29 outubro, 2011

afasta o diabo de tua casa, ou da casa alheia,


- Chegou a altura de morrer. – Murmurava lentamente em frente ao espelho do quarto de hóspedes, com os lábios pintados num tom preto. O peso de tons negros em qualquer zona do corpo, quer no vestuário quer na maquilhagem, nunca foi um impedimento para ela, sem nome e com tentativas de ser alguém num passado próximo, com um arrasto doloroso até ao presente. Até decidir que tinha de morrer naquela manhã, enquanto limpava os cabelos ruivos da sujidade das experiências mundanas, transgressoras de uma liberdade imposta por terceiras pessoas, nunca tinha encontrado uma satisfação interior recheada de paz. Desejava ultrapassar o poder de Deus ao retirar a vitalidade do peito com um objecto de fabrico humano, como prova do poder mortal ao longo dos tempos. Com a escova a passar-lhe pelos cabelos, sorria lentamente. O desejo atormentava-lhe os pulmões, colocando dificuldades na respiração e aniquilando qualquer tipo de pureza que pudesse absorver do oxigénio, circundante do quarto e transportador de previsões fatais. O sorriso continuava no rosto à medida que uma das mãos, a que estava livre, tocava na pele. De forma serena, sem maldade plantada nas veias e numa apreciação do próprio pescoço, passava um dos dedos sobre o batom colocado no lábio inferior.
- Chegou a altura de morrer e nem sei o que fazer. – A onda de desgosto assaltava todas as partes do seu corpo, numa violação planeada e amarrada às mãos envelhecidas do destino, possuidor de um tabuleiro de jogo profundo. Utilizava-o, esse destino, nas horas vagas quando o aborrecimento ameaçava a sua boa conduta, a sua maneira invulgar de levar uma existência pacífica. Decidia como iria ser a vida de determinada pessoa. Escrevia numa folha de papel todos os pormenores, vomitando as pequenas obsessões com que se alimentava nos dias de dias de chuva sobre os comportamentos, os diálogos daquela marioneta criada pela divindade tantas vezes associada ao céu. Mas iria dar cabo dos seus planos, ao lado do meu secador de cabelo encontrava-se uma faca puramente afiada e sem qualquer tipo de impurezas que pudessem poluir carne humana. O objecto cortaria, despedaçaria o meu coração. Tal como alguém lhe tinha feito há algum tempo, ao quebrar experiências em nome de um bem mais elevado. Bem que compreendia perfeitamente, serenamente. Mas a esse bem falta colocar-lhe uma pitada de maldade, personificada na sua morte. Uma morte provocada por desgosto e com origem num egoísmo extremo, por não ter permissão em beijar mais nenhuma vez depois de saber como eram o sabor daqueles lábios, por não lhe ser permitido olhar directamente para a alma alheia através dos olhos castanhos. Mostrava-lhe todos os dias a alma, especialmente quando ela estava a pentear o seu cabelo ruivo, e como poderia ser uma boa pessoa se lhe apetecesse dizer para parar? Se desejasse fatalmente que calasse a boca e arrancasse mais um pouco de carne? Bebam do meu sangue, façam dele a vossa refeição – era o pensamento que viajava pelas suas veias depois da meia-noite de todos os dias. Era por essas poças, que lavam os seus colchões e vestidos, que decidiu colocar-se numa posição superior à de Deus. Quando fosse altura de cair, iria deixar que o seu corpo se despedaçasse num chão de cimento, sem qualquer revestimento como qualquer escravo que não teve direito.
- Chegou a altura de morrer – Cantarolava à medida que arrancava os cabelos, desta vez. Mal me tinha apercebido que as lágrimas desciam pelo rosto, numa agonia extravagante e visível para todos os dramaturgos à face da Terra. Gotas de lágrimas que lhe agitavam a alma e transportavam para a realidade, equivalente à loucura que nenhum bobo da corte deseja à pessoa mais miserável. Os tons negros do batom encontravam-se no espelho do toucador (do quarto de hóspedes), depois do treino para beijar outras pessoas por pura curiosidade e excentricidade calorífica. As mãos ficaram livres quando a vontade de desenhar qualquer tipo de sonho com os restos de batom ficou extremamente forte, fazendo-a tremer pelo futuro. As nódoas não saíram tão rapidamente e a progenitora veria o sinal de loucura estampado na própria casa, quando o relógio tocasse e anunciasse uma nova noite. A ambição era regressar daqui a algum tempo, depois de ter descansado um pouco no lugar desconhecido, em que não existe qualquer registo das condições e qualidade (como se se tratasse de um hotel ou uma casa, um objecto tipicamente humano). Os pensamentos continuavam a dançar no peito e precisava de elaborar a tarefa com rapidez para não dar asas ao medo tipicamente humano de enfrentar o desconhecido, tão usado pela religião para tratar da conduta das pessoas. Um domínio propagado por qualquer entidade religiosa para não deixar cair os filhos em tentação de todas as vezes em que estes desejos diabólicos se apoderassem das mãos, dos pés ou dos lábios. O pente parou subitamente de pentear os cabelos ruivos e o sorriso desapareceu num ápice.
- Não sei o que vou fazer com o resto desta minha vida – continuava a murmurar e levantou-se da cadeira. Ouvi apenas um grito quando a faca trespassou o coração. A falta de confiança no amor, destino, almas gémeas e felicidade desapareceu-lhe num ápice. Nenhuma lágrima lhe apareceu no rosto para lamentar o fim da vida. Nem eu próprio tive pena dela. Sai do quarto, estava sentado há demasiado tempo a apreciar esta cena. O amor à minha própria vida reapareceu, as minhas mãos agarraram no meu peito. Acariciaram-no. E segui em frente com a minha vida. O fim só aparece por vontade de um segundo, divino e a quem tenho um profundo respeito.

