
Não ando a
sentir-me. É terrível acordar de manhã com
os cabelos desgrenhados e esquecer-me de penteá-los, numa atitude inconsciente
de despreocupação com pequenos actos que estavam plantados dentro de mim.
Assusta o meu espírito o momento em que não consigo falar alto para mim mesmo,
a reclamar desta falta de despreocupação, na tentativa de tentar melhorar. Não
ando a sentir os meus músculos, os poucos que possuo, depois de tomar um duche.
Uma combinação de bem-estar abandonou-me há algum tempo, como se me tivesse
fugido sem deixar um aviso, trazendo o desamparo para o presente. Os
cigarros desapareceram-me da boca, uma boca extremamente sedenta de desejo invisível.
Os dentes talvez tenham ficado amarelos pela falta de cuidado, à medida que ia
aumentando os litros de álcool que permaneciam nas veias todas as noites. A
ausência das minhas mãos sobre os meus cabelos castanhos, de tom escuro,
gritou à minha consciência para a mudança, o vento atingiu a minha espinha e
levou a essência da minha alma. Deixei de tocar-me há alguns minutos nestas
horas de vida, de atingir orgasmos para me divertir sozinho, de sair à noite
para beijar alguém, com adrenalina nas acções, com a respiração violenta. Deixei
de fazer amor com a mente, de despir cada peça de roupa de alguém interessante,
de desperte o meu coração. A roupa extravagante nunca mais viu a luz da noite,
as botas metalizadas ficaram guardados no sapateiro, os cremes que podiam
aumentar a minha juventude nunca saíram das prateleiras de qualquer loja. Os
meus pés encontram-se parados, a partir do momento em que não deixo o meu
trabalho de lado, em que todos os extraterrestres pedem missões quase
impossíveis. Não me posso queixar, são seres de outro mundo e não do submundo
que aterrorizam muitos das pessoas por quem consigo ter amor. E onde pára isso?
Não ando a sentir-me, não ando a sentir o bombardear do meu coração – amor meu, volta para mim, amor excitante, urgente, amável, qualquer
nome que lhe posso chamar porque nos dias que correm amor é qualquer sinal de
vitalidade, pensam muitos – não ando a
colocar as mãos em mim, num acto de amor-próprio.
Vou andar a descobrir novos caminhos, novos
tipos de sensações. Os sentimentos vão fortalecer mas vou renascer espiritual,
corporalmente. Queria pintar o cabelo num tom totalmente preto, despejar litros
de tinta nos cabelos se fosse preciso e não tive a coragem necessária. Mudar para sentir equivale a possuir
coragem, equivale a tirar as pedras dos sapatos que impedem o percorrer do caminho.
Equivale a colocar todos os medos nos baldes para a reciclagem, equivale a
pintar as unhas de preto quando qualquer homem quer sê-lo com maiúsculas. Nunca
ninguém pensou em alimentar fantasias do inconsciente, os primeiros olhos são
menos importantes do que os segundos, terceiros, quartos ou quem sabe, quintos?
É necessária uma faca, uma pequena lâmina afiada que trespasse o meu coração,
rasgue pedaços da alma e me consuma. Permaneço deitado no meu caixão, à espera do despertar
à meia-noite. Quando abrir, vou deitar
cá para fora as minhas composições, vou escrever sobre o que me apaixona, vou
amar ainda mais quem ficou com o meu coração, é tempo de tocar os sinos.
Aproxima-se o momento de sentir, cometer mais um crime de sentir. Nunca me soou tão magnificamente cometer um crime
a mim próprio, vou voltar à minha essência. Vou pintar os lábios, colocar as
mãos em mim.
Às 22:22 vou atingir um orgasmo, que saudades.
1 comentário:
Tantas, mas tantas saudades de te ler. Prometo que vou voltar a este mundo. Sempre foste o primeiro blog que eu visito depois de algum tempo afastada... E obrigada por sempre me encheres o coração com as tuas palavras.
Um beijo.
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