
Cada batimento do coração é o soluço, o pontapé, gemido do fantasma preso nessa caixa ramificada, musculada. De vez em quando sobem à mente, criando uma imagem temivelmente desconfortável. Umas lágrimas soltam-se em plena avenida, com o Sol a brilhar em cima da minha cabeça, sinto-me tão leve na presença de todos aqueles corpos que caminham ao meu lado. É como se não existissem, cada grito com início nas minhas cordas vocais e destino final no sistema solar não é sentido por ninguém. Como se não existissem, preciso de uma boas mãos que destruam as minhas defesas. Há alguns meses atrás houve alguém que as destruiu, plantou fantasmas de amor, regou, alimentou e desapareceu quando a ampulheta deixou cair alguns grãos de areia. Mal sabia que os meus ossos se restabeleciam, como se o cálcio entrasse numa quantidade em excesso. Não quero ouvir estes fantasmas que provocam um batimento no meu coração, uma ferida de proporções mínimas.
Os fantasmas abraçam-me profundamente, em plena liberdade. São autênticos pássaros que voam desesperadamente ou limitam-se a encarnar uma brisa gélida que envolve o meu corpo e beija a minha boca, secando-a violentamente. E não tenho lábios alheios que limpem esse sangue, suguem as minhas defesas hipócritas. Envolvam-me, fantasmas. Enquanto não tenho companhia, neste dia de Inverno. Não habitam mais o meu coração, soltos como criminosos culpados. Condenar-vos? Nunca. Sinto-me tão leve sem vocês, desfrutem de uma pseudo liberdade. O meu coração vai parando aos poucos mas ainda ouço alguns dentro de mim.
Deixei a avenida. Havia demasiados rostos que podiam observar-me, arrancar-me-iam a máscara de ferro. Derretiam-no e vendiam-no para ter um dinheiro extra, não fosse a crise comer os seres humanos. Mal o meu corpo cai na cama, os fantasmas furiosos explodem o meu coração, devoram-me. A minha pele estremece, os olhos fecham serenamente. Nunca ninguém me amou de uma forma tão violenta, chego a pensar se o amor também pode ser frívolo. Ou o canibalismo. Mas ao colocarem os dentes sobre um pedaço da minha carne, tudo se desvanece. Nada se dissolve, basta desaparecer numa leve brisa. O sangue mancha os lençóis, preciso de ti. Desculpa pedir-te isto mas preciso de uma pessoa em carne e osso ao meu lado. É a última vez que te faço este pedido, sinto-me tão morto sem ti.
Libertar fantasmas não é mais do que uma função essencial para a minha existência.
Quem nunca morreu várias vezes ao dia?
10 comentários:
Eu já morri e (re)vivi várias vezes num só dia!!!
Gostei do texto.
:)
Ninguém.
Davie, Davie, Davie.
Identifiquei-me muito com o texto, mas nunca me conseguiria expressar tão bem (:
Oh, sinto que me aconchega mas não deixa de me assustar. É tudo muito novo, sabes? Ainda por cima não entrou nenhum amigo meu lá. E apesar de já lá ter passado três dias ainda não encontrei uma única pessoa do meu curso :s
há qualquer coisa de frustrante nesse teu casamento com as palavras.
dos únicos que eu conheço em que o divórcio parece impossível.
no dia em que não gostar de algum dos teus textos vou fazer questão de te escrever um testamento a explicar porquê. de certo vai ser feriado.
vai passando, uma vez por outra vomito umas quantas palavras bonitas, e não nego que as opiniões dão mais do que jeito.
quanto a este sitio, já me acompanha desde há muito, e até agora ainda não me desapontou. eu vou passando. ;) obrigada
mais ou menos :) às vezes preciso de desabafar o blog é quem me ouve..
"Desculpa pedir-te isto mas preciso de uma pessoa em carne e osso ao meu lado. É a última vez que te faço este pedido, sinto-me tão morto sem ti." identifiquei me bastante com isto..
como sempre, gosto do texto.
*
Eu já rescuscitei várias vezes ao dia..
Gostei muito :)
Morre-se e vai-se morrendo, vezes demais. Morram também os fantasmas porque é preciso viver.
Adorei o texto ,
Beijo
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