9 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

Não gostei muito do final, confesso, especialmente da parte em que o narrador está a observar.
O texto está muito bonito, muito bem escrito, com um "lirismo negro" que nos atrai para a leitura. O discurso retrata uma adolescente. E apesar de sabermos que, infelizmente, o suicídio é uma realidade nessa idade, também sabemos que a intensidade dos sentimentos (bons e maus) e, um pouco, o exagero nesse sentir, existem. Teria gostado de ver esse aspecto explorado. :D Continua. Gostei muito mesmo do lirismo.

David Pimenta disse...

O final foi algo que tive de escrever sob o ponto de vista de um narrador a observar. Foi um momento muito negro para mim, a hora em que estive a escrever, como se fosse na primeira pessoa. Mas depois senti que devia fazer uma alteração e virar o ponto de vista. Como se tivesse de alterar os acontecimentos para não estar a vivê-los.
Obrigado pela tua opinião. E sinceramente vou tentar explorar o que me disseste. Obrigado mais uma vez, a sério. É tão bom ler opiniões sobre o que escrevemos, sabes?

Olinda P. Gil © disse...

Oh se sei! E também sinto tanta falta disso!

Cármen disse...

Relê a seguinte passagem:
"(...) as pequenas obsessões com que se alimentava nos dias de dias de chuva (...)"
A repetição foi propositada?

David Pimenta disse...

Sinceramente não foi propositado, foi uma repetição que me escapou na revisão do texto. Mas vou manter. Não seria a mesma coisa se o tivesse retirado, Cármen!

Cármen disse...

