13 março, 2012

Quando o telefone tocou,

Quando o telefone tocou, qual despertador descontrolado no meio do silêncio acolhedor, a sensação de monotonia soprou no meu ouvido novamente, a querer carinho, a influenciar-me para me sentar e acordar como todos os dias passados, pertencentes a ações controladas. Nesse momento atirei o telefone para debaixo da cama e coloquei as minhas mãos no meu corpo, nesta individualidade erótica que me aflige e corrói a alma de desejos nos dias nublados. Passo os dedos pelo peito, coloco as unhas em pedaços de carne para abrir um pouco a boca e aconchegar o oxigénio vital para os pulmões danificados pelo tabaco, de consumos de anos e anos seguidos sem a mínima pausa. Quando as unhas vermelhas chegam ao pescoço sinto a vontade de cantar, de afastar demónios negros sentados no passado. Um movimento lento, estudado para começar em qualquer peça de teatro, erótico para os olhos alheios que me observam através dos sonhos. As sensações das línguas de terceiros ou quartos a passarem sobre as minhas pernas incendeiam-me, remexem-me e deixam-me nesta introspeção amaldiçoada. Quando o telefone tocou, o som continuou debaixo da cama e as minhas mãos continuaram a tocar-me serenamente.

A tua voz continua igualmente potente nos dias em que a rouquidão teima em manter-se na minha voz, com as cordas vocais a degradarem-se com as impotências da intelectualidade. A tua voz continua a hipnotizar-me nos dias em que não existe um interesse nas pedras do chão, em que os relógios não conseguem avisar-me furiosamente dos meus compromissos, porque o som é melodioso, tenebroso para quem procura paz de espírito. Quebrei corações por divertimento tal como dizia a outra, comi músculos vitais para sobreviver e guardei o sangue para coleção, deixando-os no fundo do armário (a noção do tabu, de não me sentir bem por não exibir os litros de sangue colhidos). Quando o telefone tocou e quando pensei que ia obter monotonia, algo mudou radicalmente nos meus olhos, a ação terminou no início do acontecimento. Chegou a hora em que sinto os arrepios de êxtase a formarem-se no fundo do coração e da mente, em que os fantasmas ganham carne e conseguem apertar-me os braços, numa tentativa de deixar as marcas. É o minuto em que os meus olhos vertem lágrimas por não conseguir ouvir tão aproximadamente a tua voz, sabendo que está plantada na minha veia aorta, deliciosa para os carnívoros e vampiros que correm atrás de mim. As paredes das ruas continuam a encherem-se de flashes quando caminho, exceto nos momentos em que as minhas mãos envolvem apaixonadamente o meu corpo, em que o cheiro a sexo paira no ar. Remexo as pernas na cama à espera da posse dos fantasmas, do arrojado momento em que morro e volto à vida graças a diversos orgasmos. São os meus ídolos quando procuro alguém para amar, já que os vivos estão recheados de defeitos fatais.

Na hora em que antigo o orgasmo, sinto a sujidade a invadir-me o peito. A desilusão de obter milhares de vozes e permanecer na solidão gélida. Sou o teu admirador, sou o teu admirador de coração e será que reparas nisso, pergunto-me. O relógio badala, dá sinal para os meus cordões. Estou nu. No sentido literal e quem sabe, psicológico (com a pausa para assimilarem a ideia). Quando o telefone tocou, a tua voz apaixonou-me lentamente e gritei para explodir com a minha lógica.

2 comentários:

Paula disse...

Sabes porque é que eu gosto de te ler. Porque nos dias em que o meu cerebro está cansado e apenas procuro um blog para cair sobre a cadeira e sentir um abraço que só as palavras me sabem dar. O teu blog é aquele que me faz endireitar na cadeira quando já estou em posição de descontração, actua como café para o meu cérebro, exige dele fá-lo acordar. Não se dão logo exigem luta.

E se soubesses o quanto eu gosto dessa sensação. (:

David Pimenta disse...

E eu fico feliz por essa sensação, sabes? Em primeiro escrevo para mim e depois para os outros. E espero sempre que os que estão a ler consigam interpretar o que escrevi e associem a si mesmos.
Fico feliz quando isso acontece. E agradeço as tuas palavras.