava-me, deixava-me o peito sem ar. Estou bem, perpetuava para mim mesmo ao caminhar lentamente pelo corredor em forma de U da minha querida casa em Lisboa. Mas hoje digo estou realmente bem. Muitas vezes nem são necessárias meias palavras pelo meio.

Um tom de voz para convencer terceiras ou quartas pessoas. Estou bem. Equivale agora a uma melodia, a uma lição de voo, a um doce de chocolate comprado na Baixa. Um dia de cada vez, como costuma a minha mãe dizer. Gosto de agarrar na mão dos mais idosos que conheço e acaricia-me os ouvidos quando me pedem para viver um dia de cada vez. Um Homem a começar os vinte anos não deve ter preocupações superficiais, tais como eles agora na casa dos setenta ou oitenta tiveram em épocas alojadas no passado. Estou bem, digo-lhes. Estou bem, dizem-me eles. O ser humano é um monstro curioso.


1 comentário:

Diana Mendes disse...

Folgo em saber que estás realmente bem.
As tuas palavras e não só também fazem com que outras pessoas se sintam bem amigo.