Sim, é a partir dos nossos erros do passado que construímos as proezas do presente. É por isso que eu não apago as minhas entradas mais antigas no blogue, por mais ridículas que sejam... xD
Bem, esclarecida a dúvida, vamos à avaliação. E aqui vai o meu paio acerca deste texto: muy bueno. É já costume receberes elogios meus, mas acredita que não são por cortesia, nem por simpatia, que eu costumo ser dotada de frontalidade sincera. Desta vez, experimentaste algo diferente -- e, só por isso, estás de parabéns. Não que esta seja a primeira vez que abordas a morte ou o cansaço de viver, mas, desta vez, resolveste retratar um suicídio "verdadeiro" (aspas, porque na história é verdadeiro, embora eu quase ponha a minha mão no fogo em como isto é ficção), em vez de expressares apenas o desejo de morrer. A forma esbelta como o retrataste confere à obra uma conotação psicadélica... e confesso a falta de "escrúpulos", mas tudo o que tem uma atmosfera perigosa, densa, pesada ou psicadélica atrai-me, "dementemente". Essa atração refere-se, propositadamente, a uma interpretação parcial e correta do meu blogue. Este texto provocou, continuemos a ser sinceros, um grande desagrado na minha pessoa ao imaginar (como não poderia deixar de o fazer, tendo em conta que eu não leio por ler) os factos retratados. Isto, creio eu, porque, ao retratares sentimentos, eu despersonalizei-me (como é hábito, também) e transportei-me até à personagem. E, como tu também deves calcular, nenhuma sanidade aprecia dotar tais sensações.
Por tudo o que foi dito, é que o texto foi bom. Precisamente por ter tido a capacidade de me transportar até à realidade composta (seja ela verídica ou puramente abstrata) e provocar em mim um desagrado semelhante ao da personagem, a composição teve sucesso. Diz-se que o leitor só sente o que o escritor escreve quando já experienciou as sensações escritas... bem, em grande parte, é verdade. De qualquer das formas, acredito que é possível entrar no "espírito" da mensagem se forçarmos a nossa imaginação a deixar-se levar pelas palavras do escritor. Por isso, o mérito é substancialmente teu.
Ao contrário da Olinda, eu gostei do final. Aliás, foi, talvez, a minha parte favorita. Foi a parte mais maldosa, mais psicadélica de sentir. A parte que mais me fez vibrar foi, certamente, essa. Me gusta!

David Pimenta disse...

Eu já tenho vários sucessos ao ler o que me escreveste. Em primeiro, trata-se de um cenário abstracto com uma pitada de realidade (isto dito para curiosidade ou esclarecimento). E já venho a reparar que o meu estilo normal é retratar sentimentos em dado momento, uma escrita introspetiva. E espero conseguir desenvolver isto de uma melhor forma, muito melhor aliás.
Dizeres-me que consegui transportar-te para a realidade que construí é uma grande vitória para mim. E espero sempre pelos teus comentários construtivos para conseguir melhorar, Cármen.

Cármen disse...

Podes sempre contar com eles, porque eu não acho muita piada a comentários simples...
Ficou uma coisa por dizer: o título é deveras sugestivo. Eu gosto sobretudo quando o título para uma obra salienta um pormenor curioso, mas pouco destacado, ou quando consegue sintetizar, de forma menos explícita, o conteúdo da obra. O caso deste texto é o segundo, portanto: na sua leitura inicial, ficamos intrigados, mas não nos é possível compreender imediatamente o que retrata o texto; após a conclusão do texto, conseguimos fazer imensas relações com o título. Me gusta mucho, sobretudo na relação própria casa/própria alma, casa alheia/moradia alheia. É engraçada a forma como brincas com as palavras. :D
E, sim, também acredito que a tua escrita tem sido de introspeção, acerca de sentimentos. Algo que também aprecio muito.

Cármen disse...

Ah, falta-me acrescentar uma coisa. Eu tenho andado ocupada com outras coisas, por isso tenho deixado aqui o Blogger para trás. Como quero ler tudo pela sua ordem de entrada (por uma questão de justiça), tenho demorado a conseguir ler tudo... e ainda vou dois meses atrasada. Não te admires se eu demorar a ver o que tens andado a fazer. Eu vejo tudo, mas levo mais tempo do que o habitual. Bem, pelo menos, leio, de facto, quem sigo...